Chegaram à pracinha. Sentaram-se em cima do escorregador. Não havia mais ninguém lá. Ouvia-se apenas o som do vento. Até que perceberam que havia alguém sentado num banco bem distante delas. Era aquele senhor de idade que viram roubando no jogo de cartas outro dia. Parecia que já estava ali havia bastante tempo. Estava sozinho. O olhar vazio. Encarando um absoluto nada.

– Será que a gente devia falar com aquele senhor? Ele parece tão sozinho... – Perguntava Ana com pena.

– Não. Já fiz isso uma vez de conversar com velho que fica sozinho no canto e não foi nada legal. O cara deu em cima de mim em plena parada de ônibus, na frente de todo mundo. Foi vergonhoso.

– Ah, quer dizer que se vocês estivessem ao menos sozinhos...

– Ana! – Disse Dalila meio que com raiva e meio que querendo rir.

– Você mesma disse que tinha uma queda por coroas.

– E eu tenha cara de geriatra por acaso?

A risada que Ana deu contagiou Dalila no mesmo instante.

Ao meio-dia, foram a uma lanchonete. Dalila pediu um almoço caprichado. Já Ana pediu apenas um copo d’água.

– Ana, será que em algum momento da tua vida você já sentiu fome? – Disse Dalila.

– Já. Mas ainda me sinto bem melhor com fome do que comendo.

– Quero ver por quanto tempo. A comida da sua mãe é tão ruim assim a ponto de você querer incorporar o Gandhi?

A comida chegou. Dalila se empanturrava como se não houvesse amanhã.

Ana olhava com desgosto. Mas Dalila estava certa, água não iria fazê-la fugir da fome. Vendo a amiga comer com tanto gosto daquele jeito fê-la sentir uma fome insuportável. Era como se seu estômago estivesse completamente vazio e sedento por qualquer coisa. Sentiu como se uma estrela acabasse de morrer e formasse um grande e infinito buraco negro em sua barriga. Como se seu estômago faminto a comesse por dentro.

Levantou-se. Saiu da lanchonete. O sol ofuscou seus olhos. Desmaiou.

Acordou depois de um tempo, meio desorientada. Reconheceu os rostos de sua mãe e de Dalila. Estava em sua cama. Quando a mãe percebeu que a filha havia acordado, começou a brigar com ela. Coisas como “Como é que você me dá um susto desses? Eu já tô preocupada com a Júlia e você vem piorar ainda mais as coisas. O seu pai tá no hospital com a sua irmã achando que alguma coisa séria aconteceu contigo. Fica sem comer e é nisso que dá.”

Dalila saiu de fininho. Foi até o galpão tentar ficar longe daquela briga, mas mesmo lá ainda dava pra ouvir a voz da mãe de Ana. Depois de muito tempo, a mãe se calou. Saiu de casa furiosa batendo na porta. Dalila foi até o quarto e se aproximou de Ana, que ainda estava fraca.

– Eu vou preparar um leite com chocolate pra você. Fica deitada aí. – Disse Dalila com um ar materno na voz.

Durante aquela semana, o pai chamou uma nutricionista para orientar a alimentação de Ana. Mas ela recusava qualquer alimento. Por algum motivo, não queria comer nada. Até que a nutricionista sugeriu que ela tomasse apenas vitaminas de frutas. Fácil de engolir, sem o trabalho de mastigar. Ana bebia uma vitamina de abacate, mas ainda com um sério desgosto.

Seus pais passavam a maior parte do tempo no hospital visitando Júlia. Ana a visitou uma única vez, com muito esforço porque não suportava aquele clima de hospital. Um clima de morte. Foi um sacrifício permanecer lá, vendo a mãe fazer uma oração perto da filha que dormia na maca. Até que Ana ficou sozinha com a irmã. Aproximando-se desta, Ana disse:

– A mamãe foi embora, já pode parar de fingir que tá em coma induzido.

Júlia abriu os olhos. Ficou em silêncio. Deu um suspiro e disse:

– Seria melhor se eu tivesse morrido ou ficado em coma. Assim eu não teria que ver a mamãe sofrendo tanto.

– Você sabe que ela sofreria bem mais se tivesse acontecido o pior.

