Anabel
3 Sonho
Notas iniciais
Estavamos só eu e Deborah, sentados, fumando cigarro e bebendo cerveja. Ela falava da viagem para Alemanha que faria no fim do ano com o pai, e eu transparecia minha real felicidade por finalmente ela estar fazendo coisas que a favorecessem em primeiro – já que Deborah sempre sonhou em conhecer a Alemanha.
– Não precisa sentir minha falta – disse ela, sarcástica –, devo voltar em uns quinze dias.
– É claro que eu vou sentir falta de você, Deb! – sorri – Você é minha amiga, lembra? Somos amigos – enfatizei no “amigo”. Desde que conheci Anabel, conheci também dois sentimentos diferentes, dos quais poderiam magoar Deborah. Anabel trazia-me uma tranquilidade tão grande, e eu me sentia muito atraído por ela; uma atração diferente das que eu sentira por outras garotas antes. Porém, simultaneamente, eu possuía um medo imenso de me envolver com ela e destruir tudo de bom que ela tem. Eu me conhecia mais do que ninguém para saber que ela é boa demais para mim – por mais que ela me fizesse escrever poesias, coisa que eu nunca havera feito. Não queria estragá-la, nem fazer com que ela se apaixonasse por um bad boy.
– Amigos, claro. Depois de ontem, você disse que seríamos amigos – Deborah aproximou-se para um beijo. Afastei-a pelos ombros delicadamente.
– Deb, eu falo sério. Acho que já deveríamos ter conversado sobre isso. Você é incrível, incrível mesmo. Não é à toa que você é minha melhor amiga. E eu te amo, amo muito, e não acho justo fazer isso contigo. – suspirei – Você merece alguém que te ame como namorado, sabe? Não alguém que te quer como amiga.
Deborah olhou ao redor, umedecendo os lábios, como sempre fazia quando estava chateada.
– Por que você dorme comigo então, Leonardo? – gritou – Eu queria entender já que... – o telefone nos interrompeu. Deborah estava mais próxima da mesa de centro ao lado do sofá, então o atendeu, irritada – Alô? – orei como nunca para ser qualquer pessoa que me tirasse dali – Anabel? Ah! Oi Bel... – ajoelhada na frente da mesinha, ela levantou-se, me encarando.
– Puta que pariu – sussurrei, com medo que Deborah fizesse um escândalo de ciúmes.
– Ah, você quer falar com o Leo sobre vocês se... encontrarem? – ela riu de um jeito tão irônico que até assustou – Eu aviso pra ele, Bel, eu... – levantei como um louco para buscar o telefone da mão de Deborah.
– Alô? – falei, ofegante – Oi, desculpa, era a Deborah.
– Por que você tá pedindo desculpas? Eu fui gentil! Eu até chamei ela de Bel! – esbravejou – Você é louco, Leonardo! – me deu um tapa no braço.
– Alô? Oi, Leo, é a Anabel. Tenho uma notícia incrível: achei um apartamento para alugar! É pequeno, é barulhento, mas é barato e um pouco confortável! Você vai adorar. É no meu prédio, perto do Loretto! – disse ela. Empolguei-me desesperadamente.
– Cala a boca, Deborah, pelo amor de Deus! Anabel? Anabel? – a ligação falhava – Olha, eu posso encontrar você hoje, só me diga onde. – gritei. Ouvia a voz dela entrelaçada com chiados – Não ouvi!
– Leo? – de repente, tudo se acalmou – Você pode vir ao Loretto, se quiser. Ainda está cedo, então dá para irmos ver o apartamento.
– Claro! Eu vou para aí, então. Tchau – falei animado, rezando para que ela me mandasse beijos.
– Tudo bem, eu vou esperar. Beijo – e desligou. A voz dela ecoava na minha cabeça e dançava uma linda canção dos Smiths. “Take me out... tonight! Where there is music and there is people who are young and alive!”, a música cantava-se sozinha dentro de mim.
Na minha sala, ainda havia Deborah de braços cruzados e batendo o pé no chão.
– Deb... – respirei fundo – por favor, entenda. Só vou ver um apartamento.
– Porra nenhuma, Leonardo! Vai ver o apartamento com ela?! Vocês vão casar e você não me contou, é? – ela gritava, andando de um lado para o outro. Encarei para Deborah com um rosto de cansaço e fui para o banheiro tomar um banho. Bati a porta e sabia que isto pioraria tudo – Isso, feche a porra da porta na minha cara! – Deborah batia na porta com tanta força que eu realmente achei que ela cairia – Você é um inútil, sabia? – ignorei como se nada tivesse acontecendo. Ouvi o barulho da porta da sala batendo, então constatei que Deb havia ido embora. Procurei tomar o banho rápido, pois estava realmente ansioso para ver Anabel e o apartamento. Estava tudo tão maravilhoso que nem acreditava.
