Ana e Seus Olhos
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Thomas. Camiseta preta que deixava a mostra seus braços fortes e tatuados. Piercing no canto da boca. Cabelos negros e lisos. Alto. Skate na mão. Quando Ana o ouviu falar, percebeu que ele tinha a voz de um Caetano Veloso e os olhos de um Chico Buarque. Ah, aqueles olhos. Pareciam tão brilhantes quanto as estrelas que ela costumava admirar à noite. Era tanto que quase dava pra ver as constelações.
Ele se apresentou com sua doce voz, cumprimentou ambas com suas tatuadas mãos e antes que Ana acordasse do transe, Thomas já estava aos beijos com Dalila. Agenor sentou ao lado de Ana e disse:
– Olha, eu até ficaria contigo, mas eu gosto demais da tua irmã.
“Tudo bem, eu não ficaria contigo de qualquer jeito mesmo!” pensou Ana dando um sorrisinho.
– Eu vou pra casa. Não tô muito afim de ficar na vela. Dalila, me liga quando tiver terminado o programa aí, ok? Só toma cuidado pra não passar doença pro cara. Tchau! – Disse Ana indo embora com pressa.
– Eu até te daria carona pra casa, mas eu tenho vergonha do meu carro, então... – Disse Agenor ao longe enquanto Ana se distanciava cada vez mais.
Chegando em casa, Ana encontrou sua irmã assistindo televisão e comendo um pote de sorvete.
– Achei que tivesse de dieta, Júlia.- Disse Ana.
– Dieta é para os solteiros. – Júlia enfiava uma grande colherada de napolitano goela abaixo.
– Tá tudo bem contigo, menina?
– Uhum. Tô ótima! Só tô meio... sabe...
– Sim, eu sei... – Disse Ana num suspiro.
Ela se deitou na cama, confusa como nunca estivera na vida. A cabeça inquieta. Não entendia bem o que a deixara assim. Tentou dormir. Imagens e devaneios passavam diante de seus olhos, embora estivessem fechados.
A imagem de olhos claros e brilhantes como o sol não saía de sua mente. Sol este cuja luz rasgava sua pele. Ana não ousava olhar diretamente para este poderoso sol, pois a cegaria no mesmo momento. Sol este tão lindo, mas intocável. Sentiu-se como o trágico Ícaro. Tão genial, mas ao mesmo tempo tão tolo. Realizou seu sonho de voar como um pássaro, mas sofreu as consequências por chegar perto demais do Sol.
Ana acordou com o celular tocando. Era Dalila. Dizia que não iria deixar de ficar com o tal do Thomas tão cedo. Mas disse também que este ficara chateado porque Ana foi embora sem se despedir direito. “PORRA ELE TAVA FICANDO COM A DALILA, PRA QUÊ ELE IRIA FICAR PREOCUPADO COM QUALQUER COISA QUE EU FIZESSE? O QUE ELE QUER COMIGO???” pensava Ana enquanto fingia ouvir Dalila se derretendo pelo Thomas. Desesperada por dentro e imóvel por fora, Ana só voltou a prestar atenção em Dalila quando esta disse:
– E eu dei teu telefone pra ele.
– HÃ? PRA QUÊ ISSO, VADIA?
– Ah, ele pediu. Disse que gostou de ti, mas bem que você podia ter ficado na pracinha né?
– Dalila, pra quê ele quer meu numero?
– Ora, pra te conhecer melhor, besta.
– Não se faz de idiota. Você mesma vivia me dizendo pra tomar cuidado com homens e agora fica aí se fazendo de boba. Porra, menina, não tá na cara que ele tá querendo ficar comigo?
– Mas ele disse que veio pra ficar comigo. Além disso, eu sei que posso confiar em ti né, amiga?
– Não, Dalila, não pode. E não me chama de amiga assim, fica parecendo aquelas falsas da sala.
– Quer dizer que se ele te der mole, você fica com ele?
– Ele é lindo né?
– MAS EU GOSTO DELE, PORRA!
– FODA-SE! ELE CONTINUA LINDO!
Júlia gritou na sala mandando Ana falar baixo. Ana falou:
– Olha, Dalila, sinto muito, mas você não é burra a ponto de não perceber as intenções desse cara.
– Mas ele gosta de mim... não gosta?
– Não, Dalila, não gosta. Ele só quer te comer. É diferente.
Quando Ana desligou o telefone, Júlia disse logo em seguida:
– Eu sempre soube que isso ia acontecer com ela.
– Com quem? – Disse Ana confusa.
– Essa tua amiga, a Dalila. Adora dar uma de mulherona, fica com mil caras... até encontrar um que saiba trata-la do jeito que merece. Cachorra!
– Ah, Júlia, não fala assim dela não. É verdade que ela é meio promíscua, mas ela só dá pra quem merece.
– E você não acha essa lista um tanto quanto grande demais?
