Amy
11 Estrelas
Notas iniciais
Capítulo 11 – Estrelas
Ficou muito quente aquela manhã, de modo que tivemos que terminar o passeio mais cedo. Estávamos nos estábulos, Amy em pé, sobre um banquinho de madeira, escovando seu cavalo, enquanto Emma e eu conversávamos, a alguns metros da menina. Eu a abraçava por trás, apoiando meu queixo em seu ombro. Ela tinha sua atenção completamente voltada para nossa pequena. Havia esse sorriso inocente no rosto de Amy, um sorriso repleto de alegria que tanto conseguia me encher de algo que eu nunca pensei sentir antes.
Ela e Henry se completavam de uma forma única. Na verdade, eles me completavam. Diferentemente de Henry, Amy tinha algo especial em si e era difícil ignorar isso. Talvez fossem as circunstâncias de sua chegada que a fizeram assim. Ela nunca fez ideia do quanto sua existência significava em nossas vidas, assim como não fazia ideia de que com apenas um toque – ou com a intenção desse toque – havia sido capaz de salvar sua mãe e toda a nossa família.
“Como foi sentir o toque dela?” Eu perguntei, em um sussurro. Ela se virou para mim, me beijando demoradamente, antes de responder.
“É difícil explicar.” Respondeu. “Acho que foi a mesma sensação de quando eu a segurei na maternidade. Antes de...” Sua voz se silenciou e ela respirou fundo antes de continuar. “Você sabe, antes de eu quase morrer. Porém, agora foi mais mágico. Mais intenso e tenho que confessar que eu cheguei a me sentir sem ar. Eu não sei se consigo me expressar por palavras, mas se eu pudesse comparar com algo, eu diria que me senti como quando eu cavalguei com você pela primeira vez. Você lembra-se disso?” Ela perguntou, virando-se para mim e me beijando.
“É claro que eu me lembro.” Respondi, beijando-a novamente.
Quando abrimos os olhos, lá estava nossa garotinha olhando em nossa direção, com um sorriso bobo nos lábios. Ela acenou para nós e voltou a escovar seu cavalo e minha mente me levou até o dia em que Emma e eu cavalgamos pela primeira vez.
Nós cavalgamos na Estrela, seria muito clichê dizer agora que eu me senti cavalgando nas estrelas, mas também seria muito verdadeiro. Eu lembro que naquela manhã, depois do nosso passeio, eu a pedi para que voltasse a morar na mansão, mas ela não aceitou. Eu pensei em suplicar para que ela reconsiderasse, mas eu percebi que era melhor deixá-la ir.
Na manhã seguinte, quando eu acordei e ela não estava mais na mansão, eu me arrependi por não ter suplicado. Eu devia ter me ajoelhado e dito a ela o quanto eu a amava, mas naquela época, eu não tinha essa coragem e talvez meu orgulho também tenha falado mais alto. Porém, quando eu penso a respeito, eu vejo o quanto tudo caminhou da maneira que deveria ser.
“Eu te amo, Emma.” Eu disse, em um sussurro e ela não me respondeu de volta, porque já não havia necessidade. Ela me tomou em seus braços, me roubando inúmeros beijos.
“Quem foi que ensinou isso a ela?” Emma perguntou, me encarando, enquanto eu tinha minha atenção voltada a Amy.
“Rapunzel.”
“Ah.” Ela respondeu, levantando a sobrancelha.
Eu sabia que ela provavelmente faria uma mini cena de ciúmes, de modo que a calei com um beijo, chamando-a de ciumenta entre um beijo e outro. Ela riu, quebrando o beijo e me dizendo que havia amado o que Rapunzel havia ensinado a Amy, mas que não gostava do convívio das duas, pois tinha medo do que a garota pudesse ensinar a mais para nossa pequena. Em seguida, ela riu, deixando claro que estava brincando.
Ela se encostou contra o meu corpo, Amy agora corria por trás do cavalo, com seu banquinho em mãos. Ela parou um instante, exatamente atrás do cavalo, colocando o banquinho no chão, enquanto tirava os cabelos da frente dos olhos. Antes que ela pudesse pegar o banquinho, Emma se desencostou do meu corpo e gritou pelo nome de Amy.
