Ana e Seus Olhos
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Agenor acordou num susto. Não via seu amigo há dias, continuava desaparecido e isso preocupava muito Agenor. Telefonava, mas ninguém atendia. Fizera seu pai gastar uma considerável grana em panfletos pra encontrar o amigo desaparecido. A polícia investigava, mas a única pista era que Thomas havia voltado pra casa da pista de skate, se arrumou e foi embora. A cada dia que passava Agenor ficava cada vez mais intrigado. Até que naquela manhã, Agenor acordou convicto.
Era estranho como Dalila e Ana melhoraram de humor. Dalila podia se sentir culpada por ter sido cúmplice de algo tão horrível, mas não adiantava, o que está feito está feito. Vida que segue, não é o que dizem? Tudo bem, é só um cadáver enterrado no quintal, grande coisa. Pessoas morrem todo dia, não é? Sim, eu juro que ela dizia essas coisas a si mesma para se sentir melhor. O que a psicóloga diria agora?
As duas passavam os dias juntas agora. Aos poucos, Ana percebia que a amiga voltava a si. Olhavam umas fotos que Dalila guardava numa caixa de sapatos debaixo da cama.
– Ai, eu tinha me esquecido dessa foto. – Disse Dalila. Ana notou o olhar da amiga vendo aquela foto. Pediu pra ver também. Uma linda mulher segurava um recém-nascido no colo. Dalila explicou que ela era o recém-nascido e que a mulher era sua mãe. Dalila tinha de quem puxar a beleza. Mas sua mãe conseguia ser ainda mais linda.
– A gente não tem nenhuma foto juntas. – Dizia Dalila.
– Ah, eu detesto aparecer em foto. Nunca fico bem.
– Eu não quero tua opinião. Vou tirar uma foto contigo e pronto. – Dalila pegou a máquina digital. Preparou e deixou em cima da mesa. Correu pra perto de Ana, pôs sua mão na cintura da amiga, puxou-a e deu um sorriso de foto. – Vai bater a qualquer momento.
Vendo a cara de Dalila, Ana deu um sutil riso bem na hora que a máquina bateu a foto. Dalila pegou a máquina, viu a foto e sorriu:
– Ficou ótima.
– Deixa eu ver.
– Não. Agora não. Faz o seguinte. Vai pra casa. Eu vou sair por aí. Mais tarde eu apareço na tua casa e te deixo ver a foto.
– Aonde você vai?
– Depois eu te digo. Anda, vai pra casa que eu vou sair agora.
Dalila seguiu um caminho com a máquina na mão enquanto Ana seguiu o caminho de casa.
Destrancou a porta da frente de sua casa. Abriu. Viu que já tinha alguém na sala assistindo televisão. Não era Júlia com a namorada, nem sua mãe, nem seu pai, nem Thomas. Era Agenor.
– Pensei que você fosse chegar só à noite. – Ele disse.
– Como você entrou? – Ana ficou nervosa por um instante, mas em seguida se acalmou.
– Fui pulando os muros até chegar no quintal da sua casa e entrei pela janela. Fiz que nem costumava fazer quando namorava sua irmã. Já sei como é a rotina daqui, nesses dias da semana seus pais sempre viajam. Mas senti a ausência da Júlia quando entrei. Faz tempo que não venho aqui. Já tinha até esquecido de como o ambiente daqui é bom.
– O que você quer?
– Tô precisando conversar contigo.
– Você não tem nada que resolver comigo.
– Ah, tenho sim. E você sabe disso. – Agenor se levantou e rapidamente segurou Ana. – Vamo pro galpão. – Disse arrastando-a. Chegando lá, jogou Ana violentamente no chão e disse:
– Foi aqui que tudo começou né? Não adianta mentir. Me fala o que você fez com o Thomas.
Ana continuava no chão. Mas ao ouvir aquilo, deu um sorriso. Um sorriso que intimidou Agenor. Ele disse:
– Não brinca comigo. Tá escrito na tua cara. Você sabe o que houve com o Thomas.
– Se tá escrito, então lê pra mim. Estou sem meus óculos de leitura, sabe...
– NÃO. BRINCA. COMIGO. VADIA! Agora fala. O que você tem em mente? Não ia deixar barato o que a gente fez contigo e com a tua namoradinha né? Eu era o próximo? Provavelmente. Mas eu quero ter a certeza. Só essa suspeita não basta. Quero ouvir da tua boca. Quero ouvir passo a passo como você fez pra sumir com meu amigo.
