Aos poucos, a tranquilidade voltava. Júlia voltou pra casa. Voltou a trabalhar. Agenor até tentou se aproximar dela, mas Júlia não queria mais saber dele. Encontrara outra pessoa. Uma mulher. Virou lésbica. Ninguém sabe bem como aconteceu, foi tudo muito depressa, de repente Júlia apareceu com uma mulher que conhecera no trabalho. Sua mãe quase enfartou, mas o pai apoiou. Se estava feliz assim, então o resto não importava. Ana passou a tomar vitaminas de fruta com mais frequência. Desejava nunca mais desmaiar de novo, nem sentir qualquer fraqueza no corpo. Gostava muito da namorada de Júlia, pouco importava se aquilo dava desgosto à mãe. Ana adorava conversar com a irmã e a namorada nas noites em que ela dormia na sua casa.

Mas achou aquilo tudo uma estranha ironia. Júlia estava feliz é claro, mas será que valia a pena ela desistir assim de vez dos homens? Não é só porque um idiota fez um tremendo mal a ela que todos os outros da espécie também fariam. Talvez até aquela namorada atual pudesse decepcioná-la no futuro. Mas... Ora, o que é a vida sem risco? Estava tudo tranquilo, não precisava ter receio.

Sua mãe escolheu o vestido que Ana usaria no baile de formatura que aconteceria naquela sexta. Era azul e branco. Ana parecia uma Nossa Senhora ruiva e magra vestindo aquilo. A mãe tirava várias fotos com a filha usando o vestido, ignorando o fato de a filha odiar ter que forçar sorriso em foto. Mostrando o vestido para Dalila, Ana dizia:

– Veja só como vai ser a gente nesse baile. A noiva cadáver ao lado da virgem Maria.

– Virgem Maria... duvido que ela seja mesmo virgem. Ninguém passa dois mil anos segurando o facho. — Ana ria. Se sua mãe ouvisse uma blasfêmia daquela, ia ser discussão até o arrebatamento.

Sexta-feira. Júlia e sua namorada ajudavam Ana a se arrumar. Tirou os óculos e não pretendia usá-los no baile. Era um momento estranho porque Ana se sentia linda. Foi a primeira vez em anos que usou maquiagem. Talvez tenha usado só quando criança. Uma música de Chico Buarque tocava ao fundo. Ouvir sua música fazia Ana se lembrar dos olhos brilhantes que a incomodavam tanto. Mas agora não. Estava linda demais para se incomodar com qualquer lembrança.

Ouvia e cantarolava enquanto se ajeitava de frente ao espelho. Sentia-se feliz consigo mesma se vendo usando aquele santo vestido que a fazia parecer uma imagem. Todo esse amor reprimido. Esse grito contido. Este samba no escuro. Às vezes as palavras perdiam o sentido e formavam uma melodia de uma sonoridade sublime.

Foi de encontro à Dalila. Esta que se encontrava com seu vestido gótico, seus cabelos brilhantemente negros e uma maquiagem assombrosa. O batom negro nos lábios. A sombra nos olhos. Sua pele branca realçava mais ainda a escuridão de suas vestes e da pintura que cobria seu rosto. Parecia uma assombração. Ver aquilo numa rua escura e deserta espantaria até os mais bravos e céticos.

Caminharam juntas até o baile. A Virgem Maria e a Noiva Cadáver. Foi um evento que juntou muitas pessoas conhecidas, todas se espantaram ao ver as duas. Era incrível como lado a lado, as duas pareciam representar uma antítese. Ana parecia uma santa enquanto Dalila parecia um demônio. Tão diferentes, porém juntas. O divino e o satânico. Lado a lado como velhos amigos.

Aqueles rostos que um dia incomodaram tanto Ana na sala de aula agora a deixavam tranquila. Embora continuassem com as mesmas atitudes que antigamente a faziam sentir tanta repulsa. Agora Ana passou a ter nojo de outras coisas. As duas riam das besteiras que viam naquele esplendoroso e patético baile. Viviane nem se arrumando ajeitava aquele ridículo cabelo que parecia uma vassoura. Luís continuava dizendo suas besteiras ali no meio da festa. Jorginho continuava com suas brincadeiras imbecis com seus amigos.

Mas depois de um tempo, ao perceber o jeito que Dalila olhava para toda aquela gente, um olhar triste, vendo todas aquelas pessoas conhecidas mas infeliz por não se sentir parte daquele mundo; Ana segurou sua mão e disse:

– Dalila, pouco importa se ninguém da sala gosta de você. O importante é que eu gosto.

Ouvindo aquilo, a noiva cadáver chorou. A maquiagem borrada a deixou com uma imagem ainda mais assombrosa. Ana riu. Puseram-se a dançar as duas. Chegaram a chamá-las de lésbicas ali no meio do baile enquanto dançavam. Mas nem ligavam.