Vesti uma blusa verde, um jeans rasgado e um tênis preto qualquer. Dos perfumes, procurei o melhor que tinha para usar. Sentia-me até em um encontro. Fui para sala pegar as chaves e o maço de cigarro, e logo então sairia de casa. Em cima da mesa onde encontrava-se o que eu queria, tinha também a poesia que eu havia escrito pensando nela.
“As cores eram singelas.
Não eram tão brilhantes.
Não eram tão belas.
Mas contigo – ah, contigo
As cores contigo eram diferentes.
Contigo tem o mais belo arco-íris.”
– Sou um idiota – disse à mim mesmo, pegando tudo e abrindo a porta.
Fechei a porta rapidamente, sem cuidado nenhum com o barulho. Estava tão ansioso que apertei o botão do elevador por, no mínimo, umas vinte vezes – ele, graças a Deus, veio mais rápido do que nunca. Entrei nele cantarolando, pois Smiths não saía da minha cabeça. Sacudia as chaves no mesmo ritmo.
– Oi, Beto – cumprimentei. Ele acenou para mim de volta, então segui com as chaves na mão para o carro.
Entrei no Santana e dirigi batucando o volante, ao som de There Is A Light That Never Goes Out. Senti dentro de mim uma empolgação enorme, da qual quase transbordava. Anabel estava sendo tão graciosa proporcionando-me tanto com tão pouco, e isso era apaixonante. Abri o vidro da janela do carro e meus cabelos esvoaçavam, como folhas caindo de uma árvore no outono do Rio de Janeiro. Eu cantava alto o refrão, e cada vez mais acelerava a velocidade do carro. As pessoas que andavam na rua nem tinham tempo de me chamar de doido, de tão rápido que o carro estava. Deviam pensar que eu estava bêbado – bêbado às cinco e pouca da tarde.
Em vinte e cinco minutos, depois de ter cantado como o Morrissey perturbado e avançado alguns sinais, cheguei ao Loretto. Anabel estava limpando a janela do lugar, e eu a observava, enquanto ainda não havia saído do carro, que estava parado bem em frente. Quando desceu das escadas, notou o Santana parado e pôs as mãos sobre os olhos para ver melhor, sem que a luminosidade atrapalhasse. Acenei para ela, como se fosse uma criança pequena. Ela sorriu; e era um sorriso que decerto era muito mais radiante que o Sol naquele dia.
Pus meu ray-ban preto, saí do carro e fui em direção ao Loretto. Ela me aguardava lá dentro, de braços cruzados, com um sorriso apertado.
– Achei que você demoraria mais, por isso nem me arrumei. – ela disse, me abraçando logo após eu entrar. Nem me lembrava como abraçar uma garota que não fosse transar comigo, então fui um pouco atrapalhado. Coloquei uma mão no seu cabelo e foi o suficiente – Então, vamos? – falou, enquanto tirava o avental – O apartamento é daqui a algumas ruas, a gente pode ir andando.
– Beleza. – respondi, ainda com a mão entrelaçada aos cabelos ruivos dela. O braço de Anabel ainda me rodeava e fazia eu sentir nas nuvens. Ela jogou o avental para um garoto no balcão, que o pegou atrapalhado – Não vai ter problema de sair no meio do expediente? – perguntei, e ela olhou para mim, com aqueles belos olhos verdes.
– Não – ela riu –, eu não almocei, então eu tô saindo para almoçar. Vamos, eu tenho que voltar em uma hora – puxou-me pelo braço para a porta.
Saímos de braços dados, e eu achava aquilo um tanto homossexual, porque lembrava das amigas da minha irmã menor andando assim. Então, tirei o meu braço do dela e a envolvi com ele, um pouco envergonhado. Ela, com sua mão macia e inocente, segurou na minha, e fomos andando assim até chegarmos no prédio. Não falamos nada durante o caminho, só trocamos alguns olhares tímidos. Quando eu a olhava, ela virava o rosto, e vice-versa. Parecíamos crianças; e um fervor em mim florescia, fazendo-me não querer parar de sorrir.
– Chegamos! – disse ela, me puxando para um prédio azul. Tinha, no mínimo, uns quatro andares. A garagem parecia ser pequena, mas eu não me importava. Anabel acenou para o porteiro, e ele abriu o portão.
– Boa noite – falei, enquanto Anabel apenas sorria.
– Ele é o que veio ver o 404, seu Luís. O Fernando tá aí? – falou para o porteiro – Fernando é o dono do apartamento – ela se virou para mim e comentou.
O porteiro cerrou os olhos, mexendo a cabeça negativamente.
– Mas ele deixou a chave e disse que a senhora pode mostrar para o rapaz que depois ele acerta as coisas. – puxou algo da bancada – Aqui a chave e o número de telefone dele – Anabel pegou tudo e agradeceu. Apontou-me o elevador e fui andando, um pouco na frente dela. Apertei o botão e, enquanto ele não chegava, eu estalava os dedos, para quebrar o silêncio.
