Notas iniciais
Olá! Caso tenha ficado confuso: o capitulo é inteiramente narrado pelo Blaine! Boa leitura! ♥

Abri meus olhos pela primeira vez naquele dia e percebi que não me encontrava onde deveria, afinal já estava escurecendo e logo eu precisaria tomar conta dos meus humanos. Eu estava perto de Sebastian ao invés de meu local de descanso. Por que eu estava perto dele? Eu não saberia responder, mas também não me esforcei para lembrar.

Anjos não costumam sentir dor física, apenas emocional, mas por algum motivo eu sentia minha cabeça latejar um pouco. Talvez fosse um pressentimento ruim, mas mais uma vez eu não conseguia entender o que aconteceu e ainda estava acontecendo.

— Blaine. – Ouvi a voz de Sebastian e olhei em sua direção. – Se sente melhor?

— Melhor? O que houve? – Perguntei, coçando meus olhos e sentando na cama em que me encontrava.

— Você fez um rio de lágrimas no meu quarto. – Sebastian parecia um pouco inconformado por eu não me lembrar. – Você ficou dizendo que Kurt não te amava e que você só sofria com o amor.

Acho que lembrei. É tudo tão confuso na minha cabeça. Eu lembro que estava triste e que recorri a Sebastian, já que ele é o meu melhor amigo, mas eu não lembro muito bem do que aconteceu após isso. Talvez não seja importante. Talvez eu só tenha fechado os olhos e descansado, não é? Eu não saberia dizer, mais uma vez.

Eu ainda tinha certo receio com Sebastian, principalmente depois que o vi beijando Kurt. Eu entendia os motivos que o levaram a tal ato, mas a parte ciumenta e protetora de mim falava mais alto. Eu sentia que não precisava proteger Kurt se Sebastian estivesse por perto. É claro que isso é apenas loucura da minha cabeça, mas é o que eu sinto.

Eu conheço Sebastian a mais tempo do que posso lembrar e em todos esses muitos anos ele sempre esteve ao meu lado e me apoiou como o verdadeiro melhor amigo que é.

Quando as coisas deram errado com Kurt na primeira vez, Sebastian foi o único que me apoiou e ainda me ajudou a voltar para o mundo dos anjos. Ele sempre esteve ali por mim da mesma maneira que eu sempre estive ali por ele. E agora ele não é mais um anjo. Agora ele é humano novamente e só consegue me ver por eu ter lembrado de fazê-lo me escolher como seu anjo da guarda. Caso contrário, ele jamais me veria novamente.

— Bee... Você precisa visitar ele. – Me informou Sebastian e eu apenas o encarei sem nada dizer. – Entendo os seus medos e receios, entendo que você queira manter seu coração à salvo, mas Kurt não está bem e sei que você também não está. Você é o meu melhor amigo e por isso eu sei o que estou dizendo, tudo bem? Visite ele, nem que seja para tomar conta do sono dele.

E eu apenas assenti. Nunca dava certo teimar com Sebastian e quando eu o contrariava as coisas mudavam bruscamente de direção. Além de Kurt, a única pessoa que eu consigo amar por querer é ele.

E como assim "por querer"? Nós anjos amamos por instinto qualquer pessoa da qual tomamos conta e cada um de nós é responsável por inúmeras crianças. Como já sabem, o único adulto que me via era Kurt e agora Sebastian, mas por motivos diferentes e isso eu acho que já foi explicado. Já Sebastian cuidava também de um humano adulto e, assim como eu, caiu na tentação de se apaixonar. Mas por conta do destino de Kurt, Sebastian mudou o rumo das coisas e foi penitenciado a nunca mais poder ser visto pelo seu grande amor. E eu, tentando salvar Beth de uma parte de seu destino, fui condenado e nunca mais poder sentir nada e, quem me tocasse, também não sentiria. Isso é horrível, não é?

Sim, ainda mais quando Kurt precisou tanto de um abraço e meus braços não podiam lhe passar o aconchego que ele tanto necessitava. Sei que o que fiz foi pelo bem de uma criança, mas a minha condenação acabou afetando outras pessoas das quais eu cuido.

