Ana e Seus Olhos
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Os dias foram se passando. Semanas. Durante esse tempo, as duas não viram nem a sombra de Thomas ou Agenor. Era como se tivessem sumido no mundo. Melhor assim. Era doloroso só de lembrar. Aos poucos elas esqueciam as dores e pensavam cada vez mais no baile de formatura que se aproximava. Surpreendentemente, Ana começou a se empolgar com o tal baile que ela passara tanto tempo planejando faltar. Talvez não fosse tão ruim quanto ela pensasse. Não poderia ser pior do que... bem... deixa pra lá.
Numa tarde de quinta-feira, Dalila mostrava a Ana o vestido que escolheu. Era grande e negro.
– Valeu, noiva cadáver. Parece até que tá de luto. – Disse Ana num tom de ironia normal de se ouvir vindo dela. Dalila segurava o vestido de frente ao espelho e dizia:
– Eu sempre tô de luto. Como é que vai a Júlia? Faz tempo que não a vejo.
– Ela tirou licença do trabalho. Disse que tava doente.
– E ela tá doente?
– Bem, fisicamente não. Mas sério, eu não consigo mais conversar com ela. A gente dorme no mesmo quarto, mas mesmo assim eu a sinto muito distante, entende? Mas ultimamente eu nem tentei mais conversar. Chego só pra dormir.
– Ela não tá mais saindo de casa?
– Não a vejo nem sair da cama. Já peguei ela chorando no meio da madrugada enquanto via as fotos dela com o Agenor no celular.
– Passar a noite vendo foto de ex-namorado é muito masoquismo. Nem o pai de vocês notou algo estranho nela?
– Ele acha que ela tá doente. A Júlia preferiu não falar nada sobre o assunto pra não incomodar o velho.
– Deixa ela. Aos poucos ela supera. É sempre bom dar tempo pra essas coisas.
– Não, Dalila. Não, não é bom.
Naquela noite, Ana tentava dormir. Sentia-se sufocada. Sentia-se desesperada por dentro. Até que se levantou da cama meio que num pulo. Assustou-se com a voz de sua mãe que gritava desesperadamente. Ela acordava seu pai, pedindo pra chamar a ambulância urgente. Ana ficou preocupada. Viu a imagem de sua mãe ajoelhada ao chão tentando reanimar Júlia, esta que se encontrava desacordada e estirada no chão.
Ana se aproximou. Seu pai carregou a filha inconsciente no colo e entrou no carro junto com sua mãe, deixando Ana sozinha em casa. Viu o carro partindo sem entender direito o que havia acabado de acontecer. Até que no quarto onde Júlia fora encontrada desacordada, Ana viu uma série de pacotes de comprimidos espalhados pelo chão. Encontrou também uma carta. E na carta um adeus.
Pai, mãe e minha querida irmã
Quero que saibam que amo muito vocês. Por favor, não quero que se sintam culpados pelo que fiz. Vocês sempre foram maravilhosos pra mim. Eu apenas não quero mais dar preocupação nenhuma. Eu sei que pode ser difícil pra vocês, mas entendam que está muito difícil pra mim.
Na verdade, eu já morri por dentro há bastante tempo. E morro a cada dia que passa. Morro por causa de uma dor constante que minha memória insiste em lembrar.
Uma dor que só consigo esquecer brevemente quando durmo.
Por isso acho que estou fazendo o que é melhor pra mim e para todos vocês.
Não se preocupem mais comigo. Agora estarei bem. Na morte a gente esquece.
E Agenor, saiba que você foi o único homem que amei na vida. Me perdoa. Perdoa qualquer coisa que eu tenha feito. Me perdoa se eu te deixei com um rancor ou uma mágoa, qualquer que seja. Saiba que eu sempre vou sentir sua falta, onde quer que eu esteja. Espero que você sinta a minha.
Ana ficou em estado de choque. Foi na cozinha beber um copo d’água e se sentou segurando a carta. As mãos tremiam. “Há quanto tempo ela planejava isso? Será que planejou ou fez por impulso? Por que ela não me disse nada?” Ana estava atordoada.
Se já sentia culpa pela irmã estar sofrendo pelo fim do namoro, agora é que ela se sentia culpada mesmo. Sabia que a irmã sentia falta do namorado, mas não tinha ideia do quanto ela estava mal por causa disso.
