Anabel
2 Café
Notas iniciais
A manhã era fria e plúmbea – o que não era típico no Rio de Janeiro. O cheiro de café estava pairando no ar da padaria e era maravilhoso. Desenrolei o cachecol do pescoço e pedi por mais uma xícara e um prato com pães de queijo. Era engraçado como desde a semana passada, eu comecei a conviver comigo mesmo sem desespero. Um conforto raro, estranho e gritante; até ficava satisfeito com isto, mesmo sem compreender. Eu decerto não compreendia as coisas fazera um tempo.
– Obrigada – disse à garçonete. Quando olhei para a porta, notei a presença da moça que me ajudara no Loretto. Anabel; devia ser o nome mais edulcorado que poderia existir. Ela não estava com o uniforme do trabalho, mas estava vestida com roupas simples. Ao contrário das moças que conheci, que fiquei amigo ou que já transei, ela aparentava um simplismo real. Um suéter verde claro e um allstar pareciam ser suficientes para a moça.
Anabel encarava um banner ao lado da porta com as promoções da semana. Estava tão entretida que não me notou ali dentro – ou não se lembrava de mim. Eu torcia como um louco para ela entrar e me ver. E falar comigo. E sentar comigo. E tomar um café comigo. A cada pão de queijo que eu mordia, recordava do quão gentil fora ela naquele dia. Talvez qualquer um fosse fazer aquilo, até porque ninguém deixa um homem ficar com o nariz sangrando e não faz nada. Acho que qualquer um iria no mínimo me avisar. Porém, Anabel era diferente. Ela não tinha o jeito das garotas que eu era amigo – e nem dava em cima de alguns caras só para ser desejada. Era diferente. A vida toda estive em um meio árduo, de gente como eu. De gente que, provavelmente, não tinha mais jeito na vida. Perdidos, destroçados por dentro, amargurados pelo nada. A mais longe de tudo isso era Amelia, mas ainda assim, ela não estava longe de quem era problemático.
Finalmente, ela entrou. Com uma bolsa de couro quase batendo nos joelhos, sentou-se à três bancos antes do meu. Evitava encarar tanto, mas era inevitável. O cabelo dela estava muito bonito solto daquela forma. Fiquei olhando, tentando ser discreto. Levei um susto quando ela virou-se para a minha direção para pôr a bolsa em um banco do seu lado. “Meu Deus”, disse à mim mesmo, centrando o rosto na xícara de café. De repente, ouço um “psiu” vindo da esquerda. Fiquei receoso em virar o rosto, porém não consegui deixar de dar um leve sorriso e revirar um pouco os olhos.
Como um anjo, ela acenou para mim com suas mãozinhas pequenas e pálidas.
– Oi! – falou. Meu sorriso ficou mais forte e apertado.
– Anabel. Oi. – tentei não transparecer alegria. Ela levantou, puxou a bolsa pela alça e se sentou em um banco ao lado do meu – Tudo bem?
– Sim, claro. E com você? Melhorou do...? – ela apontava para o próprio nariz.
– Ah – suspirei –, sim, sim. Obrigado de novo, foi muito legal da sua parte – ela olhava para mim com um olhar diferente. Eram olhos profundos, grandes e ingênuos, como de um bebê – Sério.
– Não – ela sorriu –, que isso. Mas o que você tá fazendo aqui? Mora aqui perto?
– Não, moro em Ipanema. Mas eu estou procurando apartamento por aqui porque... em Ipanema é caro – ri e dei uma golada no café. Ela riu também, apesar do leve olhar de espanto. Percebi que ela tinha uma mania forte de sempre estar colocando fios de cabelos atrás da orelha, mesmo que às vezes não houvesse nenhum para ser colocado.
– Bem, eu moro por aqui. Se eu vir algum anúncio ou qualquer coisa, eu posso te falar quando você for no Loretto – cogitei a ideia de pedir o telefone dela, mas hesitei por talvez parecer ousado demais. Ninguém sabe se ela tinha namorado, ou se ela iria achar que eu quero sair com ela. Porém, qual era o problema? Era só um número de telefone para conseguir um apartamento novo. Deborah compreenderia, o provável namorado de Anabel também. Respirei fundo e pedi, tentando não gaguejar – Sim, vou anotar para você. – disse ela, pegando sua bolsa – Moça – ela acenou para a garçonete –, me traz um café, por favor. Sem açúcar.
Quando percebi, lá estava Anabel anotando em um bloquinho o seu telefone. Não havia motivos exatos para eu ficar feliz com aquilo. Era só um telefone.
