An Angels Feather
2 Chap deux
Justin possuía algo a mais, algo que fazia com que eu quisesse me aproximar dele, algo místico. Eu não conseguia evitar acompanhá-lo com os olhos sempre que possível; e, todas as vezes que eu avistava seu rosto, ele parecia estar sofrendo, com o rosto contorcido em dor. Eu estava sentada em um banco debaixo do grande carvalho plantado no pátio. Vi Justin aparecer no gramado, mas fingi estar prestando atenção no meu caderno. Fiquei o observando, e contive meu sorriso ao vê-lo andar em minha direção, sorrindo também. Mas, antes que alcançasse a metade do trajeto, Tyler o parou, surgindo do nada, como se o vento tivesse o trazido ali. Com uma mão no peito de Justin, ele disse algo que eu não pude entender, sumindo em seguida. Justin olhou para mim novamente, suspirou e seguiu em outra direção, saindo dos limites da escola. Fiquei indignada com Tyler. Qual era o problema daquele garoto?! Eu não era ameaça alguma, e duvidava muito que Justin fosse perigoso. Nunca fui de pensar muito antes de agir, e antes que eu estivesse inteiramente consciente, já estava seguindo o moreno, combatendo o vento frio incomum, mesmo que fosse uma cidade com grande altitude. Cruzei os braços, tentando me manter quente apesar da brisa que se infiltrava pela minha blusa listrada de manga comprida. Fazia pouco tempo que eu estava morando por aquelas bandas, então deixei Justin me guiar cegamente por lugares desconhecidos. Ele andou bastante, comigo discretamente em sua cola, e foi até uma escola abandonada, em um bairro quieto, onde ninguém ousava sair da própria casa. \"O que ele pretende fazer aqui?\" sussurrei para mim mesma, vendo-o subir na caixa d\'água suja pela escada acoplada. Ele havia jogado a camiseta cinza que usava no chão; e uma leve protuberância em suas costas podia ser notada. Ele já estava perto do topo quando eu larguei minha bolsa ao lado da camiseta dele, e fui subindo também. Era mais difícil do que imaginei, e foi preciso um enorme auto-controle de minha parte para que eu não olhasse para baixo. Cheguei em cima tentando não ofegar, mais preocupada em não ficar perto das bordas. Justin estava de costas para mim, a protuberância em suas costas agora formando duas enormes asas brancas, com muitas das penas esvoaçando. A reação foi instintiva; eu soltei algum tipo de palavrão baixinho, e dei um passo para trás, esquecendo que não podia ter feito aquilo. Ele virou-se rapidamente, suas asas provocando um forte deslocamento de ar, me empurrando para trás, fazendo com que meu pé direito escapasse do tampo da caixa d\'água. Senti algo segurar meu pulso, e naquele momento, eu dei adeus ao mundo. Quando abri os olhos, estava tudo escuro. Senti os braços frios de Justin em volta de mim, e olhei para cima, vendo suas asas formando um casulo para que eu não cambaleasse. \"Você é louca?!\" ele perguntou, nervoso. \"Sabe o que teria acontecido se você tivesse mesmo caído? Eu não posso voar com essas asas!\" Justin me soltou, gesticulando para suas costas. \"Voar?\" foi tudo o que consegui gaguejar. \"Sim, mas eu só posso voar em lugares mas altos, aqui é muito baixo pra mim e minhas asas não agüentam.\" \"Espere aí. Eu estou confusa! O que você é?\" \"Calma, você precisa descansar! Vou te levar pra casa.\" ele disse, e de repente, tudo escureceu. Acordei com o rosto afundado no travesseiro, a janela estava aberta e as cortinas voando com a brisa. O quarto ainda estava escuro. Eu estava confusa, meu corpo inteiro reclamava de dor e acabara de ter um sonho confuso e ainda não tinha certeza se realmente era um. Não consegui mais dormir, minha cabeça girava e o dia já estava começando a surgir; com a brisa fria contínua a invadir meu quarto. Resolvi levantar e fazer tudo bem lentamente, já que tinha tempo. Vesti um jeans desbotado, uma blusa qualquer, peguei a jaqueta que estava no chão e desci as escadas, tomando todo o tempo do mundo. A casa estava deserta, então comi qualquer coisa, tomando cuidado para não fazer barulho; e quando olhei o relógio, já estava na hora de ir para escola. À medida em que eu ia chegando ao meu destino final, meu corpo começou a enrigecer, e meu coração estava quase saindo pela boca; minha cabeça estava tão confusa que não sabia o que fazer. Pensei em falar com Justin, mas assim que o vi, não consegui me mexer e por dentro, eu queria gritar algo, perguntando se ele era mesmo um anjo ou eu sonhei. E se tudo fosse um sonho? Ele acharia que eu sou louca. Completamente absorta em meus pensamentos, nem ao menos percebi quando alguém se aproximou de mim, me cutucando bem no meio das costas. \"Cruzes!