Era noite, mas ainda era cedo. Ana foi até Dalila com a carta em mãos. Dalila lia e não acreditava.
– Agenor realmente a tinha na palma da mão. A coitada se sentia muito culpada por eles terem terminado. Sua mãe nunca disse que suicídio manda a pessoa direto pro inferno? Como é que ela tá? Morreu?
– Acho que não... ela foi pro hospital com o pai e a mãe.
– Vai ficar tudo bem, relaxa. A uma altura dessas já devem estar cuidando da sua irmã, fica calma.
– Eu sei, Dalila. – Ana tremia. – Mas o que me fode é que é tudo culpa minha. Ela tá no hospital agora por minha causa.
– Não fique se culpando desse jeito, isso não vai lhe fazer bem. Não é culpa sua. Ter fé nas pessoas não é nenhum pecado.
– Eu sei, eu sei... mas eu me sinto tão idiota, sabe. Eu que sou tão acostumada a resolver as coisas com a cabeça fria, a fazer tudo do meu jeito... eu não esperava isso. Eu não esperava nada disso.
– Ninguém esperava. Relaxa. Não é bom ficar se torturando desse jeito. Anda, vamo assistir algum filme. A sua irmã vai ficar bem. Você é que precisa se cuidar. Talvez você só precise manter a cabeça ocupada um pouco.
De manhã, as duas foram juntas ao colégio. Sentaram-se no fundo da sala. Mas agora percebiam que estavam mais distantes do resto da turma do que nunca. Ana continuava na dela enquanto Dalila não sentia mais necessidade de falar com mais ninguém dali depois das sessões com a psicóloga (que pareciam ter demorado uma eternidade para acabar.). Além disso, não estavam com muito humor para aguentar mais pessoas. As duas já se bastavam.
Ana achou bem melhor assim. Lembrou-se que sempre odiava quando sua amiga ficava com outras pessoas. Lembrou-se que quando isso acontecia, ela sempre ficava calada perdida em seus devaneios enquanto Dalila exalava artificialidade com as pessoas. Mas isso acabou. Agora eram apenas as duas dividindo os devaneios. Somente aquilo a fazia esquecer por um momento a dor que passara nos últimos dias. Foi a primeira vez que se sentiu bem naquele colégio.
Riam como se nada tivesse acontecido. Ana ria como se jamais tivesse sofrido uma tentativa de estupro há poucas semanas. Dalila ria naturalmente, algo que não fazia há muito tempo. Já tinha esquecido o quanto a sensação de um sorriso espontâneo era boa. Riam do que viam na sala, das pessoas, da vida. Viviane e seu cabelo ridículo. Luís e as besteiras que dizia. Jorginho e suas brincadeiras imbecis. Deleitavam-se daqueles vermes sem peso no mundo. Talvez nem fossem pessoas ruins, apenas idiotas. Porque pessoas ruins...
Na volta pra casa, sentiam-se renovadas. Pela primeira vez sentiam-se assim voltando do colégio. Ana até sentia certo receio em voltar pra casa devido ao clima de tensão que ela tinha certeza que a aguardava. Despediram-se. Cada uma foi pra sua casa.
Quando Ana abriu a porta da frente, ouviu uma música que aparentemente vinha do galpão. A música tocava no último volume, coisa que ninguém faria se não estivesse sozinho em casa. A música era abafada por sons de marteladas constantes. O som seco de marteladas pesadas que batia sem dó num pedaço de madeira. Reconheceu a música. Pixinguinha. Apenas uma pessoa naquela casa tinha o costume de ouvir aquilo em seu momento sagrado.
O pai de Ana consertava uma cadeira velha de madeira usando o martelo de prata. Ao ver Ana se aproximando, ele diminuiu um pouco o volume do tocador de discos e continuou seu trabalho normalmente.
Ana ficou na porta do galpão em silêncio. Seu pai continuava ajeitando a cadeira como se nem tivesse percebido a presença da filha. Mas antes que Ana dissesse qualquer coisa, seu pai a interrompeu:
– A sua irmã está bem. Os médicos fizeram uma lavagem estomacal. Tiveram muito trabalho, mas ela está bem, embora esteja ainda bem fraca. Ela vai ficar internada por um bom tempo.
– Cadê a mamãe?
