Tudo começou quando eu mudei de escola, e me vi num ambiente estranho, cercada de gente que eu nunca vira antes. Eu estava meio que desorientada, com uma pilha de livros novos quase caindo de meus braços enquanto eu tentava ler o papel que indicava minha nova tabela de horários. No meio daquela confusão de gente, meus livros e eu fomos ao chão. Eu estava me sentindo tão perdida, e foi nisso que alguém saiu daquele conjunto infinito de pessoas para me ajudar a levantar.

\"Bela queda.\" a garota a minha frente riu \"Você está bem?\"

\"Espero que sim.\" não me contive, rindo junto. \"E sempre assim pelos corredores?\"

\"Hm, você acaba se acostumando. Meu nome é Suzy, e o seu?\"

\"June\" pela primeira vez em semanas fiquei feliz por conhecer alguem! Suzy parecia ser muito simpática, tinha cabelo curto todo repicado e era uma garota de estilo!

Sorrindo falei \"Ah, você pode me ajudar com os horários?\"

\"Claro. Qual é a sua primeira aula?\"

\"Biologia, sala três.\" li o papel já amassado preso entre meus dedos.

\"Ah, é comigo! O sinal já deve estar para bater, é só me seguir.\" ela sorriu, me ajudando com metade de meu material.

Andei atrás de Suzy pelos corredores, subindo um lance de escadas para chegar ao nosso destino, logo antes do professor designado àquela matéria fechar a porta.

Sentei-me na carteira vaga ao lado direito de um menino magro e de pele bem clara, com cabelo bem escuro caindo em seus olhos, não me deixando vê-los. Ele olhou de relance para mim, e quando me viu fitando-o, virou o rosto de imediato.

\"Temos uma aluna nova na sala, pelo que eu vejo.\" a voz grave do professor ecoou, olhando diretamente para mim, e eu senti meu rosto esquentar. \"Apresente-se rapidamente à classe, por favor.\"

Ninguém me dissera que eu teria de me apresentar em frente a todo mundo. Levantei-me, receosa. \"June Mazda, prazer em conhecê-los.\" eu falei o mais devagar que meu nervosismo permitia, e tornei a sentar. A aula passou rápido, assim como as outras aulas, até que chegou o intervalo, e Suzy me convidou para passá-lo com ela. Estava tudo muito normal, tirando o tumulto. Chegando na mesa, tropecei e derrubei suco numa menina que, pelo jeito, parecia ser muito popular na escola. Já fui pedindo desculpas mas ela estava tão alterada, que começou a gritar: \"A esquisita jogou suco em mim! Ah, isso não vai ficar assim!\"

Eu não sabia o que fazer, pois não fora de propósito. Suzy me puxou pelo braço, fazendo com que eu derrubasse minha bandeja no chão. \"O que houve?\" perguntei quando ela finalmente parou de correr.

\"Você se meteu num grande problema. Chrissy não perdoa ninguém. Ela é afilhada do diretor geral, é quase como se ela tivesse poder sobre todos da escola.\" ela me explicou, ofegando levemente. \"Bom, menos o Justin.\" ela riu baixinho.

\"Justin?\"

\"É um garoto da nossa sala. É a única pessoa sobre quem a Chrissy não tem efeito.\"

\"Whoa. Por que isso?\"

\"Ela é louca por ele, mas ele nem dá atenção para ela, chega a ser engraçado vê-la tentar!\" ela riu.

\"Imagino, mas e agora que eu derrubei suco nela? O que vai acontecer comigo?\" estava apreensiva.

\"Não sei, nunca aconteceu isso antes.\" ela suspirou, tensa \"Mas eu te aviso desde já: prepare-se para o pior.\"

Pensei em faltar no dia seguinte, mas ao mesmo tempo, eu não queria fugir. Agradeci imensamente por ela não ter aulas na mesma classe que eu, e tentei ficar dentro de sala o maior tempo possível. A única coisa que estragou meu brilhante plano foi a temida aula de Educação Física.

E, para minha sorte, Chrissy estava lá. Quando eu entrei no ginásio, ela já estava me fitando fixamente. Estremeci, mas respirei fundo e segui meu caminho até Suzy, quem, na verdade, era a única pessoa do recinto que não me acompanhava com os olhos, aproximando-se de algum colega e sussurrando algo.

\"Impressão minha ou já começou?\" perguntei a ela, sentando ao seu lado na madeira escura.