Conforme o tempo passava, a música lenta, as valsas de Strauss e de Mozart davam lugar a uma agitação típica dos jovens que ali se encontravam, a sons mais agitados como Marilyn Manson e Matanza. Pulavam como loucos. Dalila e Ana nunca se sentiram tão felizes. Até que Ana se sentou pra descansar. Via a amiga ainda agitada, dançando ao som de um rock pesado, mas que libertava sua alma que passara tanto tempo sedada. Dalila bebia vodca do gargalo enquanto Ana se sentava meio que distante do resto das pessoas, observando o movimento.

Distraída, Ana sem querer notou um grupo de homens que também estava afastado do resto da multidão. Embora o som da música fosse muito alto, Ana ouvia vagamente a conversa entre aqueles caras. Um deles dizia que caíra de cabeça quando andava de skate. Ela bebeu um pequeno copo de uísque e se aproximou dos homens. Arrependeu-se imediatamente. Era Thomas e mais alguns amigos. Era óbvio que ele iria aparecer no baile.

Ana tentou se afastar discretamente. Mas já era tarde. “Senhoras e senhores, ele põe os olhos grandes sobre mim” pensou Ana enquanto encarava os divinos e satânicos olhos de Thomas. Ela se virou e correu procurando a amiga no meio da multidão. Viu um vulto preto pulando e segurando uma garrafa de uísque. Ana nunca viu Dalila tão louca daquele jeito. Segurou seu braço, puxando pra fora da multidão. Dalila gritava:

– CONVIDO TODAS AS MULHERES PRESENTES A NADAREM NUAS NUM RIO DE UÍSQUE!!!!!!!!!!

Dalila cambaleava e nem se aguentava em pé. Ana apoiou-a no ombro e andou em direção à saída do salão. Já no estacionamento, Ana procurava o carro de Agenor. Aos poucos, começava a chover. Olhou pra trás e viu que ninguém a seguia. Continuou andando segurando a amiga embriagada. Tinha a esperança de voltar logo pra casa antes que algo pior acontecesse.

Uma pancada seca no rosto fez Ana cair no chão. Agenor acabara de dar um murro em seu queixo. Thomas era quem segurava Dalila agora. A chuva engrossava.

– Bem, a gente não conseguiu te dar uma lição naquele dia, mas hoje você não escapa. – Disse Agenor antes de chutar o estômago de Ana. – Isso é pela Júlia. É culpa sua ela não tá comigo agora. Pior, tá com outra mulher. Como se já não bastasse ter desistido de mim, desistiu de todos os homens. Eu devia fazer coisa pior contigo. Mas a gente vai te deixar em paz. Vai pra casa. Deixa que a gente cuida da sua namorada gostosinha.

Ana agonizava de dor no chão enquanto via Agenor e Thomas carregando Dalila até o carro. Entraram e sumiram no horizonte, embaçado pela assombrosa tempestade.

Deitada no chão do estacionamento, a chuva que castigava seu corpo só não era pior do que o medo que sentia. Medo do que poderiam fazer com sua amiga.

Levantou-se. O queixo e o estômago ainda doíam muito. Foi andando pelas desertas ruas no meio da chuva. E agora? Tinha que fazer alguma coisa. Talvez devesse... não, não, isso não. Deveria chamar a polícia? Tudo bem, e o que diria a eles? Ela não sabia nem a placa nem o modelo do carro. “É um carro branco” diria. E então veria viaturas abordando pela cidade cada carro branco que vissem. Não, não... Ana sabia o que fazer. Nem a polícia, nem o pai ou a mãe de ninguém resolveria o problema.

Isso não vem ao caso agora. A questão é que naquele momento, Ana caminhou até a casa de Dalila. Sentou-se de frente à casa e esperou. A chuva já havia borrado sua maquiagem e estragado seu vestido da maneira mais impiedosa que podia. Passou a madrugada ali, na chuva, de frente à casa da amiga. A chuva durou horas e horas, diminuindo no começo do dia. A esta altura, mesmo ensopada e no chão da calçada, Ana pegou no sono. Dormiu ali mesmo.

Depois de horas, foi acordada por um cachorro que lambia seu rosto. Sentiu um cheiro estranho. Abriu os olhos e tentou se lembrar do que havia acontecido. O calor daquele céu aberto castigava a coitada que parecia ter ficado tempo demais deitada naquela calçada. Foi até a janela e viu Dalila deitada na cama em posição fetal. Chamava pelo nome, mas a amiga não respondia. Decidiu entrar e tentar ver como ela estava.

Ana desabou em prantos ao ver o estado de Dalila. Hematomas. Seu negro e tão adorado vestido severamente rasgado. Ela até sangrava um pouco. Ana tentava falar com ela, mas estava em estado de choque.

– Quando a chuva parou de manhã, eles me deixaram em casa. Me jogaram do carro e foram embora. Chegaram a te ver deitada na calçada e mijaram na sua cara. – Dalila tremia.

– Isso explica o cheiro. Mas, Dalila, o que eles fizeram?

– Não me pergunte isso... – Dalila chorava. – Ah mamãe... eu estava bêbada, mas despertei pra razão quando vi a violência que aqueles monstros faziam em mim. Foi horrível. Eu sentia tanto nojo, tanta vergonha. Aqueles dois me usando... quando eu tentava me soltar deles, eles me esmurravam.