– Sua mãe saiu. Ela me disse hoje que a comunidade inteira da igreja está orando pela Júlia. Mas ela não quer acreditar que tenha sido uma tentativa de suicídio. – Ana ficou surpresa com a naturalidade que seu pai dizia aquilo. – Sua mãe anda dizendo pra todo mundo que foi um acidente, que a filha só queria dormir e acabou sem querer exagerando na dose de comprimidos. Bem, pela quantidade de medicamentos que a sua irmã engoliu, eu não acho que ela queria apenas ter uma boa noite de sono. – O rosto dele não demonstrava expressão alguma. Cada martelada dava um susto em Ana.
– Eu não sei por que ela fez isso. Mas tenho certeza que não era de hoje. Não foi um impulso. Há dias ela não saía daquela cama, definitivamente não era gripe. Mas você conhece a Júlia. Nunca se abriu pra mim, nem pra sua mãe, nem pra você e acabou guardando mágoas demais. Acabou guardando coisas que eu nem consigo imaginar quais sejam. Deixou as mágoas acumularem até não suportar mais. Você nunca sabe o que a pessoa pode esconder ou o que ela vai fazer.
– Ela tinha terminado com o namorado há algum tempo. Isso a deixou muito mal. Desde que o Agenor terminou com ela que a coitada se sentia mal.
Seu pai parou de martelar por um instante. Seus olhos visavam o vazio. Desligou a música, olhou para a filha e disse:
– Quem é Agenor?
A ideia de contar para o pai o que tinha lhe acontecido naquele galpão passou pela sua cabeça. Contar toda a situação com o Thomas e até explicar como isso deixou a Júlia mal e como isso ajudou a terminar o namoro dela. Mas veja como são as coisas. Quando sua mãe chegou em casa, Ana percebeu que a família estava num estado de tensão jamais visto. Um clima pesado que só iria piorar se ela contasse a parte dela na historia. Ficou triste ao ver a mãe negar que a própria filha queria se matar. A carta de Júlia continuava em seu bolso. Não valia a pena mostrar a carta à mãe e terminar de vez sua ilusão. Sua mãe não suportaria.
Não dava mais pra ficar em casa. Não naquele clima. Saiu pela rua ao por do sol.
Enquanto dirigia-se à casa de Dalila, Ana viu o carro de Agenor ao longe. Foi num breve relance. Os vidros estavam fechados, então talvez nem fosse o próprio dirigindo. Talvez fosse apenas outro carro parecido.
Já estava dobrando a distante esquina quando Ana o viu. Só aquele aparentemente insignificante momento deixou Ana com o coração mais apertado do que já estava, embora sua expressão não demonstrasse isso.
Chegando em Dalila a tensão aliviou. Num primeiro momento, falavam da situação de Júlia. Mas quando perceberam, já estavam dando risada de alguma bobagem.
– Tô afim de escutar aquele disco dos Beatles que você tem. Devia trazer junto com o tocador de discos pra gente ouvir aqui em casa. – Disse Dalila enquanto limpava do rosto uma grossa camada de maquiagem gótica.
– É, eu trago o aparelho pra gente ouvir aqui e meu pai fica sem nada pra escutar lá em casa, só a voz da minha mãe. Isso vai ser tão bom pra ele que é bem capaz que tente cometer suicídio também. Eu cometeria se passasse mais de dez minutos ouvindo aquela mulher.
– Seu pai também ouve muita música?
– Hoje mesmo ele tava ouvindo Pixinguinha. Fazia tempo que ele não botava disco algum pra tocar. Talvez precisasse relaxar um pouco. Eu não posso tirar isso dele.
– Tudo bem, tudo bem...
Ana observava Dalila terminar de limpar aquela maquiagem mórbida do rosto. Lavava os olhos e as bochechas na pia. Depois começou a arrancar a tintura negra de suas unhas com os dentes. Ana nunca usava maquiagem. Nem o cabelo ajeitava. Nunca sentiu essa necessidade. Ana sempre achou que Dalila sentia essa necessidade até demais. Mas talvez essa preocupação com a vaidade fosse algo bom. Talvez assim sua amiga se mantinha com a cabeça ocupada. Depois de um tempo em silêncio, Ana pensou um pouco e perguntou:
– Dalila... lembra quando você me disse que, mesmo sendo babacão, o Agenor realmente gostava da minha irmã?
– Lembro. Por quê? Tá achando agora que o cara passou mais de um ano fingindo gostar dela?
