Anabel
13 Deborah
Notas iniciais
Havia se passado dois meses desde o aborto espontâneo de Anabel. Mesmo que a gravidez não tivera sido nem um pouco planejada, tanto eu como ela – principalmente ela – ficamos abalados. Acho que Bel se apegou ao bebê principalmente pelo fato de eu estar distante naquele momento. E, sem dúvidas, o aborto tem uma grande parcela de culpa minha. Eu sempre soube da saúde um tanto frágil de Anabel; e com uma gravidez, isso se agravava. Ela não poderia ter se aborrecido tanto, ou ficado tão sobrecarregada. Eu, como sempre egoísta, deixei meus problemas caírem sobre suas costas. Tornei-me, por alguns meses, um homem distante e oblíquo diante de tudo que me fazia bem.
Estávamos na mesma lanchonete que nos encontráramos pela segunda vez há alguns meses atrás. De rabo de cavalo – seu cabelo havia crescido consideravelmente e ficado mais alaranjado –, blusa azul, jeans e All Star preto, ela tomava um café e comia pães de queijo. Estava quieta exatamente como andava nas últimas semanas. Seus grandes olhos verdes estavam pesados de tristeza. Havia momentos que sentia um imenso abismo entre eu e Anabel. Tentava, então, puxar algum tipo de assunto.
– Decidi entrar para a faculdade e começar a trabalhar – disse, antes de dar uma golada em um suco de uva.
Ela olhou para mim e deu um sorriso apertado.
– Isso é muito bom! – suspirou – Fico muito orgulhosa. Aposto que seu filho também ficará.
– É... – ri – estou fazendo isso por ele.
– O bebê nasce quando?
– Fim desse mês – chamei o garçom para pagar a conta.
– Que bom – engoliu seco.
Estendi minha mão esquerda até a mão direita de Bel, que estava sobre a bancada. Rapidamente, ela a tirou e levou até os cabelos, pondo alguns fios atrás da orelha. Parecia que ela não queria encostar em mim. Olhei para ela, franzindo o cenho.
– Tá tudo bem, Bel? – perguntei.
– Leonardo, eu... eu acho melhor a gente terminar de vez. Tudo – umedeceu os lábios. Não conseguia crer no que ela estava falando. Eu achava que ela me amava, assim como eu, inexplicavelmente, a amava também. Apesar de tudo, de todos os dias conturbados, jamais havera deixado de amá-la.
– Quê?! – gritei. Ela arregalou os olhos, encarando os lados para perceber se tinha alguém nos encarando.
– Tá louco? Fale baixo... – ela chegou mais perto de mim, sussurrando.
– Eu não posso acreditar que você está fazendo isso! – falei enquanto pegava o troco com o garçom – Não, não você, moço, desculpa. É ela. Desculpa.
– Meu Deus, que vergonha – disse Bel, pegando sua bolsa –, vamos embora. Agora. Pelo amor de Deus – levantou-se do banco. Levantei-me também e fomos até a porta.
A ficha ainda não tinha caído. Enquanto dávamos poucos passos até a porta da lanchonete, parecia que tudo ficava bem devagar. Algo em mim não acreditava que Anabel estava terminando nosso namoro.
– Bem – suspirou –, como eu estava falando, é melhor assim, Leo.
Fomos andando até o meu carro, que estava estacionado na outra calçada.
– Melhor para quem? Para você? Porque para mim não é! – segurei o choro.
Anabel levou suas mãos até a nuca e acariciou-a rapidamente.
– A Deborah precisa de você mais do que eu, Leo. E, pelo visto, você precisa dela também – respirou fundo.
Fechei meus olhos e, para a minha infelicidade e vergonha, minhas lágrimas rolaram sobre meu rosto. Eu até poderia concordar que Deb precisava de mim mas não tinha tanta certeza sobre o fato de eu precisar tanto assim dela. Deborah e eu construíramos uma pura relação de amizade principalmente pelo nosso filho – mas nada além disso. Porém, de qualquer forma, tudo me fazia crer que não havia nada que eu pudesse fazer para Bel acreditar em mim.
– Bel, olha... – de repente, ouvimos um grito vindo do outro lado da rua. Olhamos imediatamente procurando de onde vinha a voz – Olavo? – franzi o cenho. Anabel estava com uma cara de quem via o diabo.
– Leo! – atravessou a rua vindo até nós – Graças a Deus, você está aqui!
– O que houve? Tá tudo bem?
– A Deborah... – falou Olavo, ofegante.
