Anabel
12 Sangue
Notas iniciais
Estava há duas semanas sem falar com Anabel. Ela, definitivamente, sumira do mapa. Não atendia nenhum telefonema e não aparecia no Loretto. O porteiro dissera que a viu saindo na segunda que eu estava no hospital e, depois disso, não a vira mais. O gerente dela falara também que ela pediu para tirar férias não remuneradas por causa de um parente doente que ela teria que visitar. Inicialmente, achei isto esquisito – já que Bel nunca teve tanta proximidade com a família assim –, mas resolvi aceitar, porque poderia realmente ser verdade.
– Você não disse que ela não tem uma irmã? – perguntou Deborah, sentada no meu sofá bebendo chá.
– É! A Helena! Eu só preciso lembrar onde que eu deixei o telefone dela... – levantei da poltrona e comecei a procurar na agenda, que estava em cima a mesa de centro.
Acho que eu só queria entender o que estava acontecendo. E, também, eu estava preocupado. Não conversava com Anabel desde a vez que telefonei para ela quando estava no hospital com a Deborah. Não sabia mais o que ela sentia, o que estava pensando ou o que faria diante desta gravidez tão inesperada. Enquanto a mim: eu ainda estava incrédulo, confuso. Algo em mim estava tranquilo porque não conseguia acreditar naquilo. Queria conversar com ela para entender melhor as coisas – ou para ela me fazer entender. É muito estranho você receber uma notícia tão séria quanto a paternidade em um telefonema de dois minutos.
– Achei! – urrei, pegando o telefone da mesinha ao lado do sofá – Helena... – suspirei – espero que ela atenda.
Deborah deu um sorriso apertado enquanto acariciava a barriga de cinco meses.
– Vai dar tudo certo – falou.
Comecei a discar o número. A cada número que eu apertava, minha mente implorava à Deus que a irmã de Bel atendesse e me desse alguma notícia. Mesmo que Anabel não falasse comigo, eu desejava ao menos saber aonde ela estava – ou o porquê dela ter sumido. Pelo visto, aquele era meu dia de sorte; Helena não demorou muito para atender a ligação.
– Alô? – uma voz fina e infantil disse. Arregalei os olhos e olhei para Deborah, acenando positivamente, comemorando.
– Oi! Helena? – franzi o cenho.
– Sim... quem é?
Respirei fundo e fechei os olhos.
– Leonardo. Namorado da Anabel – engoli seco.
– Ah! – ela gritou – Claro! Leonardo! Tudo bem? – de repente a voz de Helena ficou estranha. Suspeitei que Bel estivesse bem ao lado dela e que por isso ela estava falando daquela forma.
– Sim... é que eu queria conversar com a Anabel. Ela sumiu – cocei a cabeça e desci a mão, levemente, até a nuca.
Um silêncio se estabilizou na linha. Olhava para os lados pelo canto dos olhos como se a solução para os meus problemas estivesse ali, na minha própria sala. Mas não. Infelizmente não. Os problemas só cresciam. Deborah já estava no quinto mês de gravidez, e a cada vez que o nascimento do pequeno Daniel se aproximava, Anabel se afastava de mim. Eu imaginava que seria difícil. É claro que seria; namorar um cara que vai ser pai do filho da ex-ficante é complicado. E ficar grávida deste mesmo cara deve ser ainda pior. Mas queria que Bel fosse forte e pusesse meu amor por ela acima de tudo, porque eu precisava dela. Eu ainda estava em choque com toda esta situação. E é claro que Anabel se afastando de mim me piorava por completo. Eu a amava infindavelmente; era ela quem me dava forças para superar todos os obstáculos de cabeça erguida.
– Olha, Leo... ela não está aqui. Não está – Helena continuava falando de um jeito muito esquisito, como se quem transpirasse a mentira em sua própria voz.
– Tem certeza? Helena, por favor, não minta – suspirei.
– Quer saber saber de uma coisa?! – ela gritou, e de repente, a voz dela ficou um tanto distante – Você precisa falar com ele, Anabel! E não me faça mentir porque eu não tenho nada a ver com isso! Toma.
