Amy Tokisuru em Portland

19 Capítulo 19 - The Resuscitator


AMY

As folhas das árvores eram vermelhas e brilhantes. Amy sentiu como se estivesse olhando diversas pedras preciosas que flutuavam sobre sua cabeça, já que o tronco e os galhos das árvores eram negros, e davam a impressão de que estavam invisíveis em meio à escuridão da noite.

O sol já havia se posto quando Amy, Jau e Anny saíram da caverna de Jake. Aquela geleira era bem maior do que aparentava, e quando o trio finalmente fugiu de lá, descobriram que era subterrânea, em vista que subiram uma grande escada deformada de pedra antes de, por fim, estarem do lado de fora, com milhares de árvores exóticas ao redor dos três. Aquele lugar provavelmente era o Bosque de Rubis.

Amy estava exausta, e ainda com dor no tornozelo devido ao escorregão que levara na caverna. Ela andou mancando, com Jau ajudando-a a ficar de pé. Assim que chegou na floresta, encostou-se na primeira árvore que viu e se sentou, suspirando aliviada. Jau se sentou ao seu lado e Anny repousou-se em outra árvore não muito distante.

Ficou tudo muito silencioso por alguns minutos. Não havia vento chacoalhando as árvores, ou grilos cantarolando suas canções irritantes. Apenas o som de suas respirações pesadas e cansadas era audível. No entanto, depois de algum tempo, esse silêncio foi quebrado quando Jau chamou sua amiga.

— Amy — ele sussurrou. — Você acha que eu estou ficando louco?

Amy encarou o rapaz. Ele estava quieto, olhando para o nada com uma expressão vazia e triste.

— Por que está me perguntando isso? — Foi o que ela disse, por não entender onde Jau queria chegar.

Ele voltou sua visão para o chão e respondeu:

— Desde que chegamos nesse mundo, eu venho gritado com você, te obriguei a fazer um pacto e aí eu... — Jau olhou para as próprias mãos. Ainda possuía resquícios de sangue nela, pois o garoto não havia conseguido se limpar como queria. Em sua camiseta branca também havia manchas, que eram visíveis apesar de ter apenas a luz fraca e vermelha das folhas iluminando.

Amy conseguiu compreender como o amigo estava se sentindo. Jau sempre fora um rapaz sensível, doce e afetuoso, incapaz de machucar sequer um inseto. Ele sempre fazia Amy sorrir mesmo que o momento fosse para chorar. Era difícil imaginar que alguém como ele seria capaz de fazer as coisas que tinha feito naquele dia, principalmente a parte em que Jau enfiava uma estaca de gelo nas costas de alguém.

Amy colocou a mão no ombro do amigo carinhosamente e então Jau finalmente a olhou nos olhos.

— Fica calmo, Jau. — Ela sorriu para ele. — Eu não acho que você está louco. As coisas que estamos fazendo aqui são porque estamos cansados desse mundo estúpido, e vamos fazer de tudo para voltar para casa. — Amy moveu sua mão para a nuca de Jau e começou a mexer em seu cabelo. — Quando estivermos na Terra, vamos esquecer tudo o que passamos aqui e recomeçar.

Por um momento, Jau sorriu para Amy também, e os dois ficaram ali se entreolhando, como se enxergassem nos olhos um do outro como seria quando finalmente estivessem em paz. Porém, segundos depois o sorriso de Jau desapareceu, dando lugar a uma expressão preocupada e inquieta.

— Pode ser, Amy. Mas tem algo que está me afligindo.

Amy o olhou com seriedade e ficou em silêncio esperando ele terminar de falar.

— Lembra quando você pediu para o Jake o fragmento de gelo imortal?

A garota recordou-se instantaneamente. Ela havia se esquecido pois todos os acontecimentos seguintes se acumularam em sua mente. Amy tinha ordenado a Jake que lhe entregasse o fragmento de gelo imortal, o item que eles precisavam entregar ao marido de Sofia, Bart, para que este fizesse então a passagem só de ida para a Terra que Amy tanto cobiçava. Foi o único motivo dela ter aceitado à missão afinal.

— O Jake disse que não havia um fragmento de gelo imortal — Amy respondeu, soando aflita de repente. — E que era ele próprio a quem Sofia queria.

— Exato — Jau confirmou, suspirando.

