Anabel
10 Bebê
Notas iniciais
Havíamos acabado de sair da consulta de Deborah com o obstetra. Depois de quatro meses passados desde a descoberta que seríamos pais, decidimos saber o sexo do bebê, por conta da curiosidade de meus pais. O obstetra havera dito que a posição do bebê deixava em dúvida o órgão genital, mas que, provavelmente, era um menino. Um menino. Nunca sequer pensei em ser pai, e agora, urrava como louco porque seria pai de um garotinho. Já passavam pela minha cabeça os momentos que eu o levaria para escola. E o nome? Thiago? Luiz – como meu pai? Eram tantos em mente. Antes do ultrassom, eu nem acreditava que teria um filho.
– Que tal o nome do seu pai? Ou do meu? – perguntei, enquanto caminhávamos pelas calçadas de Copacabana.
– Meu pai é alemão, Leo. Não vou colocar o nome do meu filho de Hillbert. E seu pai tem nome duplo – ela suspirou, cansada.
– Que tal Fernando?
Deb me encarou franzindo o cenho.
– Credo, Leonardo. Não – ela suspirou –, queria um nome bíblico, sei lá.
Ri.
– Ah, porque você é da igreja, é – ironizei.
– Para, cara – ela riu.
– Miguel, então? – sugeri.
– É um nome bonito, mas gosto de... Daniel.
De repente, percebi o quão belo era aquele nome. Olhei para Deb, com um sorriso leve e apertado.
– Acho que eu também.
– Bonito – ela sorriu –, né?
Respondi mexendo a cabeça positivamente.
Uma chuva fina começou a cair repentinamente. Olhei para o céu plúmbeo e atípico, quando uma gota gelada caiu em minha testa. Tirei meu casaco preto e pus sobre as costas de Deb, que me encarou espantada. Realmente, talvez meu ato de gentileza e cavalheirismo fosse motivo de espanto. Não me lembrava de nenhum outro momento que eu fora gentil com Deborah. E, mesmo assim, ela sempre fora um amor comigo. Apesar de seu jeito confuso e impetuoso, Deb sempre esteve comigo. Agora estaríamos juntos para sempre – seja lá como fosse.
– Obrigada – ela segurou o casaco em seus ombros.
Sorri.
– Bem – suspirei –, acho melhor irmos para casa.
– Sim, vamos pegar um táxi.
Abaixei para amarrar o cadarço do meu tênis. Deb sequer percebeu e foi atravessar. Nunca pensei que, em poucos segundos, minha tranquilidade se transformaria em profundo desespero. Ao pôr os pés para fora do meio-fio e da alguns passos, tudo mudou. Tudo. Deborah, distraída, não viu o carro que estava vindo em alta velocidade na avenida. O Fiat Uno branco atingiu-a em cheio. Senti um aperto tão grande em mim que pensei até que tivesse levando um tiro. Não consegui fazer nada até ouvir o barulho da batida. O carro freou e todos olharam, perplexos. Levantei, desesperado, e fui até Deborah, que estava estirada no chão. Ajoelhei-me e comecei a chorar.
– Não, não mexa nela, amigo – um moço meio quarentão gritou, vindo até nós. Meus olhos já estavam cheios d'água. As pessoas se aproximavam cada vez mais.
– Alguém chame um médico, pelo amor de Deus! – gritei, aos prantos.
O motorista do carro que atropelou Deb estava em choque dentro do carro. Ele olhava fixo para o volante. Estava boquiaberto. Pensei em ir lá e dar uma surra na cara deste infeliz que não parou o carro antes, mas Deborah nem atravessou na faixa. Porém, naquele momento, eu não deveria culpar ninguém. Estava preocupado com Deb e com o bebê. Só sentia vontade de chorar diante de toda aquela situação.
– Leo? – Deborah tentava abrir os olhos. Seu rosto estava um pouco ensanguentado por causa dos arranhões. Ela parecia respirar com dificuldade; isso me afligia mais e mais. Não me preocupava só com ela, mas com o nosso filho também. Daniel estava ali dentro. Só de pensar na ideia que ele poderia não aguentar aquele acidente, meu corpo congelava. Peguei na mão de Deb e fiquei segurando forte para mostrar que eu estava ali.
– Deb, eu tô aqui. Vai ficar tudo bem... vai ficar tudo bem... – eu acariciava sua mão enquanto repetia aquilo para me tranquilizar. Eu parecia uma criança em choque. Estava tão nervoso, tão aflito, tão amedrontado. Tudo aparentava ser um grande pesadelo.