Amy se abaixou e protegeu o rosto, enquanto o cavalo dava um coice, que jamais chegou a atingi-la. O casco do animal estava a centímetros de seu rosto, mas um campo de força a protegia. Eu corri até ela, pegando-a no colo e a tirando dali.
“Você está bem?” Eu perguntei, minha voz, carregada de preocupação, se enrolando ao medo que eu sentia. Eu corri minhas mãos pelo seu corpo, me certificando que ela estava bem e depois a abracei.
“Eu tô bem, mamãe.” Respondeu, quando eu quebrei o abraço.
“Tem certeza?” Eu insisti, passando novamente minhas mãos pelo seu corpo, para me certificar que não havia nenhum arranhão na menina.
“Aham.” Ela respondeu, balançando a cabeça. “Alguma coisa fez com que o cavalo não me atingisse. Não briga com ele, mamãe. Ele não fez por querer.”
“Não foi você?” Eu perguntei, surpresa e ela balançou a cabeça em negativa. Eu olhei para Emma, que estava verdadeiramente aflita com tudo o que havia acabado de acontecer.
“Eu tô com fome, mamãe.” Amy disse, chamando minha atenção.
“Querida, espera a mamãe no carro, pode ser? Nós vamos voltar para a casa.” Ela concordou com a cabeça, olhou em seguida para Emma e depois para mim.
“Deixa ela ir com a gente, mamãe. Eu fico longe. Eu fico na sala e você faz um sanduiche daqueles bem grandão. Com muito queijo para nós três. E a gente pode assistir Matilda! Eu posso segurar a mão dela por magia e você pode abraçar ela de verdade. Vai ser como se estivéssemos juntas. Por favor, mamãe.” Ela concluiu, com as duas mãozinhas juntas, fazendo uma carinha que conseguia me dobrar em duas.
“Isso não é comigo, meu amor. Ela é muito bem-vinda à nossa casa. Porque afinal é a casa dela também, mas é que para ela é tão doloroso, sabe? Estar ali com você por perto e não poder ficar com você nos braços. Então, ela prefere não ir, mas eu sei que ela quer ficar com você e você sabe disso também, não é mesmo?” Eu disse a ela, que tinha sua atenção voltada para a mãe, que ouvia toda a conversa. Ela se virou para mim, com seus olhos azuis cheios de tristeza e concordou com a cabeça, olhando uma última vez para sua mãe.
“É doloroso para mim também, mãezinha.” Ela disse a Emma, que se ajoelhou onde estava, com seus olhos cheios de lágrimas. “Mas agora as coisas são diferentes, não são?” Ela perguntou, levantando as duas mãozinhas.
Emma fechou os olhos, levando sua mão em direção ao rosto. Amy a acariciava, os cabelos de Emma se moviam com o seu toque.
“É, meu amor. As coisas agora são bem diferentes. Eu aceito seu convite, o sanduiche e o filme.” Emma respondeu, com um sorriso em seus lábios.
Amy pulou de alegria ao ouvir sua resposta e se jogou em minha direção, me abraçando e beijando meu rosto.
“Eu prometo não te machucar, mãezinha!” Amy disse, correndo em seguida em direção ao meu carro.
“Como você sabia que ele a atacaria?” Eu perguntei, Emma deu de ombros.
“Os sinais dele. Ele estava com as orelhas para trás, as narinas abertas e não parava de cavar o chão com o casco.” Ela respondeu, como se essa informação fosse algo que qualquer um saberia.
“Mas como você sabia disso?” Eu insisti e ela me lançou um olhar confuso, parecendo estar verdadeiramente ofendida com a pergunta.
“Sei lá, Regina! Talvez seja aquela coisa de instinto materno. Eu não sei, mas eu olhei para o cavalo e sabia que tinha algo errado.”
“Talvez você saiba mais sobre cavalos do que pensa.” Eu respondi e ela soltou uma risada. “Tem certeza que quer ir para nossa casa? Eu sei como estar lá te atinge. Eu não quero colocar você em alguma situação que te machuque.”
