Anabel
9 Hospital
Notas iniciais
Era completamente inacreditável o fato de eu estar com Deborah no telefone, que estava falando como uma louca. Eu, um tanto aérea, ainda a ouvia, tentando entender direito todas as diversas palavras que saíam de sua boca em poucos segundos. Um fato já estabelecido era que Deb apenas telefonara para falar sobre Leo e tudo que tem acontecido ultimamente. A questão era como e o que ela falaria relacionado a estes assuntos. E eu, Anabel, jamais imaginaria que em algum dia destes dois meses Deborah faria questão de conversar comigo e se retratar por algo que tenha me feito brigar com Leo. Ela decerto transparecia, através de sua voz aflita, sua preocupação com o que havera falado naquele dia.
– Olha, Bel, eu sei que você deve estar pensando horrores de mim. E eu não te condeno por isso, eu também pensaria. Mas é complicado, o Leo não tem culpa, ele tem sofrido muito... – respirei fundo e tentei estruturar uma resposta que não fosse rude, mas que ainda sim, fosse direta.
– Deborah, eu não sei nem o que falar. Não sei se tô preparada para isso, e nem sei como isso aconteceu – pus o telefone no ombro e tentei identificar a voz que gritava na minha porta. Estranhei, já que o porteiro em momento nenhum interfonou avisando que tinha alguém subindo.
– Foi antes de você. Eu juro. Sei que fui indelicada, mas não culpe o Leo. Ele tem sofrido muito, muito mesmo – ela disse, entre suspiros. Demorei um pouco para responder.
– Deb, tem alguém aqui na porta, eu... eu vou atender. E já te ligo. Obrigada, mesmo assim. Vou procurar conversar com ele depois – respondi, mesmo que não tivesse certeza que faria aquilo que disse. Levantei do sofá, onde estava deitada, e fui atender a porta, um pouco tonta. Ao olhar no olho mágico, uma surpresa; era Olavo ali, com aquele jeitão perturbado de sempre, como se estivesse inalando cocaína há dias. Abri a fechadura e encarei-o um tanto curiosa. Franzi o cenho e pensei em perguntar o que ele estava fazendo ali, mas antes disto, Olavo pôs a explicar sozinho.
– Você precisa me ajudar, Bel. Sério – disse ele, nervoso.
– Mas o que houve? Você quer entrar e conversar? – fiz uma pergunta bem arrastada. Estava começando a ficar preocupada. Antes de responder, ele respirou fundo.
– O Leo não me atende. Eu tenho vindo aqui todo dia, desde que ele se mudou, para ver como ele tá, já que a Deb disse que ele tá ignorando ela. E sei que ele precisa de companhia. O porteiro deixou eu subir, eu tô tocando a campainhia faz uns dez minutos e nada – com aqueles dizeres, gelei por dentro. Leonardo era completamente insano; e mais insano ainda quando estava triste. Comecei a me sentir culpada. Aquilo era decerto culpa do meu orgulho e incapacidade de entender o que estava acontecendo. Porém, eu só queria que Leo compreendesse que não é fácil digerir tudo isto de uma vez só.
Pus minha cabeça para fora da porta e encarei a porta do apartamento de Leonardo. Era assustador não se ouvir barulho de nada. Engoli em seco e encarei Olavo, que estava pálido. Parecia que estávamos com o mesmo pressentimento ruim dentro de nós. Sentia minha alma se esfarelar de culpa, desespero e medo. Puxei Olavo pela mão esquerda até o 404, e a cada passo que eu dava, rezava para que Leo não tivera sido capaz de fazer o que imaginava.
– Leo! – tocava a campanhia, aflita – Leo! É a Anabel! – não ouvi sequer um mínimo ruído que indicasse movimento. Como diabos o mesmo cara que fora ao meu apartamento há três dias atrás implorando para que eu o desculpasse não me atende? E qual seria o motivo dele não atender Olavo, seu melhor amigo, que não tinha nada a ver com tudo isto? Nada fazia sentido, a não ser a ideia dele ter enlouquecido e feito alguma merda – Olavo, vamos ter que arrombar a porta – respirei fundo e umedeci os lábios. Ele olhava para mim completamente espantado.
– Como nos filmes? – ele franzia a testa.
– É o único jeito. Mas eu não consigo. Vai ter que ser você – Olavo arregalou os olhos mais ainda.
– Você tá doida? Deve ser crime fazer algo assim! – ele andava de um lado para o outro.
– Omissão de socorro também deve ser! – gritei.
