Amy Tokisuru em Portland
20 Capítulo 20 - O Dilema de Sofia
WALTER
Walter acordou em meio a escombros. Estava sentido uma dor intensa em sua cabeça e também em sua perna esquerda. Ele tentou movê-la, mas não conseguiu. Com dificuldade, ele sentou-se e viu que um enorme pedaço da parede que desabara havia caído sobre seu membro.
— Droga. — Tentou forçar sua perna para escapar, mas foi em vão. Tudo o que ele conseguiu fazer foi piorar a dor que já estava ruim. Walter deixou escapar um gemido e colocou a mão sobre sua testa, que também estava dolorida. Ele sentiu um líquido espesso escorrendo pela sua bochecha. Sangue.
— Que inferno. — Walter olhou ao seu redor. A casa de Bart tinha sido totalmente destruída. Não só ela, mas pelo menos um terço de todo o vilarejo também havia sido dizimada.
Ele ficou preocupado que algo pudesse ter acontecido com Rick ou Bart. Gritou seus nomes bem alto, mas não obteve respostas. Walter ficou aflito. Se ele pudesse ao menos se mover...
— Está quase acabando, Walter.
Walter sentiu uma pequena brisa em sua direção, logo antes de alguém aparecer atrás dele, e caminhar ao seu encontro com passos quase inaudíveis.
— Sofia. — Ele reconheceu antes mesmo de ver o rosto da garota. — O que você fez?
Ela se agachou ao lado de Walter e o olhou com cautela. Sua expressão não era mais esnobe, ou malvada. Essa fora substituída por um olhar amedrontado e cansado. Era como se Sofia estivesse tentando se desculpar com Walter apenas olhando para ele. No entanto, o garoto respondeu com uma expressão de raiva e desprezo, como se respondesse “não, eu não perdoo”.
— Tente entender, Walter. Eu tive que fazer isso — Sofia disse, como se de alguma forma aquilo explicasse o motivo de tudo o que ela já tinha feito.
— Fazer o quê? Destruir o vilarejo? — Walter vociferou.
— Não foi culpa minha. Sárius fez isso. Ele estava tentando me proteger do Bart. — Sofia perdera completamente seu tom arrogante. Agora ela falava em forma de súplica.
— Claro, coloque a culpa na águia. — Walter riu sem humor. — Como se fizesse diferença.
— O que posso fazer, garoto? Sárius me ama. E eu também o amo. — Sofia gritou.
— Ele te ama? — Walter a olhou com nojo. — Droga, você é doente!
— Você não entende mesmo, não é? — Ela balançou a cabeça. — Você não sabe o que é amar uma pessoa ao ponto de fazer qualquer coisa por ela. — Sofia ficou com a voz fraca. — Eu não queria ter feito tudo o que fiz.
Walter despejou olhares de indignação em Sofia.
— Então toda essa maldade, toda essa destruição por causa de uma águia?
— Sárius não é uma águia, idiota! — Ela gritou tão alto que suas emoções se manifestaram em forma de poder, fazendo o vento ficar três vezes mais forte, levantando a poeira do lugar. — Sárius é... Sárius é... — Sofia coçou os olhos, porém, Walter teve a impressão de que não era por causa da poeira. Ela estava na verdade chorando.
— Sárius é o amor da minha vida — Sofia completou.
Walter ainda não conseguia entender. Para ele, a garota dos ventos estava ficando completamente louca — mais que de costume. Ficou encarando-a por um longo período, até que ela finalmente resolveu continuar a falar.
— Já se perguntou por que eu estou trabalhando para o TR, Walter? Já se perguntou o que eu estou ganhando com isso? — Sofia perguntou, mas não esperou resposta. — Ele está me chantageando, Walter. Assim como tentou fazer com Rick.
— Rick não se juntou ao TR — Walter argumentou. Nada do que Sofia dissesse serviria como desculpa por tudo o que ela fez.
— Rick foi um tolo. — Ela abaixou a cabeça. — Ele achou que poderia derrotar TR com sua ajuda. — Sofia tentou sorrir, mas não conseguiu. — Mas TR não pode ser derrotado. Eu tinha que me juntar a ele ou então...
Walter esperou a resposta, apesar de já ter uma ideia de qual era.
— Eu nunca mais veria Sárius. Não em sua forma humana.
Sofia ficou quieta, e Walter pensou que ela pudesse estar chorando, mas ela aguentou como pôde continuar com sua expressão séria e voltou a mirar o rapaz.
Por um momento, ele conseguiu desenvolver pela garota um sentimento de pena. Será mesmo que salvar alguém que se ama poderia servir como justificação para tantos atos de crueldade?
— Mas não há mais perigo. Hoje eu vou acabar com isso tudo.
— Então vai me matar? — Walter perguntou, com seu sentimento de pena se esvaindo como fumaça. — Igual você fez com a esposa do Bart?
