Ana e Seus Olhos
4 3
Sexta-feira à tarde. Num momento do dia em que Ana esquecia todos os seus problemas. Não, ela não estava dormindo. Sua casa tinha um pequeno galpão cheio de objetos antigos que seu pai guardava. Ferramentas, motores de carro e um tocador de disco em perfeito estado. Possuía poucos álbuns, mas eram itens de colecionador. Quando ficava sozinha em casa, Ana costumava ouvir algum LP no último volume. Fechava os olhos e se deixava levar pela música.
Mas bastava sua mãe ou sua irmã aparecer para Ana ter que desligar a música. Nem percebeu que o celular tocara havia mais de hora. Não era Dalila. Atendeu e seu coração acelerou a ouvir aquela voz estranhamente familiar:
– Alô!
– Oi, quem é?
– É você, Ana? Ana irmã da Júlia?
– Sim, sou eu. Quem é?
– Thomas. Eu peguei teu numero com a Dalila, a tua amiga.
– O que é que você quer? – Ana estava tensa.
– Ah, sei lá queria te conhecer melhor... – Ouvindo aquelas palavras Ana automaticamente pensou “Homens! Alguns simplesmente não sabem inovar. Parece até que todos estudaram na mesma escola pra aprender a lidar com mulheres.”
– Olha, cara na boa... – Algo que parecia loucura passou pela cabeça de Ana. – se você tiver alguma coisa pra resolver comigo... – “Não vou me entregar fácil! Não vou me entregar fácil!” pensava. -... aparece aqui em casa hoje à noite. Vou passar a noite inteira sozinha. – “Tentei!”
– É sério? – Thomas parecia surpreendido. – Onde você mora?
– É na casa da Júlia. Você sabe onde é, não sabe?
– Sim, eu sei. Tá legal! Tá legal! À noite eu apareço aí, ok? Se cuida. — Ana desligou.
Se cuida. Para Ana, essas palavras sempre foram um eufemismo pra TÔ AFIM DE TE PEGAR!!! Talvez Thomas não fosse diferente dos outros homens, talvez ele fosse apenas bonito, só isso. Mas diferente ou não, o cara ia aparecer na casa dela à noite e não era pra conversar e nem pra se conhecerem melhor. Ana mal conseguia conter a alegria. Aliás, continha até demais.
Era muita coincidência o cara ligar no dia em que sua mãe ia viajar com o pessoal do coral da igreja, sua irmã ia dormir na casa do namorado e seu pai viajava a negócios. Seus pais costumavam viajar muito, mas Ana sempre ficava com Júlia em casa, sua irmã nunca dormia fora. Mas naquela sexta, Ana iria passar a noite sozinha em casa. Ou não.
Pensou em ligar pra Dalila pra contar sobre seu esquema, mas preferiu esperar até o ato consumado. Estava ansiosa. É claro que não acreditava que sua noite seria tão romântica quanto seus devaneios, mas ela tinha esperança de que chegasse perto.
Sua mãe saiu dizendo que só voltaria domingo. Ao anoitecer, Júlia saiu dizendo que tinha comida no forno. Mas era inútil, a expectativa meio que supria qualquer fome.
Ana subiu na árvore em que sempre subia. Esperava pacientemente. Mas ao olhar para as estrelas, nem percebeu o tempo passar. As estrelas brilhavam como nunca. Parecia uma festa. Parecia que aquela era a noite mais iluminada que ela testemunhara na vida. Luzes que refletiam na lente de seus largos óculos. Foi num momento de total distração que ela ouviu a porta bater. Desceu da árvore como um gato. Correu até a sala, mas chegando perto da porta começou a desacelerar o passo para que ele não achasse que ela estivesse muito entusiasmada.
Abriu a porta sem pressa. Fez uma cara de desdém. Tentava ignorar as duas lindas estrelas brilhantes que a encaravam.
– O que você quer? – Disse num tom de deboche.
– Te fazer uma visita.
– Só isso? – As palavras de Ana fizeram Thomas dar um sorriso malicioso.
– Ah, aí é você quem sabe. – Aproximava-se com seus ombros largos e peito naturalmente estufado. Alisava os cabelos ruivos de Ana. Ela tentava disfarçar a tensão, mas percebeu que era em vão quando o ouviu dizer:
– Relaxa.
Ela fechou os olhos e deu um suspiro.
– Cara, sério, o que você quer de mim?
– Sem pressa pra isso. Tem algum lugar tranquilo pra gente ficar a sós?