“Eu não vou mentir. Me atinge sim, mas eu quero ir. Como Amy disse, as coisas estão diferentes agora e eu sinto que aos poucos tudo vai se acertar. Você não sente isso também?” Ela perguntou, colocando um de seus braços ao redor da minha cintura e me puxando para si.
Nós ficamos coladas uma na outra. Minha barriga junto a dela, enquanto eu me lembrava do que Amy havia feito pela manhã. Eu não conseguia deixar de pensar se de fato ela havia me curado, se eu havia deixado de ser infértil e se era capaz de gerar um filho. Eu cheguei a cogitar contar isso a Emma, mas não sabia se era o certo a se fazer. Então, eu apenas a beijei, concordando com o que ela havia dito.
“Eu sinto sim, Emma. Aliás, eu não apenas sinto, como eu de fato sei que as coisas estão se acertando.”
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Eu tive que modificar totalmente a posição dos móveis da sala, para que Amy e Emma pudessem ficar no mesmo cômodo. Emma e eu estávamos sentadas em um dos sofás, distantes de Amy, que estava jogada em uma das poltronas, enquanto assistíamos Matilda.
Era um dos filmes favoritos de Amy, que havia decorado todas as falas e sabia imitar todas as cenas. A cada minuto, ela se virara para nós, para nos dizer que era sua cena favorita. Todas as cenas eram suas favoritas. Emma o tempo todo segurava sua mão por magia, o sorriso que ela tinha nos lábios e a felicidade que ela demonstrava em seu olhar, deixava explicito o quanto estava feliz.
As vezes ela se virava para mim, me roubando um beijo, mas aquela tarde se resumiu a Amy e eu não esperava que fosse diferente. Quando o filme acabou, Amy desligou a TV e se virou para nós, deitando de barriga no braço da poltrona e apoiando seus cotovelos, enquanto olhava para nós duas.
“Mãezinha.” Ela disse, seu rostinho afundando nas palmas de suas mãos. “Onde você conseguiu o colar do cisne? Aquele que Henry me deu no meu aniversário?” Emma se ajeitou no sofá, diante da pergunta e olhou para mim, antes de responder a menina.
“Foi o pai do Henry que me deu. Antes de Henry nascer. Na verdade, antes mesmo de eu saber que estava grávida.”
Eu não sabia muito sobre o passado de Emma. Eu preferia dessa forma, principalmente quando o assunto era o pai de Henry. Eu sabia que era algo que ela não gostava de falar a respeito.
“Você amou ele muito, mãezinha?” Amy perguntou, quebrando o silêncio que havia tomado a sala.
“Talvez, Amy.” Ela respondeu, balançando a cabeça logo em seguida. “Quer dizer, eu o amei sim. Quando eu o conheci, eu estava perdida e ele de certa forma me deu um rumo. Eu estaria mentindo se eu dissesse que não o amei.” Emma se virou para mim, seu olhar me perguntava se o assunto me incomodava. Em resposta, eu me aproximei dela, tocando em seu joelho.
“Foi por isso que você manteve o colar?” Amy perguntou novamente, completamente alheia ao fato de que sua mãe não queria falar mais a respeito.
“Não.” Emma respondeu. “Não foi por isso. O pingente era a única coisa que eu tinha dele, mas tinha um significado maior por trás. Você sabe que a mamãe cresceu em um abrigo, não é mesmo?” Ela perguntou e Amy assentiu. “Você sabia que meu sobrenome nem sempre foi Swan?” Continuou e Amy balançou a cabeça. “Pois é, eu tinha outro sobrenome quando criança e eu odiava ele. Aliás, eu odiava muita coisa na minha vida naquela época e o que eu mais odiava era o fato de eu nunca me sentir em casa. Sempre de lar em lar. Em nenhum deles eu me sentia aceita. Eu sempre me sentia como um patinho feio. Eu me agarrei a ideia de que quando eu crescesse, eu me tornaria a garota mais bonita da cidade inteira e talvez eu encontrasse minha casa. Talvez eu encontrasse meus pais verdadeiros. Talvez eu deixasse de ser um patinho feio e me tornasse um cisne. Então, eu prometi a mim mesma, que quando eu completasse 18 anos e saísse do abrigo, eu iria mudar meu sobrenome para Swan.”
