Anabel
6 Céu
Notas iniciais
Eram seis da manhã e Anabel estava sentada ao meu lado, no banco do carona. Seguíamos a longa estrada, viajando até Rio das Ostras, onde passaríamos o final de semana na casa de praia de meus pais. Estava um pouco nervoso pela primeira vez que eu apresentaria formalmente uma garota como minha namorada aos meus familiares. Eu sabia que todos adorariam Anabel pelo simples fato dela ser absolutamente adorável. Ela parecia estar nervosa também, pois a todo instante estalava os dedos e respirava fundo.
– Você nunca me disse se tem irmãos – falou Anabel, um pouco sonolenta ainda.
– Nunca? Bem, eu tenho dois. Eduardo e Marina. São gêmeos.
– Que lindo! – comentou com as mãos no rosto – Eles tem quantos anos?
– Doze. Foi uma surpresa para mamãe e papai... e para mim também, claro. Mas foram a melhor coisa que podiam me acontecer.
O vento batia em nossos rostos e Anabel não parava de perguntar coisas sobre a minha família. Fiquei tranquilo por todos serem diferentes de mim. Meu pai era um homem honrável – um empresário honesto e calmo, que amava a família acima de tudo. Minha mãe era o que toda mulher gostaria de ser – uma advogada que, apesar de não ter muito tempo, nos colocava em primeiro lugar. Sempre trabalharam muito, então nunca foram tão presentes. Porém, foram pais excepcionais, e eu realmente não queria ter decepcionado à eles. Meu pai sempre esperou que eu não fizesse tanta besteira, mas nunca esteve tão ciente das besteiras que eu fazia. A minha única sorte foi que meus conflitos sempre foram mais internos do que externos, portanto, eu nunca fui detido pela polícia ou coisa do tipo. Apesar de acharem que Deborah fora minha namorada, eu nunca apresentara-a como tal. Acho que ficariam felizes por eu estar com Anabel.
Depois de algumas horas conversando, percebemos que chegamos à casa de praia. Estava linda como sempre estava para mim. O cheiro agradável da grama molhada pela mangueira, o Sol forte, o vento leve – tudo era de se admirar. Anabel olhava ao redor espantada com a beleza de todas as casas na rua. Eram todas coloridas e alegres, passando aos que viam uma vontade de morar ali pelo resto da vida. A minha casa era verde-claro, as madeiras cor-de-café e a grade, e o portão um verde-escuro belíssimo, recém pintado.
Papai estava na varanda, lendo jornal. Ele nos viu abrindo o portão e abriu logo um sorriso, vindo em nossa direção. Eu e Anabel estávamos de mãos dadas, e percebi que ela estava muito tímida.
– Não se preocupe – sussurrei em seu ouvido –, Bel, ele não morde.
Os braços de papai me envolveram e, finalmente, senti como se estivesse em casa. Mamãe viu pela janela da cozinha que havíamos chegado, então secou as mãos no avental e gritou meus irmãos para nos cumprimentar.
– E como você está, meu filho? – papai me disse, ainda com o braço sobre meus ombros.
– Estou bem, papai – dei um sorriso apertado.
– Enquanto essa moça linda deve ser sua namorada – papai foi interrompido com o abraço forte de mamãe, que agarrou-me como se não me visse há anos. Acariciei seus cabelos, que estavam macios como nunca. Mamãe era, junto à Anabel, a mulher mais linda que eu poderia ter conhecido. Apesar de estar entrando nos cinquenta anos, continuava uma moça. Os cabelos loiros claríssimos e ondulados caíam sobre seus ombros e a deixavam feito uma menina. O corpo de mamãe continuava esbelto; magérrima, altura média, os seios pequenos e em seu lugar, sem quase nenhuma marca da idade. Era perfeita.
– Mamãe! – falei enquanto ela me enchia de beijinhos pelo rosto – Também senti sua falta! – Esta é Anabel, gente. Anabel, essa é Lorena, minha mãe, e Luiz Fernando, meu pai. Mamãe, cadê a Marina e o Dudu? – ela foi até a porta da casa e gritou meus irmãos, que já vinham descendo a escada. Dentro de mim um furacão estava conturbando tudo. Eu estava tão feliz e animado por tudo aquilo estar acontecendo; já que finalmente parecia que tudo estava dando certo. Ou que, ao menos, algo na minha vida estava certo. Não me sentia mais errado, mais inconstante ou vulnerável. Senti-me como um novo Leonardo, como se tivesse nascido novamente e fosse igual à todos de minha família.