– O que houve com ela? – um gelo tomou-me por completo. Anabel parecia estar tão preocupada quanto eu.
– Ela foi para o hospital, acho que a bolsa estourou, eu não sei! – gritou – Eu não entendi bem o que a mãe dela disse no telefone...
Era incrível como quando tudo dava errado, dava errado mesmo. Nos últimos meses estava tudo cada vez piorando mais e mais. Tinham horas – como estas – que eu sequer sabia mais o que fazer.
– Então vamos, eu... Meu Deus, onde ela está? – comecei a tremer muito.
– Em Ipanema. Eu vou com você.
Respirei fundo e fui até o banco do motorista abrir a porta.
– Bel, eu ligo para você, ok? – minha respiração começava a ficar falhada.
– Sim, sim! – ela deu um sorriso apertado bem forçado – Dê notícias quando chegar lá. Eu... estarei no Loretto.
Olavo e eu entramos no carro. Liguei-o rapidamente e comecei a dirigir de um modo tão veloz que jamais digirira em toda minha vida. Graças a Deus chegamos lá em mais ou menos vinte minutos.
Assim que eu e ele entramos, vi a mãe dela sentada em uma cadeira azul, com um terço na mão, e o pai dela escrevendo em alguns papéis na recepção. Respirei fundo e fui até a mesa da recepção.
– Senhor... – estendi minha mão para cumprimentá-lo.
– Ah, Leonardo... como vai? – seu Hillbert estava bem preocupado. Era um senhor de poucos cabelos, óculos Ray-ban e algumas rugas perto dos olhos.
– Bem, e... a Deborah? Como ela tá?
– A bolsa do bebê estourou, então trouxemos ela para cá e... acho que farão o parto.
Assim que seu Hillbert terminou de falar, um médico veio até nós e nos interrompeu. Era um moço bem apessoado – eu gostava de reparar em médicos para me sentir menos nervoso. Médicos bem apessoados me faziam confiar que daria tudo certo.
– Vamos fazer o parto agora. Vai ser normal. O senhor gostaria de acompanhar o parto ou...? – perguntou o doutor.
– Esse é o pai da criança, é melhor ele ir – disse o pai de Deb e me encarou com um leve sorriso. Meus olhos se encheram d'água.
O médico me guiou até uma sala e pediu para que eu vestisse um avental azul bem estranho, uma máscara e uma touca. Eu também tive que lavar minhas mãos com álcool gel. Enquanto isso, ele me fazia várias perguntas para abstrair a aflição que, nitidamente, me atingia.
– É pai de primeira viagem?
– Sim, eu... sou – engoli seco.
– É um menino, não é? Eu lembro exatamente do parto do meu... – riu – ele foi prematuro. Hoje em dia é uma das crianças mais saudáveis que conheço – falou enquanto colocava as luvas.
– Tudo bem – pus a touca.
– Está pronto? – o doutor olhou para mim – Então... vamos. Seu filho espera por nós – riu novamente. Comecei a me sentir menos nervoso mas o medo ainda me acompanhava.
Enquanto andávamos até o quarto resolvi quebrar o silêncio.
– Tem riscos de dar alguma merda tipo... ela morrer ou o bebê? – engoli seco. Imediatamente me arrependi de ter feito essa pergunta por puro medo de qual poderia ser a resposta. O médico abriu a porta para a mim e logo avistei Deborah deitada em uma maca. Haviam três ou quatro enfermeiros ali.
– Sempre há riscos mas faremos o possível e o impossível para dar tudo certo.
Fechei os olhos e respirei fundo. O doutor foi até a maca e, junto aos enfermeiros, começou a operação. Era muito estranho ver todo aquele sangue e a Deb ali, parada. Ela parecia estar um pouco zonza. Algumas horas o sangue era tanto que eu comecei a me sentir enjoado, mas mesmo assim, fui até ela e segurei sua mão.
– Leo? – Deb perguntara, ofegante. Seus olhos pareciam se fechar sozinhos – Leo? Eu tô com tanto medo... – chorava. Acabei não conseguindo me segurar e chorei junto.
– Calma, Deb, vai dar tudo certo – disse –, eu prometo.
O médico disse ao enfermeiro ao seu lado que o bebê já estava coroando. Deborah gritava de um jeito do qual eu jamais imaginei ouvir alguém gritar, e apertava minha mão com toda a força do mundo. Não consegui sequer imaginar a dor que ela deveria estar sentindo.
– Empurra! Empurra! – o doutor gritou. Ela aparentava fazer uma força que não se comparava a nada no mundo – Vai! Vai!