Ana abaixou a cabeça. Parecia que estava chorando. Agenor sorriu. Mas aí percebeu que na verdade ela estava rindo. O sorriso de Agenor se desfez quando Ana levantou a cabeça de uma vez. Ela ria histericamente. Uma gargalhada que deixou Agenor nervoso. Os olhos de Ana encaravam Agenor como se ela estivesse sentindo um imenso prazer naquilo tudo. Ela não parava de rir, era uma gargalhada insana que perfurava os ouvidos de Agenor e acelerava seu coração de tanta raiva.
Agenor sentiu um terrível ódio. Puxou o revólver que trazia na cintura e apontou pra Ana. Dizia cerrando os dentes:
– Para de brincadeira, menina. Ou me fala o que você fez com o Thomas ou eu atiro.
– Você vai me matar, Agenor? – Ana dizia num irritante tom de deboche. – De quem é esse revolver? Do papaizinho? Só pode. – Ana se levantou e se aproximou de Agenor que continuava apontando a arma em direção a seu rosto. – Foi pra isso que você veio? Brincar com a arma do seu pai? Você está sendo um menino muito levado. Não deve mexer nas coisas do seu pai assim sem autorização. Ou será que ele deixou você mexer na arma dele? Você pediu autorização? “Papai, posso brincar de soldadinho com sua arma?”
– Solta mais um pio e eu te mato.
– Você está tão disposto assim a acabar com a sua vida? Claro, porque vai ser meio difícil guardar na consciência um assassinato. E isso é o de menos, seu pai pode ser rico, mas será mesmo que ele te safa de um homicídio a sangue frio? Sabe o que fazem com os playboys na prisão? Se me matar, então, melhor esquecer a vida de ativo e se preparar pra ser passivo por um bom tempo.
As palavras debochadas de Ana deixavam Agenor cada vez mais nervoso. Sentia uma raiva e queria matá-la. Mas sentia mais raiva ao perceber que ela estava certa. Ana continuava:
– Mas vá em frente. Atire. Vingue o seu tão querido amigo. Você sabe que ele tá morto né? Ninguém some assim sem deixar rastros. O Thomas tá morto. Ele tá sentado no colo do capeta agora. De quatro, sendo estuprado pelo próprio Satanás. Vai deixar isso barato? – Ela pôs as mãos sobre as de Agenor e encostou a testa na boca do cano do revolver. – Atire. Quer que eu cale a boca? É só atirar. – Ana sentia as mãos de Agenor tremendo. Ele suava frio. Seu coração acelerava cada vez mais. Ana permanecia perfeitamente calma.
– Atira. Atira. Tá esperando o quê, amigo? Não tem força nem pra puxar um simples gatilho? Ou será que é tão burro que não sabe nem usar uma arma? Quer que seu pai atire por você?
Ouviram o barulho da porta da frente se abrindo. Agenor se virou num susto e nem percebeu que acabara de atirar em direção a quem vinha da sala. A pessoa caiu no chão gemendo de dor. Ana foi até a sala ver quem era. Dalila sangrava no chão da sala. Ana se ajoelhou tentando conter o sangramento.
Ao ver o que havia acabado de ter feito, Agenor pensou em cada palavra que Ana disse. Sua vida estava acabada. Viver o resto de seus dias com um homicídio nas costas. Entrou em desespero. E num impulso, atirou na própria boca.
Caiu no chão já morto.
Ana percebeu que Agenor acabara de se suicidar, mas nem ligou. Tentava socorrer a amiga. Até que percebeu que Dalila trazia em mãos uma pequena moldura. E na moldura, a foto que elas haviam tirado naquele mesmo dia. Ana ficou nervosa. Correu pedindo ajuda. Depois de um tempo, a ambulância chegou.
Quando as coisas se acalmaram, quando a bala alojada no útero de Dalila foi retirada, quando o corpo de Agenor foi levado até a família, quando Júlia chorou a morte daquele que um dia tanto amou, quando ninguém mais conseguiu imaginar o que havia acontecido com Thomas, quando o pai de Dalila sentiu que podia perder a filha assim como já tinha perdido a esposa, quando a mãe de Ana pediu para que todos orassem por Dalila, foi quando Ana chorou.