– Você acha que ele tá precisando de socorro? – por um momento, achei que Olavo se debulharia em lágrimas ali mesmo. Fez um beicinho infantil, como se tivesse dez anos de idade. Controlei o riso e mexi a cabeça positivamente. Foi o necessário para ele se empolgar e chutar a porta umas três vezes, até que ela se escancarasse para nós.
Antes de entrarmos, encaramos um ao outro, assustados e se preparando para o que acharíamos. Continuei rezando mentalmente para que nenhum pensamento negativo sobre o que estava acontecendo fosse real. "Que ele esteja bem, meu Deus, por favor", sussurrei. Olavo entrou na minha frente e começou a chamar por Leonardo. Eu andava devagar, cada vez com mais medo. Procurei-o pela sala bagunçada e com pouca mobília, mas não o vi. Logo quando fechei meus olhos e respirei fundo, Olavo gritou meu nome. Ele estava diante do quarto do Leo, completamente abismado com o que estava vendo. Eu não sabia se corria ou se ia devagar para não me chocar com a cena. Dentro de mim, sentia um tornado. Ao mesmo tempo que todas as memórias vividas ao lado de Leo passavam diante de meus olhos, eu as sentia se rasgarem ao meio e se queimarem no meio de tanto sofrimento. A dor da ideia de perdê-lo não era como gelo. Não me congelou, não me fez sentir frio. Aquela dor de poder não tê-lo mais era quente; ardia, incendiava, matava aos poucos. Corri até Olavo, então, e logo quando vi Leo jogado naquele chão, joguei-me ao seu lado, com os olhos cheios de lágrima.
– Leo, fala comigo – em meio ao soluço do choro, eu dizia. Fungava e secava as lágrimas que caíam, apenas pedindo para que aquilo fosse só um pesadelo. Segurei nas mãos dele, que estavam geladas. Aquilo me desesperou ainda mais – Olavo, Olavo! Chama alguém, pelo amor de Deus! – falei, ofegante. Meus lábios tremiam de medo.
– Chamar quem? – ele não saía da mesma posição, nem tirava os olhos de Leonardo.
– O que você acha?! – gritei – Um médico! No meu apartamento tem um telefone, vai lá e liga para a emergência! – Olavo ainda me encarava, com um olhar vazio. Estava nítido que ele estava chocado demais para poder pensar e agir; e estava mais nítido ainda que ele pensou que aquilo nunca aconteceria. Entre nossas trocas de olhares preocupados, chegamos a conclusão que Leo estava, provavelmente, tendo uma overdose. Cada vez mais, eu rezava, implorando a Deus que o pior não acontecesse. Eu amava aquele garotinho em forma de homem; e eu jamais me perdoaria se eu o perdesse sem que ele tivesse a mais absoluta certeza disto.
– É melhor levarmos ele para um hospital, é mais rápido – disse Olavo. Suspirei antes de responder.
– O plano de saúde dele é qual? – perguntei, vasculhando a carteira de Leo, em busca de algum documento importante.
– Sei lá, Bel, eu não sei nem o meu! – exclamou Olavo, nervoso – A gente leva ele para o Souza Aguiar e eu ligo para os pais dele. Depois eles fazem algo. Vou... vou pegar a chave do carro dele. Você dirige?
Franzi o cenho e apertei os lábios.
– Não – Olavo, que estava encostado na porta do quarto, foi até a cômoda e pegou as chaves, balançando-as como um chocalho.
– Aqui, então vamos – ele disse, vindo em minha direção para me ajudar a levantar Leo.
Levantamos Leonardo, que estava ardendo em febre. Em minha mão direita, eu segurava sua carteira, que estava com a identidade de Leo e algumas outras coisas. Fomos andando devagar até a porta do apartamento, e lembrei que a porta do meu estava, provavelmente, aberta. Olavo trancou a porta do 404 com a chave que estava na fechadura de dentro do apartamento e chamamos o elevador. Enquanto não chegava, pedi que Olavo aguentasse firme Leo para que eu pudesse pegar a minha bolsa e fechar a minha porta. Dei passos firmes, como se o passar dos minutos me tranquilizasse. Perguntava-me sobre o que poderia acontecer caso Olavo não tivesse chegado logo. Overdoses são coisas sérias; Leo precisava de socorro o mais rápido possível.
