Notas iniciais
Eu adoro poder dizer que fiz este capítulo ouvindo How Soon Is Now, dos The Smiths. Vocês deveriam ouvir esta música enquanto leem.

– Não, meu Deus, isso não tá acontecendo! – esbravejei, quase derrubando as coisas que estavam na mesa.

Era um pesadelo total. Deborah conseguiu transformar toda a felicidade de ter passado um belo final de semana ao lado de minha família e de Anabel em um pesadelo. Como sempre, ela estava estragando tudo. Porém, eu não poderia culpá-la pelo o que estava acontecendo; a irresponsabilidade fora tanto minha quanto dela. Mas era tão difícil e tão doloroso pensar que tudo mudaria – e que os riscos entre eu e Anabel mudarmos era enorme.

– Você acha que eu estou feliz, Leonardo? Você realmente acha que eu tô feliz com isto? – Deb secou as lágrimas e respirou fundo – Eu tô tão assustada quanto você.

– O problema, Deborah, é que não temos como ter um filho! Não temos como criar uma criança sendo como somos! – passei as mãos pelo cabelo, tentando me acalmar. Meu copo de vodca ainda estava na mesa, então tomei um gole, puxei uma cadeira e sentei, apoiando minha cabeça em minhas mãos.

– Você não tá querendo que eu tire o bebê, não é? – ela levantou, furiosa. Claro que pela minha mente aquela ideia havia passado, mas era inconcebível. Jamais me sentiria confortável comigo mesmo sabendo que eu fui capaz de tirar a vida do meu filho só porque eu não era maduro o suficiente para criá-lo. Se desde o meu nascimento até aquele dia, eu vivera uma vida de diversão e egoísmo, aquilo deveria terminar naquele momento. Era um filho; um filho meu e de Deborah. Antes de nascer, esse filho já tinha tudo para ser perdido. Criaríamos um ser humano, que por um bom tempo iria depender exclusivamente de nós; e nós ainda éramos perturbados deste jeito. Aquela era a hora perfeita, não só para mim, mas para Deborah também, para finalmente tomarmos vergonha na cara e agirmos como adultos de verdade.

– Não, Deb, claro que não. – levantei da cadeira e sentei ao lado dela, no sofá – Vamos ter este bebê. E vamos amadurecer com tudo isto – peguei em sua mão e apertei forte. Sentia dentro de mim que Deborah não estava fazendo um teatro para eu voltar a ficar com ela. O pavor dela era real; mais real que nunca. Não me lembrava de ter visto Deborah tão desesperada em toda minha vida, desde que eu a conhecera.

Queria fazer com que Deborah parasse de pensar que estava sozinha. Eu estaria ao lado dela o tempo todo, já que agora tinha algo muito além de nós em jogo. Não me passava pela cabeça abandoná-la, afinal, eu sabia que ela era capaz de fazer uma besteira consigo mesma se se sentisse deixada para trás.

– Mas, Deb, você tem certeza que está grávida? – perguntei, ainda segurando em sua mão.

– Sim, Leo. Eu fiz o teste e vou ao médico semana que vem – ela ainda secava as lágrimas frias e desesperadas que rolavam pelo seu rosto bronzeado. Sempre pus-me a entender como eu nunca me apaixonei por Deborah. Ela era linda, linda mesmo. Os cabelos pretos eram tão escuros quanto carvão, e isso dava um contraste maravilhoso com sua pele branca, mas sempre abaçanada. Eu já torcia para que o bebê puxasse exclusivamente a beleza violenta de Deb.

– E você tem certeza que...? – orei para que ela entendesse o que eu decerto queria saber e não me obrigasse a completar a frase.

– É seu, Leo – ela apertou minha mão firmemente –, eu juro que é. Não durmo com nenhum cara sem ser você faz uns dois anos – Deborah apoiou sua cabeça sobre meu ombro.

