Meses antes de vender o tal disco, Ana passou por algumas coisinhas que não a fizeram muito bem. Frequentava o colégio meio que obrigada, como qualquer aluno. Falava apenas com sua amiga Dalila, menina esta de aparência bonita, mas estranha tanto em estilo quanto em personalidade. Dalila usava constantemente um batom negro que realçava o excesso de sombra nos olhos. Unhas, cabelos, roupas pretas que nem carvão. Embora sua pele fosse branca e seus olhos claros, Dalila era um pontinho preto em qualquer lugar que estivesse.

Viviam andando juntas as duas. Inseparáveis desde a infância. Alguns diziam que eram lésbicas, mas elas nem ligavam. Dalila sempre foi a mais extrovertida, falava com todos e aparentemente era amiga de todo mundo naquela sala. Já Ana sentia necessidade de falar apenas com Dalila e sentia que isso já era muito.

Era o último ano do ensino médio e conforme o tempo passava, conforme o ano fosse acabando, os alunos da turma sentiam que aquelas brincadeiras estavam cada vez mais perto do fim. Sentiam que a vida de colégio estava acabando e que, no fim das contas, apenas as lembranças restariam daquilo tudo que viveram durante tanto tempo. Ana nunca engoliu isso.

Recusava-se a aparecer nas fotos em que a sala tirava junto, mesmo Dalila insistindo muito. Preferia bater a foto com a câmera, assim não precisava aparecer no meio daquele povo. Era como se cada pessoa ali fizesse parte de um todo e ela não se sentisse parte desse todo. Não que isso fosse algo ruim. Ela falava apenas com Dalila por uma boa razão.

Mas sempre criticava a falsidade de Dalila. As duas falavam mal de praticamente todos que conheciam, pelo menos de todos daquela sala principalmente; mas era Dalila quem insistia em manter contato com essas tais pessoas.

Dalila falava com todo mundo naquela sala para depois, no fim da aula, fofocar e falar mal pra Ana. O cabelo ridículo que parecia uma vassoura de Viviane. As besteiras que Luís dizia no meio da aula. As imbecis brincadeiras de Jorginho. O assunto não acabava mais quando era pra falar mal daquela gente. Mas Ana não precisava que Dalila destilasse seu veneno para sentir raiva daquelas pessoas.

Ana conhecia cada criatura que estudava naquela sala. Já havia se aproximado inocentemente de cada uma daquelas pessoas. Sentia um profundo nojo quando se lembrava disso. Isso porque quanto mais ia conhecendo melhor aquelas pessoas, quanto mais deixava de ver o que havia apenas na superfície e começava a se aprofundar na personalidade de cada uma delas; automaticamente Ana acabava nutrindo uma repulsa por elas. Os defeitos das pessoas a incomodavam como se ela própria não tivesse seus defeitos. Acabou se afastando radicalmente das pessoas da sala e ultimamente sentia que não queria ficar perto de nenhuma delas, muito menos ouvir o que tinham a dizer.

Todo dia se perguntava como era possível juntar tanta gente inútil numa sala só. Bem, talvez assim fosse o mundo.

Mas Dalila era uma exceção. Embora com todos os seus defeitos, Ana realmente gostava da sua amiga e adorava falar mal dos outros com ela. Aliás, falar sobre tudo. Era apenas quando conversava com Dalila que Ana podia ser considerada uma tagarela. Era apenas com Dalila que Ana abria um sorriso. Isso porque ela se sentia estressada tanto no colégio quanto em casa.

Ana dividia o quarto com sua irmã mais velha, Júlia. Perdeu as contas de quantas vezes teve que dormir no sofá da sala para que sua irmã ficasse a sós com o namorado.

Ana nem sonhava em trazer algum homem para dentro de casa, sua mãe (uma senhora religiosa e muito rígida, pelo menos com Ana) a mataria. Na verdade, nunca havia conhecido ninguém que valesse a pena o risco.

Bastava a mãe dormir que o namorado de Júlia entrava pela janela do quarto. Era meio que sagrado esse momento pra eles. Chamava-se Agenor. Cabelos longos, piercing no nariz e tatuagens pelo corpo todo. Júlia amava seu estilo rebelde. Mas Ana sabia que o cara havia pagado as tatuagens e todo o resto com a mesada do papaizinho. Era um riquinho, mimado, metido a rebelde. Do sofá da sala, quando não ouvia os gemidos da irmã, Ana sempre ouvia Agenor reclamando de alguma coisa sobre a família. Coisas como “Odeio meu pai. Ele sabia que eu queria um Corolla, mas me deu um Palio de propósito!”