“Porque significa cisne!” Amy disse, interrompendo sua mãe, com a voz carregada de animação.
“Exatamente, meu amor. Por esse motivo. Quando eu conheci o pai do Henry, eu tinha acabado de conseguir meus documentos novos. Eu não era mais um patinho feio, aquele dia eu me sentia um cisne de verdade. Então, eu mantive o pingente, que na verdade sempre foi um chaveiro, mas era tão bonito que eu preferi usá-lo como um colar. Eu nunca deixei de usá-lo. Eu pensei em entregar a assistente social que levou Henry, para que nunca passasse pela cabeça dele que ele era um patinho feio, mas sim um cisne. Um Swan.” Ela deu uma pausa, olhou para mim, com um sorriso de lado e pegou minha mão que ainda estava sobre o seu joelho. “Mas eu achei melhor manter o colar para mim mesma. Eu sabia que Henry teria uma vida diferente da minha. Eu sabia que ele jamais seria um patinho feio. Acho que eu precisava daquele colar para lembrar diariamente que eu havia conseguido minhas asas e que eu já podia voar.”
“Mãezinha, você quer de volta o colar?”
“Não, meu anjo. Eu sei que Henry te entregou e ele é todo seu. Quer dizer, você também é um Swan, não é mesmo?” Perguntou e Amy assentiu. “Então, eu quero que você também fique com esse colar.” Emma continuou a dizer, tirando do pescoço o colar que usava. O pingente era um anel e ela já havia me contado o seu significado. “Antigamente, os Celtas costumavam desenhar cisnes com anéis em seu pescoço, porque simbolizava a conexão entre o divino e o humano. Eu nunca fui apegada a nenhum tipo de religião e também nunca me senti conectada a deus, mas houve um tempo em que eu precisei dessa conexão e eu a encontrei em mim mesma.” Disse, tocando no anel do colar. “Esses pingentes me faziam lembrar de que mesmo que eu não sentisse deus perto de mim, ele sempre esteve comigo. Eu só queria ainda acreditar nisso.” Concluiu, me entregando o colar.
Eu o segurei em meus dedos e me levantei, caminhando até Amy, que olhava fixamente para mim, enquanto eu colocava o colar em seu pescoço. Eu voltei a me sentar ao lado de Emma, enquanto Amy encava o anel, passando seus dedos ao redor do círculo.
“Você não acredita em Deus?” Perguntou, confusa, como se a ideia de não acreditar em um deus fosse algo muito absurdo.
“Não sei, meu anjo. Acho que não como antes.”
“Se você não acredita em Deus então você acredita nas estrelas?”
“Nas estrelas?” Emma perguntou. “O que isso tem a ver, meu anjo?”
“Algumas pessoas dizem que um deus criou todas as coisas. Outras pessoas não acreditam nisso. Elas acreditam que as estrelas cresceram tanto até explodir. Então, a partir do pozinho das estrelas surgiu a vida, o universo e tudo mais.”
“O pozinho das estrelas?” Emma perguntou, tentando não rir e Amy assentiu. “Qual dessas pessoas você é, Amy? Você acredita em um deus ou acredita que somos poeira de estrela?” Amy se silenciou diante dessa pergunta e encarou o teto, como se isso fosse capaz de esclarecer seus pensamentos.
“Eu gosto de pensar que eu já fui uma estrela e que quando eu morrer meu corpo virará poeira. Essa poeira será levada pelos ventos, que alcançará os céus e então eu retornarei a ser uma estrela.” Explicou, levantando suas mãos em direção ao alto, imitando o caminho que ela seguiria, quando seu corpo virasse poeira.
Em minha mente, eu não conseguia sequer imaginar que um dia esse momento chegaria. Era impossível imaginar que, em algum momento da vida, ela deixaria de existir.