Deborah levantou o outro braço e foi em direção a sua barriga, afagando-a. Eu podia sentir o que ela estava transmitindo para o nosso bebê. Naquele momento, incrivelmente, ela era o ser humano mais calmo de toda a situação. Eu me perguntava como. Como ter tanta calma quando se é atropelada e está grávida. Foi então que pensei o quanto Deb estava mudada – ou simplesmente externando um lado maduro do qual jamais tive acesso. A moça com um bronzeado americano dos anos 80, cabelos pretos como carvão e olhos de malícia não era mais a louca que fazia o era preciso para conseguir o que queria. Agora era outra; a moça suave, destemida e inteligente. Se bem que destemida Deborah sempre fora desde a nossa infância. Não hesitava em ser a primeira a fazer qualquer coisa – mesmo que duvidassem dela. Às vezes – maioria delas, na verdade – eu desejava que meu filho tivesse a mesma coragem que a mãe tem.
Dentro de mim, o céu ficava negro. Os ruídos urbanos, a falação das pessoas que nos cercavam e a sirene parecia estar longe e perto ao mesmo tempo. Minha mente se tornava falha; em alguns segundos eu estava ali, e outros não.
**
Encontro-me, então, no hospital. Minha mão ainda entrelaçada a mão de Deborah. Ela estava em uma cama, cheia de fios e com alguns arranhões que eu não tinha percebido antes. Estava dormindo, e parecia respirar normalmente. Eu me sentia tão estranho, tão fora de mim. Os acontecimentos estavam confusos e minha memória estava cheia de furos. Não lembrava sequer como havíamos chegado até o hospital. Porém, lembro, antes de tudo, do atropelamento. Das rodas daquele Fiat Uno branco que caminhava com velocidade pelo asfalto da Barata Ribeiro. Do barulho da batida do carro em Deborah. Do meu desespero. Dos gritos. Das sirenes.
Um médico negro, alto e um pouco esbelto entrou no quarto um pouco avoado. Gelei, então respirei fundo. Ele sorriu, veio até mim e estendeu a mão. Cumprimentei-o rezando para que Deus me desse coragem de perguntar como estava Deborah e o bebê.
– Bem, a paciente está bem. Foi uma batida ruim, mas não teve muita fratura. Até amanhã ela já deve ter tido alta.
Respirei fundo mais uma vez.
– Que bom. E... o bebê? – meus olhos se encheram de lágrimas. Antes de qualquer coisa, o medo já me feria. Finalmente eu estava me tornando alguém cada vez menos egoísta. A minha vida estava parando de ser tão minha; eu estava vivendo para aquele bebê. E eu já amava-o mais do que tudo.
– O bebê está bem também, mas devo dizer que deve-se tomar cuidado. A paciente tem uma saúde um pouco frágil, e nenhum acidente é bom para uma mulher grávida – disse o médico enquanto encarava uma prancheta. Só de dizer que o meu filho estava vivo e bem um peso foi tirado de minhas costas.
– Leo? – Deborah acordou e me chamou com uma voz fraca. Ainda parecia estar um pouco abalada por conta do acidente. Instantaneamente, virei-me para ela e sorri. A tranquilidade se estabilizava em mim cada vez mais. Talvez eu nunca tenha sentido uma preocupação e medo tão grande.
– Oi – caminhei até o lado direito de sua cama.
– Senhora Deborah – o médico veio até nós –, está tudo bem. Amanhã podemos liberá-la – deu um sorriso apertado. Deborah suspirou.
– Está tudo bem com o bebê também? – perguntou umedecendo os lábios. Entrelacei levemente meus dedos aos dela e apertei.
– Sim, sim. Mas, como disse ao seu marido, é preciso ter cuidado. É uma gravidez de risco. Recomendo total repouso. Evite qualquer tipo de esforço e faça sempre os exames. Bem, eu preciso ir mas... chamem se precisarem. Com licença – o doutor saiu do quarto. Respirei fundo mais uma vez e levei minha mão até os cabelos de Deb. Afaguei-a. Ela dava sorrisos apertados bem suaves, como se fizesse muito esforço para aquilo. Pensava em algum assunto para puxar e quebrar o clima ruim mas eu estava assustado demais para isso.
– Agora somos casados – disse Deb rindo levemente. Ri também.
– Talvez eu devesse contar isso à Bel. Acho que ela ainda não sabe.
Deb suspirou.
