Ana e Seus Olhos
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Os dias se passaram. Ana tentava agir como se nada tivesse acontecido enquanto Dalila nunca mais foi a mesma. Continuava abalada. Não contaram a ninguém sobre o ocorrido. Dalila sentia muito medo da possível reação de Agenor. Mas o tempo passou. Júlia foi embora de casa pra morar com a namorada. Foi o tempo em que Ana dormia na casa de Dalila constantemente, sabia que a amiga precisava de companhia.
Num belo dia, sozinha em casa, Ana refletia. Naquele dia ela tinha passado horas sentada no sofá, pensando. Planejando. Pegou o celular. Thomas andava de skate ainda com um curativo na cabeça e outro na mão. Seu celular tocou. Ficou surpreso ao ver quem era. Com uma voz safada, Ana dizia que não havia ninguém em casa. Thomas estranhou. Ana se justificava dizendo que queria esquecer qualquer mágoa do passado. Que Dalila até tinha gostado da orgia que teve com eles. Thomas deu uma risada maliciosa. Uma risada que fazia Ana sentir nojo.
Combinou de aparecer em sua casa ao anoitecer. Ana dizia que esperava ansiosa. Thomas mal podia acreditar. Olhou-se no espelho sem camisa. Admirava seu corpo definido e suas tatuagens. Tomou banho. Se masturbou pensando na noite de sexo que o aguardava.
Arrumou-se. Vestiu a mesma camiseta preta do dia em que conheceu Ana. Pôs-se a andar até a casa da menina.
Bateu na porta, mas esta não estava trancada. O leve toque da mão de Thomas fez a porta abrir-se por completo. Adentrou a casa chamando o nome de Ana. As luzes todas apagadas. Escuridão. Thomas caminhou um pouco mais. Sentiu que pisava num enorme plástico no chão. Até ouvir um barulho de porta se fechando com violência.
Quando se virou, sentiu uma forte dor que o fez cair no chão. O impacto se repetiu. De novo. De novo. Até que Thomas não sentisse mais dor. Até que um estado de inconsciência eterna cobrisse a mente de Thomas.
O sangue não sujou o chão devido ao enorme plástico que o forrava. Ana deixou o martelo de prata ensanguentado em cima da mesa e enrolou o plástico com Thomas dentro. Arrastou até o banheiro deixando um rastro de gotas vermelhas pelo chão. Desenrolou o plástico que já estava ensopado de tanto sangue e pôs o grande e forte corpo de Thomas na banheira. Percebeu que havia batido em sua cabeça com tanta violência que era possível ver seu crânio por dentro daquela cratera vermelha. Os olhos de Thomas estavam abertos.
Ana os encarou por um instante. Olhos lindos. Brilhantes. Mortos. Tirou um canivete do bolso e arrancou suavemente os olhos de Thomas. Enrolou-os delicadamente num pano e guardou no bolso. Pegou um pano de chão, um rodo e um balde. Limpou todo o sangue que havia pingado no chão. Limpou o sangue do martelo de prata. Foi até o galpão, pegou uma grande caixa de violoncelo e uma serra.
Começou cortando a cabeça de Thomas. Sangue se espalhava pela banheira e pelo chão do banheiro. Depois de arrancar completamente sua cabeça, deixou o sangue escorrer por completo. Ligou a torneira. As águas se misturavam com o sangue que escorria pelo ralo.
Pôs a cabeça mais afastada do resto do corpo e pôs-se a cortar um dos braços. Depois o outro. Depois as pernas. Partiu sua barriga definida pela metade. A serra se enroscava nas duras costelas. Passou horas e horas. Não tinha pressa.
E da maneira mais absurda possível, Ana finalmente se sentiu no controle da situação. Nem raiva, nem medo, nem tristeza, nem alegria. Naquele momento, Ana nem sabia mais o que era sentir.
O celular de Dalila tocou. Esta que se encontrava deitada na cama, fingindo que estava morta. Atendeu. Ana a chamava pra vir até em casa. Dizia que tinha uma surpresa. Dalila sentiu empolgação na voz de Ana. Chegando lá, encontrou Ana no sofá da sala assistindo televisão.
– Ah, que bom que chegou. – Ana se levantou e foi abraçar a amiga.
