Com as mãos enfiadas nos bolsos, enquanto o inverno parisiense tentava alcançá-los, Amélie e Chadwick caminhavam rapidamente noite adentro, pela avenida onde ficava a estação de trem. Chadwick conhecia bem o trajeto. Na verdade, ele ia e voltava a pé todos os dias, embora não fosse longe. Ele sempre olhava para o café com curiosidade todos os dias, mas por um por um acaso do destino foi uma perseguição frustrada por uma estranha que o compeliu a adentrar o estabelecimento. Enquanto caminhavam, Chadwick conseguia lançar olhares disfarçados na direção de Amélie sem que o leves, porém constantes movimentos de sua cabeça denunciassem sua atitude voyeurística. Apesar das calças que a protegiam do vento frio na cidade-luz, suas pernas eram visivelmente longas e esbeltas, e seus passos frequentemente a levavam mais longe do que as pernas de Chadwick o levavam, apesar de ser mais alto que ela. Ele talvez tivesse diminuído o passo intencionalmente, pensou finalmente, em certo momento, enquanto a admirava por trás. Mesmo coberta por um casaco grosso, ela ainda tinha elegância, com os cabelos caindo até o cachecol, descendo pelas costas e pelo casaco.

— Onde você dá aula? — Amélie perguntou, sua respiração soprando no vento lento enquanto o vapor quente saía de sua boca se voltava contra a sua própria face lutando em vão contra o vento gelado.

— Em uma escola — respondeu Chadwick quase que instantaneamente.

— Nossa, sério?! Você jura pela sua mãe que é em uma escola? Se você não me dissesse eu nunca adivinharia isso. — respondeu a jovem com a voz subindo uma oitava, num tom claramente sarcástico, mas com uma certa irritação ao fundo. — Agora me diga, onde você dá aula?

— Eu dou aul... Espere aí — interrompeu Chadwick — Eu não posso conhecer um teatro, mas você pode conhecer minha escola?

Ela o encarou com um olhar confuso, sem entender a colocação.

— Eu sei que não vou simplesmente começar a aparecer na porta da sua escola para te assediar. Vou te deixar em paz depois desta noite.

Chadwick revirou os olhos com um sorriso irônico, lembrando-se de sua brincadeira, embora tenha decidido dizer a ela:

Lycées de Rueilly. — Começou ele com o melhor sotaque francês que conseguiu naquele momento — Não é o lugar mais prestigiado da França, mas os alunos são inteligentes e ansiosos para aprender, o que por si só, torna o trabalho muito mais pragmático. Nada de francês quando entram na minha aula, apenas inglês, e todos se divertem provocando os sotaques uns dos outros, especialmente quando coloco na televisão programas dos Estados Unidos e da Inglaterra para demonstrar diferentes dialetos.

Amélie murmurou levemente, em seu inglês com sotaque próprio:

Um belo exemplo, tenho certeza.

Chadwick sorriu diante da demonstração de perfeição dela, voltando ao francês:

— Nada mal. Você deve viajado bastante. Consegue tranquilamente se passar com uma nativa do Maine ou de Quebec.

Ela assentiu levemente.

— Mais quando criança. Nossa pequena trupe excursionou pela Europa e ficamos em Londres por alguns meses fazendo apresentações. Não é minha melhor lembrança, cheguei a desmaiar durante um show e quase descarrilei a produção inteira.

Chadwick se virou para ela, preocupado, enquanto ela continuava.

— Meus pais ficaram tão chateados. Ainda me lembro de ouvi-los ao telefone e simplesmente desligar. Eu não queria mais lidar com eles, não com o quão miserável eu estava na época. Fui dar uma volta. Precisei de muita força para virar na direção oposta à ponte.

Levou um momento para ele entender o que ela estava dizendo, e em um movimento rápido seus olhos se fecharam e ele virou seu rosto, numa tentativa de não mostrar a sua provável expressão de tristeza que carregava naquele momento. Em seguida sua voz saiu baixa, quase um sussurro:

— Por que você desmaiou?

— Aranhas.

Virando-se rapidamente para ela, Chadwick falou, incrédulo:

— Aranhas?