Apesar de tudo, parecia que o turbilhão de sentimentos ruins estava passando. Não me sentia mais horrível por ter sido irresponsável ao ponto de ter engravidado alguém, nem me sentia tão assustado. Papai sempre me ensinara a lidar com tudo de cabeça erguida e fazer dos obstáculos uma vitória. O bebê – o meu bebê, por sinal – seria uma vitória no final. Sabia que aquele ser que estava se formando na barriga da minha “ex-amiga” seria quem me faria amadurecer mais ainda e me tornar um homem digno, como sempre quis ser e não consegui. Eu só estava com medo da reação de Anabel ao descobrir que eu seria pai. É claro que eu deveria me preparar para tudo quando fosse contar à ela, mas era difícil. O medo de perdê-la, o medo de perder todo o seu amor, o medo de perder o que ela havia me dado era como uma bomba nuclear. Eu estava amando a Anabel como nunca amei nenhuma garota, mas eu também não podia esquecer que agora eu seria pai – e que lidar com uma paternidade tão repentina e inesperada não seria fácil para mim.

– Já pensou se é menino ou menina? – ri, mexendo o ombro que ela se apoiava.

– Não sei, mas acho que vai ser um menino. Dizem que a mãe sempre sabe o sexo do filho – Deborah riu também, umedecendo os lábios.

– Mamãe achou que estava esperando mais um menino, e acabou que veio a Marina e o Eduardo. Ela deve ter faltado essa aula – rimos mais ainda. Era bom sentir que, em meio de toda a confusão, eu teria com quem partilhar o que eu estava sentindo, já que esta pessoa estaria sentindo a mesma coisa.

– Sabe um nome legal para menina? Sofia. Sofia é um nome lindo – ela se levantou de meu ombro e ficou me encarando, sorrindo de leve.

– Nossa – franzi as testas –, eu nunca tinha pensado nesse nome. É lindo mesmo.

Por um momento, aparentava que estávamos vivendo uma coisa fora da realidade. O nervosismo aloprado ia sumindo cada vez mais e começávamos a nos tratar como amigos de verdade. Deborah fazia mais e mais planos para o bebê e sempre ressaltava o seu desejo imenso que ele não se tornasse alguém como ela. E era muito estranho; apesar de todos os defeitos de Deborah, eu admiraria muito meu filho se ele tivesse a mesma personalidade da mãe. Nunca conheci ninguém com um ímpeto tão afiado quanto Deb – por mais que existam malefícios de ser assim, era gracioso ser alguém que seguisse suas vontades plenas e gostasse de viver. O pior que eu poderia ver pelo resto de minha vida seria meu filho sendo morto e impassível como eu fui. Nunca que eu me perdoaria por ter feito tantas coisas porque achava que nada mais podia piorar, ou porque eu não me achava capaz de ter algo melhor. Deb era diferente. Deb vivia, sentia e morria pelas coisas ligadas à ela, mas porque ela pôs suas emoções loucas lá.

Deborah era admirável. Eu ainda não entendia o porquê de eu nunca ter me apaixonado por ela.

– Você acha que a Anabel vai se sentir bem sendo madrasta? – Deb umedeceu os lábios mais uma vez e deu um nó no cabelo.

– Eu não sei... eu... – gaguejei. O interfone tocou e eu o encarei intrigado, já que eu não esperava ninguém – Vou atender – levantei do sofá e fui até a entrada do corredor atender. Ao ouvir a voz do porteiro pronunciando o nome de Anabel, arrepiei-me por completo. Seria um desastre caso ela encontrasse Deborah ali comigo. Bel nunca acreditaria que estávamos ali como amigos e como companheiros, já que seríamos pais da mesma criança. E, mesmo se ela acreditasse, não era assim que eu planejava contar à ela que Deb estava grávida de mim. Na verdade, eu ainda não havia nem pensando em como dizer isto para ela. Porém, eu sabia que Anabel ficaria tão aborrecida quando subisse e visse eu e Deborah ali que seria capaz até de pensar que fizemos um filho naquele mesmo momento.

O bater na porta de madeira ecoou sobre a minha sala pouco decorada. Os olhares entre mim e Deb ficaram pesados, e antes de abrir a porta, respirei bem fundo. “Prepare-se para tudo, entenda qualquer reação”, eu repetia à mim mesmo dezenas de vezes a cada passo que eu dava para destrancar a fechadura.