— Mas o que isso quer dizer, então? Nós não vamos voltar para casa? — Amy aumentou seu tom de voz. Nesse momento ela estava extremamente nervosa e inquieta, à beira do desespero. Só de pensar no fato de que teria que ficar em Portland para sempre, de que nunca mais voltaria a ver seu pai, ela ficava apavorada.

Jau se ajoelhou de frente para Amy e segurou firme em seus ombros, forçando-a a olhar seus olhos escuros mais uma vez.

— Amy, me escuta com atenção — ele disse. — A minha teoria é de que Sofia não queria sua ajuda para derrotar esse suposto Richard. O único motivo de você estar aqui é porque você é a única capaz de aguentar o frio que o Jake emitia. Ela só usou você para derrotá-lo. Sua utilidade para Sofia acabou.

Amy ficou chocada ao ouvir aquelas palavras. Apesar de não querer acreditar naquilo, tudo o que Jau disse fazia sentido. Se ele estava certo e Sofia realmente não precisasse mais de Amy, então não havia motivos para a garota águia ajudá-la a voltar para casa.

As lágrimas da garota começaram a cair instintivamente, num ritmo em que ela não conseguiu segurar. Não tardou muito para que ela começasse a soluçar como uma criança em desespero. Jau estava começando a chorar também, mas para que Amy não visse, ele a abraçou e afagou os seus cabelos delicadamente.

— Eu sinto muito, Amy — Jau disse, tentando evitar soluçar como a amiga. — Nós não vamos voltar para casa.

Amy apertou o amigo com força, e chorou em seu ombro. Depois de um bom tempo assim, ela se sentiu sonolenta e se deitou, mas em nenhum momento deixou de soltar Jau. Ela precisava de seu apoio ou não iria conseguir dormir à noite.

Amy acordou com a luz forte do sol ferindo suas vistas. Ela apertou os braços antes de abrir os olhos, mas não sentiu nada entre eles. Jau não estava mais ali. Amy havia dormido abraçada a ele a noite toda. Esse fato a fez ficar bastante constrangida. Ela se deixou levar pelo momento triste da noite. Tentou afastar esse pensamento da cabeça por enquanto. Agora precisava descobrir onde Jau se metera. Não só ele, como Anny também havia sumido.

— Droga, garoto — Amy murmurou, enquanto se levantava. — Odeio quando você faz isso.

— Bom dia, Amy.

A garota levou um susto tão grande que quase caiu. Por sorte, a árvore atrás dela lhe servira de apoio.

Jau tinha aparecido de repente entre o matagal. Ele ficou em pé, a alguns passos de distância de Amy, olhando para ela com um sorriso malicioso no rosto. A garota se irritou automaticamente.

— Bom dia o caramba — ela gritou. — Quase me matou de susto. Qual o seu problema?

— Fica calma — ele pediu, mas não do jeito educado que ele costumava ser, e sim de uma forma bruta e mandona.

— Calma nada — Amy continuou gritando. Ela chegou perto de Jau. Sua vontade era de dar um soco na cara dele.

— Onde você estava? E que sorrisinho idiota é esse no seu rosto?

— Cala a boca! — Jau esbravejou.

Amy levou outro susto, mas dessa vez foi diferente. Ela sentiu todos os pelos de seu corpo se arrepiarem. Deixou toda a raiva que estava sentindo se esvair para que pudesse reparar melhor nas atitudes do amigo.

Ela notou que seu olhar, sua expressão, estavam estranhas. Sua postura estava ereta, e ele estava com um ar superioridade e autoritarismo. Parecia loucura, mas aquele não era o verdadeiro Jau, e Amy tinha certeza disso.

— Quem é você? — ela balbuciou dando curtos passos para trás.

— Quem sou eu? — Jau riu, debochando. — O Jau, ora. Não está lembrada de mim?

— Você... Você não é o Jau — Amy gaguejou, tentando se afastar o máximo possível.

No entanto, o rapaz à sua frente se aproximava cada vez mais. Ela teria corrido, mas então ela foi encurralada quando bateu as costas na árvore que a protegera de cair minutos atrás.

Jau — ou o ser que se passava por ele — voltou a sorrir maliciosamente e tocou no queixo de Amy com força.

— É, Tokisuru. Não é fácil enganar você.

— Quem. É. Você? — Amy repetiu, dessa vez pausadamente, para evitar entrar em pânico.

— Eu sou conhecido por muitos nomes — ele respondeu, soltando o queixo da garota. — Alguns me chamam de espírito das sombras. — Ele ficou andando de um lado para o outro à medida que falava. — Mas o meu nome favorito é The Resuscitator, o ritualista.