Amélie sorriu, a primeira vez que Chadwick se lembrava dela fazendo tal coisa, suas pernas parando enquanto ela permanecia ali, em silêncio. Os dois tiveram que atravessar um pequeno parque, e lá estavam eles, duas almas, cercadas por apenas um leve resquício de folhagem seca na área, cobrindo a luz próxima o suficiente para que Chadwick percebesse que havia escurecido. Seus cabelos violetas estavam pretos agora, e seu rosto de aparência fria parecia quase como pedra.

— Naquele mundo, quando eu era criança, a perfeição era tudo, certo? Era como tentar me encaixar em uma escultura de Auguste Rodin. Cada espartilho destinado a me moldar no mesmo formato, cada ortodontista tentando fazer meus dentes no mesmo padrão da pessoa de aparência perfeita. Chegou ao ponto em que aprendi a simplesmente ficar parada, indo no automático para sempre, para não colocar algo fora do lugar. As vezes era como ver o meu corpo parado, como um robô que deu defeito, e eu de fora, apenas sendo uma espectadora da minha própria vida sem poder fazer nada.

Ela olhou para Chadwick, séria.

— Eu estava sentada na adega, o único lugar onde eu podia me virar ou cantar por diversão, sem forçar a garganta a se fechar. Eu podia rir sem que meu pai me dissesse como era estúpido ouvir aquilo, eu podia até chorar, sem que minha mãe me esbravejasse como aquilo soava feio e só servia para me dar rugas antes da meia-idade. Mesmo lá, eu não conseguia escapar daquela sensação de rigidez. Tínhamos aranhas lá embaixo, com as quais eu tive que me familiarizar para poder permanecer lá. Eu tinha bastante medo delas na época, mas elas ficavam lá, paradas... Não mexiam um músculo, como eu.

Chadwick sentiu um arrepio percorrer sua espinha enquanto a voz dela se tornava um pouco mais animada ao falar sobre isso, embora seu rosto permanecesse imóvel.

— Notei, porém, que quando elas atacam suas presas, emaranhados em suas teias, elas se tornam tão... Vivas! Elas pulam, giram, suas pernas se movem como máquinas bem lubrificadas. Era tão...

Ela parou por um momento, procurando a palavra certa. Franziu a testa enquanto pensava bastante, embora tenha sido Chadwick quem sugeriu, em inglês:

— Intoxicante?

Amélie refletiu sobre a palavra, com a língua rolando na boca, os lábios entreabertos enquanto pronunciava a palavra sem emitir nenhum som. A língua visivelmente se movimentando na boca, como uma aranha rolando em torno de sua presa. Finalmente, assentiu lentamente, achando a palavra aceitável.

— Sim — assentiu ela, satisfeita com a palavra — Intoxicante. É uma boa palavra.

Ela olhou para a mão, que havia puxado em sua direção, observando-a atentamente, criticamente, antes de oferecer a Chadwick, com a voz calma.

— O que você vê?

Chadwick olhou para a mão dela, confuso, mas lentamente a pegou com a sua, cautelosamente, temendo que ela pudesse usar o toque dele como desculpa para chutá-lo novamente como outrora fez no café. Ela não fez nada disso, porém, deixando Chadwick levar a mão dela até a altura de seu rosto. Seus dedos se estenderam enquanto ele examinava sua pele. Sua mão era quase prateada, o branco era brilhantemente contrastante às suas roupas pretas, e enquanto ele continuava a examiná-la, por acaso notou a fina descoloração entre dois dedos.

— Foi muito bom — ela admitiu. — Eles teriam feito tortura medieval se eu tivesse feito isso em qualquer lugar que eles tivessem notado. Era quase como um jogo, fazer o que eu podia para arruinar o que eles continuavam imaginando ser um corpo perfeito que haviam construído e passado anos refinando. Isso me fez sentir quase como as aranhas, embora eu estivesse caçando meu próprio eu.

Chadwick passou o polegar pela parte interna do dedo dela, pela longa cicatriz, quase percorrendo-a por toda a extensão enquanto ela se afastava, quase como se por instinto. Ele observou as mãos dela enquanto a outra segurava a que estava na dele apenas um segundo antes, com o rosto cheio de preocupação.

