Anabel
11 Exame
Notas iniciais
Sentada no chão do banheiro, ao lado do vaso sanitário, chorando. Era assim que eu me encontrava naquele dia 16 de agosto de 1992. Um exame de gravidez em mãos indicando positivo. Sentia-me naquela poesia do Carlos Drummond de Andrade, a "E agora, José?". Lembro que eu a lera há alguns bons anos atrás, quando era da quinta série – e encaixava-se perfeitamente ao momento. E agora? A festa acabou, a luz apagou e o povo sumiu. E agora? Uma gravidez jamais planejada, um namorado que já seria pai de outro bebê com outra moça, uns amigos que me esqueceram completamente. E agora? Um trabalho que mal me sustenta, uma família que mal vejo, um diploma de Filosofia que não serve para nada. Acho que uma pergunta como "e agora?" nunca foi tão dita por mim mesma.
Não sabia ao certo se chorava, se ligava para o Leo ou se respirava fundo e pensava no que eu faria a partir de agora. Porém, eu estava tão aflita, tão chocada, que mal conseguia pensar em alguma coisa. Eu, vendedora de discos de uma loja na Tijuca, com 26 anos de idade, grávida. Era só o que me faltava. E grávida de um namorado cujo é pai do bebê de Deborah também. Para completar, um namorado que ultimamente não tem ligado para mim. Talvez seja egoísmo ou ciúmes da minha parte, mas é muito difícil de lidar com uma situação dessa sem se sentir minimamente mal ou desconfortável. Eu amo tanto o Leonardo que tenho muito medo de perdê-lo para Deborah. Afinal, agora ela ocupa um cargo de bastante importância na vida dele; ela seria mãe do filho dele. Agora eles teriam uma ligação forte e absoluta pelo resto de suas vidas. Só conseguia me sentir como um incômodo, uma peça fora do lugar, uma pedra no sapato. Eu estava sobrando na vida de Leo. Mas pior do que estar sobrando é que eu tinha a sensação que aquela vidinha que carregava no ventre iria sobrar também.
A campanhia tocou e eu estranhei, já que o porteiro não interfonou avisando que alguém estava subindo. Sequei as lágrimas, respirei fundo e levantei para ir até a sala e ver quem era.
– Quem é? – gritei enquanto ia em direção a porta.
– Sou eu, Bel! Olavo! – um rapaz de voz engraçada respondeu. Fiquei espantada porque, normalmente, só vejo Olavo quando o Leo está presente.
– Ah, oi... tá tudo bem? – perguntei, franzindo o cenho.
– Sim, sim, a gente... pode conversar? – deu um sorriso de canto de boca. Saí da frente da porta para que ele pudesse entrar. Olavo, um tanto desajeitado, entrou e sentou no sofá.
– Bem, quer água, alguma coisa? – ofereci enquanto fechava a porta.
– Não, na verdade, eu queria falar uma coisa meio séria com você – ele disse estalando os dedos.
– Aconteceu alguma coisa? Quer que eu chame o Leo? – sentei-me no sofá ao lado dele. Como resposta ele acenou a cabeça de modo negativo. Estava começando a ficar curiosa, até porque ele aparentava estar nervoso – Então o que houve?
– Eu não estou mais com a Amelia faz um tempo – umedecendo os lábios, ele disse.
– Ah... – suspirei. Fiquei triste porque eu gostava bastante quando saíamos os quatro. E ela era legal também – eu sinto muito.
– É – Olavo fechou os olhos e respirou fundo. Naquele momento senti que a conversa não acabaria por ali. Minha mente ecoava a pergunta "por que diabos ele não procurou o Leo, o melhor amigo dele há anos, para se consolar?", mas seria insensível da minha parte caso eu perguntasse isso à ele.