– Pronto – falei, trancando a fechadura –, agora podemos ir – Olavo ainda aguardava o elevador, que chegou logo após eu ter trancado tudo. Fui em direção a eles e pus o braço direito de Leo sobre meus ombros. Felizmente, Leo não era gordo, então dava para carregá-lo normalmente. Logo quando entramos no elevador, apertei o botão e passei a mão nos cabelos de Leonardo, pondo-os para trás. Senti como se estivesse acariciando um cobertor de veludo. Acabei que, ao colocar seus cabelos para trás, percebi o quão majestoso era sua aparência quando estava calma. Seu semblante era suave e me tranquilizava um pouco mais.
Leonardo tinha um jeito profundo e misterioso, como se sempre estivesse escondendo algo do mundo. Desde o primeiro dia que eu o vira, chegara a esta conclusão. Ele era diferente de todos os homens que eu já tivera conhecido; a forma com que se expressava e se impunha diante das coisas era própria. O jeito meio depressivo, meio bipolar era, contudo, encantador.
Comecei a agir de um modo automático, e quando caí em mim, já estávamos no térreo, quase saindo do elevador. Lembrei que seu carro era um Santana azul-marinho. Certa vez, Leo havera comentado comigo que era muito engraçado o fato de eu ter como sobrenome o nome do carro dele, que era algo que ele tanto gostava em todo mundo. Eu sentira como se ele estivesse, mais uma vez, declarando que gostava de mim absurdamente. E, naquele dia, eu sentira algo absurdo; minha alma dissera que, sem dúvidas, ele estava se tornando o que eu mais gostava em todo mundo também. Ao lembrar daquilo, olhei para ele imediatamente. Saímos com Leo do elevador e seu Luís encarou-nos com extremo desespero.
– Meu Deus! – exclamou o porteiro, com seu sotaque mineiro – Mas o que houve com o seu Leonardo?! – ele veio em nossa direção, procurando uma forma de ajudar – Vão chamar um táxi? Eu vou – ele gaguejava –, eu vou... vou chamar um então! – virou-se de costas para nós, mas coloquei minha mão direita sobre seu ombro e apertei.
– Calma, seu Luís – dei um sorriso falso –, a gente tá levando o Leo para o hospital. É aqui perto, em menos de dez minutos a gente tá lá – tentei acalmá-lo. Ele apertou os lábios e mexeu a cabeça. Olavo estava com a mesma feição infantil de sempre – Vamos? – perguntei, olhando para Olavo.
– Vamos – ele respondeu. Seu Luís se despediu e voltou para a bancada da portaria. Nós, então, fomos em direção ao portão da garagem, que ficava em frente ao elevador. O Santana estava ao lado de um Monza preto, um pouco sujo. Olavo agachou um pouco para abrir a porta do motorista e, depois, destrancar as demais.
– Anabel, você vai com ele atrás ou aqui no carona? – Olavo perguntou, enquanto encaixava a chave.
– Não sei, talvez fosse melhor eu ir aqui na frente mesmo – respondi, segurando o Leo para que ele não caísse totalmente sobre Olavo. A camisa verde-musgo (cuja Leo dissera certa vez que lembrava a mim por causa da cor, que era a mesma de meus olhos) começava a ficar úmida pelo suor. Dei graças a Deus, então, pois aquilo era um sinal que a febre estava abaixando.
Olavo abriu a porta do banco de trás e me ajudou a pôr Leonardo ali deitado. Ele abriu a porta esquerda do banco de trás e eu fiquei na direita, pondo o Leo sentado. Sequei um pouco do suor na testa de Leo e dei um beijo em sua bochecha ainda quente. "Que ele fique bem, meu Deus", sussurrei. Olavo puxou-o e o pôs deitado. Ajeitei suas pernas e percebi que Leo estava de tênis.
– Quem fica de tênis em casa? – perguntei a Olavo. Ele riu.
– Boa pergunta. Ele deve ter saído antes.
Olavo sentou no banco do motorista e ligou o carro. Pus o cinto e abri um pouco da janela. Procurei manter os pensamentos em coisas boas e plenas, das quais atraíssem positividade. Os momentos que passara com Leonardo – que decerto foram os que, pela primeira vez, me fizeram sentir como se eu realmente pudesse conquistar o mundo – rodavam em minha mente como um filme. Desde o dia que ele tocara Just Like Heaven para mim no violão até o dia que viajáramos juntos. Leo era o único que eu queria ter ao meu lado para todo o sempre; já que era com ele que eu sentia como se tudo era eterno. O vento batia em meus cabelos e fazia os fios voarem. Então, fiz um nó e ajeitei umas mechas para trás da orelha – o que Leo sempre dizia que era uma mania inexplicavelmente agradável. De repente, senti como se tivesse voltado a realidade.