“Mas eu também gosto de pensar que alguém me imaginou bem antes de vocês duas pensarem em ter um bebê. Que alguém criou as estrelas, antes mesmo de elas pensarem em explodir e de criar todo o universo. E que essa mesma pessoa, tomou um tempo para me imaginar e que me criou diferente de todas as outras pessoas que ele já havia criado. Então, eu acho que eu faço parte dos dois tipos de pessoas. Eu sou uma poeira de estrela, mas também sou um milagre.” Ela terminou de dizer e meu olhar se cruzou com o de Emma, que estava completamente emocionada com o que havia escutado.
“É, meu amor. Você definitivamente é um milagre e eu tenho certeza que também é uma estrela.” Emma disse, enxugando as suas lágrimas de emoção. Eu percebi, então, que eu também tinha lágrimas em meus olhos.
“Vocês duas também são estrelas.” Amy disse e ela era a única que não chorava. “Henry, vovó e vovô também.” Ela continuou a dizer, em um tom empolgado. “Quantas estrelas tem uma constenação, mamãe?”
“Constelação, meu anjo.” Eu disse, enxugando as lágrimas de meus olhos.
“Isso, mamãe! Isso ai que você disse! Quantas estrelas precisamos?”
“Ah, meu amor. Eu realmente não sei te responder isso, mas são muitas estrelas.”
“Mais que seis?!”
“Bem mais que seis.” Eu respondi e ela suspirou, frustrada.
“Então, eu acho que vocês terão que fazer mais bebês. Até completar uma constenação!” Ela disse, tirando o colar que havia acabado de ganhar e o colocando sobre o braço da poltrona. “Você ainda precisa muito de deus mamãe, assim como nós precisamos mais que uma ou duas estrelas no nosso céu. Fique com o colar, eu não preciso dele.” Continuou e se levantou, virando-se para sair da sala, mas Emma a chamou, fazendo-a se virar para nós.
“Meu amor, você gostaria de ter um irmãozinho?” Emma perguntou, Amy assentiu e esperou por uma resposta de Emma, que se virou para mim, me encarando em silêncio, voltando sua atenção a nossa filha. “Mas você sabe que eu não posso mais fazer isso e que sua mãe...”
“Eu sei.” Ela disse, interrompendo a frase de Emma. “Por isso eu a curei hoje cedo. Ela não te disse?” Continuou a dizer, se virando novamente para ir embora. Emma se virou para mim, esperando por uma resposta.
“Ela acha que me curou.”
“Da sua infertilidade? Por que você contou isso a ela?”
“Ela meio que tocou no assunto, então eu disse.”
“E ela te curou?”
“Eu não sei, Emma. Provavelmente não. Ela apenas colocou as mãos na minha barriga e perguntou como eu estava me sentindo. Eu não sei se ela pode curar, se ela tem esse poder, então...”
“Mas se ela tiver?” Emma perguntou. “Se ela tiver te curado e você puder ter filhos, você vai querer?” Continuou a dizer e houve um silêncio entre nós duas.
Eu não sabia como respondê-la. Eu não queria dizer a ela que eu pensava sim em ter outro filho e que eu queria sim engravidar. Ela jamais iria querer ter mais filhos, toda nossa situação era muito complicada e aumentar nossa família estava fora de cogitação.
“Não, Emma. Eu não quero.” Eu respondi, mentindo para ela.
“É, eu também não.” Ela respondeu. “Não assim, não enquanto estivermos nessa situação. Eu sei que imaginávamos que teríamos bem mais que Amy, mas nós não imaginávamos que nossa história mudaria tanto, não é mesmo?”
“É, nós não sabíamos.”
“Bem, eu tenho que ir embora. Foi o melhor dia dos últimos cinco anos. Você sabe disso, não é mesmo?” Ela perguntou, se aproximando de mim e me beijando.
“Eu sei sim, Emma. Para mim também foi. Quero você aqui mais vezes. Aliás, fica aqui essa noite?” Eu pedi, mas ela balançou a cabeça em resposta.
“Não. Não porque seja doloroso, mas sim porque eu odeio saber que eu limito minha filha de andar na própria casa, mas eu volto, ok?”
“Volte mesmo.” Eu disse, beijando-a mais uma vez.
Eu a acompanhei até o seu carro e a observei ir embora. Eu me virei para entrar e encontrei Amy, parada junto a porta da mansão.
