Notas iniciais
"No momento da tua renúncia Estende sobre a vida Os teus olhos E tu verás o que vias: Mas tu verás melhor... ...E tudo que era efêmero se desfez. E ficaste só tu, que é eterno" (TU TENS UM MEDO, Cecília Meireles)

Já havia se passado muito tempo desde a última vez que encontrara Anabel. Não sabia nem se isso era bom ou ruim. Eu sentia falta mas a raiva parecia afogar a saudade.

Como era de se esperar, muita coisa também mudara durante estes meses. Depois de muito pensar, eu finalmente resolvera voltar para a casa dos meus pais, em Ipanema, para criar o Daniel de uma forma melhor. Era perceptível que, desde o nascimento dele, eu estava em constante mudança e amadurecimento – e isso incluía pensar mais no meu filho do que em mim mesmo. Na casa dos meus pais eu teria todo o conforto e assistência que um bebê de sete meses precisa. Isso era o mais importante.

Arrumei emprego como acessor linguístico em uma empresa aqui perto. O salário não é tão bom mas, pelo menos, eu preciso me preocupar apenas com as necessidades básicas do bebê. Também comecei a fazer pós-graduação em Letras; o que era surprendente, porque achei que jamais voltaria a estudar. Ah, e eu finalmente cortei o cabelo.

Estava um dia ensolarado naquele inverno carioca, mas fazia apenas vinte e dois graus. Era um domingo bem agradável; meu pai saiu com Marina e Eduardo para andarem de bicicleta no calçadão enquanto minha mãe preparava o almoço. Daniel fizera sete meses há alguns dias e minha mãe queria comemorar com um almoço delicioso – mesmo que um neném não pudesse comer nada que ela estivesse cozinhando. Eu o segurava nos braços e observava o quão rápido o meu filho estava crescendo. Daniel estava se tornando um menino muito lindo. Os traços de seu rosto recordavam cada vez mais a Deborah. O olhar cheio de emoção, como se carregasse o próprio coração nas pupilas; o jeito que sorria, tão ingênuo e malicioso. Eu delicadamente afagava sua cabecinha macia e dava um sorriso apertado. Parecia que Deborah estava ali diante de mim, nos meus braços. Chegava a ser assustador como Daniel carregava um enorme pedaço dela com ele. Eu conseguia senti-la por toda parte, por todo aquele quarto. O perfume dela pairava ali. Identifiquei-o rapidamente e me arrepiei completamente. Todo o medo de criar nosso filho sozinho, toda a saudade que sentia de Deb sendo louca se adocicava em meus lábios, dizendo "Deborah está bem aqui".

Um vento forte invadiu as janelas e derrubou uns brinquedos da prateleira. As cortinas azuis voavam forte como se tivessem vida própria. Olhei instantaneamente para a janela ao meu lado, perguntando a mim mesmo o que estava acontecendo. Franzi o cenho, umedeci os lábios e olhei para o chão. Jogado aos meus pés estava o primeiro presente que dera à Deborah: um pequeno urso de pelúcia. Lembro como se fosse ontem da sua reação ao recebê-lo.

**

– Então... este presente quer dizer alguma coisa? – disse Deborah, levantando uma sobrancelha. Dei um leve riso.

– O que você gostaria que ele dissesse? – continuei andando pela rua sem me importar que Deb ficou parada ali.

– Você sabe – Deb apressou os passos para me alcançar –, eu sei que você sabe.

– Sei que você é louca – parei e me virei para atrás. Ela estava bem atrás de mim, com um cigarro entre os dedos, dando um sorriso malicioso e apertado. Pôs o cigarro na boca com um estilo tão magnífico que você até esquece que fumar faz mal. Deu a última tragada e jogou a guimba no chão.

– Eu sei – riu –, obrigada. Sério. Você é meu melhor amigo – e me abraçou.

