Notas iniciais
"There's gasoline in your heart There's fire in mine I know I'm never gonna light you But there's always night time" (GASOLINE, Alpine)

– Olha, eu sei que não nos falamos há algum bom tempo mas... eu só queria saber como andam as coisas por aí... como tá o Daniel e... – interrompi-a.

– Depois de tudo que você fez, você tem a cara de pau de me ligar como se nada tivesse acontecido, Anabel? Qual é o seu problema?! – definitivamente não podia crer que aquilo estava acontecendo. Anabel estava com a voz tão sutil, como se aquilo amenizasse tudo que eu senti ao ver Olavo chegando ao apartamento dela naquele dia.

– Hã?! Eu tentei te explicar o que houve! – gritou.

– Não! Não! Não mesmo! Nem ouse dizer isso! Sabe o que você fez? Você tentou se melhorar na situação! – gritei – Você não fez aquilo por mim ou por nós dois! Fez por você, sua egoísta!

Acho que nunca me aborreci tanto com algo na minha vida. Eu sentia Anabel tão sonsa naquele momento, como se ela tivesse apagado da mente dela toda a situação da última vez que nos vimos. Senti-me traído. Completamente traído. Duplamente traído – não só por ela, mas pelo o meu melhor amigo de infância. Meu cérebro só conseguia formular diversos acontecimentos – talvez inexistentes – entre Anabel e Olavo. Os dois saindo para andar de bicicleta, tomando sorvete, indo ao Loretto e vendo o Sol nascer.

– Sinceramente, Leonardo, eu não dou mais a mínima para o que você pensa, tá bom? Eu só liguei para avisar que amanhã vou embarcar. Vou passar três anos em Londres por causa de um emprego que consegui. – suspirou – Eu realmente queria me despedir do meu afilhado.

O mundo parou no instante que ela pronunciou a frase "vou passar três anos em Londres". Minha mente não conseguia conceber aquela notícia com tranquilidade. Eu não sabia se sentia saudade da Anabel mas era estranho porque, pelo menos, ela estava no mesmo continente que eu. Era tudo muito estranho. Mesmo que estivéssemos brigados, sentia meu coração próximo ao dela. Quebrado, rasgado, quase morto, mas colado ao dela.

– Você vai... quê? – gaguejei.

– Viajar. Você não pode me impedir de ficar tanto tempo de ver o Daniel – sua voz começou a ficar pesada como se suportasse um choro.

– Quer saber?! Posso, posso sim! Eu não quero meu filho perto de alguém como você, obrigado. E se me dá licença, eu vou almoçar. Você ligou em uma hora bem importuna. – respirei fundo – Ah, e boa viagem! – desliguei. Nunca agi com tanta frieza. A mágoa estava me tornando alguém surpreendentemente mau.

Minha mãe subia as escadas com um olhar bem espantado, como se não entendesse a gritaria. Talvez fosse até me dar uma bronca por estar gritando bem ao lado do quarto de Daniel enquanto ele dormia.

– Tá acontecendo alguma coisa? – perguntou mamãe, franzindo o cenho.

– Nada, eu... só estava falando com alguém não muito importante – apertei os lábios.

Mamãe deu uma risada irônica.

– Não sei se acredito mas tudo bem. Vamos descer – sorriu.

**

Olhei para o despertador na cabeceira e eram sete da noite. Levantei da cama assustado; apenas conseguia pensar no quão esfomeado provavelmente Daniel estava. Esfreguei os olhos ainda meio sonolento, pus meus chinelos e segui para o corredor. Enquanto saía do quarto, ouvi uma voz familiar vindo lá da sala de estar. Umas risadas ordinárias que me faziam ter um dejavú pesado. Hesitei em descer as escadas porque estava com medo de descobrir quem era. Porém, a curiosidade era maior. Fui descendo devagar feito uma criança com medo de acordar os pais de madrugada. Ao chegar nos últimos degraus, estiquei o pescoço e cerrei os olhos para ter certeza do que eu estava vendo. Meu Deus, não podia ser. Era Olavo ali? Sentado no meu sofá? Segurando o meu filho? Com um chocalho na mão?

– O que tá acontecendo aqui? – fiquei boquiaberto sem pronunciar mais nada. Olavo me deu um sorriso amedrontado; provavelmente sabia que eu não tinha contado nada do que acontecera para os meus pais. Nunca fui de contar minhas brigas para os meus pais por achar estritamente desnecessário.

– Olavo veio fazer uma visitinha surpresa, filho – disse mamãe com um sorriso de ponta a ponta. Pobre coitada. Não sabia que era um traidor que estava sentado no sofá dela.