Fiquei do outro lado da linha esperando que Anabel tivesse coragem de falar comigo. Ou vontade. Sei que fiquei bem aliviado só pelo fato de notar que ela estava lá, na casa da irmã.
– Alô...? – falei.
– Oi – reconheci a voz de Anabel.
– Quando você vai parar de me evitar? Acho que a gente precisa conversar, você não acha?! – fiquei nervoso. Não queria ser rude com ela, mas era impossível. Duas semanas. Duas semanas sem falar com uma pessoa que havera dito que estava grávida de mim. Não tinha como não ficar nervoso com a atitude infantil que ela estava tendo.
– Sabe o que eu acho, Leonardo?! Que você é um idiota – Bel gritou. Deborah, que estava deitada no sofá, apoiando seus pés no meu colo, subiu o olhar para o meu rosto. Quando ouvi Anabel dizer aquilo, arregalei os olhos e fiquei boquiaberto. Ela nunca havera falando daquele jeito.
– E sabe o que eu acho, Anabel? Que você é uma mimada! Uma egoísta! – gritei mais alto ainda – O mundo não gira em torno de você! – então, após dizer todas estas frases, me arrependi. Arrependi-me de estar sendo tão impaciente com alguém que, nos últimos seis meses, tem lidado com vários problemas por minha causa. Uma parte sensata e saudável de mim dizia que Anabel apenas não conseguia mais lidar com estas coisas.
– Então, Leonardo, não se preocupe. Não vou mais incomodar você. Não vou ser mais uma menina mimada e egoísta. – senti a voz dela ficando chorosa – Siga sua vida sem mim, tudo bem? E me esquece – desligou.
Engoli seco. Agora era oficial: perdi Anabel de vez. Aposto que, depois de tudo que aconteceu, nunca mais voltaríamos. Meu coração ia cada vez mais diminuindo, diminuindo, até sumir de vez. Mesmo depois dela ter desligado na minha cara, continuei com o telefone na orelha. Não sabia ao certo o que fazer após aquilo senão ir atrás dela. Pus o telefone no ganho e olhei para Deb.
– Vou ter que ir lá – umedeci os lábios.
– Aonde? – perguntou ela, sem tirar os olhos da revista que lia.
– Na casa da Helena, lá no Grajaú – levantei do sofá, peguei a chave do carro em cima da mesa de centro e fui até a porta.
– Agora?! – Deb fechou a revista e me encarou, levantando a sobrancelha direita.
– Sim – suspirei –, tranca a porta depois.
Fechei a porta e chamei o elevador. Enquanto ele não chegava, encarava a porta do apartamento de Anabel. A saudade batia e me nocauteava. Eu precisava vê-la, sentir que ainda poderia mudar tudo e tê-la novamente. Para mim era humanamente impossível viver em um mundo sem Anabel ao meu lado.
Cheguei ao térreo e o porteiro ouvia o rádio bem atento. Na estação que ele ouvia estavam noticiando algo sobre os escândalos que tem envolvido o presidente Collor. Eu fiquei curioso para saber melhor o que estava acontecendo, mas não podia perder tempo. Sabe-se lá o que Anabel faria depois da nossa briga; principalmente, se ela iria para outro lugar – já que eu sei o endereço da irmã dela.
Peguei o carro, então, para ir até a casa de Helena. Pus uma fita dos The Smiths para tocar e me distrair enquanto eu dirigisse. Enquanto estes vinte minutos que levariam até lá não passavam, me recordava das inúmeras vezes que fiz aquele caminho – especialmente na primeira vez em que dei carona para Anabel. Lembro-me exatamente daquele dia como se fosse ontem. Joy Division no toca-fitas, eu dirigindo, ela e seus cabelos rubros esvoaçantes diante aquele dia doce de fevereiro. O olhar dela, puro e ingênuo, como se fosse uma criança recém nascida na frente da loucura que era o mundo e seus anos 90. Então percebi o quanto Anabel havera mudado desses meses para cá – ou amadurecido, dependendo da perspectiva. Ela não era mais a mesma menina. Ou será que eu, pobre apaixonado, jamais percebera quem era a real Anabel? Era confuso; já que desde que eu e Bel nos afastamos, nem eu, talvez, tenha sido o mesmo menino.