– Só por um momento. Depois ela ficaria em paz. Foi assim quando o vovô morreu.

Ana odiava falar sobre morte. Ainda mais naquele clima de hospital. Júlia continuava, com a voz ainda fraca:

– Papai me disse que você desmaiou de fome. Bem feito. Queria ter visto essa cena.

– Você fala assim como se estivesse numa situação melhor. Tem sorte da mamãe não ter lido o bilhetinho que você deixou. Ninguém leu, só eu. Você é muito egoísta.

– Egoísta? Eu? Por quê?

– Egoísta sim. “Ai, terminei com meu namorado, vou me matar”. Vê se cresce, menina. – Era até irônico aquelas palavras virem de sua irmã mais nova. – Deixando a família inteira preocupada por causa de um babaca!

– Você não entende...

– Ah, maninha, eu entendo até demais. O Agenor te tinha na palma da mão.

– E VOCÊ ACHA QUE EU NÃO SABIA DISSO? – O grito de Júlia chamou a atenção nos corredores do hospital. Seus olhos lacrimejavam. Foi quando Ana disse repreendendo:

– Fala baixo! Quer que a mamãe volte?

– Desculpa... olha... você fala que o Agenor me tinha na palma da mão como se isso fosse uma coisa ruim. Eu gostava disso. Eu me sentia protegida. Sabe há quanto tempo eu planejava me casar com ele? Assim que eu me estabilizasse financeiramente eu iria me mudar, só eu e ele numa casa só nossa. – Enquanto ouvia os lamentos da irmã, Ana pensava “Como se o filhinho de papai do Agenor já não tivesse estabilidade o suficiente. Porra, ele é rico! Ela é tão burra que não via que o namorado tava estabilizado desde que nasceu.”

Júlia continuava:

– Eu já tinha pensado até nos nomes dos nossos filhos. Renato, Eduardo e Marcelo. E cara eu tava tão...

– Tudo bem, tudo bem, tudo bem, Júlia, já entendi. Me escuta. Durante todo esse tempo você só escutava o Agenor porque ele só dizia o que você queria ouvir. Agora que tem que encarar a verdade sozinha, tá aí querendo morrer. Então, me escuta. Eu sei que você gostava dele e eu não te culpo por isso. Beleza, ele te tratava bem, era compreensivo e tudo. Não é nenhum pecado ter fé nas pessoas. Mas acho que você chegou num ponto em que você dependia dele até demais. É bom se entregar de corpo e alma a alguém. É realmente bom. Mas não vale a pena quando você mesma não se valoriza. Não adianta gostar pra caralho de alguém e não se gostar. Júlia, acorda. O cara armou tudo certinho pra que o Thomas fizesse aquilo comigo. Se você tem tanto nojo do Thomas, então entenda que o natural seria você ter nojo de qualquer um que fosse igual a ele. E pelo jeito o Agenor é igual ao Thomas. Talvez ele apenas não demonstrasse isso. Talvez apenas soubesse incorporar um personagem pra poder te ter nas mãos.

Silêncio. Júlia não tinha o que dizer. Ana não suportava mais ficar naquele hospital. Júlia suspirava. Um suspiro de frustração.

Mas Ana sentia que isso era o melhor pra ela. A verdade é como um remédio amargo. Tem gosto ruim que rasga sua garganta, mas vai te fazer ficar bem melhor depois.

Alguns dias se passaram. Ana se sentia bem melhor. Júlia melhorava no hospital e faltava pouco pra voltar pra casa. Há tempos que não viam nem Thomas e nem Agenor. O clima de tensão em casa se acalmara. Seu pai voltara a trabalhar e sua mãe voltou a viajar com a sua comunidade da igreja. Ana e Dalila passavam as manhãs no colégio rindo, planejando o baile de formatura que se aproximava cada vez mais, e as tardes ouvindo música. Dalila amava aquele disco dos Beatles que Ana tinha guardado. Sempre ouvia quando tinha oportunidade.

Mas embora a dor fosse esquecida, ela ainda estava lá. Escondida. Só esperando uma brecha para reaparecer e dominar a situação de novo.