Fiz um bico extremamente irritado e respirei fundo enquanto piscava devagar. Eu estava ali, no meio da minha sala, assistindo aquela cena tão enjoativa. Olhar para Olavo me dava ânsia de vômito.

– É, eu tô vendo – dei um sorriso apertado bem debochado –, ele deveria ter avisado. Não gosto de surpresas. Sabe, ele contou porque ficou sumido por tanto tempo? – olhei com o mesmo sorriso para mamãe e papai. Os dois deram um sorriso aleatório de quem não estava entendendo uma vírgula do porquê de eu estar tão nitidamente irritado. Chegava a ser engraçado – Oh, não?! – gargalhei sarcasticamente – Ele simplesmente estava tendo um caso com a minha namorada enquanto eu estava com ela, acreditam?! – gargalhei mais alto ainda. Foda-se. Como havia dito, eu não era de contar as coisas para os meus pais. Até porque eu evitava fazer com que eles se metessem nos problemas da minha vida.

– O quê?! – mamãe perguntou, completamente perdida. Papai apenas cerrou os olhos e ficou encarando o nada – Anabel?

– Exatamente, mamãe, Anabel! A mulher da minha vida, a minha única namorada! – dei um forte sorriso irônico – Este infeliz que nunca conseguiu ter nada concreto na vida roubou a única coisa que me fazia sentido! Palmas, Olavo, palmas para você! – aplaudi olhando para ele. Olavo pôs Daniel no carrinho ao lado do sofá e levantou.

– Espera aí, amigão, eu não roubei nada de ninguém, ok? – gritou apontando para mim. Meus lábios ficaram tentando pronunciar algo mas eu não conseguia. Sentia nojo. Raiva. Talvez ódio.

– Não?! Você e Anabel estavam tendo um caso, seu babaca! – parece que eu esqueci que toda a minha família estava ali e fui para cima dele com tudo. Empurrei-o com a maior força do mundo que ele até caiu no sofá. Mamãe veio me segurar impedindo que eu fizesse mais alguma besteira. Papai veio atrás dela.

– Leonardo!

Olavo levantou do sofá e veio para cima de mim.

– Olha, Leo, eu vim aqui só para te explicar o que aconteceu, porque você acredita em algo que não é real! Você acredita no que você prefere acreditar para transferir a culpa da Anabel não querer mais você para mim! – gritou apontando para o meu peito.

– O quê?! Qual é o seu problema?! – acho que gritei tanto que até cuspi.
– Leonardo, eu e Anabel nunca "tivemos um caso" como você gosta de gritar para todo o mundo! Nunca nem sequer nos beijamos! Ela nunca me quis! Você quer saber de uma coisa?! Eu tentei, eu insisti para ficar com ela porque eu tava muito mal! Me desculpa! – passou a ponta dos dedos na sua testa suada. Suspirei – Eu estava mal por causa da Amelia e... eu não gostava da Anabel, eu estava bêbado e... me desculpa, sério! – umedeceu os lábios e apertou-os. Olhei para o chão.

– Olha, nós vamos deixar vocês dois sozinhos porque... acho que vocês precisam conversar em particular. Crianças, Luiz, vamos? – disse mamãe, puxando Marina e Eduardo pelas mãos. Papai, como sempre calado, apenas seguiu os três para a fora da sala de estar.

Senti uma culpa dentro de mim sem tamanho. Apenas queria sentar naquele sofá e chorar, chorar muito.

– Então... a Anabel nunca fez nada? – fui para o sofá e apoiei minha cabeça sobre minhas mãos. Minha respiração começava a ficar muito pesada.

– Nunca, Leo. Eu sinto muito. A culpa foi toda minha – Olavo sentou-se ao meu lado e pôs a mão em meu ombro esquerdo –, você deveria procurá-la.
Hesitei em responder. Suspirei.

– Ela deve estar com raiva de mim... – engoli seco.

– Talvez, mas ela ama você. Acredite em mim – olhei rapidamente para Olavo e depois fiquei encarando o chão. Apenas tentava raciocinar e pensar em algo para fazer e me reconciliar com Bel.

– Eu sinto muito por isso e... acho que já vou. Fala com ela, sério – Olavo levantou do sofá e passou a mão em meu cabelo, bagunçando-o.

Olavo abriu a porta da sala e foi embora. Ficou apenas eu e Daniel ali na sala de estar, em um silêncio perturbador. Em seis meses eu consegui reconstruir e destruir toda a minha vida novamente.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.