Amy

10 unStable Girl – Parte 2


Capítulo 10 — unStable Girl – Parte 2

Eu acordei mais cedo do que de costume. Tomei um banho demorado com a intenção de curar minha dor de cabeça e me enrolei em meu robe, saindo do banheiro e voltando ao meu quarto. Eu me sentei em minha cama, encarando a garota, que ainda dormia.

Ela tinha parte do corpo para foda da cama, seus braços quase tocando o chão. Eu deveria acordá-la, já era quase seis da manhã e daqui a pouco a casa inteira estaria acordada. Eu não queria ter que dar satisfação a ninguém. Principalmente à Emma.

Eu caminhei em direção ao guarda roupa, para pegar uma muda de roupa, antes de acordar a garota. Voltei então ao banheiro, mas parei no meio do caminho, pois Emma – dessa vez com calças – havia entrado em meu quarto. Ela parou, assim que me viu, encarou a garota adormecida em minha cama e, em seguida, olhou para mim. Ela esperou que eu dissesse algo, seu rosto era de total confusão e, mesmo sabendo que eu não lhe devia explicação, eu me vi constrangida.

“Engraçado.” Ela começou a dizer, olhando bem em meus olhos. “Ontem você concordou que não estava dando certo nós duas morando juntas. Agora você tem uma estranha em sua cama. Então, me diga, Regina. Como isso dá certo e nós não?”

“Rapunzel e eu...” Eu respondi, mas ela me interrompeu. Havia certa irritação em seu sorriso e, por algum motivo, lágrimas em seus olhos.

“Você vai dizer que foi só sexo, não é?” Questionou, antes seu tom de voz era baixo. Agora, porém, ela não aparentava ligar para se alguém pudesse ouvi-la. “Por que você é assim? Por que tudo para você é tão frio e sem sentimentos? Por que você simplesmente não pode amar alguém de verdade? Por que com você é tudo na base da manipulação e da mentira? Tem algo em você que seja real, Regina? Além do seu título de Rainha?” Continuou, seus olhos cheios de lágrimas e ela soava tão machucada, tão instável.

Eu queria dizer algo. Eu queria dizer qualquer coisa, mas eu não conseguia. Eu me calei diante de suas verdades. Tudo era verdade. Ela estava tão certa sobre mim, sobre quem eu era. Enquanto eu estava me esquecendo de quem um dia eu fui. Talvez por isso eu nada disse. Talvez por isso eu a deixei falar, a deixei me quebrar. Enquanto, aos poucos, eu percebia o quanto eu era instável e o quanto eu precisava de alguém para me colocar no chão.

“Eu vou deixar vocês sozinhas.” Ela disse, enxugando as lágrimas. “Eu vou sair da sua casa e te deixar seguir sua vida em paz. Eu sei que Henry entenderá que nós três jamais daríamos certo.” Continuou e saiu do quarto, fechando a porta atrás de si.

Eu me virei, em silêncio, encarando Rapunzel, ainda sentada em minha cama. Eu fui até ela, me sentei sobre o colchão e me afundei em meus pensamentos.

“Você devia ter dito algo a ela.” Rapunzel disse, passando as mãos em seus cabelos.

“Eu não devo nada a Emma.” Eu respondi, percebendo o quanto eu estava com raiva.

“Eu sei que vocês duas não têm nada. Você deixou isso bem claro, mas eu também sei que a maioria dos relacionamentos terminam — ou nem começam — porque uma das partes nunca dá motivos para o outro querer ficar. Eu acho que é você que precisa fazer isso. Pois ela não tem para aonde ir. Ela está querendo se estabilizar em algum lugar, enquanto você está querendo se estabilizar com alguém. Por que uma não ajuda a outra?” Ela perguntou, esperando por uma resposta.

Em seguida, se levantou, pegando suas calças jeans e as colocando. Pegou os tênis e parou diante da porta, me encarando. Eu refleti sobre suas palavras e principalmente sobre a noite passada, quando eu a trouxe para o quarto e a deixei tirar minha roupa.

Ela deixou marcas pelo meu corpo, espalhou meu vestido pelo chão. Porém, nós paramos aí. Ela jamais passou dos beijos e só teve tempo de tirar suas calças, pois quando eu senti sua mão deslizar por entre as minhas coxas e seus dedos deslizarem pela minha calcinha, eu a fiz parar.

Eu não consegui me entregar. Eu havia sim sentindo algo, quando nos beijamos pela primeira vez. Porém, foi apenas naquele momento, durante o beijo. Quando nós subimos para o quarto, eu já não sentia mais nada.

Ela era linda e eu não podia negar o quanto ela havia me deixado excitada, mas havia sido só isso. Só tesão e uma vontade louca de me satisfazer, que logo passou, assim que eu percebi que apenas meu corpo a queria.

