Ana e Seus Olhos
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Ficaram no galpão o tempo necessário. Esperaram pacientemente a partida de Agenor. Confiavam que Júlia não fosse dormir fora de casa duas noites seguidas. Esperaram até reconhecerem o carro que viram pela janela, indicando que Agenor já partira. O carro ia embora e já estava dobrando a esquina quando as duas foram até a sala. Agenor não estava lá e Júlia continuava assistindo televisão.
Ana tentou dizer calmamente a sua irmã o que acontecera. Sobre como conheceu Thomas e como o chamou para aparecer em casa quando estava sozinha. No começo, Júlia não tinha noção da gravidade da situação. Não sabia o que ainda estava por vir naquela historia que sua irmãzinha contava. Dizia coisas como “Ai, você é muito idiota. Devia ter te avisado que esse cara é um babaca.”
Mas ao chegar na parte mais tensa da historia, quando contou detalhe por detalhe o que acontecera no galpão, quando mostrou o pouco de sangue que ainda manchava o martelo de prata, Júlia desabou. Abraçava a irmã e chorava, se tremendo toda. Ana já esperava essa reação. Dalila não. Depois que se acalmaram mais, Júlia suspirou e disse:
– Eu nunca mais vou te deixar sozinha em casa. Nunca mais. Droga, única vez que vou dormir fora e acontece uma coisa dessas...
Dalila e Ana trocaram um olhar tenso.
– Júlia... tipo... o seu namorado é o best do Thomas né? – Disse Dalila, com sua desastrosa cautela.
– Ele é o quê?- Perguntou Ana a Dalila.
– O best dele. Best friend, sabe. Melhor amigo em…
– Eu sei, eu sei, eu sei, porra… nunca use essa expressão na minha frente de novo, por favor. – Ana aos poucos voltava a si.
Dalila continuou:
– Então, será que o teu namorado não sabia que o Thomas viria até aqui?
– Ou será que ele te levou pra dormir na casa dele com o intuito de me deixar sozinha aqui pro Thomas poder me atacar? – Disse Ana, curta e grossa.
As lágrimas transbordaram dos olhos de Júlia assim que terminou de ouvir aquelas palavras. Suas mãos tremiam. Sussurrava coisas como “Não, não pode ser... ele não...”. Até que tentou se recompor e disse, respirando profundamente:
– Será?
– Ai ai ai, isso não é óbvio? Teu namorado planejou tudo com o Thomas. Deixou tudo certinho pra ele me agarrar. Não tá na cara isso? Na mesma noite em que você dorme na casa dele me deixando sozinha, o amiguinho dele vem pra me estuprar. Isso não pode ser coincidência!
– É, mas foi você que o chamou pra cá, não foi? – Disse Dalila, sarcástica.
– CALA A BOCA! Eu pensei que teria sexo, não tentativa de estupro. É diferente. — Ana disse e depois se calou. Olhava com pena para sua irmã. Ela realmente gostava de Agenor, era difícil acreditar assim de cara que ele era responsável por um mal quase ter acontecido a sua irmã. As três se sentaram no sofá e suspiraram.
– Bem... melhor eu conversar com o Agenor. – Disse Júlia com convicção nos olhos.
– Amanhã né? – Disse Ana sonolenta.
– Agora. – Júlia dizia aquilo enquanto se levantava.
– Aonde ela vai? – Disse Dalila num bocejo. Ana já dormia antes que pudesse ouvir a pergunta. Dalila dormiu logo em seguida. Júlia pegou o celular.
Domingo. Ana acordou no sofá ao som do programa que passava na televisão. Era a reprise de um festival de música de 1967. Sua mãe acabara de voltar de viagem naquela manhã. Estava na cozinha fritando bacon junto com Dalila. Do sofá, Ana ouvia as duas discutindo sobre religião enquanto comiam à mesa. Dava raiva ouvir aquilo, cada qual usava um argumento pior que o outro. Não é possível que elas acreditassem que o universo inteiro dependia daquela discussão no café da manhã.
A porta do quarto de Júlia estava fechada. Ana levantou-se do sofá. A televisão ligada. Dirigiu-se à cozinha ao som de Roda Viva. Descabelada, ouvia sua mãe dizer:
– Aninha, pega o leite ali na geladeira e traz um copo aqui pra essa discrente.
– Discrente não, esclarecida. – Disse Dalila com arrogância.
– Ninguém é esclarecido se não conhece a verdade. – Sua mãe começou a citar versículos bíblicos como quem pregava para uma plateia.
Ana não aguentava aquilo. Bebeu um copo d’água e voltou para o sofá. A porta do quarto continuava fechada. Talvez Júlia ainda estivesse dormindo. Mas nem por isso ela deixava a porta fechada. Mas foi só direcionar o olhar para a televisão para sentir-se estranha.