– Bem... Será? Poxa... eles pareciam ser um casal realmente feliz, sabe. Mas aí ele resolve terminar no primeiro momento em que ela se volta contra ele. Assim na cara dura. Como se não tivessem vivido nada. Mas cara... será que ele não manifestou emoção alguma ao saber do estado em que ela se encontra agora?
Dalila ouvia, mas em nenhum momento mantinha contato visual com a amiga. Seu olhar distraído continuava visando as unhas descascadas.
– Ana, presta atenção. Tem mulheres que só precisam ser ouvidas. E tem mulheres que só precisam ouvir o que sempre quiseram ouvir para se entregar inteiramente a um homem, entende? Eu acho que o Agenor conquistou sua irmã apenas ouvindo tudo que ela tinha a dizer e dizendo tudo que ela queria ouvir. Na verdade, eu acho que ele passou o namoro inteiro nisso, dizendo o que ela queria ouvir pra ela se sentir bem. Eu não acho que em algum momento sinceridade coube nesse jogo.
– Então, ele nunca gostou da Júlia?
– Não. Ele gostava. E muito. Mas acho que ele gostava ainda mais de ter ela nas mãos. Gostava de tê-la na hora que ele quisesse. Ana, naquele dia na pracinha quando eu fiquei com o Thomas eu vi o Agenor conversando contigo. – Só em ouvir aquele maldito nome, Ana sentia calafrios. Dalila continuava. — Ele já deu em cima de mim uma vez, o Agenor. Mas eu preferi ficar calada. Não queria que ele e a Júlia brigassem porque eu sempre soube que a Júlia gostava muito dele. Todo mundo sabia disso. Estava escrito na testa dela que ela jamais conseguiria viver sem o Agenor. Dependia dele pra viver. Eu acho que isso era o que Agenor realmente gostava. Eu não duvido que ele tenha traído a sua irmã. E se traiu, não foi só uma vez. E não foi apenas com uma pessoa. Ele e aquele Thomas são inseparáveis, sempre foram. Chove mulher na horta deles. Talvez o Thomas tenha feito aquilo contigo porque não era capaz de digerir a ideia de que alguma mulher no mundo não quisesse dar pra ele logo de primeira. Mas veja só a ironia. No fim das contas até você queria ele. No fim das contas você também queria ser uma das mulheres que chovia na horta do Thomas. Mas o seu pecado foi achar que ele iria lhe ver de igual pra igual, olho no olho. Acha que você foi a primeira menina que ele tentou estuprar? Eu não duvido que ele já tenha tentado e até conseguido fazer aquilo com outras meninas. Mas eu acho que todas gostaram. Ou fingiram gostar. É a única explicação. Talvez todas tenham gostado da “pegada” dele. Seu único pecado, Ana, foi ser diferente de todas as outras que o Thomas lidou. Eu não acho que você teria gostado se ele tivesse terminado de fazer contigo o que queria fazer. Eu te conheço, você não é do tipo que se entrega assim. Não é do tipo que se entregaria a qualquer um. Outras teriam se entregado. Eu teria me entregado a ele no seu lugar. No seu lugar, eu teria fingido que estava gostando daquilo. Só pra não ter dor de cabeça. Só pra ele não sentir raiva de mim. Só pra ele gostar de mim. Mas você não se preocupou com isso. Você queria que ele gostasse de você, mas gostar da pessoa que você é e não de ter você. Talvez todas as outras tenham adorado ficar nas mãos dele. Mas você não. Sempre tão durona, tão dona da situação... Sabe, eu acho que o Agenor esteja sim sentido alguma coisa em relação ao estado atual da Júlia. Deve ser a mesma sensação de ter uma mercadoria avariada.
Passaram a madrugada conversando. Até que quando deu cinco da manhã, as duas saíram de casa. Não havia ninguém nas ruas. Apenas o frio e os primeiros raios do sol. Enquanto caminhavam na deserta avenida, Dalila perguntava:
– Como foi que a sua mãe não viu a carta? Você disse que tava do lado dos pacotes de comprimidos, era impossível não ter visto.
– Eu acho que ela estava prestando mais atenção na filha desacordada do que num pedaço de papel no chão né? Foi tudo muito rápido. Mas talvez ela tenha visto mesmo a carta no chão. Viu, mas não leu. Preferiu ignorar. Preferiu fingir que nem estava lá.
– Então a sua mãe continua tapando o sol com a peneira?
– Sempre.
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