Notas iniciais
Se eu pudesse escolher uma música para definir este capítulo, eu não hesitaria em escolher Ainda é Cedo, da Legião Urbana.

– Isso é lindo, Leo. – Anabel falou, após eu ter recitado o meu poema. Estávamos sentados no meu sofá; ela, comportada, com uma xícara de chá de camomila, bebericando-o. Suas mãos tornavam-se ainda mais suaves segurando as coisas daquela forma nobre. De repente, ela pôs a xícara sobre seu colo e respirou fundo – Preciso te perguntar uma coisa.

Olhei-a segurando o riso, sem suspeitar o que era.

– Diga.

– Este poema... é para mim? – ela colocava alguns fios de cabelo atrás da orelha. “Meu Deus”, pensei, arregalando os olhos.

– Eu não sei, eu... – suspirei – acho que sim – Anabel sorriu, pondo sua mão sobre a minha.

– Eu realmente achei isso lindo, mas... não parece uma coisa feita para amigos. “Alguém me ajuda! Eu preciso de ajuda”, falei à mim mesmo. Estava quase entrando em colapso.

– Olha, eu... – ela segurou forte nas minhas mãos, fazendo com que eu ficasse ainda mais nervoso para falar.

– Eu gosto de você, Leo. Gosto muito – suspirou –, não só como amigo.

Eu juro que nunca na minha vida senti uma aflição tão grande como aquela. Eu queria falar todas as coisas que eu sentia por ela, mas ao mesmo tempo eu estava tão envergonhado que queria pular da janela do prédio.

Respirei fundo.

– Eu também – sorri.

– Mas e a Deborah?

Respirei fundo, devagar, novamente.

– Eu nunca gostei dela. Quer dizer, não como eu gosto de você. Crescemos juntos, mas eu sempre gostei dela só como amiga – franzi a testa.

– Mas vocês ficavam, não?

– É, mas... acho que eu fazia aquilo por compaixão. Ou para agradecer todas as coisas que ela já fez por mim, por nunca ter me deixado sozinho. É complicado, Anabel – ri rapidamente.

– Você pode me chamar só de Bel, cara – ela riu –, pelo amor de Deus – “Bel”. Este apelido ecoava na minha cabeça como se eu tivesse gritado no fundo de uma escadaria. Eu gostava tanto de me aproximar dela; e eu sentia que a cada segundo que passávamos juntos, eu gostava de Anabel ainda mais.

Virei a minha mão e entrelacei a minha na dela. Ela sorria e falava sobre o período dela na escola, e como sacaneavam ela por ter um nome tão incomum. Eu queria ter coragem de falar que aquele nome fazia jus ao leve ardor que ela possuía – e que isso era extremamente encantador.

– Bem, nunca me zoavam por eu me chamar de Leonardo. É um nome comum. E eu também passei a vida inteira andando com um cara chamado Olavo, que era para se chamar Otávio, então nunca me zoariam antes dele – gargalhei, junto à ela.

Um silêncio, após a risada, impregnou-se na sala.

– Sobre eu gostar... – antes de eu terminar de falar, Anabel pôs suas mãos na minha nuca e se aproximou tanto de mim que eu sentia sua respiração.

– Pare de ser receoso, Leo. Não precisa ter medo de mim – ela acariciava meus cabelos.

– Eu deveria ter? – ri levemente – Você não é um monstro. Nem eu, só não me acho bom para você. Olhe para mim, Bel. Eu sou um cara de 27 anos sustentado pelos pais e que bebe, fuma e cheira como um louco. Você é toda... – ela levantou uma das sobrancelhas.

– Sou toda o quê? Perfeita? – ela riu também – Não mesmo. Não fumar, não beber e não cheirar não me faz santa. E fazer isso tudo não te faz o diabo.

Encostei mais no sofá e levei-a junto. Ela brincava com as ondulações do meu cabelo, e eu colocava minha mão na perna dela.

– Você não tem problemas como eu tenho.

– Foda-se, quem liga para problemas? – ela riu e me beijou. Foi o beijo mais doce da minha vida. Minha mão tentava trazê-la o máximo possível para perto de mim. Aproximamos tanto nossos corpos que estávamos praticamente colados. Ela tinha um perfume simples e maravilhoso, que me deixava nas nuvens.

Quando vi, estávamos loucos no sofá. Eu estava sem a blusa e ela de sutiã, em cima de mim. Não sabia mais o que sentir; era uma felicidade plena mesclada com uma culpa por não afastá-la de mim. Porém, era inevitável não deixar com que Anabel tomasse conta da minha mente e do meu coração. E ela poderia me mudar – o que eu sentia por Bel já era uma grande mudança em mim.

– Eu não sei o que é isso, mas eu acho que nunca senti isso por ninguém – ela sussurrou no meu ouvido.

– Nem eu – coloquei uma mecha de cabelo dela para atrás de sua orelha –, nem eu.

O sofá tornava-se apertado, áspero e desconfortável quando você se deita nele com uma pessoa em cima por quase uma hora, porém, ignoramos tudo isso. Passamos um bom tempo ali, conversando, rindo e se beijando. Ela às vezes desenhava coisas invisíveis no meu peito com os seus dedos finos. Eu contei à ela sobre a minha paixão por música, e ela contou-me sobre gostar de tocar violão. “Ela é perfeita”.

– Eu tenho um violão aqui – falei, tentando levantar. Ela sentou-se no sofá e vestiu sua blusa, enquanto eu fui no meu quarto pegar. Era encantador; eu estava compartilhando as coisas que eu mais amava com alguém que eu conhecia há 2 semanas. O violão estava no canto do meu quarto, um pouco empoeirado, mas lindo, como sempre. Eu o puxei e levei para sala cuidadosamente.