Ela o levou até o velho galpão de seu pai. Aquele lugar tinha um encanto que talvez só ela visse. Era um lugar iluminado apenas pela luz da lua que vinha da janela. Ana estava bastante nervosa. Isso não era normal. Geralmente ela gostava de se manter no controle da situação.
Mas bastou Thomas tirar delicadamente seus óculos para perceber que não era ela quem estava no comando.
Ele deu uma pegada de jeito em sua cintura e a beijou com tanta pressão que a fez arregalar os olhos, arrepiada. Não esperava que ele fosse tão feroz. Ela quase se engasgou com a língua dele. Ele aproximou a boca do seu ouvido. Ela sentiu o seu gélido piercing tocar sua orelha enquanto ouvia as seguintes palavras:
– Tu é muito gostosa!
“Porra, podia ter me chamado ao menos de bonita né? Ah, mas do que é que eu tô reclamando?” pensava enquanto as grossas e tatuadas mãos de Thomas apertavam sua bunda magra.
“Eita, ele tá começando a se animar.”
Quando menos esperava, Ana sentiu uma enorme mão acariciar um de seus pequenos seios. Rapidamente ela puxou aquela mão boba pra longe de seu corpo.
– Porra, menino, vai com calma né? – Disse enquanto se afastava dele. Ela olhou em seus olhos por um instante. Continuavam bonitos, mas havia um ar diferente neles.
– Com calma né? – Disse Thomas com um ar de pura malícia. Ele segurou Ana firmemente pelos braços, machucando-a.
– Ai, não faz isso...
– Shhh... Relaxa... – Thomas a deitou no chão, prendendo com uma só mão as duas mãos de Ana enquanto rasgava sua blusa violentamente com a outra. Ao ver o que estava acontecendo, Ana tentou gritar. Mas uma gélida e tatuada mão segurava sua boca.
Não conseguia mover as pernas porque ele as prendia com o corpo. Ana entrou em desespero. Contorcia-se de todas as formas que podia, mas Thomas era mais forte. Seu porte físico a mantinha exatamente como ele queria. A mão na boca para que ela não gritasse. A outra rasgava sua calcinha. Passava a língua em seus seios. Lágrimas escorriam em seu rosto. Seus olhos viam a infinidade de objetos que seu pai guardava no armazém.
Seus olhos desesperadamente procuravam por algo que a salvasse daquele monstro.
Ele tentou abrir suas pernas, mas ela usava de todas as suas forças para não deixar. Embora estivesse se sentindo fraca, usou de suas últimas forças para não deixa-lo fazer o pior.
– Vai ser mais rápido se tu deixar, vadia. – Ela chorava de desespero ao ouvir aquelas palavras. Num relance, Ana viu o martelo de prata de seu pai. Estava numa estante não muito distante dela. Aproveitando que ele estava ocupado com suas pernas, ela esticou sua mão o máximo que pôde. Assim que sentiu o martelo em suas mãos, acertou em cheio a cabeça de Thomas.
Foi uma pancada seca. Sangue escorreu. Thomas gemia de dor. Ana suspirava meio aliviada, mas ainda na adrenalina com o que acabara de acontecer. Thomas xingava. Levantou-se. Ana viu ódio naqueles olhos tão brilhantes. Ele segurava a cabeça para conter o sangramento, mas ainda se mantinha em pé. Ana continuava deitada, olhando naqueles olhos malditos. Embora aparentemente vulnerável no chão, com a blusa rasgada e as partes íntimas a mostra, Ana segurava o martelo de prata como se segurasse a mão de seu pai numa noite escura. Mesmo sangrando, Thomas avançou para terminar o que começou.
Ana se afastou rapidamente, gritando, ameaçando com o martelo. Até que Thomas recuou e disse:
– Isso não acabou.
Ele foi embora pela janela. Havia sangue no chão do galpão. Ana tremia. Foi ao banheiro e se olhou no espelho. Vendo seu estado, chorou. Deitou-se no chão e chorou. Chorou como nunca havia chorado. Chorava de desespero. De tristeza. De frustração. Sentia- se fraca. Passou horas e horas deitada no chão, ainda com a blusa rasgada, sem acreditar no que acabara de acontecer. Até que se levantou, trocou de roupa e ligou pra Dalila.
– Que é? Me deixa dormir, vadia... – Atendeu sonolenta.
– Vem aqui pra minha casa agora, por favor.
– Ana, tá tarde...
– Por favor... – Dizia Ana com uma voz trêmula.