\" pulei, virando-me para ver Suzy rindo de mim. Por um milésimo de segundo, cheguei a pensar que era Tyler, ou Justin. Agradeci por não ser nenhum dos dois que eu estava querendo evitar. Com a brincadeira de Suzy, acabei conseguindo relaxar um pouco, mas não por muito tempo. Chegando na minha sala, Chrissy apareceu em minha frente “Um dia de suspensão foi pouco para você?” ela sorriu maliciosamente, tentando arranjar uma razão para me mandar novamente para a sala cinco. “Chrissy, não sei o que você quer dizer.” eu disse, indiferente, com imagens de penas voando pela minha mente. Ela começou a ficar vermelha, mas não de raiva; parecia que estava nervosa, e que estava prestes a gritar alguma coisa, e, antes disso acontecer, o sinal tocou, e Chrissy limitou-se a bufar e sair de perto. Eu não vi o tempo passar, acabei dormindo durante toda a primeira aula, sendo vergonhosamente acordada por um giz que o professor jogou em mim ao notar minha cabeça abaixada. Pedi licença numa voz muito baixa, dizendo que iria lavar o rosto e tentar acordar. Não voltei. Tirei um tempo para respirar ar fresco e tirar toda aquela bobagem de anjo de minha mente. Nada passou de um sonho, eu continuei repetindo a mim mesma, era ridículo pensar que algo como asas, grandes o suficiente para sustentar o corpo de um rapaz, poderiam simplesmente surgir nas costas de alguém, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Me esgueirei pelos corredores, torcendo para que nenhum inspetor me visse fora de sala enquanto o resto de minha sala era torturada com matemática. Cheguei ao pátio, minutos antes de soar o sinal para o intervalo e do formigueiro de pessoas sair de suas desconfortáveis cadeiras para tentar comprar algo para comer. O ensurdecedor som invadiu meus ouvidos, me fazendo fechar os olhos em desgosto, e quando eu os abri, a primeira pessoa à vista era Justin, caminhando decididamente em minha direção. Imediatamente, eu o vi em cima da caixa d\'água, de costas para mim, múltiplas penas caindo lá de cima. Eu ainda não podia encará-lo, o sonho estava muito vívido em meus pensamentos. Levantei rapidamente, caminhando em outra direção, procurando o banheiro das garotas para me esconder até que o sinal tornasse a soar, indicando que eu não teria de falar com Justin. Pra minha sorte, as próximas aulas não eram com o Tyler, e as aulas não devem ter demorado tanto quanto pareceu para mim. A única parte boa daquela manhã enevoada em minha mente foi prestar atenção na aula de história, o que desviou meus pensamentos para nomes históricos e datas distantes. Saí quase correndo quando acabaram as aulas da manhã, ignorando até mesmo Suzy ao passar por ela. Teria de me lembrar de pedir desculpas por aquilo. Passei o dia estudando e assistindo filmes. Essa foi a minha estratégia para conseguir ocupar meus pensamentos confusos. Acabei dormindo cedo, pois meu corpo ainda reclamava das dores. Caí no sono assim que minha cabeça atingiu o travesseiro, e, naquela noite, não consegui sonhar com nada. Na manhã seguinte, acordei atrasada, e antes que eu tivesse tempo para pensar em tomar banho, a primeira aula já estava perto de seu fim. A próxima aula era biologia, e Tyler estaria ao meu lado. Como cheguei correndo na escola, não tive tempo para pensar no assunto; o sinal tocou, e entrei vagarosamente na sala, com minhas mãos suando. Fui direto para o meu lugar, esboçando um sorriso para o Tyler, quem respondeu com um \'oi\' tão baixo que eu não tinha certeza se ouvira. O professor fechou a porta, e lembrei-me que tinha que pedir desculpas para Suzy, então arranquei um pedaço de papel do meu caderno e escrevi, \"Perdão por ontem, estava com alguns problemas.