Ela entendeu o que estava acontecendo e me deu um último beijo, dessa vez na testa e se preparou para ir embora. Eu insisti para que ela ficasse aquela noite. Eu precisava de alguém, eu precisava sentir alguém ao meu lado, mesmo que fosse de mentira.

Emma estava certa. Tudo em mim era falso. Todos os meus relacionamentos e todas as minhas intenções. Eu queria poder voltar a ser a antiga Regina, pois eu tinha certeza de que ela ainda estava em algum lugar dentro de mim, mas eu era incapaz de trazê-la de volta sozinha.

“Eu vou embora antes que seu filho acorde. Eu não quero causar mais confusão.” Disse. “Eu adorei nossa tarde. Gostei muito de te conhecer, Regina.” Continuou, se aproximando de mim e, com uma das mãos, tocando em meu queixo. Eu a encarei. “Não fica assim. Deixa eu fazer algo para te animar. Vamos sair esta noite para tirar essa tristeza do seu rosto. Eu prometo que não vou parar na sua cama de novo.” Ela concluiu, me roubando um sorriso.

“Não, eu acho melhor não.”

“Eu te busco às oito, a gente pode ir ao Rabbit Hole.” Ela respondeu, me ignorando.

“Eu já disse que não.”

“Ótimo, eu te busco com o carro da minha mãe, vista qualquer coisa.” Ela continuou e se afastou, saindo pela porta.

Eu encarei o lado vazio da cama, que antes ela ocupava e me questionei sobre quando eu teria alguém real na minha vida, quando eu finalmente teria algum tipo de estabilidade.

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Ela de fato veio as oito, como disse que viria. Eu não iria a lugar algum, como eu também havia dito, mas ela não pareceu ligar para as minhas vontades. Henry estava na casa, eu não queria deixá-lo sozinho, mas ele acabou insistindo que eu fosse.

De modo que lá estava eu, naquele bar de quinta categoria, do qual eu nunca tinha tido o desprazer de estar. Ela foi me buscar em seu conversível vermelho e o carro era tão antigo que foi fazendo barulho durante o caminho inteiro. Eu era indiferente ao barulho, mas o dia já havia sido uma merda e eu estava tão irritada, que tudo era motivo para eu me sentir pior.

Emma havia de fato ido embora, levou todas as coisas e me deixou com a bomba de contar a Henry sobre o que tinha acontecido. Ele entendeu que de fato nós não estávamos dando certo e que não valia a pena forçar algo, mas por dentro ele estava triste e eu odiava vê-lo dessa forma.

“O que as duas vão querer?” O barman perguntou, limpando o balcão a nossa frente.

“Me surpreenda!” Rapunzel respondeu, ele a encarou e depois a mim e soltou um ‘certo’, voltando em seguida com um Martini para mim e água para ela.

“Você está de brincadeira, não é?!” Ela perguntou, irritada.

“Qual é, loirinha. Nós dois sabemos que você não tem idade para entrar nesse bar, quem dirá para beber algo.” Ele respondeu e ela o encarou, frustrada. “Curte a noite e não perturba. Então eu não ligo para sua mãe, ok?”

“Cara, você é um chato. Bota pelo menos uma cereja aqui dentro.” Ela pediu, mais frustrada ainda, enquanto ele jogava uma cereja dentro de seu copo, a fazendo sorrir.

“Quantos anos você tem?” Eu perguntei, ela corou com a minha pergunta.

“Vou completar 18, no final do ano.” Ela respondeu, mordendo o lábio inferior.

Eu não conseguia acreditar que eu quase havia ido para a cama com uma garota de 17 anos. Eu devia ter ouvido Emma e então muita coisa poderia ter acontecido de outra forma. Mas não, eu fui teimosa e tão implicante, a ponto de ignorar todos os sinais em relação a idade dela.

“Não fica com raiva.” Ela disse, segurando meu braço. Eu estava prestes a deixar aquele lugar. “Eu sei o quanto eu sou ilegal para você, mas a noite está tão legal, não é mesmo? Não estraga as coisas agora. Eu não costumo fazer esse tipo de coisa, mas eu não podia perder a chance de tentar algo com você. Você estava tão...”

“Fácil?!” Eu perguntei, em um tom perplexo e mais alto do que eu gostaria.

“É, bem, isso. Esse bar inteiro mataria para te beijar e você estava me dando isso de graça. Era muito bom para ser verdade.” Ela disse. “Por favor, não me transforme em um sapo.” Continuou e me deu um olhar de piedade, o que me matou mais ainda de raiva.