— Eu menti Walter. Não matei a esposa do Bart. — Sofia se aproximou do garoto. — Eu também não matei as pessoas do vilarejo. — Ela tocou no rosto de Walter. — E eu também não vou matar você. — A jovem dos ventos tocou na ferida sobre a testa do rapaz. Após fazer isso, levou sua mão ao seu campo de visão e sorriu com o que viu.
— Você quer o meu sangue? — Se Walter já achava antes que Sofia era doente, agora ele tinha certeza que ela era uma verdadeira psicopata.
— Não eu. TR quer o seu sangue. O sangue de todos nós. — Sofia pegou um pequeno frasco de vidro que estava entre seus seios. — Faltava apenas o seu. — Com o vento ao favor dela, a garota conseguiu levitar o sangue que escorria do rosto de Walter até o recipiente.
— Isso é loucura, Sofia — Walter tentou argumentar. — Eu não entendo nada sobre o mundo de Portland, mas eu sei que o TR é maligno. Seja lá o que ele estiver tramando, pode destruir a vida de muita gente inocente.
Sofia olhou para ele por um momento. Walter soube que, no fundo, a garota dos ventos concordava com ele.
— Tudo o que me importa é o Sárius — ela disse, desviando o olhar. — Assim que eu entregar o seu sangue ao TR, ele vai transformar o amor da minha vida de volta em humano, e nós poderemos viver em paz novamente. Rick tem Lilly de volta, e você voltará para a Terra. Todo mundo ganha.
— Você está cometendo um erro, Sofia. Por favor, vai por mim. — Walter tentou de qualquer maneira convencer Sofia. Por um momento, ele achou que poderia estar conseguindo, pois, a garota olhava para ele e para o frasco com dúvida.
— Sinto muito, Walter. — Sofia guardou o recipiente com o sangue novamente entre seus seios.
Walter ficou decepcionado e não conseguiu mais olhar para o rosto da garota. Deitado ali, sem poder fazer nada pois sua perna ainda estava presa, ele viu Sofia partir em direção à mata logo atrás de si. Ela andava devagar, até que se ouviu um grito irado chamando por seu nome.
— Droga — ela murmurou, e começou a correr.
Rick e Bart apareceram de repente, e estavam correndo como se estivessem disputando uma maratona. Detrás deles, não muito distante, Sárius voava, de volta ao tamanho real. Aquela águia estúpida devia ter capturado eles enquanto Sofia certificava-se de pegar o sangue de Walter para o TR.
Assim que viu Walter na situação em que estava, Rick parou imediatamente de correr para ajudar o amigo, enquanto que Bart continuou correndo atrás de Sofia. Aquele cara era realmente determinado. Sárius, que vinha logo após, não prestou atenção em Rick ou Walter e continuou na corrida.
— Você está bem, amigo? — Rick perguntou enquanto tentava mover a pedra, mas ela sequer se mexeu. — Droga. — Sem tocá-la, Rick usou seu dom da terra para mover a rocha para cima e libertar Walter.
A perna dele estava em um tom arroxeado horrível. Walter fez uma careta ainda pior de dor quando a viu.
— Droga, Walter. Você consegue andar? — Rick falou, mas logo percebeu que era uma pergunta estúpida. Era óbvio que Walter não iria conseguir andar.
— Não se preocupa comigo. Temos que ir atrás da Sofia. — Ele tentou mexer sua perna machucada, porém uma onda de agonia percorreu todos os seus nervos, e Walter gritou de frustração.
— Bart foi atrás dela, mas não acho que ele é páreo para Sofia e a águia dela. Nós temos que dar um jeito nessa ave...
— Não, Rick — Walter interrompeu. — Me escuta. Sárius não é uma ave. É o marido de Sofia. Ele foi enfeitiçado por TR. É por isso que ela está trabalhando para esse monstro.
— O quê? Não pode ser, Walter. Tem certeza disso?
— Eu também quase não acreditei, mas pensa bem, Rick. — Walter usou a perna boa para levantar lentamente e depois se apoiar na pedra que antes o estava torturando. — Sofia até agora não nos matou, e tentou o máximo que pôde não nos ferir. E a esposa do Bart, Sofia não a matou. Ela mentiu.
— Isso é... Isso foi... um erro. — Rick balançou a cabeça negativamente. — Bart está irado com Sofia. Eu acho que ele... Que ele vai...
Walter assentiu antes que Rick terminasse a frase.
— Temos que impedir isso.
Ele tentou andar, mas assim que deu o primeiro passo, sua perna machucada quase o fez cair no chão. No entanto, Rick o salvou da queda.
— Vai, se apoia em mim. Eu te ajudo a andar.
Walter não queria se aproveitar do amigo, porém não teve escolha. Com cautela passou o braço por trás do pescoço de Rick e, devagar, eles caminharam em direção à mata onde Sofia, Bart e Sárius foram.