– Aqui – arrancou uma pequena folha bege –, esse é meu telefone. Você pode me dar o seu, se quiser, fica mais fácil – ela pegou na xícara de café delicadamente. Peguei o bloco dela e a caneta preta. Nunca escrevi meu telefone com tanto jeito – Ah, que horas são? – olhei o relógio, meio atrapalhado.
– Faltam dez para as nove. – Anabel espantou-se, como se fosse uma péssima notícia. E era. Bebeu o café todo de uma vez. Deixou em cima do balcão o dinheiro para pagar e levantou-se – O que há?
– Eu vou me atrasar para o trabalho. E não sei se já passou ônibus daqui pro Loretto – disse ela, um pouco desesperada. Hesitei novamente em oferecê-la uma carona. Mas, não teria problema; eu já havia terminado o café, não tinha nada para fazer e seria como uma forma de agradecer o que ela fizera semana passada.
– Eu te levo – disse, envergonhado.
– Não, que isso. Você mora longe, eu...
– Tá tudo bem, eu posso te deixar lá – contestei –, sem problemas. Eu queria comprar uns discos mesmo – seria um prazer leva-la ao trabalho. Estava gostando de passar algum tempo com Anabel, e eu realmente queria conhecê-la melhor. “Ela parece ser incrível”, pensei. Talvez fosse mesmo.
– Tem certeza? Eu posso dar um jeito se... – interrompi-a com um olhar sarcástico, exigindo que fosse comigo – Bem, se você insiste, eu vou – ela riu.
Chamei a garçonete e paguei o café da manhã. Anabel estava com um leve sorriso e as mãos entrelaçadas uma na outra. Fiquei intimidado em passar mais ou menos uns vinte minutos com ela em um carro, porque talvez eu não fosse ter o que falar. Mas, ao mesmo tempo, eu gostava da ideia por ter uma oportunidade de saber melhor quem ela é. Seguimos, então, para o meu carro, estacionado quase sobre a calçada em frente à padaria. Procurei ser atencioso e gentil para não transparecer minha natural idiotice – abri a porta para ela e disse que poderia se sentir à vontade. Ela era como uma boneca de porcelana de tão delicada. Entrou no carro e ficou segurando a bolsa em seu colo. Quando sentei no banco do volante, observei aquilo e ri.
– O que foi? – ela perguntou, me encarando e sorrindo.
– Você não precisa ficar tão... – eu ri – assim, desse jeito. Relaxe, eu não mordo – ela riu também. Anabel tinha uma risada diferente, que combinava perfeitamente com ela. Era como aqueles risos angelicais, que são contagiantes e surreais.
Liguei o carro e segui o caminho para o Loretto. “Será que ela gosta de música?”, perguntei para mim mesmo. Era um tanto óbvio que ela gostava, já que ela trabalhava em uma loja de discos. Porém, não sabia se ela gostava do mesmo que eu. Não era certo que eu podia pôr Joy Division para tocar e ela fosse gostar. Mas também era ruim manter esse tempo todo em silêncio, então liguei o toca-fitas e começou Love Will Tear Us Apart. Sem dúvidas era uma das minhas músicas favoritas, de todas que eu já ouvi. Acho que era porque eu me identificava muito com o Ian Curtis e com todo o seu dilema de vida; a confusão consigo mesmo, o fato de se sentir tão perdido, de se ver tão fechado para o mundo. E era tão ruim pois eu nunca havera optado por ser assim. Eu gostaria de me sentir como os outros – ou de, simplesmente, sentir.
– Você gosta? – olhou para mim, sorridente e espantada – Meu Deus! Eu amo Joy Division! Eu tenho todos os discos lá em casa! – Anabel falava completamente empolgada com a situação. Eu mexi a cabeça, um tanto tímido, porque ela ainda me intimidava. Tinha um olhar grande e devastador, e eles pareciam poder matar qualquer pessoa com aquela doçura plena e solene. Era completamente diferente de Deborah, que tinha um olhar amargo.
Nunca me senti envergonhado na presença de Deborah, mesmo quando eu ainda não a conhecia completamente. Talvez eu soubesse, desde o primeiro momento que eu a vi, que ela era tão problemática que eu – mesmo que tivéssemos só doze anos de idade quando ficamos amigos.
– Gosto. É minha banda favorita. – ri – Eu gosto muito do Ian Curtis. Muito – ela riu, como se entendesse o porquê de eu gostar tanto. Talvez fosse nítido a minha tendência suicida.
– E do que você gosta mais? Tô falando de tudo, me diga o que você gosta em relação a tudo. – engoli seco, me sentindo mais intimidado ainda. Procurei respirar fundo e tentar dizer à ela que era complicado eu gostar de algo sem que fosse suicida ou triste – Vai, fala! Você gosta de ouvir de tudo ou tem coisas especiais? – bateu-me com o cotovelo.