\"Pois é, não espere fazer amigos por algum tempo.\" disse a garota, o que me alarmou um pouco.

As garotas foram divididas em dois grupos, e nos mandaram jogar vôlei.

Meu ânimo aumentou, eu era boa nisso. Chrissy ficou no time

adversário, o que eu achei que fosse algo bom. Ela estava observando os garotos do outro lado da rede, provavelmente Justin, embora eu não soubesse quem ele era.

O jogo começou e logo na primeira bola, já levantaram para mim, e eu dei um corte que fez parecer que eu tinha descontado toda a minha tensão na bola e, com o imenso azar que eu tenho, acertou em cheio o rosto da Chrissy. Em um milésimo de segundo passaram pela minha cabeça milhares de pensamentos do tipo: \"Corro ou fico?\", \"Bem feito pra ela, o que eu fiz muita gente queria ter feito!\"

Mesmo com um pouco de medo, eu acabei ficando, até que ela começou a chorar e gritar para a professora \"Sra. Donnely, me ajude!\" ela berrava, atuando perfeitamente. Eu sabia que não tinha sido forte como ela demonstrava, já levara muito daquilo quando comecei a praticar o esporte. Mas não adiantava, naquele momento, minha palavra não valia absolutamente nada. \"Exijo detenção por uma semana!\" disse a garota caída no chão.

No final das contas, Sra. Donnely me deu detenção, apesar de se desculpar o tempo todo enquanto escrevia no pequeno bloco branco, arrancando a folha e me pedindo para que fosse para a sala cinco.

Cheguei na sala indicada, estava quase vazia. Tinha uma professoa muito simpática, para o meu espanto. Eu esperava um carrasco carrancudo, para tornar minha manhã um tormento. Mas na sala estava um menino muito misterioso, bronzeado, forte, seus cabelos negros em cima dos olhos, parado ao lado da senhora, discutindo com ela.

Assim que fechei a porta, fazendo barulho sem intenção, ele virou-se para mim, me encarando até que eu sentasse em uma das carteiras perto da janela, um arrepio percorrendo minha espinha; e confesso que queria ficar olhando pra ele, mas ao mesmo tempo eu me sentia receosa. Porém, toda vez que eu lançava um olhar, mesmo que de soslaio, ele estava me observando. Chegou uma hora que ele sentou na carteira logo ao meu lado, me fitando intensamente, sem se preocupar em disfarçar.

Depois de um tempo, aquilo começou a me irritar. \"Posso te ajudar?\" perguntei, já nervosa.

Ele ficou me olhando e deu um sorriso de lado, mas não me respondeu.

O garoto era incrivelmente atraente, de um jeito inusitado. Agora eu não queria parar de olhar pra ele, o silêncio reinou naquela sala, mas eu ainda estava aflita, esperando uma resposta.

\'Pode me dizer seu nome.\' ele sorriu sedutoramente. \'Sou Justin.\'

\'Sou June. Desculpe perguntar, mas por que você estava me encarando?\' indaguei, não me importando em ser muito gentil.

\'Soube dos problemas com Chrissy. Bem, eu e toda a escola.\' ele riu brevemente, sua voz levemente rouca.

\'Ah, você acha graça disso! Se fosse ao contrário, não ia acontecer nada.\' eu disse.

\'Não quis que soasse dessa maneira. Foi mal.\' ele levantou as mãos, livrando-se da suposta culpa. Eu ri. Não sabia o quanto ele estava envolvido com a Chrissy, mas já me sentia atraída por ele, sem querer, porque mesmo mantendo uma simples conversa com ele, eu sabia que teria sérias consequências para mim mais tarde, mas, como disse, não podia e nem queria evitar isso, e assim foi. Acabei conversando com ele por um bom tempo, até que fomos liberados, e, contribuindo para estragar aquele dia, Chrissy passou pelo corredor, ainda trajando seus shorts extremamente curtos que usou durante educação física. E como esperado, veio correndo falar com o Justin, me lançando um olhar gélido e mortal.

\'Justin!\' ela usou uma voz falsamente meiga e estridente, que não podia ser mais óbvio que ela estava forçando \'O que você estava fazendo na detenção? Achei que ainda estava no ginásio!\'

Eu estava tão irritada com

aquela menina que nem quis ouvir a conversa melosa e desagradável que estava por vir. Porém, não dava vontade de parar de olhar aquela cena, o sorriso que ele forjava maravilhosamente para ela, e não pude evitar a pequena pontada de ciúmes que surgiu em meio ao nó em minha garganta. Nunca tinha sentido aquilo, ainda mais que o conhecera a apenas algumas horas. Mas nunca fiquei tão confusa e assustada com meus próprios sentimentos ao mesmo tempo. Já não sabia se eu deveria continuar ali ou sair correndo, e quando resolvi, decidi sair correndo.