Nessas horas era que Ana agradecia pelo bom estado de seus fones de ouvido. Mas às vezes a voz da sua irmã incorporando uma atriz pornô conseguia ser mais alta do que qualquer solo do Jimmy Page. “Será que a mamãe não tá ouvindo isso?” pensava. Mas já havia se tornado rotina. Nas noites em que o namorado não vinha, Ana tentava dormir ao som do diálogo entre os dois pelo celular. Dois acéfalos.

Conversavam sobre os mais variados tipos de assuntos inúteis que alguém poderia perder tempo falando ou ouvindo. Era incrível como aqueles dois eram perfeitos um para o outro de tão idiotas. Mas quando era Ana quem tinha que falar no telefone (sempre com Dalila), Júlia sempre a expulsava do quarto. Ana saía pela janela e subia no alto de uma árvore. Tão alta que dava para ver quase todo o bairro. Mas melhor do que isso, era possível ter uma visão única do céu. À noite, era como se as nuvens negras cuidassem de suas vidas sem se importar com o resto do mundo.

E nas noites estreladas, era como se grandes olhos brilhantes a observassem. Era comum ela pedir a Dalila pelo telefone para olhar para o céu e ver as estrelas. Perguntava se ela via as três marias, ou aquela constelação que parecia uma panela.

Passavam horas divagando sobre tudo. Conversavam até o sono chegar ou até a operadora desligar na cara das duas. Conversavam praticamente sobre tudo e o assunto parecia nunca acabar.

Chegavam a divagar sobre o que era a vida e a morte. Dalila sempre fazia questão de mostrar que era ateia, não acreditava em nada e que após a morte nada a aguardava. Já Ana sentia-se bem com a ideia de que alguém lá em cima estivesse cuidando dela. Mas ainda assim as dúvidas eram inevitáveis, talvez Dalila estivesse certa, talvez fosse tudo criação do homem pra que este tivesse alguma coisa com que se apegar nos momentos de solidão.

Quem sabe. A questão é que Ana não queria acreditar que a vida um dia chegasse a um fim permanente. Não se sentia nada confortável com a ideia de que após a morte ela encontraria um silencioso e imenso nada. Um eterno nada. Não entendia como isso fazia Dalila se sentir tão bem.

A ideia de que uma força maior controlava o universo, de que tudo estava interligado, de que nada acontecia à toa, confortava Ana muito mais do que as imprevisibilidades do acaso. Já Dalila amava confiar na aleatoriedade da vida. Dizia frequentemente que se nada é pré-determinado, então tudo pode acontecer, até as coisas mais improváveis. E que era melhor confiar em si mesmo do que em qualquer força maior. Contudo, as grandes diferenças entre as duas nunca a separavam. Sabiam lidar perfeitamente com os defeitos uma da outra, como se tivessem sido colegas de útero.

Conforme elas sentiam que a vida de colégio estava acabando, as duas falavam cada vez mais sobre o futuro. Pensavam no que iriam trabalhar, se a vida de universitária era tão diferente da de ensino médio, sobre homens... Dalila tinha muita experiência em relação a homens. Perdera a virgindade aos quinze e sempre se mantinha sexualmente ativa, sempre fazendo questão de manter a amiga informada. Não que isso a tornasse uma vadia, jamais. O único beijo que Ana deu na vida foi num jogo de verdade ou desafio aos treze anos. O carinha até tentou ficar com ela depois disso, mas Ana não gostava dele. Achava ele muito pivete. Mal sabia ela que dali pra frente acabaria tendo esse mesmo julgamento em relação a praticamente todos os homens.

Enfim, Ana não estava nem um pouco a fim de ir para as festas de fim de ano da sala, muito menos ir ao baile de formatura, mesmo Dalila insistindo muito. Acharia melhor ficar em casa, sem fazer nada do que ver aqueles rostos que viu durante anos e anos e que por todo esse tempo lhe causavam nada além de aborrecimento.