Quando percebi eu já havia chegado na casa da Helena. Meus pensamentos avoados e intrigantes me fizeram nem perceber que o tempo estava passando.
Era um dia de clima agradável, como todos aqueles que vão chegando perto da primavera. Saí do carro e fui até a casa azul em frente a uma padaria. A fachada da casa parecia estar recém pintada; nem parecia uma casa onde morava apenas uma adulta. Abri o portão e andei até a porta. Espiei sutilmente a janela com uma cortina bege e vi uma moça de cabelos pretos sentada no sofá vendo televisão. Toquei, então, a campanhia – que, à propósito, tinha um barulho muito incômodo. Helena virou-se para a janela que, provavelmente, dava para ver quem estava na porta. Ela ficou um tempo olhando, e eu a encarava pelo canto dos olhos. Não sabia se eu olhava diretamente para ela ou se continuava fingindo que não percebi.
Mas, antes que eu pudesse me decidir, Anabel abriu a porta – nitidamente sem saber que era eu quem estava ali.
– Você não tá ouvindo a campanhia?! – gritou ela, um segundo antes de abrir a porta para mim. Respirei fundo de olhos fechados. Minha mente parecia estar vazia. Ela me encarou profundamente, pôs uns fiapos de cabelo para trás da orelha e começou a encarar o chão. Engoli seco antes de dizer algo para ela.
– Eu posso entrar, Bel? – umedeci os lábios – Acho que a gente precisa conversar. – ela hesitou um pouco antes de responder – Por favor.
– Tá... entre – ela abriu mais a porta e saiu da frente. Após eu ter entrado, ela trancou a fechadura e sentou-se no sofá – Pode sentar, Leo.
Sem motivo algum eu me sentia um pouco tímido. Mesmo assim, sentei-me no sofá de dois lugares ao lado do que ela estava sentada. Não sabia ao certo o que falar; Anabel parecia estar mais calma, mas ainda sim, um pouco tensa.
– É... eu vim aqui porque eu queria entender o que tá acontecendo – fiz um biquinho estranho enquanto olhava para o lado para disfarçar a timidez. Anabel acariciava o seu queixo com as pontas da mão esquerda. Aparentava estar pensando em como explicar a situação.
– Helena? – a irmã de Bel ainda estava sentada do outro lado do sofá vendo televisão – Pode nos dar licença, por favor? – pediu Anabel, apertando os lábios, segurando um riso frouxo.
– Sim, eu vou... vou fazer um café. Leo parece gostar de café – passou a mão nos joelhos e levantou-se, indo até a cozinha. Dei um riso leve.
– Bem, eu vou ser direta. Estou grávida. Não é piada, não é brincadeira. – ela piscou devagar. Ao ouvir aquelas palavras, gelei – E não sei o que fazer diante de uma coisa assim.
Respirei fundo. Minha mente parecia estar cheia e vazia ao mesmo tempo. As coisas rodavam como um LP no toca discos. Respirei fundo mais uma vez; acho que, em algum momento, meu pulmão estava sem ar.
– Nem eu, Bel. Eu nem sei o que dizer, tem horas que eu... eu... – engoli seco – só queria sumir por um tempo.
– Então é isso que o bebê que está dentro de mim te faz querer? – disse ela, franzindo o cenho. Hesitei em responder, mas infelizmente não havia hesitado em falar algo tão frio. Não era por causa do mais novo bebê que viria, era algo meu; algo dentro de mim que não aguentava mais tantas surpresas e loucuras. Eu sequer sabia se tinha maturidade suficiente para criar uma criança, que dirá duas agora.
– Não! – umedeci os lábios – Claro que não! Eu não quis dizer isso...
– Acho que foi uma péssima ideia falar com você, sabia?! – Anabel levantou-se e gritou. Olhei para ela assustado, com a testa franzida. Como diabos ela achava uma péssima ideia contar para mim sobre a gravidez da qual também me inclui? Acho que eram nessas horas tão cheias de sentimentos descontrolados que eu conhecia um lado demoníaco do anjo que conheci há sete meses atrás.