Eu aguardei escurecer um pouco mais antes de ir até Kurt. Não queria que ele me visse, queria pegar ele já dormindo. Acabou que só fui até ele na madrugada. Quando cheguei, encontrei ele dormindo e com uma caixinha de lenços ao seu lado. A televisão ligada mostrava o final do filme "Cidade dos Anjos". Senti aquilo como uma indireta. Aquele filme realmente combinava com a minha história com ele, em alguns aspectos, mas não em todos. Embora o filme seja fantástico, estamos aqui falando da vida real e na vida real eu não posso nem mesmo permitir agora que Kurt me veja. Se ele me ver, não me deixará partir e a última coisa que eu preciso ver é ele novamente chorando por culpa minha.

A pior dor que eu já senti, além de presenciar a morte de Kurt, foi ver ele chorando quando eu fui embora. Eu fiquei olhando ele para impedir que ele fizesse alguma besteira, mas eu senti tanta dor de ver seu sofrimento que fui mesmo embora. E então passei aqueles três dias sem falar com ele após beijá-lo e senti que ele me odiava. Mas sabem o que é pior?

O amor dele não diminuiu, apenas aumentou e se fortificou ainda mais. Eu não conseguia entender como cabia tanto amor no coração de um humano quanto cabia no dele. Eu consigo ver os humanos adultos e sei muito bem que a maioria deles tem o coração tão repleto de maldade que todos deveriam estar em uma prisão. Eu nunca consegui entender como alguém era capaz de tirar a vida de outra pessoa apenas por sentir vontade. Nunca entendi o motivo dos humanos magoarem uns aos outros, mas então eu percebi algo importante.

Eu sou um anjo, devo passar luz, alegria e amor para as pessoas e eu magoei alguém. Eu fiz alguém chorar. Eu fiz algo que não deveria, então quem sou eu para julgar? Talvez eu não seja tão inumano quanto julgam que eu seja.

Kurt não parecia estar tendo um sonho bom, parecia ofegante e com o coração batendo forte. Passei a acariciar seu rosto e seus cabelos e o fiz ter um sonho doce. Criei uma imagem em sua mente assim como eu fazia logo que sua mãe partiu. Ele gostava de sonhar com sua mãe, mas dessa vez eu fiz um sonho diferente.

Era uma tarde de algum dia, Kurt e sua família estavam no campo. Seu pai, sua mãe, seu meio irmão e sua madrasta. As pessoas que ele ama. Eles estavam sorridentes e riam por qualquer coisa. Kurt estava feliz. Um garoto, ou melhor, eu, chegou já entrelaçando sua mão na de Kurt e o abraçou.

O semblante de Kurt agora estava tão sereno e sua respiração tão calma, que lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto. Eu o deixei um pouco mais alegre, mas de nada adiantava se ele fosse acordar para continuar pensando em uma ilusão que eu criei. Sua família não vai voltar e, bem, nem eu. Eu não posso cometer o mesmo erro duas vezes, não posso permitir que ambos saiamos machucados de novo.

Eu realmente posso parecer um covarde por estar fazendo isso, mas é apenas medo. Medo de perdê-lo de novo, medo de novamente o ferir, medo de sair de coração partido.

Até mesmo medo de amar.

Eu queria que tudo fosse mais fácil, mais simples, mas nada nunca vem fácil. Pelo menos não da maneira que se vai. É muito mais fácil perdermos algo do que ganharmos, fora que sempre perdemos em maior quantidade. Eu não posso dizer que sei quando me tornei um anjo, porque pelo que eu entendi eu fui criado para ser um anjo. Eu queria lembrar de algum detalhe que possa ter passado desapercebido, mas em todos esses anos nada nunca pareceu fazer sentido.

E então eu olho para Kurt. A melhor obra desse mundo. A criatura mais linda que eu já vi em minha vida. Ele é uma obra de arte que eu queria que estivesse exposta apenas para mim. Eu daria tudo para ver ele sempre sorrindo. Queria poder apagar todas as suas mágoas e pegar para mim todas as suas dores, mas quem sou eu para fazer isso?

Eu sou apenas um anjo com medo. Não posso mudar o passado ou escrever meu futuro. Eu preciso apenas aguardar e agora sei que irei viver para sempre com essa culpa enorme em meu peito.

Kurt me ama e eu também o amo. E aí eu pergunto: Será que precisamos de algo além de nosso amor?

Talvez eu nunca saiba a resposta.

Notas finais
O que acharam? Me deixem saber ♥ Bjo ♥