Embora gostasse de sair para qualquer canto com sua amiga, Ana odiava aquela gente. Não custa nada repetir, Ana odiava e sentia nojo de cada uma daquelas pessoas. Se pelo menos não as tivesse conhecido tão bem... Não entendia como sua amiga tão próxima não sentia o mesmo. Via-os como uns vermes, um peso morto no mundo. Seria uma bênção não ver mais ninguém daquela sala depois que tudo acabasse.

Dalila aconselhava Ana constantemente, principalmente sobre homens. Os conselhos que mais se repetiam eram: “nunca confie plenamente num homem porque no fim das contas tudo que ele faz é pra te comer; não se apegue e tenha consciência de que não vale a pena ficar mal por um cara enquanto existem milhões de outros bem melhores por aí.” Mas Ana nunca tinha a oportunidade de pôr em prática tais conselhos. Era reservada e saía apenas com sua amiga e geralmente apenas para conversar.

Pensando bem, Ana era uma incógnita. Nem Dalila, a pessoa que a conhecia melhor, conhecia sua amiga completamente. Havia coisas que Ana só guardava para ela mesma, coisas que nem ela própria entendia. Pensava coisas estranhas e em certos momentos, Ana tinha quase certeza de que se ela se abrisse a um psicólogo e dissesse tudo que passasse em sua mente, com certeza estaria numa camisa de força no dia seguinte. Chegava a ter medo de si mesma, mas sempre soube se controlar. Se ao menos Dalila soubesse o caleidoscópio que era a mente de Ana, talvez as duas nunca fossem amigas. Vez ou outra, Dalila se surpreendia com Ana. Talvez a discrição em relação a si mesma fosse a maior qualidade (ou defeito) de Ana.

Numa noite, deitada no sofá da sala e sem conseguir dormir, Ana resolveu ouvir a conversa entre Júlia e Agenor. Estranho como ele não estava reclamando de sua sofrida vida de filhinho de papai. A porta do quarto estava fechada, Ana apenas ouvia os dois lá dentro. Ouviu a voz de Agenor que dizia:

– Lembra do Thomas? Ele volta de viagem amanhã. Faz tempo que não vejo o cara.

– Ai, você sabe que eu detesto aquele menino. – Disse Júlia nervosa.

– Por quê? O cara é gente boa, é meu amigo. Só é meio... sabe... filho da puta!

– Ele é muito filho da puta. Não sei como você continua amigo dele, o cara deu em cima de mim.

– Mas a gente não tava namorando na época.

– Mas a gente já se gostava e ele sabia disso. Pensei que vocês homens nunca ficassem com a garota que o amigo é afim. E o cara deu em cima de mim na maior cara de pau. Se eu fosse você teria nojo dele.

– Você fala assim como se não tivesse cedido. Você ficou com ele, independente dele ter dado em cima ou não. Você ficou com ele porque quis, ele não te forçou a fazer nada.

– Porra, não me lembra disso. – Disse Júlia com uma voz ainda mais nervosa. Pelo jeito trêmulo em que falava talvez ela estivesse chorando. – Eu me sinto suja só de me lembrar daquele dia. Eu tava triste, tava mal pra caralho, eu achei que você não gostasse de mim, sabe. Aí veio aquele puto do teu amigo vindo me consolar. Chegou como quem não quisesse nada, veio com mó papinho no meu ouvido. Porra. Eu acabei cedendo, mas eu me arrependo até hoje. Aquele cretino só queria se aproveitar de mim. Eu já tava mal e ele conseguiu fazer eu me sentir pior. Eu teria feito uma besteira se não tivesse tudo se resolvido entre mim e você.

Parecia que Agenor estava abraçando Júlia. Ela estava realmente nervosa só de mencionar esse tal de Thomas. Ana ouvia suspiros e soluços. É, sua irmã estava chorando e muito.

Agenor falava em tom de consolo:

– Tudo bem, Júlia. A gente nem tava namorando sério naquela época como hoje. Agora ele entende que a situação é outra e eu confio nele, ele não vai dar em cima de você. O cara é meu amigo.

– Eu não quero ver ele. Eu não quero ver ele nunca mais, é sério. Tô com ódio só de lembrar.

– Amanhã ele volta pra cidade. Você sabe que eu sempre ando na rua com ele. Não fica assim. Eu não gosto de te ver mal.

Aí começaram os papos melosos que levaram aos beijos que levaram a... bem... Ana pôs os fones de ouvido.