– Você acha que vai demorar muito para chegarmos? – perguntei a Olavo, arrumando o meu cabelo. Ele olhou para mim rapidamente.
– Não. A gente já tá perto. É a próxima rua a direita – franzi o cenho, espantada com a rapidez com que chegamos.
– Como viemos tão rápido? – perguntei.
– São três da tarde, Bel – Olavo parou o carro no sinal e olhou para o relógio –, e somos pessoas sortudas – eu ri.
Olavo parou o carro em frente a entrada do hospital e pediu para que eu ficasse ali enquanto ele fosse chamar algum enfermeiro que pudesse ajudar. Mexi a cabeça positivamente e fiquei afagando a cabeça de Leo, que estava um pouco mais suada. Não demorou muito para que Leo voltasse com um enfermeiro que empurrava uma cadeira de rodas. Agradeci a Deus pois, finalmente, Leo seria ajudado de verdade. Saí do carro e fiquei apenas observando Olavo e o enfermeiro tirar Leonardo do carro e colocá-lo na cadeira. O desespero misturava-se com um alívio e me confundia por completo. Finalmente, estávamos ali. O enfermeiro entrou com Leonardo e nós seguimos, até que ele pediu para que um de nós fizesse o "check-in do paciente". Fomos até a recepção e ela perguntou se poderia nos ajudar.
– É que o nosso amigo passou mal e viemos para emergência – falei.
– Qual é o nome dele? – a recepcionista, de voz engraçada, perguntou. Encarei Olavo e repeti a mesma pergunta.
– Bel, você não sabe o nome dele? – Olavo perguntou, me olhando levantando uma sobrancelha – É Leonardo Dias Aguillar, com dois "l".
– Data de nascimento? – encarei Olavo novamente.
– 5 de fevereiro de 1965 – Olavo respondia, me encarando com os lábios apertados e mexendo a cabeça negativamente.
– Olavo, eu vou sentar ali. Quando você terminar, me avise – falei, respirando fundo. Estava me sentindo um pouco tonta; talvez fosse toda aquela agitação. Fui em direção a umas cadeiras verde-água um pouco distantes da recepção e fiquei ali sentada, com a cabeça encostada na parede. O sono foi me tomando aos poucos, até que eu cochilasse, mas depois acabei acordando subitamente, percebendo que Olavo estava ao meu lado.
– A moça disse que ele tá sendo examinado, e que um médico daqui a pouco vem falar com a gente. Eu ainda tô chocado com o fato de você não saber nem o nome dele – ri.
– Eu sabia do Aguillar. Só não sabia do Dias. E nem do lance dos dois "l" – gargalhei junto a Olavo. A situação ficava um pouco menos pesada.
– Ele odeia o Dias. Por isso que não deve ter te dito.
Apoiei minha cabeça no ombro de Olavo e comecei a encarar o chão. Senti um aperto repentino no coração e respirei fundo, perguntando-me se realmente estava tudo bem. Olavo pôs sua cabeça sobre a minha também, parecendo que estava sentindo que eu estava voltando a ficar preocupada – ou repartindo a sua preocupação comigo.
– Ele vai ficar bem, né? – perguntei, engolindo o choro.
– Vai, claro que vai. Leo deve ser o cara mais forte que eu conheço. – Olavo levantou sua cabeça e olhou para o lado – Meu Deus! – ele levantou da cadeira – Henrique? – gritou para um médico que passava pelo corredor. Ele parou e veio até nós, com um sorriso forte. Fiquei um pouco sem entender, mas tentei não aparentar isso.
– Olavo! – o rapaz gritou. Era alto, loiro e bronzeado, como se tivesse saindo de uma revista de moda americana – Quanto tempo! – abraçou Olavo, que estava rindo como uma criança. Levantei da cadeira e fiquei de braços cruzados, sorrindo de um modo gentil – O que você faz aqui?
– Sabe o Leo? Ele teve um problema, aí trouxemos ele para cá. – Olavo respondeu – Ah, esta é a Anabel – apontou para mim –, namorada do Leo – estava envergonhada e nervosa demais para cumprimentar o rapaz decentemente, então apenas estendi a mão.
– Henrique – ele apertou minha mão.
– Eu nem acredito que você tá trabalhando aqui, cara! Quem diria... – Olavo ironizou.
– Pois é – ele respondeu, rindo –, meu pai tem uns contatos. Terminei a faculdade e vim para cá.