“Eu te dei álcool na minha casa. Sabe em quantos estados isso daria cadeia?!” Eu perguntei, dando um gole em minha bebida e sentindo minha garganta arder. Ela abaixou a cabeça por alguns segundos e só voltou a me encarar, quando eu continuei a falar. “Você sabe que estava errada, não é mesmo?”

Ela assentiu, me olhou com uma cara de quem estava prestes a chorar e eu me senti como a sua mãe. Era tão ridícula essa situação, horas atrás eu estava me sentindo como sua amante. Eu tentei esquecer tudo, respirei fundo e pedi outra bebida, dessa vez mais forte.

“Bem, foi você que pegou o vinho.” Respondeu, em sua defesa. “Você que me provocou e me levou para cama.” Continuou e revirou os olhos em irritação. “Por favor, Regina, nem a Branca de Neve te negaria.” Concluiu, pegando o seu copo de água com cereja. Eu dei uma risada e balancei a cabeça, tentando ignorar o que eu havia acabado de ouvir. “Você foi procurar a Emma? Explicou a ela que não tivemos nada?”

“Não.” Eu respondi, dando um gole em minha nova bebida.

“Por que não?”

“Porque eu não devo nada a ela.”

“Se você diz.” Ela respondeu, comendo os aperitivos do balcão. “Regina, me fala do cara que você amou uma vez. O que aconteceu com ele?”

“Ele morreu.” Eu respondi, ela se chateou com a minha resposta.

“Morreu? Como?”

“Minha mãe tirou o coração dele e o esmagou na minha frente.”

Eu respondi, em um tom seco. Eu não queria relembrar isso, pelo menos não hoje, não depois de tudo o que havia acontecido. Porém, sua pergunta funcionou como uma espécie de gatilho e, no instante seguinte, eu não conseguia falar sobre outra coisa que não fosse Daniel.

“Minha mãe nunca conseguiu aceitar que eu queria ser feliz. Tornar-me uma rainha ou possuir terras e tesouros, nada disso me importava. Eu era feliz com Daniel. Era o tipo de felicidade que dinheiro nenhum era capaz de comprar, mas ela não pensava assim. Ou pelo menos não queria aceitar esse fato. Tudo o que eu me tornei foi por culpa dela. Toda loucura que eu carregava em minha vida ou em minha mente. Tudo, de certo modo, foi consequência de uma vida privada da única coisa que realmente importa na vida de alguém: amor.”

“Eu queria ter feito ou dito algo para salvá-lo, mas eu não fiz nada. Quando ela apertou aquele coração e o transformou em pó, eu também morri com ele. Não sobrou nada daquela Regina. Ele foi meu garoto do estábulo e nós compartilhávamos mais do que uma paixão um pelo outro. Nós compartilhávamos uma paixão por cavalos e acho que foi isso que nos uniu.”

“Cavalgar era a única coisa que me tirava daquele mundo louco no castelo com a minha mãe. Sentir o chão fora dos meus pés, quando eu estava na garupa daquele animal, de certa forma, me estabilizava. Eu me sentia livre, eu me sentia eu mesma quando cavalgava. O resto do tempo, eu era apenas uma Regina moldada para me tornar uma Rainha. Apesar de tudo isso, Daniel me via de outra forma. Para ele, eu não era uma princesa.”

“Eu era a garota que ele amava. E ele teria largado tudo para tentar me fazer feliz. Depois que ele se foi, eu fiz a mesma coisa que a sua mãe fez com você. Eu me tranquei em uma torre, tão alta e tão distante do chão. Eu vivo nessa torre até hoje. Completamente sozinha. Ninguém virá me resgatar.” Eu disse, enxugando minhas lágrimas. Rapunzel se aproximou de mim.

“Alguém te resgatará, Regina.” Disse, pegando em meus cabelos e fazendo uma pequena trança. “Você só tem que permitir que isso ocorra.” Concluiu, passando os dedos pela trança que havia feito. Em seguida, ela me abraçou, tão forte, com tanto carinho, que eu me desabei em lágrimas. Ela tentou me animar. “Tá vendo aqueles caras ali?” Perguntou, apontando para um grupo de rapazes jogando sinuca.

“O que têm eles?” Eu perguntei, enxugado minhas últimas lágrimas.

“Bem, e se a gente brincar um pouco com eles?”

“O que você tem em mente, Rapunzel?” Perguntei, temendo a resposta.

Ela sorriu, me explicou então o seu plano. O que ela tinha em mente, era enganar os rapazes. Fazendo com que eles perdessem o jogo. Eu acabei aceitando, eu não tinha o que fazer e ela estava tão empolgada, que eu não consegui dizer não.

Lá estava ela, com os garotos, eu continuei sentada no bar e havia perdido as contas dos meus drinks. Ela fingia não saber segurar no taco de sinuca e, ainda assim, graças a minha magia, ela ganhava todas as rodadas.