– O que você queria me mostrar?
– Fecha os olhos e estende a mão. – Disse Ana com um tom de brincadeira na voz.
– Ana, você sabe que eu detesto esse tipo de besteira.
– Anda, vai ser legal a surpresa.
– Tudo bem, então... – Dalila fechou os olhos. Esperou.
– Segura. – Disse Ana, dando algo pra Dalila segurar. – Pode olhar.
Dalila abriu os olhos e viu o que segurava em mãos. Um pênis com testículos bem cabeludos. Gritou e derrubou no chão. Ana não conseguia conter o riso.
– QUE PORRA É ESSA, MENINA?
– Não tá reconhecendo não? – Ana segurava aquele órgão com um sorriso psicótico no rosto. – Pensei que vocês já estivessem familiarizados.
– Ana, que porra é essa?
– Relaxa. Vem cá que eu te mostro.
Ana abriu a porta do banheiro. Dalila vomitou no mesmo instante.
– Eu não vou limpar vômito de ninguém. – Disse Ana friamente. Dalila ficou em estado de choque. Sentiu um medo terrível de estar perto de Ana.
– O que você fez? – disse Dalila, trêmula.
– Isso não é óbvio? Eu preciso de ajuda pra carregar tudo isso.
Ana arrastou a grande caixa de violoncelo cheio de partes do Thomas dentro. Levou até o deserto quintal. Pegaram pás no galpão e começaram a enterrar.
– Eu não posso ser cúmplice disso.
– Você já foi cúmplice por tempo demais. A gente não devia ter ficado calada, mas tudo bem. Melhor assim. Se você mesma falou que ir na delegacia não adiantaria, então tudo bem, você me convenceu. Só não sei por que você achou que eu iria cruzar os braços. A hora pra ficar calada é agora.
Não falaram nada. Sujas de terra e de sangue. Passaram a madrugada naquilo. Até que uma cova de sete palmos se destacasse no quintal. Puseram Thomas dentro dela, parte por parte. Ana tirou do bolso a carta de Júlia. Jogou aquele delicado pedaço de papel na cova junto aos restos mortais de Thomas.
Terminaram de enterrar o pobre diabo. O dia já estava amanhecendo. Tomaram banho e se limparam. A qualquer hora a mãe de Ana iria chegar.
As duas pegaram umas latinhas de cerveja na geladeira e subiram na alta árvore do quintal. Olhavam para o céu. As estrelas sumiam aos poucos com o nascer do sol.
– Eu não acredito que você fez isso. – Disse Dalila, um pouco mais calma. – Alguém vai sentir a falta dele. Você foi muito burra em enterrar aqui no quintal da sua casa.
– Ele tá enterrado a sete palmos de terra, não numa cova rasa. Vão reportar o desaparecimento dele, sim. Mas se não há corpo, não há crime. E quem sabia dos motivos que eu tinha pra matá-lo? Pode ser que o Agenor use o dinheiro do pai dele pra me incriminar, mas enquanto não tiver corpo ele não vai poder provar nada.
– Ana, o corpo tá no quintal da tua casa.
– Ok, liguem pra Baker Street 221B, ou pro Poirot, ou pro CSI, liguem pra todos os personagens da Agatha Christie, só assim vão chegar a mim. Enquanto a polícia local estiver no caso, ninguém vai chegar a lugar algum.
– Isso não importa.
– O quê?
– Isso não importa.
– Como assim?
– Mesmo que você escape disso. Mesmo que você tenha cometido o crime perfeito. Você pode falar o que quiser do Thomas. Isso só provou que você é um ser humano pior do que ele.
– Eu sei lidar com a minha consciência.
– Não, não sabe.
Ficaram caladas. Por bastante tempo ficaram sem falar nada. Sentadas no alto da árvore, tomando cerveja. Dalila via a distante lua. Uma lua quase apagada naquele imenso céu azul.
– Eu gosto muito de olhar a lua. Acho lindo como ela não aparece apenas à noite. Foram incontáveis as vezes que me admirei com a lua no céu, mesmo sendo três da tarde ou seis da manhã. – Disse Dalila com uma voz e um olhar distante.