– Olhe – sentei ao lado dela –, este é o Bernardo.

– Você deu nome para um violão? – ela comentou, rindo.

– Ei! Não o chame de violão. Ele é mais que isso, tá? – segurei a gargalhada.

Respirei fundo e comecei a tocar Just Like Heaven. Ela olhava espantada, como todos os meus amigos olham na primeira vez que me veem tocar. Talvez achem que um cara tão problemático não saiba fazer coisas bonitas.

– Onde aprendeu a tocar? – ela perguntou, quando a música não tinha mais letra.

– Um amigo meu da faculdade me ensinou – sorri, encarando-a.

A cada verso, eu me identificava ainda mais com tudo que estava acontecendo; e eu sabia que Anabel também. A campanhia tocou, então parei de tocar, pus o violão sobre o sofá e levantei para ver quem era – mesmo sabendo que, se o porteiro não ligou perguntando se podia subir, era alguém bem conhecido.

– Merda. – sussurrei, ao abrir um pouco a porta e ver um tamanco azul. Era Deborah. Ela sorria, como se pedisse permissão para importunar um pouco a minha vida. Estava com um batom vermelho-sangue, um short curto e uma blusa tão apertada que me perguntava como diabos ela estava respirando – O que você tá fazendo aqui? – falei à Deborah, que tentava ver o que tinha atrás de mim.

– Vim te visitar, ué. Qual é o problema? – ela empurrou a porta com a mão, mas eu segurei – Leo, eu não posso entrar? – franziu a testa.

– Outra hora você pode, Deb. – olhei para trás e vi Anabel entretida com as cordas do violão – Depois a gente se fala.

Antes que pudesse fechar a porta, Deborah aproximou-se, esmagou minhas bochechas com uma mão e me deu um selinho.

– Deborah! – gritei, esquecendo que Anabel estava ali e que decerto não sabia da presença de Deborah ali, pois poderia estragar tudo.

Anabel levantou e ficou bem atrás de mim, olhando para porta. Senti que havia algo errado, então virei, ainda segurando a maçaneta, com os lábios apertados.

– E eu achei que você e ela já tinham terminado tudo, não é? – ela falou, um pouco zangada – Você é um mentiroso, Leonardo.

Fiquei em choque. Não queria que ela sentisse raiva de mim; aquilo me derrubou como uma avalanche. Senti vontade de chorar. Ver Anabel pegando suas coisas e pondo na bolsa para, obviamente, ir embora era uma das piores sensações que eu já tinha sentido.

– Bel, não, não precisa disso! – comecei a gesticular como um retardado – Não faça isso, por favor! Eu não tenho nada, na-da, com a Deborah! Acredite em mim! – ela veio como um furacão.

– Eu não vou acreditar em nada. Já tô vendo tudo. – ela colocava a mão na boca, parecendo que estava segurando o choro – E sabe o que mais me faz não acreditar? Sua boca suja. – passou o dedo nos meus lábios e o levantou diante de mim, mostrando que o batom de Deborah havera ficado na minha boca – Tchau para vocês – saiu pela porta, que já estava escancarada.

Deborah ria com as mãos no rosto enquanto eu a encarava com uma raiva do tamanho do universo. Não hesitei em fechar a porta e trancá-la.

– Leonardo! – ela gritava – Abra a porta!

– Sai daqui, Deborah! Sai daqui! Eu te odeio! Você estraga tudo! – nunca gritei tanto com ela na minha vida. Após fechar a porta, sentei no chão, querendo morrer. Uma raiva era anestesiada pela tristeza que me dominava por completo. Eu estava completamente cansado de tudo dar errado. E daquela vez era tão diferente, pois pela primeira vez eu estava adorando sentir alguma coisa. Viver alguma coisa. Amar ter alguma coisa para viver. Anabel era tudo isso, sem dúvidas, e era muito doloroso vê-la indo embora como se fosse encerrar tudo.

Respirei fundo e sequei as lágrimas. Queria ligar, explicar tudo e pedir desculpas. Queria dizer à ela que eu e Deborah não existíamos – nunca existíramos de verdade. Uma paixão entre eu e ela jamais havera nascido; era pura ilusão. Eu gostava de Anabel; só dela, desde que eu a conheci. Porém, eu era um homem em forma de garoto. Não sabia como lidar com a loucura de Deborah, e tinha medo de magoá-la também. Ela precisava de mim porque achava que sem mim iria se perder, mas comigo ela só ficava mais perdida. Eu deveria ajudá-la mesmo assim, porque ela ensinara-me quase tudo que eu sei. Sentia-me feito um escravo completamente preso à Deborah, mas não era tão ruim, já que ela me tratava como um rei. Só queria poder sempre mantê-la perto de mim, mas de um modo diferente como ela quer ser mantida. Eu queria que Anabel ficasse comigo, e que Deborah fosse o que deveria: só minha amiga de longos anos.

Ao levantar do chão, sentei ao lado do sofá e fiquei lá por algumas horas. Olhava para o telefone algumas vezes, esperando que ele tocasse e fosse Anabel. Mas, não havia motivos para ela ligar. Então, pensei mais uma vez em telefonar, porém, eu sabia que ela não atenderia.

– Talvez seja melhor eu esperar um tempo. – falei sozinho – Seja lá quanto tempo for para esperar.

Acendi um cigarro e deitei no sofá, ainda sem camisa. A fumaça espalhava-se pelo ar e eu tentava me entreter com ela, apesar de só pensar em Anabel. A xícara com o chá de camomila estava em cima da mesa de canto, ao lado do telefone. Eu não sabia o que mais me doía ver: o telefone sem tocar uma chamada de Anabel ou a xícara sem estar nas mãos dela.

– Meu Deus – pensei –, espero que essa dor não dure tanto tempo.