Eu a observava se divertir humilhando os caras no jogo e as horas passaram. O bar foi ficando vazio. Eu já estava exausta e um pouco bêbada. Só havia sobrado nós duas e os rapazes da sinuca, três caras ao todo. Eu devo ter cochilado por alguns segundos, quando eu despertei, havia apenas um deles e Rapunzel contava satisfeita o dinheiro que havia ganhado enganando eles.

O único homem que havia sobrado se aproximou dela, abraçando-a por trás e dizendo algo que eu era incapaz de ouvir. Ela claramente não estava querendo nenhum tipo de intimidade, tirou o corpo, mas o cara insistiu. Ela se inclinou então para frente, se afastando do homem, fazendo-o cair sobre a mesa de sinuca. Eu corri para ajudá-la, ficando entre ela e o homem que agora se encontrava em pé.

“Eu não acho que você vai querer se meter com a Rainha.” Eu disse, tentando usar minha magia no homem, mas ela falhou, devido ao álcool.

O homem soltou uma risada, pegou um dos tacos da mesa e partiu em nossa direção. Novamente, eu tentei usar minha magia e, dessa vez, uma bola de energia surgiu em minhas mãos, atingindo o homem e o fazendo voar para o outro lado do bar.

Eu me senti fraca, caindo em direção ao chão. Rapunzel tentou me amparar, mas sem sucesso. Eu senti tudo a minha volta girar. O som abafado, minhas mãos ardendo e minha cabeça a ponto de explodir. Tudo era bem confuso, eu conseguia ouvir todas as vozes, mas tudo era distante.

Eu não sei quanto tempo eu permaneci no chão, mas, em algum momento, alguém me amparou e me carregou para fora do bar. Eu via as cores da sirene de uma ambulância e então Emma.

Eu entendi que ela não estava ali para me levar para casa, quando colocou as algemas em meu pulso, me levando para o seu carro de xerife. Ela me colocou no banco do passageiro e fechou a porta. Do lado de fora, Rapunzel acenava para mim. Emma entrou no carro, dando partida e sem se virar para mim, ela enfim disse:

“Eu disse que garotas eram problemas, Regina.”

“É, mas também não me disse que elas eram tão boas.”

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O flash da câmera quase me cegou, quando Emma bateu uma segunda foto minha, em menos de um minuto. Eu não fazia a menor ideia de que horas eram e os acontecimentos ainda estavam bem turvos em minha memória. Ela pediu que eu me virasse de perfil, eu já tinha feito isso, mas agora ela queria do outro lado. Eu a obedeci.

“Não há necessidade para isso, Senhorita Swan.” Eu disse, me virando e estendendo meus pulsos para ela, que soltou uma risada. “Você está se divertindo muito com isso, não está?”

“Ainda não.” Ela respondeu, com um sorriso nos lábios.

Esse sorriso me irritou e eu tentei me soltar de minhas algemas, mas, aparentemente, o nível de álcool em meu sangue me impedia de controlar minha magia. Então, eu desisti, para evitar que eu explodisse a delegacia.

Novamente, eu mostrei meus pulsos, mas ela simplesmente me segurou e me levou até uma das cenas. Ela me deixou ali dentro, voltando poucos segundos depois com um uniforme cinza e um cobertor.

“Agora sim eu estou me divertindo.” Disse, com uma risada e se virou para ir embora.

Eu senti o ódio correr em minhas veias, apagando todo o álcool que encontrava pelo caminho. No mesmo instante, eu levantei, indo em sua direção e a jogando contra as barras da cela. Eu segurei seus braços com a mão e com o braço livre, eu apertei seu pescoço contra as grades da cela. Ela tentou se soltar e eu a apertei mais.

“Você não pode me manter aqui.” Eu disse, me esforçando ao máximo para que minha voz soasse mais autoritária possível.

“Por lei, eu posso sim.” Ela respondeu, por entre os dentes, ainda tentando se soltar de mim.

“Querida, você tem que entender uma coisa: Eu sou a lei dessa cidade. Esse cargo de xerife não passa de invenção minha. Eu criei essa cidade, de modo que ela é minha.” Dizendo isso, eu então a soltei e a encarei.

Então, o que ela havia me dito de manhã cedo, me veio de novo a cabeça. Ela estava tão certa, eu já sabia disso. Tudo em mim era inventado. Tudo ao meu redor não passava de uma criação minha. Tudo nessa cidade havia sido criado para servir os meus propósitos.

Ninguém teve escolha. Emma era a única coisa real que havia acontecido na minha vida. Eu queria odiá-la com todas as minhas forças, assim como eu odiei uma vez. Eu pensei que esse ódio cresceria com o tempo, mas assim como a minha sede de vingança, meu ódio por Emma também foi embora.