Acompanhando esta conversa, apenas pude pensar o quão filhinhos-de-papai eram os amigos de Leo. Porém, não havia outra coisa para se esperar de alguém que nasceu e cresceu em Ipanema, em uma família de empresários e advogados e que nunca sequer trabalhou.
– Entendi – respondeu Olavo.
– Mas o que o Leo tem? – o rapaz perguntou.
– Não sabemos. A gente nem sabe o quarto dele.
– Vou lá procurar sobre algo. Fiquem aqui – o médico foi virou o corredor a direita e sumiu. Ficamos eu e Olavo, em pé, encarando-nos e dividindo o medo que estávamos. O pavor que perdêssemos um amigo e um cúmplice de loucuras era maior do que quase tudo no momento. A única coisa que não era ultrapassada no momento era o meu amor por aquele homem, que parecia mais um adolescente inconsequente.
Não demorou muito – talvez uns dez ou quinze minutos – para Henrique voltar e nos dar notícias sobre o quadro de Leonardo.
– Bem, o médico que tá com ele disse que ele teve uma overdose. Vocês tiveram sorte, já que socorreram o garotão rápido. Ele teve uma parada cardíaca, então injetaram adrenalina. Ele já está melhor, relaxem – no momento que ele pronunciou as palavras "parada cardíaca", meus olhos se encheram de lágrimas. Senti-me gelada como um iceberg. Olavo envolveu-me com seu braço esquerdo e eu o abracei, chorando.
– Ele está melhor mesmo? – Olavo perguntou, nitidamente aflito.
– Sim, está descansando. Vocês querem vê-lo? – virei-me para o médico, com o rosto molhado, e mexi a cabeça positivamente – Mas só pode um de cada vez.
– Vá você, Bel – Olavo falou, me segurando pelos braços. Henrique deu um sorriso apertado e foi andando de volta ao corredor. Abracei Olavo muito forte e sussurrei um "obrigada", fraco pelo choro, em seu ouvido. Ele sorriu e me mandou ir.
A cada passo que eu dava em direção ao quarto de Leo, meu coração acelerava. Por um momento, achei que ele explodiria. Perdi até a noção de quanto que andei até chegar ao lugar.
– É aqui. Ele está logo aqui nesta cama. Qualquer coisa, feche a cortina – ele abriu uma porta que dava para um quarto com umas dez camas ou mais.
Fechei os olhos e, ao abri-los, senti como se tivessem passado mil anos. Leo estava ali, na primeira cama, adormecido. Estava lindo, como sempre. Corri em sua direção e fiquei aliviada ao vê-lo. "Meu Deus", sussurrei. Meus olhos se enchiam cada vez mais de lágrimas. Um alívio foi depositado em mim, expulsando todo o medo em forma de choro. Apertei sua mão macia e sorri como a primeira vez que nos beijamos.
– Anabel? – disse Leo, com uma voz fraca, ainda sem abrir os olhos.
– Leo... – respondi, apertando mais a sua mão – meu Deus, Leo, eu não sei nem o que dizer... – ele sorriu, abrindo um pouco seus olhos castanhos.
– Não diga, então – ele falou, rindo de leve –, apenas diga que me perdoa.
– Claro. Eu te amo – uma lágrima caiu sobre nossas mãos.
Leo, subitamente, começou a chorar um pouco também. Apertou minha mão forte e falou o quanto que me amava e que sentiu minha falta. Aquilo foi, sem dúvidas, a melhor coisa que poderia ter acontecido nas últimas semanas. Após toda a emoção, ficamos ali pondo a conversa em dia. Evitei tocar no assunto da overdose, pois eu sabia que se falasse sobre aquilo, eu acabaria repreendendo-o e estragando a alegria que estava sendo retomada. Falei sobre tudo que eu tivera feito desde o dia que brigamos e como foi triste ficar sem um companheiro para me ouvir tagarelar. Enquanto ele, espantosamente, pouco se lamentou. Leonardo sequer citou o fato de tudo ter acontecido por minha culpa. Parecíamos que estávamos em mais um dia qualquer, em uma lanchonete, conversando sobre a vida.
– Então, Leonardo Dias... – falei rindo.
– Ah, não! – ele exclamou, um pouco aborrecido – Não me chame assim! Quem te contou desse sobrenome? – perguntou. Respirei fundo para parar de rir e responder.
– Adivinha?
– Olavo é um merdinha – ele falou, cerrando os olhos.
Tudo aquilo me fez concluir que o meu amor por Leo era forte, caloroso e inexplicável. Amando-o, passei a entender tudo. E eu não poderia perdê-lo. Por nada no mundo. Nunca.
Fale com o autor