Abri a porta e Bel estava linda e sorridente, como um anjo. Passei a mão por todo o meu cabelo, franzindo o cenho. Não queria tirar aquele sorriso do rosto dela, não mesmo. Porém, ele sumiu logo quando abri um pouco mais a porta e ela pôde ver Deborah sentada no sofá, com as mãos sobre os joelhos. A ruivinha fez uma cara para mim que eu nunca tinha visto desde que a conhecera. Seus lábios foram tampados por suas pequenas mãos em seu rosto, que se movimentavam de acordo com sua respiração. Tentei pensar em algo racional para falar, porém nada vinha em minha mente. Anabel mexia lentamente o rosto e olhava para os lados, sem rodar a cabeça.

– Bel, eu... eu posso realmente... – ela entrou como um tornado dentro da sala.

– Você pode explicar, Leo? Então tá, explique, acho que eu tô nervosa demais para entender. Porque eu nunca tinha dito que não queria mais que você falasse com a Deborah, mas depois das poucas vezes que eu pude presenciar o quanto que ela é louca – Bel apontou para Deb, sem nem mesmo olhar para ela – por você, você quer realmente que eu fique calma ao ver que ela tá na sua sala?! – levou a mão ao seu rosto novamente, engolindo o choro. Não aguentei; minhas lágrimas começaram a cair como se eu fosse uma criança sentindo falta dos pais.

– Bel, olhe pra mim – segurei-a pelos ombros –, eu não estou namorando com ela. Eu amo você, Anabel, só você! Não estava acontecendo nada aqui, eu te juro! – percebi que estava quase gritando.

– Então o que tava acontecendo, Leo? Diz, por favor, porque eu preciso muito saber – os lábios de Anabel tremiam e seu choro se fortalecia cada vez mais. Aquela cena quebrava meu coração ainda mais.

Tudo na vida pode piorar. Tomei ciência disto quando aquela situação estava tenebrosa, e Deborah fez questão de ser tola e jogar tudo no ar.

– Eu vim contar ao Leo que eu estou grávida – Deb disse, levantando-se do sofá –, Anabel. Grávida – Bel virou o rosto lentamente para onde Deborah estava e olhou para ela com os olhos absurdamente arregalados. Ela estava chocada. A cada piscar de seus olhos, as lágrimas caíam como correntezas do mar. Pensei em mover minhas mãos até seu rosto para secá-las, mas talvez fosse ousado demais. Conseguia imaginar e sentir um pouco do tornado de emoções que estaria dentro de Anabel. De repente, ela virou o rosto para mim, com os cílios cerrados e os lábios apertados. Eu sabia; o coração dela e todo o seu amor pedia socorro, mas eu não poderia auxiliar.

– Bel... – mexi negativamente a cabeça, bem devagar – Eu não... – Anabel me empurrou para longe e se afastou ainda mais, esbarrando na cadeira da mesa de jantar. Ela voltou a pôr as mãos em sua boca. Sentia-me tão culpado por estar fazendo Anabel sofrer. A culpa rodava em minha mente junto ao todo aviso que minha baixa autoestima dera, quando dissera que eu não seria capaz de fazer uma pessoa tão maravilhosa quanto Anabel feliz. Se eu pudesse acabar com tudo naquele momento, eu acabaria. Não havia dor maior do que sofrer porque você fez quem você mais amava sofrer por sua exclusiva causa.

Após alguns segundos, Anabel secou as lágrimas em seu rosto e saiu da sala como um furacão. Quando vi que ela estava fora do apartamento, não senti raiva nem ódio, apenas tristeza. Pela primeira vez Deborah tinha feito merda – e uma das maiores que ela tivera feito – e eu não estava com vontade de matá-la. Eu só queria chorar; chorar até não poder mais. Mais uma vez, estava diante da dor de Anabel ter ido embora da minha casa e do medo dela ter ido embora da minha vida também. Porém, diferente da outra vez, agora parecia ter uma possibilidade muito maior dela me deixar, me esquecer, me matar dentro de si. Acho que não teria nada ainda mais doloroso do que eu estava sentindo que fosse maior do que todas as dúvidas que eu estava tendo em frente àquela situação. “Por favor, meu Deus, que ela me perdoe um dia”, orei, de olhos fechados, ainda ao lado da porta da sala. Antes que Deborah viesse atrás de mim, tranquei a fechadura e fui até meu quarto. Tranquei a porta de meu quarto também e decidi que poderia ficar ali pelo resto da vida, enquanto Anabel não voltasse – e enquanto meu filho não nascesse. Pois, eu sabia que nada faria sentido enquanto eu não pudesse ter a presença destas pessoas.