– Claro que não, Anabel! – passei as mãos pelos meus cabelos – Sente aí, por favor!
Anabel cada vez fala mais alto, cada vez mais parecia mais aborrecida.
– Olha, esse filho que está aqui, dentro de mim, é tão importante quanto o que está dentro da Deborah! Você sabe o medo que eu senti quando descobri isso sozinha?! E ainda pior: quando eu descobri que eu não poderia contar com você?!
De repente Anabel ficou quieta e pôs sua mão na barriga. Olhei para ela um tanto assustado, mas confuso porque não sabia o que ou se havia algo de errado. Começou ela, então, a ficar com um semblante esquisito, como se quem sentisse muita dor.
– Está tudo bem? – levantei e fui até ela, que ainda estava com as mãos na barriga. Ela não respondia, apenas ofegava – Bel? – perguntei mais uma vez. Mais uma vez ela não respondeu, mas deu um gemido misturado ao choro. Por dentro me sentia gelado. Encarei o chão e ele estava com uma enorme poça de sangue. Anabel estava de short e, perceptivelmente, ele também estava ensopado. Gritei, aflito, por Helena, que estava na cozinha.
– Que foi? – perguntou Helena, com uma xícara de café nas mãos. Encarou-nos e, devagar, foi descendo o olhar até o chão e o sangue que nos rodeada.
– O que a gente faz?! – perguntei quase chorando. Helena deixou a xícara cair e levou a sua mão até a boca. Estava ficando pálida e trêmula, assim como Anabel.
– Tem um hospital a duas ruas daqui! Você... você tá de carro? Pode levá-la? – finalmente Helena veio até nós. Acariciou os cabelos de Bel e os pôs para trás da orelha – Calma, tá? Vai ficar tudo bem – disse ela levantando a cabeça de Anabel. Para piorar a situação, Bel ficava cada vez mais mole e zonza. Meu desespero só aumentava.
– Tenho, eu levo! Ajude-me a pôr ela no quarto! – peguei Anabel no colo e andei até a porta. Helena, rapidamente, destrancava-a e vinha até o carro conosco. Andamos pela rua que, graças a Deus, estava deserta. Incomodava-me só de pensar a forma que todos ficariam olhando para a gente.
– Onde está a chave? – perguntou ela quando chegamos na calçada.
– Aqui no meu bolso esquerdo! – apontei para ele com a cabeça. Percebi que meu braço começava a ficar molhado. Senti uma ligeira vontade de desmaiar, mas não podia. Não ali. Não com Anabel precisando tanto de mim.
Helena pegou as chaves e abriu a porta do banco de trás. Pus Bel deitada lá cuidadosamente. Ela estava cada vez mais pálida, e seus olhos estavam semicerrados. Fechei a porta de trás e fui até o banco do motorista.
– Vai comigo, Helena? – perguntei. Ela estava em choque, encarando a irmã ensanguentada. Meus braços estavam completamente vermelhos – Vamos! – gritei. Ela acenou positivamente com a cabeça e entrou no banco do carona. Suspirei, liguei o motor e fui dirigindo até o hospital mais próximo.
Chegamos em alguns quinze minutos, talvez.
O hospital era bem simplório, mas todos dali – inclusive Helena – diziam que era um dos melhores hospitais públicos da Zona Norte. Avistei uma enorme placa escrito "emergência" em letras vermelhas bem grandes.
– Vou lá pedir ajuda para carregá-la. Pode ficar aí se você quiser, tá? – falei. Helena segurava a mão gelada da irmã. Nunca vi alguém tão impressionado e assustado diante de uma situação destas.
Entrei no espaço onde era a emergência. Vi dois enfermeiros que vinham praticamente em minha direção e parei-os para pedir socorro.