Um jovem Chico Buarque cantava. O brilho de seus olhos era visível mesmo em preto e branco. Duas lindas e familiares estrelas que fizeram Ana desabar por dentro naquele mesmo momento. Era quase como se Thomas estivesse ali na frente dela. Lembrou-se do medo que sentiu. E sentiu mais medo ainda ao lembrar o que Dalila dissera. Sim, talvez ele planejasse terminar o que começou.
Chorava discretamente. Enxugando o rosto pra que sua mãe não visse nada. Mudou de canal. Normalmente ela iria gostar muito de assistir àquele programa, mas agora ela tinha que mudar de canal. Aqueles olhos brilhantes e cinzas na televisão a deixaram muito mal. Não suportava mais ter que encará-los.
Sua mãe chamava seu nome da cozinha, mas Ana nem ouvia. Estava distraída demais com suas preocupações.
– ANA!!!!!!!!!! – Gritou a mãe com uma brutalidade que Ana já estava acostumada.
Levantou-se correndo do sofá até a cozinha. “Como é que uma mulher dessas vai entender o que eu passei? Definitivamente eu não posso contar a ela. Ela não vai entender, vai achar que a culpa é minha. Ela nunca entende.” Ana pensava calada enquanto lavava os pratos que sua mãe e Dalila haviam acabado de comer.
– Ana, come um pouco de bacon. Deixei pra você aí no fogão. – Disse Dalila.
– Não, obrigada. Não tô com fome. Pode comer. – Ana dizia com uma estranha melancolia em sua voz. Melancolia que apenas Dalila percebia.
– Deixa pra Júlia, então. Nem sei mais o que faço com essa menina. Não come mais, parece que quer entrar numa garrafa. Olha só o estado dela. Seca. Parece até a cachorra baleia. – Sua mãe dava uma risada de deboche. Sempre que a mãe ficava em casa, comentários assim eram constantes. Aquilo realmente machucava Ana, embora esta achasse melhor ficar calada. – Olha só como essa menina é. Toda descabelada. Feia. Por isso que não arruma um namorado. Eu quando jovem era a menina mais desejada do meu bairro. O pai dela teve que batalhar muito pra conseguir me conquistar.
A mãe ria enquanto Dalila dava uma risada forçada e sem graça. Ana pensava “Eu entendo porque o pai viaja tanto. O trabalho pode ser difícil, mas não tão difícil quanto lidar com essa mulher.”
Terminou de lavar os pratos e foi até a geladeira beber um grande copo d’água. Fazia tudo isso enquanto sua mãe não parava de jogar seus defeitos na sua cara.
Até que Dalila, percebendo que aquilo estava fazendo Ana chegar até o limite de sua paciência, interrompeu a mãe dizendo:
– A Júlia nem acordou ainda. Ela costuma acordar tarde? Mesmo num domingo?
– Ah, a coitada deve estar muito cansada por causa dos deveres da faculdade. Eu sempre digo que essa faculdade é pesada demais pra ela. – Júlia já havia terminado a faculdade e começado a trabalhar há quase um ano. – Aninha, chame a sua irmã. Diga que tem bacon pra ela.
Ana obedeceu sem dizer uma palavra. A porta do quarto fechada. Girou a maçaneta. Trancada. Bateu chamando o nome da irmã. Ela respondeu:
– Vai embora.
– A mãe tá te chamando pra comer.
– Não tô com fome.
– Só tem lugar pra uma anoréxica nessa casa, menina. Anda, vem comer. – Ana bateu na porta com tanta força que o barulho chamou a atenção de sua mãe lá da cozinha.
– Sabe fazer porta? – Disse a mãe, sempre com seu ar arrogante.
– Sai, Júlia. O que você tem?
– Vai embora. É sério. Quero ficar sozinha. Me deixa sozinha.
– Tudo bem, eu durmo no sofá até você ficar melhor, mesmo que até lá a gente já tenha morrido de velhice. ABRE A PORTA, NOJENTA!
Silêncio. Ana ouviu Júlia destrancar a porta. Ela abriu um pouco e pôs apenas a cabeça pra fora do quarto.
– O que você quer? – Disse Júlia.
– Deixa eu entrar, coisa. – Ana deu um empurrão, abrindo a porta de vez e entrando no quarto.
– O que você quer? – Ouvir Júlia dizer aquilo naquele triste tom de voz fez Ana parar um pouco para olhar o estado da irmã. Seus olhos estavam inchados, parecia que tinha chorado por anos. Ana fechou a porta e fez gesto pra que a irmã se sentasse.