Ambas ficaram em silêncio por um tempo. Dalila percebeu que Ana não estava nada bem
– O que aconteceu? – Perguntou Dalila
– Vem cá que eu te explico... é sério, por favor, vem...
Ainda de pijama, Dalila saiu pela janela do quarto e andou até a casa de Ana. Ficou surpresa ao ver a amiga chorando daquele jeito.
Ana contou o que aconteceu e mostrou o sangue no chão. Dalila abraçava a amiga que chorava ainda mais. Disse que ela deveria contar pra alguém, mas Ana tinha medo. Falou da ameaça que ele disse antes de ir embora e que tinha medo do que poderia acontecer. Ficaram em silêncio.
Depois de um tempo, foram à cozinha. Ana sentava-se numa cadeira, ainda trêmula. Dalila procurava alguma coisa na geladeira.
– Tem bolo aqui. Quer um pedaço? – Dalila trazia o bolo à mesa, já comendo antes de se sentar.
– Não, Dalila, não tô muito afim...
– Você precisa comer, Ana. Não pode ficar fraca desse jeito. É sério, eu tenho medo do que te pode acontecer ou...
– Porra, menina, eu não gosto de me dar ao trabalho de mastigar nem quando eu tô bem, quem dirá agora.
– Quer um achocolatado, então? Eu faço.
Ana acenou com a cabeça positivamente. Dalila fazia o achocolatado enquanto resmungava sobre alguma coisa, Ana não prestava atenção. Os lábios de Dalila se mexiam, mas tudo que Ana ouvia eram seus gritos abafados por uma enorme mão. Interrompendo o discurso da amiga, Ana disse numa voz chorosa:
– Eu não entendo... Eu gostava tanto dele... Antes eu achei que quisesse me entregar a ele, mas agora...
– Ana, você me disse que quando ele começou a forçar a barra você recuou logo né?
– Sim, foi. O cara já foi logo nos meus seios...
– É estranho né? Porque tipo, até hoje de manhã eu sei que você queria... tipo... transar com ele.
– Claro que eu queria, mas não agora. Não daquele jeito. Droga, eu me senti uma puta... um objeto a ser usado... – O choro de Ana só piorava. – Ah, meu Deus... Bem que a Júlia disse... Agora nós duas odiamos o cara e nem por isso ele vai deixar de andar com o Agenor...
– Muito estranho o Thomas e o Agenor serem tão amigos. Sei lá, ele é babacão, mas realmente gosta da sua irmã. O Thomas não só deu em cima da tua irmã, como também... enfim... Sempre achei que pegar a mulher do amigo fosse um crime imperdoável entre os homens.
– Eu não posso contar pra Júlia. Ela vai ficar muito mal, é bem capaz que acabe brigando com o namorado, sabe como ele sempre vai defender o Thomas até o final.
– Você tem que contar pra alguém. Na verdade... Pensando bem, melhor não. Você ainda tá em choque. Melhor falar só quando você tiver pronta pra isso, vai ser difícil explicar contigo abalada desse jeito.
O silêncio pairou durante certo tempo. Foi a primeira vez que Dalila viu a amiga tão abalada daquele jeito.
Era uma imagem de partir o coração vê-la com aquele olhar distante e triste. Ana encostou a cabeça no ombro de Dalila. Seus olhos ainda lacrimejavam, mas agora ela se sentia mais confortável. Sentia-se como se tivesse chegado em casa depois de uma longa e dolorosa jornada. Foram até o galpão e enquanto limpavam o sujo de sangue do chão, Ana disse:
– Por que a gente tá fazendo isso, Dalila? Deixa o sangue aí!
– Você quer contar aos seus pais o que houve?
– Bem... eu não sei... tô com muito medo... deveria ser o certo né? Mas sei lá, isso tudo é tão confuso...
– Pois é. Imagina como vai ser confuso explicar esse sangue no galpão.
– A gente tá escondendo as provas de um crime em que eu sou a vítima? Droga...
Depois, puseram-se a ouvir um velho disco dos Beatles enquanto sentavam-se de frente à janela, sem dizer uma palavra, apenas admirando o nascer do sol.
Poucas palavras foram ditas durante aquela manhã de sábado. Ana passou o dia na casa de Dalila, ouvindo música e tentando descansar a mente. Até que no fim da tarde, já mais tranquila em relação ao trauma, Ana disse:
– E se eu o denunciasse? Deve ter alguma delegacia aqui na cidade, você pode ser minha testemunha.