— The Resu... O quê? — Amy perguntou, embora não estivesse interessada. Só queria fazer a criatura continuar falando enquanto pensava em alguma coisa para salvar o amigo e a si própria.

— Realmente, é um nome difícil. Mas se você preferir pode me chamar apenas de TR.

Amy sentiu outro calafrio percorrer sua espinha. Não era a primeira vez que ouvia esse nome. Na noite anterior, ela havia sonhado com o ser de capa negra dizendo que alguém chamado TR iria matá-la, logo antes de apontar para o corpo do pai de Amy caído no chão.

— É isso aí, Amy — TR continuou falando. — Foi eu mesmo que te enviei aquele sonho. Eu estava louco para rever você.

— O que você quer comigo? — Amy perguntou, ignorando o que TR disse.

— Eu já disse. Queria rever você.

— Para com isso! — O sangue de Amy subiu para a cabeça. Ela sentiu cada fio de seu cabelo ficando ruivo devido a fúria que estava sentindo.

— Eu não gosto que me respondam com trivialidades — gritou. — Se não me esclarecer as coisas agora eu vou matar você. — Amy ergueu suas duas mãos, e elas se iluminaram com chamas intensas e brilhantes.

TR não pareceu se intimidar. Apenas sorriu e disse:

— Eu não faria isso se fosse você. Se lançar suas chamas contra mim, o único que vai se machucar será seu amigo.

— Não seja hipócrita — Amy vociferou. — Eu sei muito bem que você não é o Jau verdadeiro.

— Eu sou um espírito, Amy. Espíritos podem possuir o corpo de qualquer humano que quiserem. Eu posso até mesmo ouvir os pensamentos de seu amigo agora. Está gritando “Não machuque a Amy, por favor”. — TR gargalhou. — Porém, se não acredita em mim, vá em frente e lance suas chamas. — Ele ficou parado, incitando Amy com os braços para que avançasse e fizesse o golpe.

A vontade que Amy teve de prosseguir com o ataque fora enorme, mas ela teve que se controlar. Não sabia se TR estava ou não falando a verdade, mas não podia arriscar. Amy não ia ferir seu amigo em hipótese alguma.

— Saia do Jau. — Aquilo soou mais com uma súplica do que uma ordem. Amy já havia cessado seu fogo a essa altura. Ela nunca tinha se sentido tão encurralada, nem mesmo quando Jake a forçou a se casar com ele.

— Infelizmente eu não posso, Amy — TR disse, respondendo ao apelo da jovem. — Seu amigo tem algo que eu preciso. Vou ficar com ele até quando eu achar necessário.

Amy se ajoelhou no gramado. Ele estava repleto de pequenas pedras e gravetos que feriam o joelho da garota, mas ela não se importou.

— O que você quer de mim? — perguntou, tentando ao máximo segurar suas lágrimas.

— Ah, Amy. Se quer mesmo saber, então eu vou te contar — TR disse, num tom que não era de pena e sim de escárnio. — Eu quero o seu sangue.

Amy não entendeu o que um espírito de outro mundo que ela acabara de conhecer queria com o sangue dela. Ficou calada esperando que a criatura esclarecesse o que acabara de dizer.

— Sabe, Amy — TR continuou. — Eu já fui um humano comum há muito tempo. Bem, não tão comum. Eu era um mago muito poderoso, e motivo de inveja para meus rivais. Devido a isso, eles decidiram que seria melhor se livrar de mim. Felizmente, eu voltei na forma de espírito, e me vinguei de todos os meus inimigos, um por um. — TR pigarreou. — Aliás. Quase todos. Um deles conseguiu escapar de mim. Esse cara era esperto. Ele sabia o lugar na qual eu não podia ir. Você sabe que lugar é esse, Amy?

Amy não respondeu. Apenas olhou para TR com nojo. Apesar de ter a mesma aparência de Jau, o jeito de agir e de falar era completamente diferente. Pior que os modos de Sofia e Jake juntos.

— Estou falando da sua querida casa, Amy. A Terra — TR respondeu por fim. — Vocês humanos podem usar essas pedras brilhantes para viajar entre os mundos, mas infelizmente, espíritos não têm esse luxo, nem mesmo quando estão possuindo um ser humano. O infeliz sabia disso e escapou, e ainda levou minhas duas melhores criações com ele. — TR encarou o chão com ódio. — Fiquei anos me remoendo de ódio e desejo de vingança. Mas com o tempo me acalmei, e passei um bom tempo estudando formas de poder entrar no seu planeta, até que finalmente encontrei.