“Me desculpa se eu te machuquei.” Eu disse, tentando soar a mais sincera possível. Ela revirou os olhos e saiu da cela, me deixando ali dentro, trancada. “Você não pode me deixar aqui!” Gritei.

Eu tinha minhas mãos ao redor das barras daquela cela. Emma estava bem ali na minha frente, eu não sabia o que se passava em seu olhar, mas seu sorriso deixava claro o quanto minhas palavras a tinham machucado.

“A cidade pode ser sua, mas o filho é nosso. Eu não quero que ele te veja nesse estado. Fora que eu não posso deixar você correr o risco de sofrer um acidente. Ou algo pior, como encontrar outra loira que te faça perder a cabeça e destruir mais a cidade.” Respondeu, em um tom irônico. “É incrível o que o sexo faz com a pessoa, não é mesmo?” Continuou, se aproximando da grade, seu rosto bem próximo ao meu. “Ontem, eu te via como uma mulher que jamais ficaria de quatro por outra pessoa. Hoje, eu tive que te buscar em um bar, porque você se meteu em uma briga para defender uma garota que você mal conhece.” Ela fez uma pausa. “Mas ainda assim a levou para a cama.”

“Se eu não te conhecesse, eu diria que tudo isso é ciúmes. Por que acho que o meu banheiro não era a única coisa que você gostaria de usar, estou certa?” Eu disse, ela me encarou, parecendo realmente ofendida. “Outra coisa, embora não seja da sua conta, Srta. Swan. Eu não dormi com ela. Não da forma que você está pensando.” Eu concluí.

“Eu consigo sentir daqui o cheiro de sexo, Regina.”

“Certeza? Não é só o seu tesão por mim falando mais alto?”

“É, porque sou eu a bêbada aqui, não é mesmo? Olha só, Regina.” Ela começou a dizer, puxando antes o ar para continuar.

Ela estava pronta para dizer tudo o que havia guardado dentro de si e a última coisa que eu queria era ouvi-la reclamando mais uma vez de mim. Eu conhecia meus erros do passado e os erros que ainda me restavam para consertar. Então, eu não precisava do sermão dela. Eu não precisava que nada fosse jogado em minha cara. Eu só precisava que ela se calasse e ficasse bem longe de mim e de meus sentimentos já tão instáveis. Por isso, eu a puxei para a grade e a tomei para minha boca.

Eu não sabia o que esperar de sua reação quando nossos lábios se tocaram e, principalmente, eu não esperava de forma alguma sentir a língua dela na minha. Ela então se afastou, cortando o beijo, enquanto eu me perguntava o que teria acontecido, se ela tivesse permitido que nós fossemos adiante.

Seu olhar era de confusão, não havia mais vestígio do batom que ela usava e o gosto da minha boca, antes tomado pelo gosto amargo da bebida, havia sido tomado pelo seu gosto. Eu só queria que ela se calasse, mas agora parecia que todas as palavras que ela queria dizer, se encontravam em meus lábios. Eu levei meus dedos até os lábios, para prolongar o gosto ou para sentir se de fato eles me pertenciam. Ela ainda me encarava e sua confusão agora era tomada por raiva.

“Para que isso?” Ela perguntou, com lágrimas em seus olhos.

Eu não entendi o que estava acontecendo. Eu entendia a raiva, pois eu sabia que a última coisa que ela queria, era sentir meus lábios nos seus. Mas por que as lágrimas?

“Guarda seus beijos, mãos e língua para quando aquela garota tiver a maioridade. A última coisa que eu quero ser é um dos seus brinquedos.” Ela disse, indo embora e apagando a luz. Eu me sentei na cama de concreto, olhando para aquele lugar completamente vazio e escuro, como meu interior.

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Eu senti cheiro de café forte assim que acordei. A luz forte do local irritou meus olhos e a dor de cabeça estava pior que na noite passada. Eu me sentei e olhei para a porta onde Emma estava, segurando em suas mãos uma xícara. Ela se aproximou, sentando ao meu lado. Eu passei as mãos pelos meus cabelos, a fim de ajeitá-los, senti a trança que Rapunzel havia feito na noite passada. Emma me entregou a xicara, eu a peguei, agradecendo e tomando um gole da bebida.

“Henry ficou sozinho.” Eu disse.

“Eu sei. Eu fui até sua casa e fiquei com ele.”

“Ele perguntou por mim?”

“Ele perguntou se você tinha passado a noite com a garota. Eu disse que sim.” Ela respondeu, fazendo uma pausa e olhando para mim. “Não é meu direito contar a ele a verdade. Além do mais, ele disse que gostava muito dela. Acho que ele aprova vocês duas.”