– O que aconteceu? Como foi que alguém se matou aqui nesse bendito galpão? – Perguntou sua mãe.
– Ah, mãe, a senhora sabe como são os jovens de hoje, sempre acabam morrendo por amor. Tô brincando! O que houve foi que ele não tinha aceitado bem ter terminado o namoro com a Júlia e veio até aqui me perguntar onde ela tá morando agora. Só que eu falei que era melhor ele ficar longe dela, que ela tava feliz sem ele e tal. Ele se zangou, a gente discutiu e numa atitude muito sensata e madura, puxou o revolver e ameaçou me matar se eu não disse o endereço da Júlia. Por sorte, a Dalila apareceu, e note que estou sendo irônica quando digo isso. Ele se virou pra ver quem tinha chegado, a arma disparou e acertou a coitada. Eu não sei por que ele se matou logo em seguida, vai ver achou que isso traria a Júlia de volta de alguma forma, sei lá.
– Meu Deus! Jamais pensei que a Júlia tivesse se envolvido com alguém tão perigoso.
– Pois é, mãe, há muitos malucos por aí!
– Talvez eu devesse saber mais o que minhas filhas andam fazendo.
Ana se manteve calada.
Dias depois, visitou a amiga no hospital, mas esta se encontrava desacordada. Os médicos disseram que ela precisava de repouso. Ana sentiu um leve conforto na alma ao ver o pai da amiga ali, no quarto onde Dalila estava, dormindo porque passara a madrugada no hospital. Eis uma consequência que ele não suportaria ver a filha encarar.
Voltou pra casa. A família inteira almoçava na mesa da cozinha. O pai, a mãe, Júlia e até sua namorada que aos poucos conseguia se dar bem com a sogrinha. Empanturravam-se, conversavam, brincavam, riam e se divertiam tanto que nem perceberam Ana chegar em casa. Ela caminhou discretamente até o galpão.
Perto do tocador de discos, havia algo de partir o coração. A foto de Ana e Dalila. O lindo sorriso de Dalila, abraçando a amiga que ria. Ao lado da foto, o álbum dos Beatles que Dalila tanto gostava, Abbey Road.
Segurou o álbum. Meio que o abraçando. Levantou-se e saiu às ruas com o intuito de vender o tal álbum. Não entendia bem a razão em fazer aquilo. Sabia que Dalila a mataria se fizesse isso. Mas no estado atual da amiga, Ana ficaria feliz se visse Dalila com vida suficiente pra sentir raiva. Vendeu. Comprou uma caixa de chocolates com o dinheiro e pôs- se a comer. Fazia tempo que Ana não sentia tanto prazer mastigando alguma coisa.
Percebeu então que algo estava em seu bolso. Pôs a mão e tirou. Eram os olhos de Thomas. Ana os segurava e os encarava com tristeza. Refletia se realmente valera a pena tudo aquilo. Se Thomas realmente mereceu seu triste fim. Sentiu uma amargura por dentro. Uma culpa.
Culpa por tudo que aconteceu a todos ao seu redor. Culpada por Dalila. Por Thomas. Até por Agenor, já que nem todo o dinheiro de seu pai poderia trazer o filho de volta a vida.
Sentiu-se horrível. Sentiu-se o pior ser humano do mundo. Sentiu-se um monstro. E pela primeira vez, sentiu nojo de si mesma. Pensou até em se matar quando chegasse em casa, não conseguiria mais viver sabendo que havia feito aquilo. Foi como se ela tivesse despertado de um transe e finalmente sua consciência falasse mais alto. Jogou aqueles lindos olhos brilhantes num bueiro. O brilho sumiu na escuridão.
Ana continuou comendo seu chocolate. Até que um carro parou de frente a ela. O vidro desceu, fazendo Ana reconhecer os rostos que se encontravam dentro daquele carro. Eram Viviane, Luís e Jorginho.
Um deles disse:
– Ei, a gente tá indo pra uma festa com o pessoal da sala. Tá afim de ir?
– Lógico! – E subitamente esquecendo-se de tudo, Ana se levantou num pulo e correu pra dentro do carro. Lá dentro havia outros colegas de sala, todos ali vendo Ana como uma velha amiga. O carro sumiu no horizonte.
E foi como se nada tivesse acontecido.
Ronaldo Victor Freitas Pequeno
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