E ela reaparecia nas noites solitárias que Ana passava. Sempre quando chegava em casa ao anoitecer era costume de Ana chegar até a sala e ver sua irmã assistindo televisão. Mas fazia tempo que Ana chegava e via o sofá vazio e a televisão desligada. Não conseguia dormir porque já estava acostumada a pegar no sono ouvindo a voz da irmã falando no telefone, ou conversando com o namorado no quarto. Já era acostumada com a ausência dos pais em casa, mas não da irmã.

Numa noite, revirando-se na cama e sem conseguir dormir de jeito nenhum, Ana se levantou de uma vez e pensou “Não dá. Vou dormir na Dalila.” Saiu de casa. Andou um pouco. Percebeu que um carro se aproximava.

Acompanhando o passo de Ana, o vidro do carro se abaixou fazendo-a reconhecer o motorista. Era Agenor que dizia:

– Quer uma carona?

– Não, obrigada. Eu sei me virar sozinha.

– Não, não sabe. – Agenor continuava dirigindo no ritmo dos passos nervosos e apressados de Ana. – Tô precisando conversar contigo. Eu e o Thomas.

Ana ignorou e continuou andando.

– É sério. Vai ser mais fácil se você colaborar. Entra no carro.

– A gente não tem nada que resolver. – O coração de Ana acelerava. Ao ouvir o barulho da porta do carro se abrindo, Ana se desesperou. Correu sem pensar duas vezes. Olhou para trás por um instante e percebeu que alguém que estava no banco de trás saía do carro.

Correu usando todas as suas forças, chorando de desespero. Mas sentiu uma séria fraqueza no corpo. Sua vista escureceu. Suas pernas tremeram. Não conseguiu se manter em pé. Caiu no chão se sentindo sufocada, quase sem respirar. Desmaiou.

A consciência de Ana foi retornando aos poucos. Sentiu que estava deitada num estofado confortável. Percebeu que estava no banco de trás de um carro em movimento. Ainda desorientada, ela ouvia uma voz masculina que dizia:

– Estaciona num lugar que não tenha ninguém. Tem que ser deserto.

– Beleza. Conheço um beco ali onde só tem mendigo dormindo. Ninguém vai incomodar a gente. – Respondeu aquele que aparentava ser o motorista.

Ao abrir os olhos, a primeira imagem que Ana viu gelou sua espinha. Um brilho terrivelmente familiar a encarava. Até que o dono dos olhos brilhantes disse:

– Cara, ela tá acordando.

Ana se levantou num susto. Reconheceu Thomas que estava do seu lado no banco de trás do carro, com um enorme curativo na cabeça, enquanto Agenor dirigia. Sentiu-se assustadoramente nervosa.

– O que vocês fizeram comigo?

– Nada. A gente ainda não encontrou um lugar tranquilo pra ficarmos a sós. – Disse Thomas com seu cinismo.

Num impulso Ana tentou abrir as portas mesmo com o carro em movimento, mas em vão. Desesperou-se mais ainda. Até que Thomas a segurou pelas mãos e disse:

– Relaxa... não precisa ficar nervosa...

– Não faz nada com ela até eu chegar no beco que te falei. – Disse Agenor sério.

– Tudo Bem. – Frustração na voz de Thomas.

Silêncio. Ouvia-se apenas o barulho do trânsito e a respiração aflita de Ana. Até que depois de um tempo o carro entrou numa rua deserta. Adentrou num beco onde se via pela janela alguns mendigos dormindo. O carro foi encostado num canto escuro do beco onde só havia lixo. Agenor saiu do carro, abriu a porta de trás puxando Ana, que tentava se soltar em vão.

– Calma, eu só quero que você me ouça. – Disse Agenor encostando ela na parede. Thomas ficou um pouco mais afastado, escorado no capô do carro.