“Emma...”

“Regina, desculpa se eu me intrometi no assunto de vocês duas. Eu imagino o quanto esteja sendo difícil para você permitir alguém entrar na sua vida. Eu não devia te julgar.” Ela deu uma pausa, balançando a cabeça algumas vezes. “Ela veio do nada e você logo de cara gostou dela. Enquanto eu estou me esforçado ao máximo para que você me aceite em sua vida, mas você só me empurra para longe. Eu sei que é difícil. Você deveria me odiar, não é mesmo? Eu deveria te odiar também, mas eu não consigo e eu não quero.” Concluiu, se encostando contra a parede e esperando pela minha resposta. Eu também me encostei, encarando a fumaça que saía da minha xícara.

“Me desculpa pelo beijo.” Eu disse.

Ela se virou para mim e sua mão caminhou até meus cabelos, tocando na trança que ainda havia ali. Seus dedos desceram pela minha bochecha e eu fechei meus olhos, ela se inclinou em minha direção, sua testa encostando na minha. Quando eu abri meus olhos, lá estava, na minha frente, seus olhos verdes completamente molhados por lágrimas.

Ela mordeu o lábio algumas vezes, talvez para manter suas palavras dentro de si ou para evitar me beijar. Eu queria tanto roubar outro beijo, dessa vez não seria roubo algum, pois nós duas queríamos isso, mas ainda assim, eu nada fiz.

“Emma.” Eu disse, pois, todas as palavras fugiram da minha boca.

Eu esperei que ela dissesse algo que fizesse sentido, pois eu já não sabia mais o que eu sentia. Eu senti as lágrimas molhando o meu rosto, eu estava tão confusa, havia esse nó em minha garganta e meu peito doía. Era como se alguém o estivesse abrindo e retirando algo de dentro dele.

Minhas lágrimas eram de dor e confusão e de tantas outras coisas que eu já não tentava mais entender. Eu não sabia se ela sentia o mesmo, eu não sabia se ela sentia essa angustia ou esse desespero. Ela se aproximou de mim, colocando suas mãos em meu rosto e me beijou, não nos lábios como tanto eu queria, mas na bochecha. Eu senti, então, seus lábios secando minhas lágrimas.

Eu fechei meus olhos, deixando que cada uma delas saíssem. Cada lágrima era como se fosse uma parte de mim, desmontando ali mesmo, na frente dela. O fato de ela tomar minhas lágrimas para si, era como se ela estivesse me montando de alguma forma. Como se agora eu estivesse aos poucos me juntando a ela, a ponto de nós duas nos tornarmos uma só.

Eu coloquei a xícara no meio de minhas pernas, minhas mãos tocaram em seu pulso e mais uma vez eu disse seu nome. Dessa vez, ela me respondeu, dizendo para eu ficar em silêncio. Ela estava confusa, tanto quanto eu. Então, eu me calei, deixando que o silêncio, nossas lágrimas e aquele toque, que conseguia ser tão íntimo, preenchessem a falta de palavras.

Quando por fim minhas lágrimas acabaram, ela se afastou, me encarou e disse que a chave do meu carro estava em sua mesa. Eu a vi partir e me levantei para ir atrás dela, mas quando eu cheguei até a rua, seu carro já estava indo embora. Eu podia correr, gritar por seu nome, mas eu era tão covarde.

Tudo o que eu fiz, foi dar meia volta, pegar minhas chaves e procurar meu carro. Eu não demorei para encontrá-lo, abri a porta e antes que eu pudesse entrar, eu escutei uma voz me chamando. Era Rapunzel, vindo em minha direção. Ela tinha uma revista em sua mão e usava um uniforme do colégio.

“Como você está?” Perguntou, encostando-se ao meu carro.

“Bem e você?” Eu perguntei de volta, me encostando ao seu lado.

“Estou ótima. Eu fiquei preocupada com você, mas agora sabendo que você está bem, eu fico mais aliviada.” Respondeu, me encarando e então simplesmente começou a rir. “Todo mundo na escola vai querer saber sobre a noite passada. Você acabou com aquele cara e ele totalmente mereceu aquilo. Parece que ele quebrou o nariz e um braço, você devia ter castrado ele também.” Continuou, se afastando do meu carro, ainda em uma crise de riso. “Obrigada. Eu poderia ter me livrado do cara numa boa. Ele era só um babaca metido a fortão, mas ainda assim, obrigada.”

“Não foi nada.”

“Ela te tratou bem?”

“Ela só me deixou na cela e voltou hoje cedo.” Eu respondi, dando de ombros. Ela me encarou, como se fosse capaz de ler meus pensamentos e soltou um ‘mais o que?’ “Mais nada.” Eu respondi, mas ela não tirou os olhos de mim e era como se ela esperasse que eu dissesse mais alguma coisa. “Eu a beijei.” Disse, finalmente, ela abriu a boca em surpresa e me bateu com a revista em suas mãos.