“Mamãe, quando Henry for embora para a faculdade, nós podemos usar o quarto dele para o bebê.” Ela disse, enquanto nós entrávamos.
“Amy, já chega.” Eu disse e ela estava prestes a dizer algo, mas se calou logo em seguida. “Não terá bebê algum, ok?”
“Por que não?”
“Porque não podemos.” Eu respondi, caminhando até a cozinha, enquanto ela me seguia.
“Eu pensei que fosse algo que você queria.” Ela disse e eu me virei para ela, tomando fôlego para respondê-la.
“Eu quero, mas não vai acontecer, meu amor. Me desculpe.”
“É por minha causa?” Ela perguntou, seus olhos azuis se enchendo de lágrimas. Eu me ajoelhei diante dela, tentando acalmá-la.
“Meu amor, lógico que não. Não é culpa sua. É que sua mãe e eu não podemos ter um bebê dessa forma, quer dizer-”
“Vocês estão longe uma da outra. E é minha culpa.”
“Não. Jamais foi e jamais será sua culpa. Alguns sonhos podem ter ficado para trás por causa dessa distância. Porém, Amy, você foi nossa maior realização. Nem em meus maiores sonhos, eu poderia imaginar que teria uma criança como você na minha vida. Você vale por milhões de estrelas, meu anjo. Não estou dizendo que nunca te daremos um irmãozinho. Eu estou te dizendo que, por enquanto, nós não podemos. Isso não é culpa sua. Você entende isso, não é?” Ela assentiu e eu a abracei. “Mamãe te ama muito, muito mesmo.” Eu disse em seu ouvido.
“Eu também, mamãe.” Ela respondeu, enquanto eu a abraçava mais forte, sentindo seu corpinho junto ao meu. Minhas palavras eram sinceras. Ela de fato era o suficiente, mas eu não podia negar que eu adoraria poder acrescentar mais estrelas ao meu céu.
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Eu não resisti e fui ao médico no dia seguinte. Eu fiz todos os exames que foram solicitados e agora aguardava o doutor, que anos atrás acompanhou toda a gestação de Emma. Eu estava sozinha, pois não havia contado a ninguém sobre os exames. Eu cheguei a cogitar contar a Emma e queria que ela estivesse ali comigo, mas quanto mais eu pensava a respeito, mais eu perdia a cabeça, pois que diferença faria esses resultados? Eu não poderia ter filho algum.
“Como você está hoje, Regina?” Ele perguntou, assim que sentou em sua cadeira, com o resultado dos exames em suas mãos e um sorriso no rosto.
“Estou bem.” Eu respondi, minhas mãos suavam em nervosismo.
“Por que Emma não veio?”
“Ela não está na cidade. Ela viajou com Henry para visitar algumas universidades. Ela só deve voltar amanhã cedo.”
“Ah, você quer voltar com ela amanhã, então?”
“Não. Definitivamente não. Eu quero saber logo. Não quero envolvê-la nisso.” Eu respondi e ele me encarou, pensativo e abriu o envelope que tinha em suas mãos.
Ele pegou as folhas que haviam ali, eu me aproximei, enquanto ele me entregava o papel, para que eu pudesse ver o resultado.
“Olha, Regina. Eu achei muito estranho quando você me procurou para refazer seus exames. Pois não era a primeira vez que você os fazia. Sua infertilidade era irreversível, você tinha plena consciência disso, assim como eu. Quando eu vi o resultado dos exames, porém, eu entendi o motivo pelo qual você me procurou.”
“O que você quer dizer com isso?” Eu perguntei, sentindo que a qualquer momento meu coração pudesse sair pela boca.
Ele soltou os papéis sobre a mesa, em um gesto que dizia que ele não fazia a menor ideia de como me explicar o que tinha em mente.
“Eu não sei como aconteceu, mas você é totalmente fértil, Regina.” Ele disse. “Totalmente. Seus ovários são de uma mulher de 20 anos, como se você nunca tivesse tido problema algum. Parabéns, Regina.” Ele continuou, mas eu havia parado de ouvir quando ele disse que eu era fértil.