“Aff, melhor ficar com mil caras bonitos do que ficar presa com um babacão” pensava Ana revirando os olhos. De todos os parceiros de Dalila que Ana testemunhou, nenhum era feio. Podia ser vadia, mas tinha bom gosto.
Descobrir que Thomas pediu o numero do seu celular fez Ana se sentir estranha. Uma sensação estranha, mas não necessariamente ruim. Parou para refletir no que havia acontecido naquela pracinha que a deixara tão inquieta.
Percebeu que nunca na vida ela tinha se sentido tão atraída fisicamente por alguém. Bom, lembrava que só se sentiu assim por alguém uma vez antes. Pelo Draco Malfoy do Harry Potter, mas enfim.
Nunca na vida se sentiu desejada por alguém que a interessasse. Pouco importava se Dalila ficasse com raiva, ela poderia ter o homem que quisesse mesmo, um a menos roubado pela amiga não faria diferença. Nem conseguia mais dormir direito de tão eufórica. Só que eufórica apenas por dentro.
Um filmezinho passava pela sua cabeça antes de dormir. A mesma praça. O mesmo jardim. Sem Dalila. Sem Agenor. Apenas ela e Thomas. O brilho de seus olhos penetrava sua mente como uma navalha. Uma lâmina afiada que cortava sem piedade, mas que por alguma razão, fazia Ana se sentir bem por isso. Os braços tatuados a cobriam como um manto, protegendo do frio. Sentia-se segura.
Até que da boca dele saíssem palavras bem familiares:
– Mas em meio da estrada caiu
E na queda uma perna partiu
E a distancia saltou-lhe da mão
Sobre a terra o pobre coração
Nesse instante uma voz ecoou
Magoou-se pobre filho meu
Vem buscar-me, filho, aqui estou
Vem buscar-me que ainda sou teu.
Calafrios. Aqueles dedos grossos e tatuados seguravam seu queixo. Até que ele a beijasse como nunca havia beijado ninguém antes. As línguas se entrelaçavam como cobras no ritual de acasalamento. Os suspiros profundos e os batimentos acelerados. Os olhos fechados, embora visse todo aquele esplendor.
O despertador toca e Ana acorda. Segunda-feira está na fossa.
Escovou os dentes. Não tomou banho, não ajeitou o cabelo, não merendou. No Colégio, sentou-se no fundo da sala de aula junto de Dalila, embora esta parecesse estranha.
– Tá tudo bem contigo, menina? – Perguntou Ana, meio que sabendo pra onde essa conversa ia chegar.
– Mais ou menos. Eu pensei naquilo que você me disse ontem. Será que ele não gosta de mim de jeito nenhum? – Disse Dalila. Ana percebeu que ela estava sem maquiagem. Nem batom negro, nem sombra, nada.
– Ah, Dalila... – Ana pôs a mão sobre o ombro da amiga, fazendo-a escorar a cabeça. – Foi você mesma que me disse não vale a pena ter dor de cabeça por homem nenhum. Esse Thomas nem é tão bonitão assim.
– Você gosta dele, Ana. Eu vi o jeito que você olhou pra ele na pracinha. Você vai ficar com ele, já tô vendo.
Ana engoliu em seco.
– Tem razão. Eu vou ficar com ele na primeira oportunidade. Mas olha pelo lado bom, do jeito que esse bicho é cara de pau, é bem capaz de ele querer ficar com nós duas. – Dalila deu uma risada. Ana percebeu que era uma risada vinda de alguém que precisava rir a muito tempo.
Dalila perguntou:
– Será que ele é tão escroto assim?
– Todos são. Mas você não precisa morrer por causa disso. – Ana alisava os cabelos negros e sedosos da amiga.
A semana foi passando e as duas nem falaram mais do carinha lá da praça. Ana ficou feliz em ver a amiga sorrindo como sempre fazia, embora jamais esquecesse a melancolia de sua voz naquela segunda-feira.
Algo que sempre perturbava Dalila era o fato de Ana raramente comer. Dizia que odiava tanto a comida de casa quanto do colégio. Mas a verdade era que Ana nunca sentia apetite.
No refeitório, Dalila ofereceu um pedaço de pão a Ana que disse:
– Não posso. Tenho que ser fiel a minha dieta.
– Ana, dieta não significa passar fome. Você acha que a dieta das crianças da África é saudável?
– Bem, pelo menos eles não sofrem com celulite!
– ESQUELETO NÃO TEM CELULITE, PORRA! – O refeitório inteiro olhou feio para Dalila que tentou se conter diante da vergonha.- Ana, você pesava exatamente quanto da última vez que pisou numa balança?
– Faz tempo isso...
– Quanto?
– Uns quarenta e pouco, mas eu já consegui diminuir, num se preocupa não.
– Come esse pão, Ana.
– Não.
– Come.
– NÃO!