“Ai, meu deus, Regina!” Disse, sorrindo. “Você não ia me contar isso?!” Perguntou, se aproximando de mim, como se de repente nós tivéssemos a mesma idade e estivéssemos fofocando no intervalo da aula. “Para alguém que disse que não gostava de garotas, você está se saindo muito bem.” Continuou e caiu em uma risada.

“Por favor, não faça isso.”

“Isso o quê?” Perguntou, confusa.

“Não me faz ficar pensando nessas coisas. Eu já estou confusa demais.”

“Você não está confusa.” Disse. “Você não tem cinco anos de idade. Você é uma mulher e sabe exatamente o que está sentindo. Você está sentindo tudo, menos confusão. Você só não quer assumir. Eu sei, Regina. Se apaixonar é uma merda. Eu já me apaixonei. Você não percebe quando acontece. Uma hora você está lá, com todas as suas defesas levantadas. Usando uma armadura tão pesada que ao longo dos anos te manteve tão forte, a ponto de nada te machucar.”

“Então acontece algo, na verdade alguém acontece. Você se achava antes tão forte e percebe então, o quanto na verdade você é vulnerável. Mas não era assim antes, porém, seu peito foi aberto, seu coração exposto e ela entrou, te detonando por dentro. Quando você percebe, você deu um pedaço seu a ela, pois ela já havia dado um pedaço dela a você.”

“Um dia ela faz algo besta, como andar na sua frente ou até mesmo sorrir em sua direção. Então o estrago está feito, sua vida não é mais sua. O amor é assim, ele nos torna refém. Ele entra em você como um parasita, te come por dentro e deixa você desolado na escuridão, como se não tivesse sobrado mais nada seu.”

“Então frases como “nós não estamos damos certo”, se tornam como vidros que se movem dentro do seu coração, rasgando tudo pelo caminho. E como dói! Amar dói muito! Não é coisa da sua cabeça. Dói de verdade. Dói na mente, na alma, no corpo inteiro. Aquele tipo de dor que consegue te arrebentar a cada segundo. Nada no mundo é capaz de fazer isso a não ser o amor. Nada no mundo deveria ser capaz de fazer isso, especialmente o amor. Mas não o odeie, não odeie o amor, Regina.” Ela concluiu e eu não consegui juntar palavras o suficiente para dizer o quando ela havia me chocado.

“Para uma garota de 17 anos, você é bem profunda.”

“Isso é de um quadrinho!” Ela respondeu, com um sorriso, me entregando a revista que segurava. “Neil Gaiman.” Ela continuou.

“Eu não amo a Emma.” Eu disse. “Quer dizer, eu não quero amá-la. Eu não quero me envolver com ela. Ela não me merece, eu sou muito instável.”

“Talvez.” Ela respondeu. “Talvez vocês duas sejam. Talvez vocês duas só precisem se firmar uma na outra. E, talvez, isso dê a estabilidade que você tanto busca.” Ela concluiu, se despedindo de mim, dizendo antes que a revista que ela havia me dado era para ser entregue a Henry.

Eu não entrei no carro, primeiramente eu abri a revista, procurando pela frase que ela havia me dito. Eu a reli inúmeras vezes, até me dar conta do óbvio: eu amava Emma. Eu respirei fundo e enxuguei minhas lágrimas. Eu não mais ligava se alguém me visse tão vulnerável. Nada mais poderia me atingir.

Eu não sabia se ela sentia o mesmo, mas eu sabia que eu queria descobrir. Eu queria novamente aquele beijo, pois o gosto de sua boca ainda estava em meus lábios. Foram apenas alguns segundos. Um beijo rápido e simples, mas nenhuma transa, nenhum beijo, nenhum toque, chegaria aos pés do que eu senti naqueles segundos.

Eu caminhei até o meio da rua, me abaixei e toquei no chão com a minha mão, enquanto pensava em Emma. Só e somente nela. Todo o chão se iluminou com um tom azul, que indicava para aonde Emma havia ido. Eu voltei para o meu carro e segui a luz. Enquanto eu dirigia, eu sentia aquela dor no peito, agora eu sabia bem o que ela significava e tinha dúvidas se realmente gostaria de deixar de senti-la.

Aquela luz me levou aos estábulos. Por um momento, eu pensei que minha magia tivesse falhado, mas lá estava o carro dela, de modo que eu estacionei e caminhei em direção as baias. Eu a encontrei junto a um dos cavalos, que eu nunca tinha visto antes.