– É, daqui a pouco te pegam uivando por aí. Mas é como diz o poeta... “ A noite esfriou. O dia não veio. O bonde não veio. O riso não veio. Não veio a utopia. E tudo acabou. E tudo fugiu. E tudo mofou.” – Disse Ana.
Dalila ficou em silêncio por um tempo e disse:
– O que diabo isso significa?
– Eu não sei, deve ser a cerveja falando.
Os dias se passaram. Ana agia como se nada tivesse acontecido. Dalila permanecia tensa. Em poucos dias, a família de Thomas reportara o desaparecimento. Desesperados, perguntavam a todos se tinham visto o rapaz nos últimos dias. Dalila sentiu um calafrio na espinha quando a entregaram um panfleto com a foto de Thomas. No papel lia-se o telefone pra contato e um pedido de ajuda. Diziam que foi visto em público pela última vez na pista de skate que sempre frequentava. Depois voltou pra casa e saiu não se sabe pra onde, desaparecido desde então.
Ana permanecia tranquila. Voltou ao seu velho hábito de subir na árvore e contemplar as estrelas. Só que de vez em quando ela tirava do bolso uma singela lembrancinha de Thomas. Seus olhos. Ah, como ela adorava admirar aqueles lindos olhos azuis. Era como se segurasse dois diamantes. Sentiu uma incomum paz de espírito.
Dormia tranquilamente, tanto sozinha quanto acompanhada por Dalila. Sentia-se bem tanto dormindo quanto acordada.
Até que numa noite, sozinha em casa, Ana se levantou da cama. Percebeu que a televisão estava ligada e havia alguém assistindo no sofá. Aproximou- se. Era Thomas.
Ana o encarou por um momento. Ele tinha um olhar vazio e uma aparência sofrida. Virou a cabeça lentamente para encarar Ana.
– Eu te subestimei. – Disse Thomas. – Você realmente conseguiu me surpreender.
– É a lei da vida. – Respondeu Ana calmamente. — Não importa sua opinião em relação às leis do universo, é incontestável o fato de que tudo traz consequências. Você simplesmente está pagando pelos seus atos. É assim que o universo funciona.
– Você não sabe nada sobre o universo. – Thomas dizia aquilo com seu típico cinismo. – As leis do universo não se importam com a ordem daqui dessa vida de vocês. Se tivessem ao menos metade da noção pra entender o quanto tudo isso é maior que vocês.
– Então, na morte você encontrou compreensão?
– Não. Não existe compreensão. Não existe entendimento. Vocês que inventaram essas coisas só pra ficarem ainda mais confusos. Ah, Ana... Meu maior pecado foi ter te subestimado. A gente poderia ter se dado tão bem. Poderíamos ter tido lembranças que valessem a pena. Algo que realmente tivesse valor. E não um par de olhos que você guarda no bolso, como uma criança que ganhou um brinquedo novo. Mas isso não importa mais.
– A culpa foi sua. Quem perdeu foi você. Poderia ter se surpreendido comigo há bem mais tempo.
– Não. Eu não fui o único a perder e você sabe disso.
– Mas foi você que achou que eu fosse fazer o seu jogo. Eu não sou um objeto. A culpa foi sua em não ter visto isso.
– Pode ser. Mas precisava mesmo fazer o que fez? Deixar minha família desesperada, tendo que lidar com a minha ausência pelo resto da vida?
– Eu precisava te tirar da minha vida. Essa foi a maneira mais eficaz que encontrei.
– Bem, eu posso ter sumido permanentemente da sua vida. Mas isso não significa que desapareci da sua mente.
– Sem pressa pra isso.
Thomas aproximou-se de Ana antes que ela percebesse. Pôs a mão em seu queixo e disse:
– Você não sabe onde estive.
– Como é a morte? – Ana perguntou num sussurro.
– Seria muita bondade minha explicar pra você. Melhor deixar a dúvida te torturar até que você sinta na pele como é a morte. Mas só digo que não é algo que posso explicar com palavras. – Thomas alisava os cabelos de Ana. — Você tem razão. É incontestável o fato de que tudo traz consequências. É melhor você se preparar, Aninha. Você vai estar no meu lugar mais cedo do que pensa. Mas até lá, você vai sofrer e muito.
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