Totalmente fértil! É claro que eu sabia como isso havia acontecido. Embora eu não pudesse realmente ter esse filho, essa notícia me tornava a mulher mais feliz do mundo. Eu ignorei todo o resto, todos os ‘nãos’ os ‘impossíveis’ que existiam no mundo. Saber que algo em mim estava certo e funcionando, deixava claro o quanto a vida ainda não havia desistido de mim. Então, por que eu deveria desistir dela?
Eu saí do consultório e agradeci ao doutor, embora soubesse que era outra pessoa que deveria receber meus agradecimentos. De modo que eu então dirigi até a escola de Amy, onde eu a encontrei no recreio, sentada em um dos bancos, com seu lanche a sua frente. Ela não me viu e eu a observei a uma certa distância. Ela nunca teve muitos amigos na escola, eu nunca entendi bem o motivo. Ela era uma criança adorável e Snow costumava explicar esse fato dizendo que Amy era melhor com os adultos.
Henry também era assim quando criança, pois nenhuma das crianças queriam fazer amizade com o filho da prefeita. Além disso, eu não era uma pessoa muito amigável, de modo que todos fugiam não apenas de mim, como também do meu filho. Porém, com Amy era diferente, eu não sabia explicar o porquê isso acontecia. Ela era tão diferente de Henry, muito mais comunicativa e eu não conhecia ninguém que não se apaixonasse por ela. Talvez Snow estivesse certa, talvez ela era melhor com adultos.
“Ela é sempre assim?” Eu perguntei a Snow, que se aproximava de mim.
Ela olhou para a neta, que agora sorria e balançava os pés, enquanto observava as crianças brincando. Amy apoiou o queixo em uma das mãos e mordiscou um pedaço de sua maça, voltando totalmente a atenção para o seu lanche como se toda a diversão que acontecia ao seu redor, já não mais importasse.
“Na maioria dos dias.” Snow respondeu, me encarando.
“Henry era assim também, não era? Alheio a tudo. Solitário. Não tinha muitas amizades. Era muito fechado, por isso eu o levei ao Archie. Você acha que eu tenho que levá-la também?”
Snow levou alguns segundos para me responder. Talvez ela estivesse pensando em responder que não, porém, nós duas sabíamos que Amy precisava sim de algum tipo de ajuda, assim como Emma. Talvez toda nossa família precisasse, porque magia podia sim curar algumas feridas, mas não todas.
“Talvez, Regina. Porém, o caso de Amy é diferente. Ela absorve tudo o que você e Emma sentem. Isso é bem nítido na oscilação de humor que ela tem quando vocês não estão bem. Hoje é um desses dias. Emma está fora da cidade com Henry e isso a atinge. Ela quer fazer parte da rotina da mãe e do irmão. Eu acho que de certa forma ela sente ciúmes, por não estar perto e ainda mais por não poder estar perto. Não se culpe tanto, Regina. Ela é uma criança como todas as outras. No momento, ela está morrendo de saudades da mãe e não sabe como colocar isso para fora. Crianças são assim.”
“Você acha que mais tempo comigo preencheria esse vazio?”
“Eu acho que manteria a mente dela bem ocupada.” Ela respondeu, caminhando em direção a neta.
Amy se virou para ela e me viu, acenando logo em seguida para mim. Snow sentou-se ao seu lado, mas eu não podia ouvi-las. Amy sorria e balançava a cabeça, concordando com algo que Snow havia sugerido. Em seguida, ela guardou o seu lanche e se levantou, correndo até um grupo de meninas que estavam brincando de pular corda.
Ela parou próxima as meninas, que aparentavam ter a mesma idade e permaneceu onde estava, em silêncio, com seus braços para trás. Ela queria pedir para se juntar as meninas, mas não tinha essa coragem, olhou para a vó, que ainda estava sentada no banco e Snow, com um sinal, pediu para que ela se aproximasse mais. Amy deu mais um passo à frente. Uma das meninas se aproximou de Amy, as duas conversaram e minha menina fez que sim com a cabeça e um sorriso surgiu em seus lábios.