\" passando para a garota que estava sentada atrás de mim e pedi para que ela passasse para Suzy, sentada perto da janela. Ela não respondeu, então me concentrei no quadro-negro rabiscado. Eu podia sentir os olhos de Tyler em mim, ameaçadores em seu mistério. Ele não estava nada feliz, e eu nem ao menos sabia o porque. Arrisquei olhar para o garoto com o canto dos olhos, desejando instantaneamente que não tivesse o feito. Tyler estava virado de lado, me encarando diretamente, como se fosse algum animal prestes a dar o bote. Eu nem sabia o porque disso, estava tentando tomar coragem, então engoli seco, criando algum de tipo de coragem e perguntei \"Qual é o seu problema?\" \"Você está mexendo com o equilíbrio\" ele respondeu num sussurro arrepiante. Sacudi a cabeça, \"Que equilíbro? Do que você está falando?\" Ele apenas continuou me encarando, e não tenho idéia se estava apenas tentando me intimidar ou se pensava em algo, já que a franja escondia uma parte do seu rosto, principalmente os olhos. O resto da aula passou com o mórbido silêncio entre nós, até que o sinal tocou e ele simplesmente levantou, e foi embora sem trocar um olhar sequer. \"O que é o equilíbrio?\" repeti para mim mesma, levantando lentamente, me perguntando o que raios ele queria dizer. \"Desculpas aceitas.\" soou uma voz atrás de mim. Suzy estava me esperando, a bolsa pendendo de uma das mãos. \"Mas, como compensação, vai ter que me contar o que acabou de acontecer.\" disse ela, me puxando para que eu andasse com ela. Bem, eu não podia simplesmente contar a ela de minhas suposições e, convenhamos, possíveis alucinações. Achei minha saída numa pergunta. \"Você viu? Vá dizer que aquilo não foi assustador!\" encenei, embora tivesse mesmo achado a reação de Tyler um tanto quanto estranha. \"Muito, mas ele sempre parece ser tão simpático. Por que estava te encarando daquela maneira?\" \"Ah, nem vamos nos preocupar com isso!\" \"E quanto ao Justin? Faz uns dois dias que você não fala com ele!\" ela me olhou, sorrindo de lado. \"Aí é uma outra história. Longa e complicada demais para tentar explicar algo sobre ela.\" eu meneei a cabeça, torcendo para que ela deixasse o garoto de lado. Felizmente, ela percebeu e não insistiu. Ok, minha mente estava começando a me deixar louca! O sonho fora tão vívido, que eu me pegava constantemente pensando nas enormes asas presas às costas de Justin. Sentada num banco ao lado da sala com Suzy, me permiti observá-lo enquanto comia. Ele estava parado no fim do corredor, conversando com um pequeno grupo de pessoas que eu não conhecia. Ouvia a voz de Suzy ficando cada vez mais distante, e, sem notar, comecei a divagar. Justin não parecia um anjo. Não do jeito que eu sempre imaginei anjos, pelo menos. Ainda assim, havia algo sobrenatural nele. Uma aura, foi o que pensei no momento. Talvez eu não fosse completamente louca. Ou talvez esse último pensamento confirmasse minha loucura. \"Acredita em anjos?\" perguntei a Suzy, cortando-a não intencionalmente, sem tirar meus olhos dele. \"Anjos, June?\" ela repetiu, arqueando as sobrancelhas em surpresa à pergunta. \"Se fala de Justin\" soou uma voz irritante. Chrissy estava ouvindo. \", sim, ele é um anjo, de tão lindo.\" ela sorriu, suspirando ao olhar para ele. \"E como qualquer anjo, é inalcançável. Para você, pelo menos.\" ela deu uma risadinha debochada, tornando a olhar para mim. Resolvi entrar no joguinho dela, então sorri sutilmente e respondi \"Ah que pena! Mas se eu não tenho chance, você está completamente perdida! Sabe, garota, ninguém te agüenta por aqui, a não ser seu tio, que faz tudo por você. Você pode até ter alguma influência aqui na escola, mas lá fora não passa de una menininha mimada e assustada, obcecada por um garoto que não podia se importar menos com ela!\" Chrissy ficou me olhando sem ter resposta. Eu não sei porque falei tudo aquilo pra ela. Bem, na verdade até sei: não agüentava mais ela me perseguindo e tentando tornar minha vida miserável. Chrissy saiu andando e, pela direção que tomou, mais uma detenção estava por vir, e não demoraria. Sem conseguir se conter Suzy começou a rir sem parar! \"Me sinto bem melhor agora.\" disse a ela, sorrindo para o alto.
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