Num impulso, olhei para trás, apenas para vê-lo olhar em minha direção, atordoado, enquanto Chrissy sorria maliciosamente por suas costas. Era possível sentir algo surreal sobre Justin, algo quase sinistro, embora eu não soubesse o que diabos poderia ser.

\'Não me envolveria com o Justin, se fosse você.\' a voz surgiu durante uma aula de biologia, vinda do garoto pálido e aparentemente doente que sentava ao meu lado. O ignorei, fingindo que não sabia do que ele estava falando. Mas ele insistiu. \'Não vale a pena mexer com um tipo daqueles, confie no que eu lhe digo.\'

\'Sinto muito, qual é seu nome?\' perguntei, franzindo a testa ao encará-lo.

\'Aqui embaixo, ganhei o nome de Tyler, mas também sou conhecido como Mensageiro.\' ele respondeu, seus olhos semi cerrados o tempo inteiro, para que eu não pudesse vê-los.

\'Ok...\' disse lentamente, virando para frente, querendo me livrar do maluco. Mas o resto da aula fiquei pensando o que ele quis dizer com \"aqui embaixo\", mas pra mim ele parecia ser mais um louco, então não lhe dei muita atenção. Olhei para Justin, dormindo despreocupadamente em sua mesa. Que tipo de ameaça alguém tão sereno, com feições quase angelicais poderia transpassar?

Tive que esperar até que o sinal soasse, anunciando o intervalo entre aulas, para que pudesse falar tranqüilamente com Tyler. Sabia que provavelmente me arrependeria ao tomar aquela decisão, mas a curiosidade sempre fora meu maior defeito. O garoto saiu rapidamente, andando de um modo que fazia parecer que ele estava deslizando sobre o piso frio. \'Tyler!\' disse alto, fazendo-o virar. \"Espere!\" fui correndo em sua direção, quase caindo e já sem fôlego; parei do seu lado, respirando fundo e acabei soltando as palavras sem mesmo pensar direito ou fazer algum tipo de introdução: \"Sabe o que você estava me contando na aula?! Então, continue!\"

\'Foi apenas um aviso, nada mais.\' ele disse, indiferente, voltando a andar.

\'Certo.\' falei automaticamente. \'O que quis dizer com aqui embaixo?\'

Ele sequer olhou para mim de novo. \'Não sei do que está falando.\'

\'Não se faça de idiota. Sabe muito bem o que disse.\'

\'Já lhe disse mais do que me foi permitido. Sinto muito, mas preciso que se afaste de mim, eu não deveria estar falando com você.\' Tyler disse entre dentes, mal movendo os lábios.

\'Se é proibido, por que falou comigo primeiro?\' perguntei, em meio a um deboche.

Ele parou subitamente, me encarando fixamente — ou era o que eu pensei, uma vez que nada podia ser visto através da espessa franja mal cortada. \'Porque sua aproximação de Justin pode ser desastrosa, tanto para você quanto para ele.\'

Permaneci calada, esperando mais informações, mas ele respirou longamente e seguiu seu trajeto. \'Ei! O que você quer dizer com isso?\' gritei sem sair do lugar, vendo-o se afastar cada vez mais. \'Tyler. Tyler!\' chamei-o, sendo ignorada por completo. Fiquei assustada e sem chão, e minha cabeça não parava de funcionar e ficar repassando toda a conversa para ver se achava algum sentido naquilo! Mas nada vinha à minha mente, e alguém me tirou de meus devaneios antes que eu pudesse chegar a alguma conclusão.

\'Aquele era o Tyler?\' perguntou Suzy, olhando para a mesma direção que eu, observando o garoto andar rápido pelo pátio. Assenti, sem desviar o olhar. \'Não achei que tivesse um interesse nele também.\' ela riu, me deixando constrangida.

\'Não tenho interesse algum nele!\' reclamei, indignada com tal suposição. \'Ele só me disse pra não me envolver com o Justin.\'

\'O que só torna as coisas mais estranhas. Ele e o Justin andam juntos.\' constatou a garota.