Estendi minha mão sobre meu ombro e acariciei-o para mostrar que eu realmente sentia por aquilo. O mundo, a partir daquele meu pequeno gesto, ficou muito confuso – muito mesmo. Olavo veio em direção ao meu rosto, segurou-me pela nuca e me beijou. Fiquei tão em choque que não consegui sequer me afastar rapidamente. Acho que queria ter certeza que aquilo estava realmente acontecendo. Olavo, o melhor amigo do Leo desde que os dois se identificam como seres humanos, estava me beijando. Que filho da...!
– Mas que merda é essa, Olavo?! – gritei, empurrando-o pelos ombros.
– Bel, eu te amo – ele tentou me beijar de novo. Empurrei-o novamente com mais força e levantei do sofá.
– Você tá chapado?! Eu namoro o seu melhor amigo! – ele se levantou também.
– E ele sabe que vocês ainda namoram? Porque pelo o que eu percebo, ele voltou com a Deborah. E dessa vez é sério! – ele gritou. Meus olhos se encheram de lágrimas, mas respirei fundo para não chorar ali – Bem, eu vou embora. Se você prefere viver essa ilusão amorosa com o seu futuro ex namorado, tudo bem – Olavo virou-se e foi em direção até a porta.
– Tudo bem – respondi, segurando o choro.
– Antes eu posso usar o banheiro? É rápido, eu juro – ele pediu. Respirei fundo mais uma vez e apontei para a porta no fim do corredor.
Sentei-me novamente no sofá e não aguentei, me debulhando em lágrimas. Mas claro que, na minha vida, toda tempestade é pequena – e ainda viria muito mais.
– Anabel, que isso? – Olavo perguntou, com o exame de gravidez na mão esquerda e com a caixa dele na direita, estendendo-as. Levantei desesperada e peguei as duas coisas da mão dele. Agora sim, a vida estava uma perfeita e grandiosa merda.
– Você vai no meu banheiro para fuxicar minhas coisas?! – gritei. Ele se afastou um pouco de mim e pôs a mão na maçaneta, abrindo-a.
– Estava na pia, me desculpa. Eu vou indo – virou-se contra mim.
Olavo não poderia contar o que viu. Eu não sabia se ele havia entendido que o teste deu positivo, mas ele não poderia contar de jeito nenhum aquilo à ninguém; principalmente ao Leonardo.
– Olavo! – chamei-o – Você não pode falar disso com ele, entendeu? – segurei a porta – Por favor, Olavo – engoli seco. Ele acenou a cabeça positivamente.
– Tudo bem, Bel. Ele é um cara de sorte – deu um leve sorriso.
Franzi o cenho.
– Por que? – pus uns fios de cabelo atrás da orelha.
– Porque é nítido que você o ama independente de qualquer coisa. Desculpe – Olavo virou-se de costas e foi até o elevador. Fechei a porta antes que ele entrasse lá. Assim que tranquei a fechadura, as lágrimas caíram. Aquelas portas, pelo visto, já tinham muita história para contar destes últimos meses até aqui.
Apesar de tudo, confiava em Olavo e rezava para que ele realmente não contasse ao Leonardo sobre o teste de gravidez. Enquanto minha mente tinha um ataque epilético, eu chorava cada vez mais, de soluçar. Sentia minhas mãos tremendo de tanto medo do que seria tudo dali em diante.
O telefone tocou. Pensei mil vezes em não atender, mas o barulho era irritante demais. Respirei fundo antes de tirar do gancho.
– Alô? – falei com uma voz meio rouca, prendendo o choro.
– Bel? – aquela voz na outra linha era única. Leo era a única pessoa em todo mundo que tinha o poder de me chamar pelo meu apelido de uma forma tão doce e sublime. Respirei fundo para não transparecer o nervosismo e prender o choro.
– Leo? – perguntei.
– É! Eu liguei do... – a partir do momento que ele disse "é", eu não ouvia mais nada. Minha cabeça só girava. Acho que eu queria morrer.
Fale com o autor