De repente, um choro. Demorou uns dez minutos mas parecia que foi tudo em um segundo. Um choro alto e escandaloso. Deb, suada e cansada, sorria como se ouvisse música clássica. Um choro inexplicável. O doutor cortava o cordão umbilical enquanto uma enfermeira, com um pano branco, limpava o bebê. Fechei meus olhos, mais uma vez, e sorri.
– Parabéns, mamãe – disse o doutor, segurando o pequeno. Senti em mim uma felicidade imensa, mas rápida. Repentinamente, Deborah soltou minha mão. Seus olhos ficavam pesados, vesgos; o que me assustava completamente. Os enfermeiros começavam a sussurrar entre si e eu ficava sem entender.
– Doutor, os batimentos tão caindo – disse uma enfermeira. Um outro enfermeiro pediu para eu sair da sala, mas eu não queria. Uma movimentação aflita começou na sala e eu só sabia que não queria deixar Deborah ali, sozinha.
– Deb, Deb... fala comigo? – falei, entre soluços de choro.
– Leo, você precisa falar pro Daniel... – Deborah estava com uma respiração ofegante, esquisita.
– Falar o que? Deb, não dorme...
– Que eu o amo... – sorriu, de olhos cerrados.
– Por favor, senhor, saia da sala... – disse o enfermeiro, me afastando da maca. Outros vieram e me expulsaram dali. Fiquei apenas na porta.
Não sabia mais sequer o que estava acontecendo lá dentro. Estava com medo, muito medo. Os pais de Deb me viram e vieram até mim, perguntando várias coisas das quais não conseguia responder. Estava nervoso, confuso, com falta de ar. Não conseguia entender as perguntas. O medo me impedia de qualquer coisa naquele momento.
Sete minutos depois o doutor que acompanhou todo o parto do bebê saiu do quarto e veio falar comigo. Só pela expressão facial dele eu sentia que a notícia não seria boa. Acho que não conseguia mais chorar. Apenas respirei fundo e sentia um enorme peso sob meus pulmões. As pessoas falavam, me abraçavam, choravam, gritavam e eu ficava tão fora de mim. Olhava para os pais de Deborah, entrelaçados, debulhando-se em lágrimas com a notícia. Olavo estava completamente chocado. O médico fora o mais passional possível mas não havia jeito que pudesse amenizar a dor que era ouvir aquilo. Deborah não havia resistido. Era hipertensa – coisa que eu nunca soube –, teve algo chamado bradicardia e faleceu diante da arritmia. O bebê, felizmente, havia nascido bem. 52 centímetros e quase 3 quilos e meio.
– A criança tem uma boa saúde. Vamos fazer alguns exames e levá-lo ao berçário. Lá o senhor poderá vê-lo. Eu sinto muito, de verdade – apertou os lábios –, preciso ir. Com licença.
A dona Cláudia, mãe de Deborah, respirou fundo e olhou para mim. O seu Hillbert envolvia os ombros dela com seus braços. Eu nem sabia o que falar. Minha mente estava completamente vazia.
– É muito estranho porque... Deb seria uma ótima mãe – falei segurando o choro. Olavo pôs a mão em meu ombro e acariciou-o.
Dona Cláudia começou a chorar e pôs o rosto no peito de seu Hillbert.
– Seria – disse o pai de Deb, afagando a cabeça de sua esposa –, com certeza seria.
Uma enfermeira, então, nos chamou para ir até o berçário e ver o pequeno. Eu entrei lá e fiquei bobo. Eram muitos bebês bonitos. O meu estava bem ali na encubadora da frente. Era lindo. Daniel Zumach Aguillar. É claro que é estranho dizer isso mas, sem dúvidas, era o recém-nascido mais bonito que eu já tinha visto. Tinha um rostinho gordo e o nariz era bem parecido com o da mãe. Eu o segurava cuidadosamente porque sentia que ele era de ouro. E ali, naquele momento, tendo nos meus próprios braços a pessoa mais preciosa que já poderia ter existido para mim no mundo, a dor diminuía. O pequeno Daniel fazia o sofrimento da morte de Deborah evaporar.
Do outro lado, lá fora, estavam Olavo, dona Cláudia e seu Hillbert. Finalmente sorriam. O bebê trazia consigo uma imensa calmaria – mesmo que tenha sido gerado e nascido em meio de tanta confusão. Há meses não sentia um conforto tão grande. Por algumas horas, tendo meu filho comigo, eu podia esquecer de tudo e só enxergá-lo.
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