– Minha namorada tá dentro daquele Santana ali! Ela tá grávida e do nada começou a sangrar muito! – os enfermeiros me encaravam com uma cara de quem não estava entendendo porcaria nenhuma. Respirei fundo e repeti, apontando para o meu carro que estava incrivelmente mal estacionado. Eles pediram para que eu me acalmasse e gritaram por uma maca. Fui até a parede e fiquei lá, encostado, vendo os enfermeiros irem até meu carro e buscar Anabel. Estava muito assustado. Muito. O medo de perdê-la, ou até mesmo de perder o bebê, era imenso. Ao vê-la sendo transportada até um quarto, naquela maca, toda ensanguentada, pálida, o meu medo aumentava. E, subitamente, uma culpa vinha também. Ela havera se aborrecido daquela forma por minha culpa. Exclusiva e somente minha culpa.
**
Estava sentado em um corredor branco e movimentado. A todo momento médicos, enfermeiros e alguns visitantes passavam. Todos pareciam um tanto apreensivos. Helena estava ao meu lado com um olhar muito vazio. Ela aparentava estar tão assustada quanto eu – talvez até mais. Segurava um copo descartável vazio. Olhei para ela no mesmo momento que, coincidentemente, ela olhou para mim também.
– Então... o que houve desde que chegamos? Eu... eu tô meio... – ela me interrompeu.
– Você quase desmaiou, mas não quis ser atendido. Pediu para te deixarem aqui. Aí você tomou um pouco d'água e pareceu estar melhor. Como você tá? – levou a mão até meu ombro direito e acariciou-o.
– Bem – engoli seco –, mas e a Anabel?
– Ela perdeu o bebê. – apertou os lábios. Arregalei os olhos – Foi um aborto espontâneo. Ela estava só com um mês e meio.
Cerrei os olhos para conter as lágrimas.
– Que horrível... – umedeci os lábios.
– Eu tenho medo de como ela vá reagir porque... apesar de tudo, ela estava feliz quando me contou. Discutimos até sobre o nome, onde ela estudaria... – deu um riso leve. Interrompi-a.
– Ela?
– Anabel disse que sentia que era uma menina. E que iria ter o mesmo nome da nossa mãe. Isabel – suspirou Helena. Uma nostalgia parecia tomá-la completamente.
Tentei ao máximo segurar o choro, mas não consegui. Abracei Helena e desabei nos ombros dela. Ela, enquanto isso, afagava minhas costas com apreço.
– Senhora Helena? – uma médica bem bonita estava bem diante de nós. Tinha uma voz tão doce que suavizava o momento.
– Sim – Helena disse, apenas virando a cabeça para a moça. Mesmo assim, tentei me recompor e fiquei sentado normalmente, encarando a doutora.
– A sua irmã acordou – com seus lábios grossos e rosados, deu um sorriso apertado. Imediatamente, eu e Helena levantamos.
– Podemos vê-la? – perguntei.
– Você também é da família? – a doutora perguntou. Antes que pudesse responder, Helena respondeu por mim.
– Sim. Ele era o pai da criança.
A doutora apontou para o terceiro quarto à direita. Fomos até lá.
Anabel estava, aparentemente, bem melhor. Não estava mais tão pálida. A cor de seus lábios, inclusive, voltou ao normal. Assim que abrimos a porta, ela nos olhou.
– Oi... – sua irmã disse, dando um sorriso. Estava bem atrás de Helena, com medo de que Bel reagisse mal à minha presença.
– Eu perdi o bebê? – perguntou com uma voz de choro. Aquilo me partiu ao meio. Ver aqueles olhos enormes e esverdeados cheios de lágrima me esfarelava. Suspirei. Helena hesitou antes de responder e mordeu seu lábio inferior. Apenas mexeu a cabeça positivamente. Bel começou a chorar desesperadamente. Nunca havia visto-a de tal forma tão triste. Fui até a sua cama e abracei-a. Ao contrário do que rapidamente pensei, Anabel me abraçou bem forte, como se não me visse há anos. Não consegui aguentar e, mais uma vez, comecei a chorar também. Nossos peitos tremiam de tanto que nós soluçávamos.
– Bel... – me afastei um pouco e segurei sua cabeça levemente – eu te amo. Vai dar tudo certo – entre soluços, falei. Acho que ela precisava ouvir isto. Abraçou-me novamente.
Apesar de tudo, senti que ela ainda me amava e que acreditava em mim. Era apenas disto que, naquele momento, a gente precisava. Sentir o amor um do outro – e sentir que era verdadeiro.
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