De repente, duas criancinhas com um pouco mais que um metro e cinquenta, magrinhas e sorridentes colocaram-se em frente de Anabel. Ela os encarava com profundo carinho, como se estivesse vendo seus próprios filhos. Eduardo se pôs com sua constante simpatia e foi o primeiro a cumprimentá-la, dando um forte abraço.
– Sou Eduardo, mas pode me chamar de Dudu – disse ela, olhando para Anabel — Após Marina, meu pai deu dois beijos em sua bochecha e sussurrou algo em seus ouvidos que parecia um “bem vinda à família Aguillar”. Segurei uma risada e envolvi Anabel com meu braço. Marina era introvertida demais para se apresentar direito, então ela apenas acenou, um pouco tímida.
– Vamos entrar? – perguntei, tirando os óculos escuros. Mamãe deu um sorriso apertado e foi a primeira a entrar na casa. Eduardo pegou a mão de papai e entrou, enquanto Marina andava devagar atrás deles.
– Ela é sempre assim? – Anabel perguntou baixo, perto de mim, quando Marina se afastou. Não sabia como explicar para Anabel que ela sempre fora assim, desde pequena. Ao contrário de Dudu, Marina sempre foi mais quieta, mais na dela. Falava baixo, pouco, como se estivesse sempre com vergonha de si mesma. Porém, ela era uma flor que desabrochava com o passar do tempo. Depois de algumas horas com Marina, ela se abria mais, falava mais um pouco, contava mais de si. Prendia os longos cabelos lisos e cor-de-mel e começava a falar sobre sua paixão por música.
– Daqui a pouco ela se solta – respondi, dando um beijo estalado em sua bochecha.
Entramos na casa e observei que tudo estava como sempre esteve. Os quadros que papai trouxe de suas viagens, o sofá de couro velho, a mesinha de centro, a televisão sobre a enorme estante de madeira escura; tudo em seu devido lugar. Levei Anabel até meu quarto, que ficava no segundo andar, e voltei para pegar as malas que estavam no carro ainda. Enquanto desci as escadas, ouvi mamãe gritar por mim na cozinha.
– Mãe? – falei, segurando no arco da porta da cozinha.
– Eu só queria dizer que ela parece ser adorável – mamãe comentou, passando a mão pelo meu rosto.
– Sim, ela é – ri.
– Então você e a Deborah eram só...? – interrompi-a, confirmando o que sempre dissera à toda família.
– Amigos, mamãe – apertei seu queixo com a ponta de meus dedos –, sempre fomos só amigos, apesar de tudo. Agora eu preciso ir buscar as malas – virei-me para a sala e bati nas costas de Eduardo, chamando-o para me ajudar. Pensei que ficando à sós com meu irmão, eu poderia matar a saudade que sentia dele, que quando menor, passara mais tempo comigo. Ele se levantou lentamente, como sempre. Caminhamos até o Santana, e ao abrir a mala do carro, Dudu disparou-me quase a mesma pergunta que mamãe fizera há poucos minutos antes daquele momento.
– Você e a Deb não eram namorados? – perguntou, puxando a maleta azul de Anabel.
– É – suspirei –, não éramos exatamente namorados. Éramos amigos, mas nos beijávamos às vezes. Mas quando eu conheci a Anabel, percebi que queria ficar com ela mesmo, então eu e Deb decidimos ser só amigos – respondi, bagunçando o cabelo dele. Ele olhou para mim, sorrindo de leve.
– E você gosta mesmo da Anabel?
– Gosto – respondi secando o suor do rosto –, eu realmente gosto dela – parei para pensar que, na última vez que eu havera contado à alguém que gostava de uma garota, eu tivera catorze anos. Aquele momento foi fundamental para a ideia de eu estar deveras apaixonado firmar-se como uma pedra no chão. Anabel estava morando em mim, em meu coração. Eu gostava tanto de relembrar e viver isto que era inexplicável.
Peguei a outra mala e seguimos até o meu quarto. Após as pormos sob a cama, papai anunciou, lá debaixo, que o almoço já estava pronto. Eduardo foi o primeiro a descer correndo, feito um louco. Anabel estava olhando as prateleiras, recheadas de livros que eu comprara antes de viajar.
– Eu nem sabia que você lia tanto. – comentou Bel, ao perceber minha presença no lugar – Jorge Amado? – ela apontara para O Sumiço da Santa.
– Leio de tudo no desespero de passar mais de três horas sem fazer nada – ri, abraçando-a por trás. Bel colocou suas mãos delicadas sobre a minha, e virou seu rosto para mim, dando-me um beijo no nariz. Devagar, fui pondo-me em sua frente, ainda entrelaçado em seu corpo. E, simplesmente do nada, encontrei-me em beijos calorosos com Anabel, como se estivéssemos vivendo todo nosso amor em um só dia.