Dalila chorava como uma criança pequena. Ana acariciava os cabelos negros e desarrumados da amiga.

– Seu pai não disse nada ao te ver assim?

– Ele disse que já me viu chegando em casa em condições piores. Talvez tenha achado que esses hematomas no meu rosto fossem apenas chupões. É normal eu chegar de madrugada cheia de chupões no pescoço.

– Levanta daí. Você tá precisando tomar um banho.

– Não. Me deixa. Me deixa sozinha...

– Anda... – Ana puxou Dalila e a arrastou até o banheiro.

Começou a limpar a borrada e negra maquiagem da amiga. Limpava tudo pacientemente.

– Eu vou preparar a banheira pra você. – Disse Ana abrindo as torneiras. Dalila tirou a roupa e se deitou em meio àquela água. Ana passava xampu nos sofridos cabelos da amiga como se fosse uma mãe. Dalila ainda chorava e dizia:

– Eu tô muito fudida...

– Literalmente. – Respondeu Ana, com as mãos cheias de espuma e os dedos entre aqueles cabelos brilhantemente negros.

– Você tá fedendo, menina. – Disse Dalila.

– Lógico. Eu fico deitada na calçada que nem um mendigo e acabo recebendo o mesmo tratamento. Depois eu tomo banho. Você é quem precisa lavar a alma primeiro.

Depois, Dalila vestiu um pijama e se deitou na cama.

Ana tomou banho no chuveiro, tirou a catinga de mijo e vestiu um pijama da amiga. Também se deitou na cama.

As duas ali deitadas juntas ficaram se encarando. Não disseram uma palavra por bastante tempo. Ana ficava admirada. Admirou-se porque não conseguia acreditar que aquele rosto tão inchado, tão ferido e tão cheio de hematomas continuava tão bonito. Dalila continuava linda mesmo naquele estado.

Mas não foi apenas Ana que se surpreendeu. Olhando para Ana, Dalila se encantou com algo que ela nunca havia notado antes. Foi a primeira vez que Dalila reparou nos olhos de Ana. Sempre a via usando aqueles óculos com grossas lentes que ofuscavam seus olhos. Percebeu que os olhos de Ana eram verdes. Olhos grandes e verde-vivos, como se fossem duas esmeraldas.

De repente, Dalila sentiu-se em paz ao ver os olhos verdes de Ana.

Até que depois de bastante tempo em silêncio, as palavras saíram da boca de Dalila como que num desabafo:

– Eu nunca tive tanta vontade de morrer como hoje. Sabe, eu nunca vi a morte como uma coisa ruim. A vida sempre me deu mais medo. Eu sei que a vida tem seus momentos bons, mas até neles eu sinto medo. Sinto medo porque sei que qualquer tranquilidade é passageira. Porque sei que só porque esqueci a dor por um momento, não significa que ela não esteja lá. Ela sempre está lá. Sempre vai estar. Os sofrimentos da vida são uma constante. Sempre que acabam são pra dar lugar a novos sofrimentos. Eu não suporto isso. Nunca suportei. As coisas boas existem, sim. Mas sempre tem que dar lugar às coisas ruins. É como se até nas coisas boas você sentisse a presença das coisas ruins se aproximando. Como se um vulnerável barco num mar tranquilo esperasse a fúria da maré. Uma fúria que nunca dá sinal algum de que está vindo. Vem de uma vez. Você sabe que ela vai vir de uma vez, a qualquer momento. Mas não sabe quando. E isso é que dá mais agonia. Uma agonia que chega a matar os momentos bons da vida. Como se nada valesse a pena. Eu não estou dizendo que a vida em si é ruim. Mas é muito difícil. A morte é mais fácil. A minha mãe sofreu muito antes de morrer. Sofreu durante a vida inteira e sofreu durante meses na cama de um hospital. Eu sinto que a morte foi um alívio pra ela. Eu gosto de acreditar que a morte é nada mais que um profundo sono. Um eterno estado de inconsciência. Uma paz jamais sentida em vida. Uma paz semelhante ao de um cochilo no fim da tarde, em que você só percebe que dormiu quando acorda. A diferença é que na morte você não precisa acordar. Não é necessário. Não tem nem mais esse pensamento na cabeça. Aliás, não tem pensamento algum em sua cabeça. Sem pensamentos. Sem preocupações. Apenas o silêncio e a tranquilidade do vazio. Apenas a paz de espírito. Apenas o descanso. Um descanso mental, pessoal e espiritual. Pensando bem, eu acho que nada vale a pena. Porque no fim tudo que sobra é o nada.

Alguns minutos depois, Dalila dormia enquanto Ana não conseguia pregar o olho. Pensava nas palavras mórbidas que sua amiga dissera. Era difícil acreditar que alguma coisa valesse a pena na vida sentindo aquela tristeza na alma de sua amiga. Mas agora, Ana precisava manter a cabeça ocupada. Levantou-se devagar para não acordar Dalila. Pegou o celular da amiga com cautela e anotou o número de Thomas.