A manhã seguinte era um domingo. A mãe ia à igreja. O pai dormia como quem não tivesse dormido há anos. Ana sentou-se à mesa junto com Júlia e Agenor, que passara a noite lá. Ele reclamava que o pai não o deixara colocar um piercing na língua. “Seria legal se o piercing infeccionasse a língua e ele ficasse calado pra sempre” pensava Ana enquanto olhava para a comida na mesa. Achava incrível como os dois mesmo tendo passado a noite inteira fornicando ainda tinham saco pra se beijar daquele jeito pela manhã.

Mas mantinha-se calada. Sabia que se abrisse a boca para criticar não teria uma resposta muito agradável. Ouviria coisas do tipo “Ah, você só diz isso porque ninguém te quer” ou “Você tem a mentalidade de uma cinquentona carente na menopausa”. Não valia a pena. Era a felicidade deles, por mais irritante que fosse.

O celular tocou.

Ana achou muito estranho Dalila telefonar às sete da manhã. Geralmente ela dormia o domingo inteiro porque estava de ressaca do porre de sábado à noite. Chamou a amiga para ir até a pracinha, a única que tinha naquele pequeno bairro. Ana vestiu uma roupa qualquer e nem ajeitou o cabelo. Saiu de casa sem pressa. No caminho, viu Agenor saindo no seu “humilde” carro.

Ana e Dalila sentaram-se em cima do escorregador. Achavam graça de um velhinho que roubava no jogo de cartas achando que ninguém estava percebendo. Na verdade, ninguém tinha coragem de chamá-lo de ladrão e acabar o jogo, ninguém queria acabar com a alegria do velho senhor.

Divagaram, divagavam... até que Dalila foi direto ao ponto:

– Lembra daquele amigo do namorado da tua irmã?

– Sei. Thomas né? O que é que tem?

– Ai, eu sempre achei ele um gato! Ele me ligou ontem, sabe, a gente passou a noite toda conversando, nem vi o tempo passar.

– Ah, então é por isso que você não tá de ressaca hoje né? Haja crédito. Aliás, haja paciência.

– Deixa eu falar, coisa. Ele pediu pra se encontrar comigo aqui na pracinha quando chegasse de viagem.

– E que horas ele chega?

– Meio-dia.

– E o que diabos você tá fazendo aqui sete da manhã, vadia?

– É que eu não quero me atrasar, sabe. Eu sou muito afim dele e tipo... você o conhece?

– Não. Mas é estranho você me falar dele agora.

– Por quê?

– Ontem à noite, a Júlia e o namorado falavam justamente dele. E aí, no dia seguinte, você vem me dizer que essa mesma pessoa te ligou e quer se encontrar contigo. Ele podia ter ligado pra qualquer garota, mas ligou precisamente pra você.

– Isso não é estranho, Ana. Para sua informação, eu sou bem desejada.

– Nossa, quer um troféu por isso? Você me entendeu, Dalila, a minha irmã meio que chorou ontem falando dele. Chorou de raiva. Ele deu em cima dela, ela cedeu e se sente culpada até hoje. Agora esse mesmo indivíduo vai se encontrar contigo.

– É só coincidência. Veja, essa cidade nem é tão grande assim, não tem tantas meninas bonitas aqui. Eu conheço o Thomas, ele adora ser do tipo garanhão, não podia chegar de viagem sem ter sequer uma garota na fila.

– É, realmente isso é bastante compreensível, não sei do que seria dele sem você pra ajudar nisso. Ele é o garanhão e você é tipo a potranca dele né.

– Cala a boca! – Embora parecesse ter raiva do que Ana dissera, Dalila se segurava para não rir.

Conversaram tanto que nem viram o tempo passar. Ao meio-dia, Dalila almoçou numa lanchonete que tinha na pracinha. Ana preferiu não comer nada, disse que estava sem fome. As duas achavam graça do velhinho trapaceiro que não entendia porque ninguém queria mais jogar apostado com ele. Sentaram- se perto do jardim. Foi quando Ana avistou duas figuras se aproximando delas: Agenor e um cara que ela nunca tinha visto na vida. “Nossa, será que não tem mais homem nessa cidade?” pensou Ana olhando para Agenor. Mas ao olhar para o outro cara, Ana não pensou em mais nada.