—Você...

— Não — ela interrompeu. — Eu era adolescente na época, provavelmente sentia seis mil coisas diferentes por dia. Embora eu ainda reflita sobre isso, quase diariamente. Toda vez que visto meu collant, na verdade.

— Então foi por isso que você desmaiou?

Assentindo, ela confirmou, suavemente.

— Tenho um problema no sangue. Não consigo produzir o suficiente, pelo menos não quando eu derramava tanto. Então, toda aquela maratona de atividades físicas simplesmente me afetou.

Ela deu de ombros, olhando para o alto.

— Posso refletir sobre isso, mas não é algo que eu goste de discutir.

— Sinto muito — Chadwick assentiu fracamente — Mas eu entendo.

Amélie então se pronunciou:

— Então, qual é o esqueleto no seu armário? Quer dizer, além de apegos doentios a outras pessoas, é claro.

Chadwick riu levemente, dando de ombros.

— Não sei, acho que sou bem normal. Meus pais não eram perfeccionistas, nem eu. Apenas... normal.

Ele deu de ombros, pensativo, enquanto se virava para continuar andando, com Amélie o seguindo rapidamente, até que ele finalmente murmurou:

— Sou bem desastrado. Quer dizer, se eu tentasse uma das suas piruetas provavelmente acabaria com um braço quebrado ou pior. Não é algo muito lisonjeiro, tenho muito pouco a oferecer, na verdade, se você for direto ao ponto. Tipo, no seu caso, você foi meio que moldado em algo, para o bem ou para o mal, já eu sou meio que tanto faz.

Ele deu um sorriso irônico enquanto balançava a cabeça para os lados.

— Eu sempre penso, sabe, no meu futuro e tudo mais, se vou ou não ficar com alguém, se vou ou não dar certo na vida... Muitas vezes penso em como eu nunca conseguiria me perdoar por não ter dado a uma futura esposa o tipo de pessoa que provocasse fortes emoções, que a deixasse sem fôlego, como um dos personagens de James Dean. — Chadwick suspirou — Ou o próprio James Dean. Viveu intensamente e morreu como viveu.

Chadwick olhou Amélie de soslaio, e caminharam alguns passos por silêncio. Chadwick então disse:

— E agora você acha que eu sou maluco... Ou fresco demais, talvez.

Ela apenas deu de ombros, embora ele pudesse perceber que seu rosto se abriu num sorriso.

— Não. — Começou ela — Em algum lugar lá no fundo, acho um pouco doce pensar nisso, mas não sou como a maioria das mulheres, então não sei.

— A maioria das mulheres não aceitaria ajudar um completo estranho — Chadwick riu. — Mas talvez você só quisesse chutar a canela de alguém.

Ela ficou parada por um momento antes de assentir:

— Esse pensamento me passou pela cabeça. Não é sempre que se tem a chance de fazer isso, especialmente quando se é uma dama recatada e certinha. — Completou ela fazendo aspas com os dedos.

Chadwick sorriu, notando a estação de trem se aproximando de ambos à frente.

— Bem, quem sabe, talvez você tenha a sorte de meio que fazer suas próprias coisas, fazer coisas que não são próprias de damas recatadas e certinhas.

— Certo — ela respondeu secamente. — Isso certamente foi uma provocação.

Rindo, Chadwick retrucou:

— Será que foi mesmo?

Com os olhos tão desanimados quanto a voz, Amélie continuou:

— Tentando me atrair de volta para a sua casa. Eu conheço o seu tipo de jogo.

Chadwick sorriu.

— O único jogo que estou jogando é aquele em que descubro onde você vai dançar em seguida. Garanto que não tenho interesse em... Enfim, deixa pra lá. Se eu completar a frase aí sim vai parecer a sua suposição anterior.

Pensando por um momento enquanto o observava, Amélie não conseguiu evitar a estranha sensação de prazer ao vê-lo tentar não tropeçar em cada palavra, embora tenha durado pouco, pois ele simplesmente deu de ombros com os braços estendidos e uma inclinação de cabeça derrotada:

— Não entendi nada.