Amy se aproximou da corda e se juntou às outras garotas, que estavam pulando antes. Ela pulou com as garotas e estava tão feliz, que foi impossível não me contagiar com a sua alegria. Elas pularam por alguns minutos, quando acabaram, Amy se aproximou de uma das garotas, que estava batendo a corda e falou algo em seu ouvido. A garota assentiu e se afastou um pouco, de modo a tornar a corda maior. Amy correu em minha direção e me puxou pela mão.
“Vem brincar com a gente, mamãe.”
“Ah, meu amor. Eu acho melhor não. Mamãe não sabe brincar disso.” Eu respondi, mas eu já estava parada diante da corda.
“Não tem segredo algum. É só pular.” Ela disse, soltando minhas mãos, enquanto as garotas começam a bater a corda. Eu dei um pulo e errei logo em seguida. “Mamãe!” Ela disse, em um tom frustrado.
“Eu disse que a mamãe não sabia, meu anjo.” Respondi, tentando me defender e ela revirou os olhos, de uma maneira que me lembrava exatamente a sua mãe e então segurou minha mão.
“Pula junto comigo, mamãe.” Ela disse, com a maior calma do mundo.
As garotas voltaram a bater a corda, nós pulamos novamente, dessa vez eu acertei o primeiro pulo e o segundo. Quando eu percebi, estávamos pulando sem errar. Amy se divertia com cada acerto, quando eu cometia um erro, nós simplesmente começávamos novamente. Não era apenas ela que estava se divertindo, todas as outras crianças também riam toda a vez que eu cometia algum erro.
“Vamos fazer diferente, Amy.” Eu disse, fazendo a corda parar. “Nós duas batemos a corda e todas nós pulamos, que tal?”
“Tá certo.” Amy respondeu, correndo até a ponta da corda.
“Não, meu anjo.” Eu disse e ela soltou a corda, confusa. “Vamos fazer isso com magia.” Eu continuei, as meninas olharam uma para a outra, antes de encarar Amy.
“Elas não gostam que eu use magia, mamãe.” Ela respondeu, em um sussurro, se aproximando de mim.
“Elas vão gostar agora.” Eu respondi, também em um sussurro, beijando sua testa.
Ela ficou a minha frente, sorrindo para mim. Nós duas começamos a mover a corda e pulamos juntas. As outras crianças logo se aproximaram, sem precisar de um convite. Não erramos em nenhum momento, pois agora tínhamos o total controle do movimento da corda. Todas as crianças soltavam gargalhadas, enquanto pulávamos e as outras crianças do parquinho nos observavam.
Snow se juntou a nós e Amy parecia a criança mais feliz do mundo. Então, algo começou a acontecer, assim que a corda batia no chão ela começava a soltar pequenas faíscas. Quanto mais batia no chão, mais faíscas apareciam, que se tornavam de todas as cores e formatos, tomando todo o chão e subindo pelas garotas, desaparecendo logo em seguida.
Elas riam com esse toque, enquanto algumas faíscas inofensivas formavam todos os tipos de animais imagináveis e inimagináveis. Cada vez que a corda batia no chão, surgia mais faíscas, mais gargalhas. Por fim, quando cansamos e a corda parou, eu olhei para Snow. Uma última faísca havia surgido no chão, andando pelo corpo de Snow até parar na palma de sua mão, onde um cisne surgiu. Ela o segurou por alguns instantes, antes de o animal bater asas e desaparecer no ar durante um rápido voo.
Eu olhei para todas as crianças ao meu redor. Cada uma delas diziam a Amy o quanto a brincadeira havia sido incrível. Ela olhou para mim, seu olhar deixava implícito um agradecimento. Um sorriso logo surgiu em seu rosto, quando uma das garotas a pegou pela mão, correndo com ela até outro brinquedo. De repente, minha presença ali já não era mais interessante para ela.
Enquanto eu a observava brincar, eu me peguei pensando que eu definitivamente não teria mais ânimo e entusiasmo para aguentar outra criança. Amy de certa forma preenchia todo o vazio, todos os desejos e sonhos. Acredito que mesmo que eu pudesse preencher mais meu céu com outras estrelas, eu ainda assim acharia que ela era o bastante. Ela valia não apenas por uma constelação, mas por um universo inteiro.
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