Ela o escovava, enquanto conversava com o animal, bem próximo ao seu ouvido. Eu entendia de cavalos o suficiente para ver que o animal estava gostando de seu toque e de sua voz. Ela parou de escová-lo, amarrou os próprios cabelos e saiu da baia, me encontrando no meio do caminho.

“Regina.” Ela disse, surpresa. “O que faz aqui?” Perguntou, caminhando até onde as selas estavam guardadas. Ela pegou uma delas e voltou em direção ao cavalo, preparando o animal para a montaria.

“Eu te pergunto o mesmo. De todos os lugares, esse é o último que eu esperava te encontrar.”

“Bem, meu pai e Henry encheram o saco para que eu comprasse esse cavalo. Segundo eles, é ridículo o fato de eu não saber cavalgar. Eu sei cavalgar, na verdade. Eu apenas não gosto muito de cavalos.” Respondeu. “Mas não significa que eu não os entenda.” Concluiu, me encarando em seguida.

“Eu não sabia que você tinha comprado um cavalo.”

“Você não se interessa muito pelo o que faço, não é mesmo?” Ela disse, com um pouco de mágoa em seu tom de voz.

Eu me aproximei, pegando em suas mãos, ela tinha seus olhos fixos nos meus. De repente, tudo o que eu havia ensaiado durante o caminho, perdeu o sentido nessa troca de olhares.

“Me desculpa, eu quero me interessar de agora em diante. Eu quero que você continue morando na mansão. Eu não vou mais te empurrar como você disse que eu faço. Mas é complicado. Eu não sou tão...”

“Durona, como todos acham que é.”

“Eu iria dizer estável.” Eu disse, ela sorriu, olhando para as suas próprias mãos, que eu ainda segurava.

“Eu também não sou nada estável. Eu também não entendo tanto de cavalos assim. Eu escolhi essa égua, porque ela tem isso na cabeça.” Respondeu, mostrando o sinal branco que a égua possuía em sua fronte, que fazia um contraste com sua pelagem castanha.

“Esse sinal é chamado de estrela ou flor.” Eu disse.

Ela soltou minha mão, caminhou até o animal, acariciando sua cabeça e riu para si mesma. Eu perguntei o motivo do seu riso e ela se virou em minha direção, mostrando seu pulso direito, onde havia uma tatuagem de flor.

Eu nunca havia tido a oportunidade de perguntar o seu significado e ali estava minha chance. Ela contou então que havia feito por rebeldia. Ela havia roubado o dinheiro de seus pais provisórios e feito a tatuagem. Não havia um significado por trás, mas de modo algum ela se arrependia de ter feito.

“Talvez eu a chame de Flor.” Ela disse, acariciando o animal. “Parece um nome tão estúpido para um cavalo.” Ela continuou e se virou para mim, antes de perguntar. “Qual é o outro nome que eles usam para esse sinal?”

“Estrela.” Eu respondi e ela repetiu a palavra, encarando o animal, que reagia ao som de sua voz. Ela decidiu, então, que a chamaria de Estrela.

“É um ótimo nome.” Eu disse, ela sorriu para mim, enquanto terminava de arrumar a sela do animal, para em seguida subir em sua garupa. Montada em Estrela, Emma olhou para mim e estendeu sua mão.

“Eu posso não ser a garota do estábulo e posso também não ser tão estável. Mas vem comigo, Regina. Eu garanto que não te derrubarei e mesmo que isso aconteça, eu garanto que do chão você não passa.” Ela disse, com sua mão ainda estendida em minha direção.

Eu sorri para ela, pegando em sua mão, sem pensar duas vezes. Eu me sentei na frente, com minhas duas pernas de um lado. Eu não sabia se ela era capaz de cavalgar de fato e logo nos primeiros trotes, eu percebi o quanto ela ainda era inexperiente.

Com uma de suas mãos, ela conduzia o animal e com a outra, envolvia minha cintura. Nós cavalgamos em silêncio, até que o calor ficou insuportável e Estrela mostrou sinais de cansaço. Não houve uma troca de palavra sequer, me fazendo compreender que muitas coisas entre nós duas eram ditas durante o silêncio.

Eu não sabia se Emma e eu tínhamos um futuro. Eu não sabia se a beijaria novamente ou se chegaria o dia que eu teria coragem de dizer o que eu sentia em relação a ela. Naquele dia, mesmo cheia de dúvidas e de inseguranças, eu imaginei uma vida inteira ao lado dela.

Eu imaginei um casamento, eu me vi acordando ao lado dela em uma manhã preguiçosa de domingo, com nossos filhos nos acordando. Eu jamais havia me sentido dessa forma, jamais havia sentido esse tipo de felicidade. Emma era tudo o que eu precisava. Ela era tudo o que eu precisava, para enfim me tornar estável.