– Acho que gosto de tudo em geral. Gosto muito de Joy Divison, Nirvana, Sex Pistols... – a cada banda que eu dizia, ela sorria – Essas coisas em geral me atraem. Gosto de Legião também. Eu queria ter uma banda.
Estávamos chegando ao Loretto, mas eu não queria sair do carro. Pensei: “eu deveria ter pego o caminho mais longo do mundo”. Almejava ficar naquele Santana para sempre, conversando com Anabel e ouvindo Joy Division. Finalmente eu estava me abrindo para alguém, e isto fazia-me sentir como se estivesse menos escurecido.
– Eu também, e acho que todos queriam. Eu queria saber cantar, queria saber compor, queria me encontrar em uma música... como não sei nada disso, eu trabalho no Loretto – comentou.
– Bem, eu não trabalho. – disse, esperando alguma repreensão por ser um homem desempregado – Mas fiz Letras na faculdade – contornei um pouco a situação, mas ela em momento algum olhou-me assustada ou com desprezo. Não era muito de uma pessoa como ela julgar as atitudes de alguém.
– Fiz Filosofia, mas não sei direito o que fazer com um diploma destes – suspirou. Era exatamente como eu me sentia. Não só com a faculdade, mas com tudo; eu era alguém que conseguia tudo que almejava, mas quando finalmente conseguia, não sabia mais o que fazer com aquilo. Eram como ter sonhos recortados e colados em uma folha branca; eles perdiam o sentido, a cor, a vida. De repente, você se encontrava em uma floresta com árvores gigantes, que escondiam o céu, sem saber o que fazer com nada, sem nem saber quem é você direito.
– Já pensou em dar aula? – perguntei. Paramos em um sinal e eu a encarei, com as mãos apoiadas no volante ainda – Porque eu já, mas Deborah acha que eu não saberia ensinar coisas.
– Deborah é sua mãe?
– Não – respirei fundo –, é minha... amiga. Amiga, é, é uma amiga – gaguejei. Não sabia ao certo como classificar Deborah em minha vida. Ela não era minha namorada, mas eu dormia com ela muitas vezes. Meus pais já a consideravam nora deles. Eu só queria entender o que ela era dentro de mim, mas talvez não dizer que ela era decerto minha namorada já me fazia entender tudo.
Anabel encarou-me com a testa franzida.
– Amiga? Não mais que isso? – perguntou. Com um olhar fixo no vidro do carro, mexi a cabeça positivamente. Ela deveras não era. “Esta é a hora certa de eu descobrir se ela tem um namorado”, pensei. E arrisquei.
– E você? Tem algum... “amigo”? – ironizei – Ou algum namorado? Já que você não parece ser uma menina de ter “amigos” – ela gargalhou e ficou um tempo quieta antes de responder.
– Não, não tenho nenhum “amigo” nem namorado. – enquanto amarrava o cabelo, ela respondia, cabisbaixa – Não sou muito destas coisas – refleti sobre o porquê dela dizer isto. Ela era bonita e legal, então devia chamar atenção de alguns caras. “Será que ela era tão puritana assim?”, pensei.
– Por que? – talvez eu estivesse sendo excessivamente invasivo, mas aquilo era necessário se eu quisesse conhecê-la melhor.
– Não sei. Ninguém fala comigo, então eu também não falo com ninguém. – riu – Mas e você e a Deborah? Vocês não parecem ser só amigos.
Não me senti confuso ou incomodado com as perguntas. Era interessante se abrir com alguém, ou se deixar abrir com alguém. Apesar de ter Olavo como meu melhor amigo, ele falava mais do que eu – e eu entendia que ele tinha essa necessidade de se expor para alguém o tempo todo para não se sentir sozinho. Eu gostava de fazer com que ele não se visse como alguém igual a mim.
– É complicado. Eu gosto dela mais como... amiga. Mas é complicado porque ela gosta de mim – o sinal abriu, então avancei, enquanto Anabel batucava a batida da música nas coxas.
– E ela sabe que você não gosta dela como ela gosta de você? – suspirei antes de responder.
– Saber ela sabe, ela só acha que pode “mudar” isso. O problema é que ela está há anos querendo mudar isso.
Anabel olhou para mim com um olhar pesado.
– Você devia dizer à ela que nada vai mudar. – levantou as sobrancelhas – Pois pelo visto ela gosta mesmo de você e não vai parar até que você – apontou para mim — a pare de verdade. Não deixe ela perder tempo com você.
– Perder tempo comigo? – ri – Sou uma perda de tempo? – não me senti ofendido, apesar de querer transparecer isto apenas para vê-la comovida.
