Anabel
8 Caos
Notas iniciais
Depois de três semanas difíceis para mim, voltei a viver normalmente, como eu vivera antes de descobrir a gravidez de Deborah. Um pequeno resfriado, que depois de uma semana, tornou-se uma forte gripe arrebatou-me por completo – apesar de todos saberem, inclusive o dono do Loretto, que havia um ponto emocional em tudo aquilo. Eu sentia muito a falta de Leonardo, muito mesmo. Era complicado demais lidar com tudo aquilo, mesmo que Deborah e Leo tivessem concebido o bebê antes de eu e ele começarmos a namorar. Deb era completamente apaixonada por Leonardo; sem dúvidas, Deborah não daria paz à ele – ou à nós – desde então. Se continuássemos juntos, eu não aguentaria encontrá-lo com ela quase todos os dias, vendo-os agir como um casal. A insegurança e a inquietude dentro de mim faria com que eu fizesse tudo mais difícil do que já era. Abri mão de tudo, por mais doloroso que fosse partir da decisão de esquecer de Leonardo. Ignorei todas os telefonemas dele, os recados que mandara pelo meu porteiro e todas vezes que foi até o Loretto procurando por mim.
Olhei na janela do meu prédio, que dava direito para a rua, e vi um caminhão de mudanças parado bem na frente do portão. Achei estranho, já que não me recordei de nenhum apartamento que estivesse para vender ou alugar. Peguei os meus óculos que estavam sobre a mesa de centro e os pus para tentar ver quem era que estava saindo do Santana azulado atrás do caminhão. “Meu Deus, não”, pensei, já que estava tudo andando para a opção que a pessoa que estivesse se mudando para o 404 fosse decerto o Leonardo. Respirei fundo como se fosse ter algum treco. Eram tantos problemas, tanta coisa na cabeça que não fui capaz de recordar que Leonardo havera fechado o negócio e se mudaria em breve. A última coisa que poderia acontecer era ele virar meu vizinho justamente naquele momento – momento do qual eu preservava a distância de qualquer coisa ligada ao Leo.
Fui até o interfone, que ficava na cozinha estreita, para perguntar ao seu Luís se era mesmo o Leo que estava vindo morar aqui. Rezei para que ele fosse discreto e que em momento nenhum ousasse em pronunciar meu nome enquanto a mudança estivesse ocorrendo.
– Seu Luís? Seu Luís, antes de tudo, não diga meu nome em qualquer momento nenhum, tá?
– Tá, senhora, mas quem é que tá falando?
– Anabel, do 402.
– Oi, dona... – interrompi-o com um grito ensurdecedor.
– Não! – gritei – Pelo amor, seu Luís! Olha, eu só quero saber se aquele rapaz que estava comigo há algumas semanas tá aí embaixo.
– Quando? – perguntou ele, entre tosses.
– Devem fazer umas quatro ou cinco semanas, seu Luís. Ele veio ver o 404. Alto, cabelo castanho meio bagunçado, meio moreno...
– Ah, o seu Leonardo! Lembro dele! – ele esbravejou como se tivesse ganhado na loteria. Gelei por dentro, temendo que Leo ouvisse.
– Seu Luís, eu peço pelo amor de Deus, fale baixo!
– A senhora me desculpe, eu... ah, é ele, sim, senhora. Ele acabou de subir, a senhora fique tranquila que ele não ouviu nada...
Senti um iceberg dentro de mim. Desliguei o interfone sem sequer responder ou agradecer as informações do porteiro. Uma tontura me tomou por completo e, quando percebi, eu estava sentada no chão da cozinha. A minha real vontade era de ir até Leo e abraçá-lo, porque a saudade dentro de mim era gigantesca. Porém, o orgulho era maior; estendia-se ainda em mim a dor que era sentir perdendo-o para Deborah. E mais doloroso era perder e ter que aceitar; afinal, ele seria pai de um bebê que não tinha nada a ver com as loucuras que estavam tomando nossas vidas.
A campainha tocou. Suspirei forte enquanto as lágrimas caíam de meus olhos e manchavam a lente do óculos. Hesitei em levantar, mas quem estava lá foi insistente – e eu já sabia quem era. Após alguns minutos, a sutileza da campainha tornou-se perturbadora com os gritos de Leonardo.
– Bel! – Leo gritava, ao esmurrar a porta – Bel, me ouve, por favor! – a voz dele estava diferente e isso era assustador. A cada vez que ele repetia meu nome, meu choro se fortalecia. Não aguentei, levantei do chão e fiquei diante da porta da sala, ouvindo-o berrar como um louco querendo que eu abrisse a porta – Bel, eu sei que você tá aí! Eu sinto! Eu te amo, Anabel!
Abri a fechadura barulhenta e lá estava Leonardo, lindo, atordoado e barulhento – como sempre. Respirei fundo e bufei, antes de começar a falar tudo.
– Leo, eu... eu só preciso de um tempo para digerir toda esta situação. Está difícil para você e para mim também. Dê um tempo para mim, por favor – não consegui terminar de falar, pois o choro travava as palavras e eu as engolia em seco. Senti meu coração se partir em mil pedaços ao olhar em seus lindos olhos castanhos e ver que estavam encharcados.
– Eu te amo, Bel, eu... – Leonardo aproximou-se de mim, mas dei um passo para trás – eu não vou conseguir ser bom se eu não estiver contigo.
Fiquei sem fala. Passei a mão em seu rosto com a barba mal feita e fechei a porta, trancando-a. As dores dentro de mim só se engrandeciam. Queria poder ter dito que eu também não seria boa se eu não estivesse ao lado dele, mas não consegui. Eu apenas desejava que ele fosse embora dali e deixasse-me sozinha para eu deixar tudo por um tempo. O único consolo era que se ele me amava tanto quanto afirmava, ele não me esqueceria – assim como eu não o esqueceria também. Perguntei-me o porquê de eu ser tão estranha, tão perturbada. Eu decerto não queria deixá-lo; almejei ser superficial ao ponto de ignorar tudo que estava acontecendo. Que Leonardo desculpasse, então, meu jeito de fugir temporariamente de todas as coisas que partiam meu coração.
Alguma força súbita formou-se em mim e me fez levantar do chão, que fiquei sentada por estar exausta psicologicamente daquilo. Fui até a janela e fiquei lá, com o rosto vermelho e olhos inchados, encarando o caminhão de mudança. Os móveis saíam, segurados por alguns poucos homens que os levavam até o apartamento. O barulho dava para se perceber, mas eu evitava lembrar que Leonardo estava justamente virando meu vizinho naquele momento e tentava me distrair com outras coisas. Nunca quis tanto a presença da Ana Cláudia – a garota de cabelos coloridos que dividia o apartamento comigo, mas arrumou um namorado e resolveu se mudar. Eu me sentia inevitavelmente sozinha; e continuaria me sentindo, já que eu não era uma moça de muitos amigos. Os poucos que tinha não me faziam me sentir confortável o suficiente para me abrir e contar meus problemas. Eu apenas queria Leo ali – somente ele, e mais ninguém.
Joguei-me sobre o sofá como se estivesse caindo de algum lugar. Pensei em me levantar, fazer um pouco de chá e andar de bicicleta pela Lagoa, mas eu não tinha forças para isso. Eu estava exausta; a minha única vontade era chorar e dormir. E o pior de tudo era pensar que se eu não tinha o Leo, eu não teria outra pessoa.
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