– Presta atenção. Eu quero que você se lembre do dia em que o Thomas ali foi até a sua casa. Lembra? Agora imagina se você tivesse colaborado. A tua irmã ainda ia tá feliz pra caralho comigo e não ia tá daquele jeito no hospital. Tua irmã tá assim hoje por culpa sua. Você podia ter tido uma noite muito prazerosa com o Thomas, ninguém ia sair perdendo. Se você não fosse tão fresca! Aí vem com historinha, fazendo meu amigo levar de estuprador. Estaria tudo bem hoje se você não fosse tão idiota. O Thomas pode ter sido meio violento, mas foi você que pediu. Eu deixei tudo pronto pra dar certo entre você e ele. Bastava ter feito o nosso jogo. Mas você realmente achou que ele ia fazer as coisas do seu jeitinho? Não, não... ninguém tem essa paciência pra você. Entenda que as mulheres é que fazem o nosso jogo. São elas que fazem como a gente quer, e não o contrário. E por sua culpa eu fui obrigado a tirar a Júlia do jogo. Mas sem pressa. Eu vou conseguir reconquistar ela como sempre fiz. Não importa o que você diga a ela. Eu vou ter a Júlia só pra mim de novo.

Thomas falou ao fundo:

– Só pra você? E aquele ménage que você prometeu?

– Cala a boca! – Agenor continuou. – Presta bem atenção. Essa foi a última vez que você ficou entre mim e a Júlia. Hoje você vai aprender uma lição. Vai aprender que em nenhum momento você estava lidando com moleques, mas com homens. Pulso firme, minha querida. Aprenda o que é homem que tem pulso firme. Mas tudo bem, hoje vai ser uma noite que você nunca vai esquecer.

Ana foi jogada no chão por Agenor. Chorava enquanto ouvia Thomas dizendo:

– Então, eu já posso?

– Faz o que você quiser. Tô com nojo de olhar na cara dela.

Ana tentou correr, mas foi segurada pelos cabelos. Aquelas grandes e familiares mãos seguravam-na firmemente. Agenor acendia um cigarro. Ana sentiu aquelas mãos começarem a acariciá-la. Até que num impulso, ela deu uma mordida profunda naquela mão tatuada. Seus dentes penetraram como navalha. Pôs todas as suas forças naquela mordida. Sentiu um gosto de sangue. Thomas gritava feito uma menina. Quando sentiu que ele a soltou por um instante, Ana correu e subiu no primeiro ônibus que aparecera. Viu pela janela a imagem de Thomas agonizando de dor segurando sua mão que sangrava. Ana chorava. Nervosa, porém um pouco aliviada. Mas não sabia por quanto tempo.

Voltando pra casa, Ana sentou-se no sofá. Já não chorava. Sentou-se no sofá e uma série de pensamentos bombardeou sua cabeça. Foi estranho. Uma mistura de emoções diferentes se misturou e foram sendo cozinhadas dentro de Ana. Alívio, raiva, medo, tristeza, euforia. Até que Ana deu um sorriso. Sentiu que já havia chorado demais por causa daqueles babacas. Pulso firme. Pensou em cada palavra que Agenor lhe dissera.

Sorria, mas era difícil dizer se estava sentido alegria ou algo pior. Definitivamente não estava triste.

“É. No fim das contas eu tava mesmo certa. O Thomas fez o que fez naquele dia no galpão por culpa do Agenor.” pensou aliviada. Era meia-noite. Teve medo que o maldito carro aparecesse na rua de casa de novo. Por um momento refletiu se foi coincidência o carro ter aparecido na hora que ela saiu de casa. Talvez eles estivessem de tocaia há dias. E de repente, parou de pensar. Desligou-se. Caminhou até a casa de Dalila sem sorrir e sem chorar.

Na rua, apenas o silêncio. Apenas o brilho das estrelas do céu que há tempos Ana não admirava. Isso porque a faziam lembrar-se daquele outro brilho. Um brilho que não a fazia nada bem. Ana apareceu na janela do quarto de Dalila. Bateu no vidro até acordar a amiga. Contou o que acabara de acontecer, mas surpreendeu Dalila porque Ana não parecia nervosa.

– Tem certeza que isso realmente aconteceu, Ana? Talvez tenha sido só um sonho. Você parece tão calma, isso não é normal.

– Não seja idiota. Ainda tô com gosto de sangue na boca.

– Bem, eu só espero que isso os canse. Não é possível que ainda queiram tentar de novo.

– Eles vão voltar, Dalila. Eu sei que vão.

– E como você consegue dizer isso com tanta calma?

– Ah, Dalila... deixa de ser tão fresca!