– Não – pôs a mão em meu ombro –, não é! Só acho que ela poderia estar tentando outras coisas com alguém que goste dela como ela quer que você goste.
– Então não sou uma perda de tempo? – olhei rapidamente para ela – Obrigado – sorri.
– Até agora você tem tomado o meu tempo de uma forma bem positiva.
Comecei a diminuir a velocidade quando notei que estávamos bem perto do Loretto. Olhei para o retrovisor e vi Deborah atravessando a rua, sozinha, vestida como se não sentisse frio. “Fodeu”, sussurrei.
– O que? – perguntou.
– Nada, nada! Só suba os vidros! – falei alto, enquanto mexia na maçaneta para subir o vidro da janela dela. Anabel me encarou um pouco assustada – Não é nada, só... – de repente, ouço uma batida na minha janela, que estava um pouco aberta ainda. Era Deborah – Oi! – disse, tentando disfarçar o desespero.
Deborah estava com cara de zangada, mas mesmo assim, sorria. Fiquei receoso porque não queria que Anabel presenciasse uma cena típica de ciúmes de Deborah, que agia como uma louca.
– Quem é ela? – apontava para Anabel, que estava notavelmente constrangida pelo meu nervosismo, porém sorria e acenava levemente. Eu abaixava o vidro da janela aos poucos.
– Ah, é minha amiga, Anabel. Anabel, ela é a Deborah. – encarei-a com os lábios apertados – A gente precisa ir, então, depois eu falo com você – comecei a acelerar o carro, esquecendo que o Loretto ficava na rua onde estávamos.
– Espera! – Deborah gritou, mas eu já estava andando com o carro. Olhei no retrovisor e ainda a via parada na rua. Virei à direita e percebi que já havíamos passado do Loretto.
Pensava apenas no que aconteceria dali em diante. Deborah era completamente louca, e descobri isto desde quando ela me encontrara beijando outra mulher. Eu tinha medo que, a partir daquele dia, ela não fosse não me deixar em paz. E eu sabia; ela era a última pessoa do mundo que eu conseguiria segurar.
– Você tem certeza que ela não é sua namorada, Leo? – perguntou Anabel. Dei um riso baixo, balançando a cabeça.
– Juro que tenho. Ela que não tem certeza disso. Vou estacionar aqui, a gente sai e anda até lá. – encarei-a enquanto desligava o motor. Anabel sorriu como um anjo – Só vou pegar colocar o cachecol aqui atrás e pegar a jaqueta. Ela abriu a porta e saiu do carro enquanto isso.
– Leo... – disse – você tem algum guarda-chuva?
– Não – ri –, não ando com guarda-chuva. Por quê?
– Tá chuviscando, cara – olhei para o vidro, já coberto por várias gotas de chuva.
– Relaxa – peguei a jaqueta e saí do carro –, eu sempre tenho tudo no controle – fiz sinal para ela vir para trás do carro. Um vento frio bateu e esvoaçou seus cabelos, que se soltaram. Ela se aquecia com as próprias mãos, enquanto me olhava com um sorriso apertado. Quando chegou até mim, coloquei minha jaqueta sobre suas costas e a abracei – Vamos – disse, enquanto ela ainda me olhava com seus enormes olhos verdes.
– Vamos – e começamos a correr como loucos até a rua do Loretto.
A chuva caía e encharcava nossos cabelos. Anabel mantinha o olhar fixo para o chão enquanto eu procurava aquecê-la, acariciando suas costas. Seu suéter era macio como os seus cabelos, que tornavam-se mais escuros quando molhados. Os carros passavam perto das poças e eu conseguia sentir sua aflição.
– Calma – falei –, acho que eu tô um pouco... – ela gargalhou, enquanto a chuva apertava e eu tossia. Paramos no meio da esquina e começamos a encarar o céu. Eu estava ofegante.
– Pronto? – ela virou-se para mim e pegou na minha mão com os dois dedos. Fechei os olhos por algum segundo só para ter sentir como era abri-los e ver alguém como ela.
– Pronto.
Voltamos a correr, e o Loretto já estava bem perto de nós. Não soltei a sua mão, então fomos caminhando assim até chegar lá. Anabel falava algumas coisas das quais não consegui prestar atenção, por estar tão entretido andando de mãos dadas com ela. Sua mão era tão fofa, tão delicada; sentia vontade de soltar só por me envergonhar da minha, calejada, áspera e manchada pelo cigarro. Porém, eu não conseguia. Aquela sensação, de estar segurando as mãos dela, era uma das poucas que me faziam sorrir verdadeiramente.
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