Dalila tentou enfiar à força o pão na boca de Ana. Um monitor separou as duas que foram levadas para a diretoria. A diretora era uma senhora de presença respeitável, mas que ninguém realmente gostava. Era possível sentir sua presença apenas pelo cheiro forte que vinha dela. Forte e muito desagradável. Cheiro de velharia. Cheiro de gente que não transa há séculos.
Sentadas de frente à diretora, as duas amigas cruzavam os braços como duas crianças birrentas. Ana mais descabelada que o normal e com farelos de pão ao redor do rosto disse:
– Foi ela que começou.
– Não quero saber. Já cansei de vocês duas achando que são superiores ao resto da sala. — Disse a diretora enquanto Ana encarava seus amarelados dentes e seu modesto bigode.
– Peraí, a antissocial aqui é a Ana. Eu sou amiga de todo mundo lá da sala. – Disse Dalila.
– Ah bom, você é amiga de todo mundo da sala! A diretora devia te mandar pra casa junto com um pedido de desculpas depois de um argumento desses.
– Silêncio! Já está na hora de vocês receberem uma orientação. Não sei como é a criação de vocês em casa, mas não deve ser muito boa. Vou recomendar vocês pra psicóloga. Talvez assim vocês deixem de plantar a discórdia na turma.
“Que diabo ela quis dizer com isso? Plantar a discórdia? Ela assiste a nossa sala como uma novela ou o quê?” pensava Ana enquanto esperava a verruga no rosto da diretora criar vida e sair andando a qualquer momento.
O sermão durou quase uma hora. Mas nem Ana prestava atenção, porque estava admirada demais pensando em como uma pessoa só podia ter tantos defeitos físicos, e muito menos Dalila.
Ao sair da sala, Ana olhou para Dalila e disse:
– Imagina como deve ser a vida do marido dela. Ou ele se vira como pode no banheiro ou encara o dragão. Ele deve tomar um porre toda noite antes de ir pra cama. Será que ele fica pensando em outra mulher enquanto...
– O que você acha que essa psicóloga vai dizer da gente? Digo... o que a gente precisa dizer pra se livrar logo disso?
– Eu não sei, Dalila, vai ver os métodos dela incluem brinquedos educativos.
As sessões na psicóloga começaram logo no dia seguinte. Ana nunca mentiu tanto na vida. Mentiu sobre ter uma infância feliz, mentiu sobre ter uma vida socialmente saudável, mentiu sobre ter um bom relacionamento com a mãe e mentiu sobre gostar das pessoas de sua sala. Simples assim. Foi só dizer o que a doutora queria ouvir que Ana se livrou das sessões mais rápido do que pensava. Apesar disso, ainda foi diagnosticada com transtornos de ansiedade e algumas outras coisinhas que Ana achou melhor não falar sobre.
O problema foi Dalila. Após uma semana de sessão, Ana nunca a encontrava. Mais tarde, descobriu que a amiga se escondia no banheiro ao fim de cada sessão.
– Isso você não diz pra doutora né? – Disse Ana ao surpreender Dalila sentada no vaso, com o rosto e os olhos encharcados.
– Eu não sou falsa, Ana... aquela doutora... aquela puta... ela não precisava dizer aquilo...
– Ela te chamou de falsa? Que tipo de psicóloga é essa?
– Não, não... ela disse que eu deveria ser menos dissimulada com as pessoas. Falou que todo mundo acha que eu só falo com as pessoas por interesse. Droga... eu não sou assim... não é assim...
– Ah Dalila... – Ana a abraçou, fazendo a amiga chorar ainda mais. — Dalila, eu sinto muito, mas você não é amiga de ninguém naquela sala e ninguém lá é seu amigo.
– Mas eu não sou uma pessoa ruim, Ana. Será que ninguém naquela sala gosta de mim?
Ana nunca viu Dalila chorar daquele jeito.
– Existe uma razão pra você ser a única pessoa daquela sala com quem eu falo. Dalila, cada sorriso seu que eu vejo você abrir com aquele povo é tão artificial que chega a me dar nojo.
– Você tem nojo do meu sorriso?
– Não, idiota, só quando é forçado. Eu sei que você ainda é capaz de dar um sorriso verdadeiro.
Dalila deu uma risadinha, olhando para o chão, meio envergonhada. Ana ergueu a cabeça de Dalila com a mão, olhou para o sorriso da amiga e disse:
– Viu só? Essa semana você não usou maquiagem nenhum dia. Porra, se acalma. Que se foda se o Thomas não gosta de você ou se o resto da sala também não gosta. Essa necessidade em ser amada é que te mata, menina. — Às vezes Dalila não conseguia entender como alguém que vivera tão pouco podia ser tão sábia.
– E pensando melhor, essa psicóloga parece mesmo é ser uma boa duma fuxiqueira pelo jeito! – Disse Ana fazendo as duas rirem.
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