– Ansioso para ver o apartamento? – perguntou, rindo levemente – Não espere que seja o luxo da sua mansão em Ipanema, tá? – eu ri e entrei no elevador depois de Anabel.
– Mansão? – gargalhei – De mansão ali só o preço, sério – ela apertou no botão do quarto andar. Eu encarava as paredes bege, um pouco manchadas, do elevador. Realmente não me importava se o apartamento era bom ou não. Eu seria vizinho dela, porra! Era maravilhoso esta sensação; poderia vê-la todos os dias e poderíamos conversar o dia todo. Fora que também eu iria ao Loretto sempre, e a convidaria sempre para tomar café na padaria que fôramos há uns dias. Eu não precisaria pensar nela a cada minuto só para sentir sua presença. “Que perfeito”, pensei.
– Bem, aqui estamos. – ela disse, saindo do elevador de costas, com os braços abertos. Saltitou até a porta do 404 e abriu – Ignore a – espirrou – poeira – espirrou novamente – enquanto eu segurava o riso.
O apartamento tinha a sala bem menor que a do apartamento de Ipanema. Ela me guiou até os outros cômodos, que também eram menores, mas nem por isso eram ruins. As paredes estavam recém pintadas, apesar do cheiro sufocante por, provavelmente, terem ficado muito tempo com janelas fechadas. Havia poeira no chão. As portas eram brancas – eu adorava isso. Pensava se teria espaço para tudo que eu tinha lá, mas talvez fosse a hora de eu vender algumas coisas ou mandar para a casa dos meus pais.
– Não é tão ruim – comentei no corredor, dando uma leve cotovelada no braço dela – tem dois quartos. Tem como eu dividir algumas coisas.
– Bem – suspirou –, fico feliz que você tenha gostado. Então... vizinhos? – sorriu, e instantaneamente, sorri também. Anabel estendeu a mão e eu a apertei – Ligue para ele depois, então. Vou buscar uma vassoura lá em casa. Espere aqui porque... não quero que minha amiga pense que eu arrumei um namorado – ela soltou minha mão e foi para o apartamento dela. Nem pensei no porquê que a amiga dela poderia pensar algo assim, e sequer perguntei quem era a amiga.
Abri a janela da sala e percebi que havia uma vista bem bonita, apesar de ser no quarto andar. A paisagem, o barulho, o céu tão próximo, tudo soava muito encantador. Finalmente, eu me sentia feliz com algo – não só com “algo”, mas com muita coisa.
– Leo! – ouvi gritos no corredor – Leonardo! – corri para a porta, olhando para os lados – Aqui! Ajuda aqui, eu tô com um bando de coisa!
– Mas você não ia só pegar uma vassoura? – andei até a porta dela, que era duas após a minha – Meu Deus, Anabel, você quer se mudar para lá antes de mim? – perguntei rindo, pegando o rádio e quatro fitas em cima dele. Comecei a pegar algumas fitas para ver e me assustei ao encontrar “There Is A Light That Never Goes Out” ali – Smiths?! – ela pegava a chave da porta para fechar – Você gosta de Smiths também?
– Claro. – disse, trancando a porta – Tem alguém no mundo que não goste? – virou-se para mim e sorriu – É adorável!
Fomos andando para o meu apartamento de novo e eu ainda estava admirado pela simples e maravilhosa coincidência dela gostar da banda e da música que eu ouvia antes de encontrá-la.
– Você é inacreditável, Anabel – ri, fechando a porta do apartamento – I-na-cre-di-tá-vel! – gargalhei.
Anabel conectou o rádio na tomada e pediu para eu entregar a fita para ela. Eu não parava de sorrir. Ela pôs para tocar no último volume.
– Eu sempre quis dançar Smiths com alguém – disse, aproximando-se de mim. Engoli seco e respirei fundo.
– Eu... não sei dançar – gaguejei um pouco.
– Sabe sim. – ela pôs as mãos na minha nuca, antes de levar as minhas para sua cintura – Driving in your car... oh, I never, never want to go home... – eu sorria, olhando fixamente nos seus olhos.
Quando percebi, já estávamos dançando. Íamos levemente de um lado para o outro. Ela era suave e plena, e isso me enfeitiçava ainda mais. “Eu estou gostando tanto dela, meu Deus!”, dizia à mim mesmo. O céu escurecia e as estrelas já brilhavam. De onde estávamos, dava para ver pela janela o alaranjado mesclando em um céu azul-escuro. Era lindo; era tudo tão lindo que tornava-se um sonho. E, se fosse mesmo um sonho, eu não queria acordar. “Eu juro, eu não quero nunca mais acordar”, sussurrei.
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