TR se agachou perto de Amy e segurou a cabeça dela com as duas mãos. A vontade dela foi de vomitar, não só porque TR era um ser desprezível, mas também porque as mãos de Jau ainda estavam sujas com o sangue do Jake.

— A resposta para os meus problemas era simples. Eu só precisava fazer um ritual maligno, utilizando o sangue de todas as minhas criações até então. — Encarou Amy com intensidade. — A primeira foi Sofia. Ela foi fácil de manipular pois era apegada a muitas coisas. Logo ela começou a me obedecer. Pedi a Sofia que me desse seu sangue e ela o fez. Depois a mandei atrás de Richard. Mas o garoto foi um pouco mais difícil. Mesmo depois que sequestrei sua esposa ele se recusou a cooperar. Ele fugiu. Porém, por ironia do destino, Richard acabou me mostrando onde localizar Walter e, claro, você — TR sorriu agudamente. — Só faltava Jake. Ele foi o grande desafio pois além dele não querer me obedecer, Sofia não podia chegar perto dele sem congelar. Portanto, ordenei que ela mandasse você. — O espírito se levantou. — Agora só falta o sangue do Walter. Duvido que Sofia consiga cuidar dele, mas felizmente ainda tenho uma carta na manga.

Amy tentou processar todas aquelas informações. TR era realmente um ser abominável. Ele não tinha limites quando o assunto se tratava de manipular os outros. Se ele não estivesse no corpo de Jau, ela não hesitaria em tentar acabar com TR naquele momento, mesmo que isso custasse sua vida.

— Não está se esquecendo de nada? — ela perguntou. — Você ainda não tem o meu sangue.

— Não tenho? — TR sorriu maquiavelicamente. Era estranho ver o corpo de Jau agindo daquela forma.

— Pense bem, Amy — ele continuou. — Por que acha que eu possuí seu amigo? Acha que eu o escolhi porque ele é forte?

Amy não tinha noção do que TR queria dizer, entretanto, a resposta surgiu em sua mente como um relâmpago.

Lembrou-se de quando ela e Jau ainda estavam sob custódia de Jake. Seu amigo tivera a ideia maluca de se casarem para deixar o rei do gelo zangado. O casamento era diferente em Portland. Eles tinham que fazer um pacto. Um pacto de sangue. Amy ainda se lembrava das palavras que Jau usara. “O sangue que percorre em minhas veias agora passará a percorrer nas suas também. E o seu sangue passará a correr nas minhas”.

— Você não quer dizer que... — Ela se obrigou a interromper a frase.

— Isso Amy. Não preciso do seu sangue. Seu amigo já fez o favor de pegar ele para mim. — TR esboçou um sorriso tenebroso. — Incrível essa sorte que eu tenho, não é?

— Se você tirar uma gota de sangue do Jau, eu juro, TR, que não vou descansar enquanto não ver você morto. — Amy se levantou e tentou parecer a mais séria e convicta possível. De jeito nenhum ela permitiria aquele espírito imundo ferir o seu melhor amigo e deixar que ele saísse impune.

— Infelizmente você não pode fazer nada, Amy Tokisuru. — As mãos de Jau avançaram contra o pescoço de Amy e o apertaram com força. — Além do que, o único que vai matar alguém aqui sou eu.

Amy não conseguiu mais respirar. Ela poderia escapar dessa situação aquecendo seu corpo a uma temperatura bem alta, mas isso significaria ferir Jau, e isso ela não ia fazer. Amy iria morrer com certeza, e dessa vez, ninguém iria salvá-la.

— Deixa ela em paz, TR — uma voz feminina ecoou pelo lugar.

Antes de avistar quem era, Amy viu um enorme clarão tomar conta de seus olhos e, em seguida, sua respiração voltar ao normal.

Ela olhou para o chão. Jau estava caído, atônito. Amy não teve certeza se ele ainda estava possuído por TR ou não, mas fosse qual fosse o caso, seja lá quem tinha disparado aquele feixe de luz o havia machucado, e iria pagar por isso.

Amy olhou na direção em que o ataque viera e se surpreendeu. A pessoa que usou aquela magia fora ninguém mais e ninguém menos que Anny.