Eu não esperava por aquele abraço. Demorei um tempo inclusive para entender o que estava acontecendo. Porém, sorri. Dei um sorriso que eu não dara há muito tempo. Um sorriso real e intenso como fogos de artifício. Envolvi-a pelos ombros com o meu braço esquerdo. Ela acaraciava minhas costas enquanto apoiava seu rosto no meu ombro. Seu cabelo tinha cheiro de Marlboro azul e shampoo de neném.

**

– Leo? – a porta do quarto se abria. Era minha mãe. Apressei-me para secar as lágrimas que fugiram de meus olhos. Daniel estava calmo como nunca, dormindo como um anjo.

– Oi... oi... – sorri. Os olhos ainda estavam um pouco marejados.

– Seu pai chegou com as crianças e o almoço já vai ficar pronto – mamãe foi entrando devagar.

– Tudo bem, eu... eu vou descer daqui a pouco.

Ela chegou mais perto de mim, encarando o Daniel.

– Ele é muito parecido com a Deborah, você não acha? – engoli seco.

– Sim, ele... – funguei – é uma cópia dela – tentei segurar o choro mas minha mãe percebeu que havia algo de errado pela minha voz. Colocou sua mão macia em meu braço e apertou-o carinhosamente.

– Filho... – apertou os lábios. Não consegui mais conter o choro e desabei como um menino. Mamãe abraçou-me exatamente como eu precisava. Pus a minha cabeça no ombro dela. Lembrei-me ainda mais do dia que dei o ursinho de presente para Deb.

– Eu acho que ela se foi sem saber o quão importante ela era para mim, mãe... eu... eu não sei explicar... ela era muito especial. Mas ela não sabia disso – o choro se intensificou. Minha mãe afagou meus cabelos.

– Leonardo, é claro que ela sabia...

Respirei fundo.

– Como você tem tanta certeza, mamãe? – solucei.

– Porque se Deborah não soubesse, ela teria desistido de você na primeira vez que você a magoou.

Mamãe se afastou um pouco de mim e me encarou nos olhos com um sorriso confortante.

– Eu me sinto muito culpado... – meus lábios tremiam.

– Não se sinta. Nada foi culpa sua. E ela sempre vai estar com você, eu te prometo. Ela não abandonaria nem você nem o meu neto nunca.

Olhei para o Daniel e ele continuava a dormir. A paz de seu sono se espalhou, então, por todo o quarto. Apenas fechei meus olhos e sorri.

– Coloque meu neto no bercinho e desça... vamos almoçar – e saiu do quarto.

Pus Daniel no seu berço e fui arrumar as coisas que haviam caído pelo chão. Peguei cada coisa com um sentimento de que elas foram derrubadas por alguém. Eu não era muito de acreditar em coisas do além mas eu sentia Deb ali. Olhava para a minha foto com ela na mesinha de cabeceira ao lado do berço e sentia-a ali. E na poltrona. E nas prateleiras. E nos brinquedos. E no resto de todas as coisas da minha vida.

Enquanto eu catava os brinquedos do chão, lembrava do quanto que seria bom ela aqui para ver o Daniel crescer. Para me ver crescer – e para crescer comigo também. Para se orgulhar do dia que eu finalmente resolvi arrumar um emprego, cortar o cabelo e parar de fumar e me drogar.

– Leo, telefone para você... – falou minha irmã espiando pela porta se poderia entrar.

– Quem é? – levantei do chão, encarando-a.

– É... vem atender logo. – apertou os lábios – Aqui no corredor – e saiu correndo do quarto como uma louca. Fui andando atrás, realmente me perguntando quem diabos estaria me ligando em um pleno domingo de tarde.

Respirei fundo mais uma vez e esfreguei os olhos com a mão direita.

– Alô? – movi minha mão até meu queixo para coçá-lo.

– Leo? – uma voz familiar estava do outro lado mas me recusei a acreditar que era quem eu estava pensando.

– Sim... é... quem é? – perguntei com muito medo da resposta.

– Anabel.

Fiquei olhando para um ponto fixo no chão, em choque. Era inacreditável o que estava acontecendo.