– Tipo, é até uma boa, mas... o Thomas é menor de idade. Ele não iria preso, no máximo pegaria uma pena fazendo serviço comunitário, mas isso só iria servir pra aumentar mais ainda o ódio dele.
– Aumentar mais ainda o ódio? Como assim?
Dalila tentou ser cautelosa:
– Tipo... pelo que você me disse, se aquelas foram as ultimas palavras dele antes de fugir pela janela, então ele vai querer terminar o que começou. E tipo, mesmo se ele pudesse cumprir uma pena pior, ou até ser preso, entenda que o Agenor jamais teria um amigo pobre. O papaizinho dele não ia economizar nenhum centavo pra limpar o nome do filho. Eu não quero te deixar desesperada, mas tenho medo do que ele possa fazer. Eu não quero te assustar...
– Ainda bem que não quer. Você fala assim como se conhecesse bem ele.
– Eu conheço, eu sempre soube que ele era um cara de pau. Mas, cara, isso que ele fez contigo me surpreendeu pra caralho, por isso que tô com tanto medo, sabe. Tenho medo de ele me surpreender ainda mais.
– Entendo. Eu não posso contar pra mamãe. Ela vai querer saber como foi que eu trouxe homem pra dentro de casa. Vai achar que é birra, ela nunca me leva a sério. Não adianta. Melhor nem tentar. Já meu pai tem muito estresse no trabalho. Quando ele chega em casa, tudo que ele quer é sossego. Não vale a pena dar mais dor de cabeça pro velho.
– Espera, você é a vítima, por que sua mãe não entenderia?
– Você conhece minha mãe? Não ouviu o que eu falei? Alguma vez ela me levou a sério? Alguma vez eu pude me abrir com ela sem ouvir alguma piadinha ou deboche? Não, Dalila. Melhor não. Argh... tem certeza que a gente não devia contar pra polícia?
– Ana... já falei... e se ele voltar?
– E você quer que eu finja que nada aconteceu e fique calada?
– Ana... – Dalila não sabia o que dizer. — Depois você pensa nisso. Eu tava planejando pra esse fim de semana escolher meu vestido pro baile de fim de ano, mas depois disso... – Ah, o baile de formatura... Ana tinha esquecido completamente dele. Isso porque planejava não ir. Mas talvez o baile não fosse tão ruim quanto aquela maldita noite que dificilmente ela iria esquecer. Ana era do tipo que não esquecia. Superava, mas nunca esquecia. Lembrava e guardava tudo dentro dela, fossem mágoas ou não. Dalila continuava falando:
– Mas enfim, depois eu cuido disso. Vamo lá pra tua casa? Tô afim de ouvir aquele disco dos Beatles que você tem.
Chegando em casa, estavam Júlia e Agenor na sala assistindo a um filme.
– Maninha, nem comeu o frango que deixei no forno né? – Dizia Júlia sem deixar de olhar para a televisão. Mas os olhos de Agenor não estavam concentrados no filme. Agenor olhava fixamente para Ana.
– Eu... eu tava sem fome... – Disse Ana encarando Agenor.
– Você nunca tá com fome, coisa magra. – Júlia nem percebia que o namorado e a irmã se olhavam quase que sem piscar.
– Eu vou ouvir música aqui no galpão, ok? — Ana agora olhava para Dalila. Segurou sua mão enquanto saía da sala.
– Tudo bem, mas não aumenta muito o volume não. – Dizia Júlia distraída com o filme e sem perceber que Agenor ainda encarava Ana, que já se distanciava.
No galpão, puseram o disco pra tocar num volume suficiente para que as duas pudessem se ouvir.
Ana dizia aflita:
– Você viu o jeito que ele me olhou?
– Quem? Aumenta mais o volume, coisa...
– O AGENOR, IDIOTA! Viu o jeito que ele ficou me olhando?
– Que jeito?
– Eu acho que ele já sabe o que o amigo dele fez aqui neste galpão. Ele sabe e é cúmplice disso.
– Onde tava tua irmã ontem? — Dalila perguntava, distraída com a capa do álbum dos Beatles em mãos.
– Na casa do namorado. No Agenor. Por quê?
– Coisa estranha... achei que sua irmã nunca dormisse fora...
– Pois é... – As duas se calaram. Ouviam apenas o som do vinil. “Something in the way she moves; Attracts me like no other lover”. Até que ambas se olharam e ficaram se encarando um pouco. Pensavam com suspeita no olhar. Ana, então, disse:
– Ah meu Deus…
Fale com o autor