– Tá tudo bem contigo? Fica calma, pode me falar. A mamãe não vai ouvir a gente daqui. – Júlia sentiu compreensão na voz da irmã e disse:
– Eu falei com o Agenor. Quando vocês dormiram eu telefonei pra ele e... bem... falei o que o Thomas fez contigo e perguntei se ele já sabia disso. Cara, ele ficou muito bravo, começou a gritar comigo, a gente discutiu muito. Nem sei como vocês não acordaram porque foi muita gritaria. Ele disse que eu não confiava nele, que era bobagem perguntar aquelas coisas, que eu não tinha nada que me meter naquilo, foi horrível. Eu nunca gostei de discutir com ele, eu nunca suportava. Eu nunca queria ficar brigada com ele. Toda vez que a gente discutia, eu dava um jeito da gente ficar de boa, porque eu não sei se aguentaria suportar ficar brigada com ele de novo...
“A Júlia sempre esteve na palma da mão do Agenor” pensava Ana enquanto ouvia a irmã desabafar entre soluços.
– Mas ontem foi diferente. Eu tentei ficar de boa, mas não adiantou. Ele parecia muito bravo comigo, sabe. E tipo... – O choro de Júlia piorou. – Ele pediu pra terminar... a gente... a gente terminou ontem e tipo... ele parecia muito magoado porque eu achei que ele tivesse ajudado o Thomas a fazer aquilo contigo... meu Deus, Ana... ele desligou na minha cara. Disse pra nunca mais ligar pra ele. Que era melhor fingir que a gente nunca se conheceu. Passei a noite acordada, Ana, você não tem ideia... passei a noite tentando ligar pra ele, mas ele não atende. Sei lá, acho que eu não devia ter ligado pra ele, mas quando você me contou o que o Thomas fez...
Abraçaram-se. Não conseguia dizer mais nada. Ana acalantava a irmã mais velha como quem tentava fazer uma criança dormir. A tristeza da irmã não era do tipo que melhoraria com o tempo. Ana sabia disso. E ficou receosa.
Chegando à cozinha, Ana disse a sua mãe:
– A Júlia tá cansada. Ela disse que vai dormir mais um pouco e depois vem comer.
– Tudo bem, deixe a bichinha descansar. Eu já vou indo. Vou à igreja orar pelas minhas filhas que precisam tanto de orientação pra não se perder nesse mundo cheio de abismos e tribulações. – “A senhora não imagina o quanto.” pensou Ana. A mãe direcionou-se para Dalila:
– E você, mocinha, vou ter uma conversa séria com seu pai. Ele precisa conhecer um pouco melhor a filha que tem, antes que o demônio tome conta de vez de você.
– Tarde demais. Tanto é que adoro ouvir Demônios da Garoa. – Disse Dalila num deboche. A mãe saiu de casa irritada enquanto Dalila cantava Trem das Onze.
– Você conhece a mãe. Você sabe que ela realmente vai conversar com seu pai, não sabe? – Disse Ana arrumando as cadeiras na mesa.
– Eu não ligo. Meu pai não tá nem aí mesmo.
A mãe de Dalila havia morrido há poucos anos. Era filha única. Como seu pai era bastante ausente, então era como se morasse sozinha em casa. Dalila continuou:
– Meu pai já disse que não queria mais dor de cabeça comigo. Ia continuar me dando casa e comida, mas ia me deixar livre. Ia me deixar livre pra fazer o que eu quisesse, contanto que encarasse as consequências. Simplesmente pra evitar dor de cabeça. Assim é mais fácil...
– A Júlia não tá nada bem.
– Sério? Por quê?
– Parece que ela ligou pro Agenor pra tirar satisfação se ele sabia se o Thomas ia vir até aqui. Presta atenção como isso é sério. O cara conseguiu se fazer de desentendido, deu uma de irritado, veio com um papinho que ela não confiava nele e ainda terminou o namoro deixando a Júlia toda cheia de culpa. Ela tá lá no quarto dormindo. Passou a madrugada tentando ligar pra ele. Chegou até a pensar se teria sido melhor ter ficado calada em relação ao que aconteceu comigo.
– Teria sido melhor pro Agenor né?
– Pois é... mas olha só como as coisas são. A menina na palma da mão dele. Eu conheço a Júlia, ela gostava demais dele. Se eles não derem um jeito de voltar, então vai ser difícil ela superar.
– Você ainda quer que eles voltem? Por culpa dele o Thomas tentou te violentar. O cara ia morrer cúmplice disso se a gente não contasse pra Júlia.
– Tem razão. Mas não foi inteiramente culpa dele. Foi culpa minha. Não fui eu que chamei o cara? E eu podia muito bem ter ficado calada. A Júlia não merece sofrer as consequências de um erro meu. Ela não tá nada bem, Dalila... sei lá, talvez tivesse sido melhor ter deixado isso pra lá. A Júlia tava muito bem com o Agenor, ele prestando ou não. Ela não merece sofrer por minha causa.
Melancolia na voz de Ana. Dalila sempre notava. Foram assistir televisão para tentar esquecer aqueles dilemas todos. Júlia continuava dormindo no quarto.
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