– Vocês estão... bem? – perguntou ela. Espantei-me porque nunca imaginaria que Deborah estaria preocupada com o meu relacionamento com Anabel. Era um pouco nítido que não fazia mais parte da realidade de Deb ser obcecada por mim nas horas vagas, mas ainda sim era muito esquisito. Não mostrei meu espanto, apenas apertei os lábios e respondi.
– É, acho que sim. Hoje é que dia? – subitamente lembrei-me que havera chamado Anabel para ir lá em casa.
– É segunda. Dia dezessete. Ai... – gemeu ao mexer o braço.
– Espera um segundo... eu vou na recepção ligar para o Loretto e falar com ela – fui em direção a porta para sair do quarto –. Você aguenta ficar sem mim? – virei o rosto para Deb e ironizei, enquanto torcia a maçaneta.
– Vou morrer de saudades – ela riu. Ri também e saí.
Tinha mentido um pouco. Eu e Anabel não estávamos tão bem; não como antes. A felicidade colossal se esvaziava de nós dois e nos afastava. Eu continuava amando Bel. Imensa e intensamente, exatamente como há seis meses atrás. Mas ela estava diferente de umas semanas para cá. Estranha. Agora, quando estávamos juntos, seus olhos ficavam vazios. Seus grandes olhos verdes e infantis estavam ocos. E não adiantava eu perguntar o que diabos estava acontecendo porque ela sempre dizia que não era nada.
Cheguei a recepção e havia uma senhora muito simpática no balcão.
– Boa tarde – sorri. Ela respondeu mexendo a cabeça positivamente e sorrindo –, eu poderia fazer uma ligação? É que eu queria falar com a minha namorada... vai ser rápido – sorri mais uma vez.
– Claro – ela pegou o telefone da bancada e levou até a mim.
– Muito obrigado – falei. Peguei o telefone e disquei o número do Loretto. Era muito vantajoso ter decorado o número da sua loja de discos favorita cuja a sua namorada trabalha. Rapidamente me atenderam. Perguntei por Anabel e se poderia falar com ela. O rapaz na outra linha disse que Bel não foi trabalhar hoje. Fiquei meio surpreso e curioso. Anabel amava o seu trabalho mais do que tudo. Não conseguia achar um motivo concreto que a faria faltar e que não comentasse comigo. Agradeci e desliguei, pondo o telefone no gancho.
Antes que me virasse e voltasse para o quarto, resolvi ligar para a casa de Anabel, então.
– É... a senhora deixaria eu fazer só mais uma ligação? Vai ser bem rápido, eu juro – dei um sorriso apertado. Ela concordou e voltou a organizar alguns papéis. Disquei o número da casa de Anabel. "Que ela atenda, que ela atenda...", eu repetia para mim mesmo.
– Alô? – uma voz meio rouca atendeu.
– Bel?
– Leo? – a pessoa perguntou. Tive quase certeza que era Anabel.
– É! Eu liguei para o Loretto mas... você não estava. O que houve? – perguntei desconfiado. Ouvi um suspiro na outra linha.
– Pedi para faltar. Não estou me sentindo bem. Onde você está? – retrucou entre tosses.
– No hospital com a Deborah. Aconteceu algo horrível, ela foi... – antes que pudesse completar a frase, Anabel me interrompeu.
– Claro, com Deborah. Já reparou que tudo que você tem feito ultimamente tem "com Deborah?" no final? – ela aparentava estar irritada. Tão irritada que não deixava eu explicar o porquê de eu estar no hospital.
– Anabel, ela foi... – fui interrompido mais uma vez.
– Você quer saber de uma coisa, Leonardo? Eu achei que eu poderia suportar tudo isso, mas tá impossível. Até porque seu mundo tem se resumido na Deb! – gritou.
Respirei fundo antes de responder.
– Ela é a mãe do meu filho, Anabel! Quando foi que você ficou tão egoísta? Meu Deus! – percebi que estava gritando também. Algumas pessoas que estavam na recepção do hospital me encaravam, inclusive a senhora simpática. Pus o telefone no ombro – Desculpa.
– Ah, quando foi? Quando eu descobri que eu estava grávida também – gelei. Meu coração parecia estar parado e batendo forte simultaneamente – Eu nem sabia como contar isso, mas agora já te dei essa novidade. Parabéns, papai – Bel desligou.
Não sei descrever ao certo o que eu estava sentido. Sentia-me fora de mim, com a alma pairando no ar. Eu seria pai. De novo. Anabel estava grávida – e ao mesmo tempo que Deborah. Estava tudo uma loucura. Mais uma avalanche desceu sobre mim; mas dessa vez, com o dobro de força.
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