***
Demorou muito, mas os dois conseguiram enfim chegar à floresta. Ainda não havia sinal de Sofia ou Bart, o que deixou Rick e Walter nervosos e inquietos. No entanto, de repente os dois ouviram o som da águia da garota dos ventos e eles foram em direção a ele.
Walter conseguiu avistar Sofia e Sárius às margens de um extenso lago azul, mas não foi capaz de identificar Bart. Ele se perguntou onde esse garoto poderia estar.
Em resposta, um feixe de luz verde saiu de entre às árvores ao leste da floresta, em direção a Sofia e seu parceiro, que se defenderam usando os ventos como uma espécie de escudo invisível. Depois, Sofia moveu suas mãos com força e uma corrente de ar poderosa se lançou contra o lugar de onde o ataque anterior viera.
— Temos que pará-los antes que eles se matem — Rick advertiu. — O que a gente faz?
Walter pensou. Ele tentou analisar a situação para ver o que poderia fazer. Talvez devesse ir até Bart e contar a verdade, que Sofia não havia matado sua esposa. Mas o rapaz estava irado. Seria improvável que acreditasse nele. A única maneira era tentar convencer Sofia de parar...
— Rick, faça com que eles parem de lutar, por favor — Walter pediu. — Eu vou tentar conversar com Sofia.
— Não é uma boa ideia. Ela não vai desistir fácil. E se ela atacar você?
— Eu sei dos riscos que estou correndo — ele assegurou. — Mas estou disposto a enfrentar isso.
Rick assentiu. Com a mão esquerda levantada, ele proferiu palavras mágicas estranhas e uma enorme parede de terra surgiu entre Sofia e Bart, cessando de vez a batalha.
A garota olhou para a dupla com raiva, mas não os atacou, nem ordenou à sua águia que o fizesse. Parecia estar esperando que Walter viesse falar com ela. Não desperdiçando essa chance, foi exatamente isso o que ele fez. Com ajuda de Rick ele chegou perto o suficiente da garota dos ventos para que ela pudesse ouvi-lo.
— Sofia — gritou. — Você tem que parar.
— Eu já disse que não posso, Walter. — Sofia olhou para sua águia. — Eu não vou perder a única pessoa que eu amo. Você nunca entenderia.
— Você tem razão — Walter disse, num tom mais grave. — Não tem como eu entender. Eu nunca amei ninguém na minha vida toda. Mas uma coisa eu sei. TR é maligno. Se ajudá-lo você vai se tornar tão má quanto ele e isso irá te destruir. — Walter olhou Sofia nos olhos com o máximo de intensidade que pôde. — Acha mesmo que é isso que Sárius iria querer?
Sofia não respondeu. Sua expressão mostrava desespero quando ela abaixou a cabeça e deixou algumas lágrimas rolarem.
— O que... O que eu devo fazer, Walter? — Sofia murmurou, tentando não soluçar.
— Não entregue meu sangue a TR. Devolva-o para mim e eu te prometo que não vou descansar enquanto não puser minhas mãos naquele monstro e destruí-lo. — Pareciam palavras vazias. Walter poderia facilmente ser derrotado por TR. Mas ele ao menos tinha que tentar. Não ia mais tolerar que aquele espírito ficasse brincando com os sentimentos dos outros assim.
A garota dos ventos pensou em silêncio por pelo menos dois minutos, de olhos fechados. Até que por fim ela resolveu responder:
— Tá... Tudo bem então. — Sofia pegou o frasco com o sangue de Walter de entre os seus seios.
Com calma, Walter e Rick se aproximaram dela. Walter sempre a olhando nos olhos, até ter em fim o frasco nas mãos.
— Fez a escolha certa, Sofia. — Ele sorriu.
Antes que a garota pudesse responder, algo lhes chamou a atenção. Bart estava em cima do muro de pedra que Rick fizera, com uma expressão de puro ódio. Em sua mão, uma faca que parecia estar bem afiada.
— Isso — ele disse — é pelo o que você fez com a minha esposa.
Em menos de um segundo, Bart saltou do muro empunhando a faca em direção à Sofia.
— Bart não! — Walter gritou, mas era tarde demais para fazer qualquer coisa.
Muito sangue jorrou com o golpe. Entretanto não era o sangue de Sofia.
— Não... — ela disse, olhando para o corpo de um homem que até então Walter ainda não conhecia. — Não, Sárius, não. — Sofia se ajoelhou ao lado do corpo e o chacoalhou. — Sárius, por favor, não, por favor.
Walter tentou entender o que havia acontecido. Antes que Bart pudesse ferir Sofia, sua águia havia entrado na frente dela e a protegido com sua própria vida. O fato de Sárius ter voltado a sua forma humana com o ataque só podia significar uma coisa.
— Bart, você... — Rick gaguejou. — Você o matou...
— NÃO! — Sofia gritou histericamente e chorou como se estivesse sendo torturada.
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