Papai gritou nossos nomes mais uma vez, então descemos, de mãos entrelaçadas. A mesa estava lindamente arrumada, como sempre. Uma maravilhosa paella, um prato tradicionalmente espanhol. Em volta, havia umas latas de cerjeva, refrigerante, uma porção de arroz, peixe e camarão frito. Ao olhar para Anabel, percebi a felicidade que a tomou – já que ela tivera me contado uns dias antes da viagem que amava frutos do mar.
– Eu contei à mamãe que você adorava comer estas coisas, então ela cozinhou um típico prato da nossa terra para você – ri, abraçando-a. Ela riu também e sentou em uma cadeira bem ao lado da minha. Papai deu um belo sorriso e pegou um pouco da paella para pôr em seu prato. Mamãe, enquanto isso, servia aos meus irmãos, que estavam sentados em nossa frente.
– Eu e a Neidinha – ela gargalhou.
– Falando nisso, cadê ela, mãe?
– Neidinha foi no mercado comprar umas coisas para o lanche. E comprar sorvete porque esses teus irmãos estavam me perturbando porque acabou o de chocolate.
Cochichei à Bel que Neidinha era uma de nossas empregada de tantos anos, que já era da família. Depois disto, começamos a almoçar e meus pais começaram a perguntar as coisas que todos os pais perguntam aos que estão namorando seus filhos. Graças a Deus Anabel não ficou intimidada – até porque mamãe e papai não fizeram nenhuma pergunta constrangedora. Mamãe, que era um pouco ciumenta comigo, até que estava bem aberta com Bel.
– Então você fez Filosofia? – ela perguntou para Anabel, que estava pegando um filé de peixe. Ela respondeu mexendo a cabeça, pois estava com comida na boca. Mamãe sorriu e comeu um pouco da paella em seu prato. Aspirava no ar uma harmonia familiar que eu pouca vezes sentira. Adorava olhar para papai e perceber que ele ainda olhava para minha mãe com uma ternura infinita. Mamãe continuava um poço de doçura; não só comigo, mas com papai também. Mesmo depois de vinte e sete anos de casados e mais oito de namoro, eles continuavam apaixonados. Pensei se, daqui a algumas décadas, seria assim o meu relacionamento com Anabel. E era óbvio; não havia nada naquele momento que eu almejasse tanto quanto que o meu amor com Anabel fosse tão duradouro quanto o de papai e mamãe.
– E como vocês se conheceram? – papai perguntou.
– Bem – ela suspirou, limpando a boca com o guardanapo –, eu trabalho no Loretto. O Leo não sai de lá, então um dia a gente acabou se encontrando – ela disse, olhando para mim. Umedeci os lábios e dei um sorriso apertado.
– Ah, então você trabalha? Graças a Deus! Influencie este garotão a fazer o mesmo que você, por favor! – papai comentou, com um pouco de comida na boca. Mamãe sorriu de leve, com seu jeito gentil de sempre.
Após as perguntas, comemos tranquilamente. Neidinha chegou durante o almoço, cumprimentou todos nós e foi até a cozinha. Não demorou pouco para papai fazer o que era previsto: estar tão feliz pelo fato do filho estar namorando uma moça correta que apresentaria para todos que não a conhecessem.
– Neidinha, você já viu a namorada do Leleco? – papai gritou. Neidinha veio até a porta da cozinha e ficou me encarando, com um sorriso apertado. Senti uma ligeira vontade de esconder-me embaixo da mesa, só pelo fato que papai estava me chamando de Leleco; um apelido infeliz que uma prima minha me dera porque não conseguira falar Leonardo. Ninguém me chamava assim faziam uns treze anos.
– Ah, então essa é a sortuda? – respondeu Neide, acenando para Anabel. Bel sorriu para ela, um tanto tímida.
O telefone tocou, e simultaneamente, papai fez uma cara de irritado. Ele detestava coisas que interrompessem o almoço ou o jantar. Antes que mamãe se propusesse em atender, Neide foi até a estante e atendeu. Sua expressão após dizer “alô” não foi uma das melhores. Os lábios apertados juntos à testa franzida de Neidinha anunciava que viria uma notícia ruim.
– O que houve, Neide? – mamãe perguntou, ficando aflita.
– É a dona Deborah. E ela quer falar urgente com o Leo, tá muito nervosa, dizendo que o que tem para falar é sério.
“Fodeu de vez”, pensei. E, sem dúvidas, para ela ligar para o meu telefone da casa de praia, estava tudo fodido mesmo. Estava vivendo um dia com um belo céu azul, que de repente, tornou-se absurdamente nublado.
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