— Eu entendi o que você quer dizer. — ela o assegurou, aliviando-o profundamente. — Contanto que você não me mate nem nada.

Demorou um pouco para se lembrar, mas logo se lembrou, dissipando o pânico que o dominava:

—Ah! N-Não, de jeito nenhum. Você parece uma mulher legitimamente boa, se não única. Muito misteriosa, aliás, aquela mulher que mencionei antes, você poderia ter percebido as más intenções a quilômetros de distância, enquanto que eu estava simplesmente cego.

— Então eu poderia ser tão ruim quanto uma vilã de filme policial, contanto que não seja óbvio? — perguntou Amélie, um pouco irônica.

Chadwick deu um sorriso meio inocente.

— Viu, eu nem sou bom em decifrar flertes.

Ela sorriu de repente, quase travessa:

— E não era, mas só para garantir, eu estava brincando mesmo.

Assentindo, ele olhou para a estação.

— Não que isso importe muito, de qualquer forma. É aqui que nos separamos.

Chadwick ficou parado por um momento antes de perceber que Amélie havia parado. Virou-se para ela, os olhos dela percorrendo seu corpo de cima a baixo como se o avaliassem. Inconscientemente, endireitou-se sob o escrutínio, o rosto inexpressivo enquanto tentava entender o que estava acontecendo. Lentamente, porém, ela deu um passo em sua direção. Depois outro. E outro. Quando chegou bem à sua frente, estendeu as mãos em volta da cabeça dele, gelando seu pescoço, mas logo se dissipou quando a proximidade provocou um tremor de calor pelo corpo de Chadwick. Ela se levantou ao mesmo tempo que puxava levemente o seu pescoço em sua direção, quase atingindo o rosto dele quando seus lábios se aproximaram de sua orelha. Ela então sussurrou:

— No Palais Garnier. Ou no Opéra Bastille. No próximo fim de semana — sussurrou ela — vou dançar Flora.

O hálito quente da boca dela próxima a sua orelha lhe causou arrepios. Ela se afastou, o rosto tão branco e imóvel quanto a neve que começara a cair. Ainda com as mãos envoltas em seu pescoço disse olhando em seus olhos:

— São oito shows entre os dois. Descubra.

Chadwick repassava cuidadosamente a informação em sua cabeça, desesperado para mantê-la contida em sua mente enquanto ela gentilmente tirava as mãos de seu pescoço.

— Você realmente gosta desse tipo de jogo.

— Assim eu não perco este — ela sorriu levemente, antes de se virar para ir embora, sua mão rapidamente recolhida no bolso fundo do casaco, lembrando Chadwick de seu toque de apenas um momento atrás. De repente, ela parou, virando-se e falando:

— Aquela mulher. Você ainda não gosta dela, apesar daquela época?

Chadwick abaixou a cabeça, sorrindo tristemente.

— É complicado... Mas se você me dissesse para responder apenas sim ou não, eu diria sim. Embora eu saiba que, se ela precisasse de algo, desesperadamente, eu lutaria muito contra a minha consciência para não a ajudar.

Ele deu de ombros.

— É uma espécie de lealdade doentia. Um privilégio pertencente apenas à primeira garota que me teve, não importa o quão superficialmente.

— É melhor você tomar cuidado com a próxima, então — Amélie aconselhou rapidamente, antes de se virar e continuar andando novamente.

Chadwick não pôde deixar de sorrir, ainda que com certa tristeza. Saudades, daquela que há meses não apertava o seu peito. Ele certamente não estava interessado em nada além do que tinha atualmente, mas ainda assim. Pensando da mesma forma, percebeu quão poucos amigos tinha fora da escola e certamente não conhecia ninguém com quem se identificasse tão facilmente. Apesar de ter passado as últimas horas tão livremente com outra pessoa, nunca se sentira tão sozinho. Suspirou para si mesmo ao ouvir o trem se aproximando, virando-se para seguir em direção à plataforma da estação. Já havia se esquecido da sensação da mão dela em seu pescoço. O frio já o havia atingido ali, entorpecendo-o até mesmo para a lembrança. Entrou no trem assim que chegou, sentado ali, sozinho, encostado na parede, olhando para a escuridão lá fora.