Amy

12 Monstros


Capítulo 12 – Monstros

Eu passei o resto daquela tarde conversando com Snow, enquanto as crianças brincavam. Minha presença ali havia deixado Amy mais confiante e Snow chegou a comentar que nunca a tinha visto interagir tanto com as outras crianças. Então, eu resolvi ficar com ela até o fim da sua aula, de modo que, quando o recreio acabou, eu acompanhei Amy e seus amiguinhos até a sala de aula.

“Hoje nós temos uma visitante que passará o resto da tarde conosco.” Snow disse, aos colegas de classe de Amy.

Ela era a professora dela, mas todo mundo sabia que esse era apenas um pretexto para ela passar mais tempo com a neta. Eu não ousava reclamar sobre isso, já que Amy tinha seus problemas de socialização e Snow a ajudava a equilibrar as coisas. Todas as crianças estavam sentadas no chão, inclusive Amy e Snow estava em uma cadeira, diante de todos. Assim que ela me apresentou, as crianças se viraram para mim e me cumprimentaram com um aceno. Amy tinha um enorme sorriso no rosto e parecia estar bem orgulhosa da minha presença.

“Todas vocês sabem que Regina é a Prefeita dessa cidade, não é mesmo? Além disso, ela também é uma Rainha.” Snow continuou a dizer, as crianças novamente se viraram para mim. “Porém, hoje ela será Rainha de outro reino. O reino das histórias. O que vocês acham?” Perguntou Snow e, em resposta, um coro de vozes animadas foi ouvido.

“Reino das histórias?” Eu perguntei, enquanto Snow se levantava e caminhava em minha direção, passando antes por uma estante, onde havia uma grande coroa. Eu olhei para a coroa, confusa sobre o que deveria fazer a seguir e esperei por uma resposta.

“Sim, fazemos isso todas as quintas feiras.” Disse ela. “É uma ótima forma de incitar a imaginação delas.” Ela então me pegou pelo braço e me levou até uma cadeira.

“Eu não sou muito boa com histórias.” Eu disse, mas Snow apenas ignorou meu comentário e me deixou ali, sentada naquela cadeira, de frente para as crianças.

Eu encarei um por um daqueles rostinhos e depois para a coroa em minhas mãos. Então, eu olhei para Amy, que com apenas um gesto, sugeriu que eu colocasse a coroa em minha cabeça.

“Olá, crianças.” Eu disse, assim que coloquei a coroa e novamente os encarei.

Eles pareciam muito ansiosos, enquanto eu morria de nervosismo. Eu me virei para Snow, que se controlava para não rir e depois olhei para Amy, que se arrastava para sentar ao lado da avó.

“Bem, eu não deveria ter um livro?” Eu perguntei e Snow balançou a cabeça, dizendo em seguida que a ideia era que eu inventasse algo. “Eu definitivamente não sou a Rainha desse reino.” Respondi, e todas as crianças caíram em uma gargalhada, que me contagiou.

Amy sussurrou algo para sua vó, que concordou com o que ela disse. Em seguida, minha menina se levantou e caminhou até a prateleira de livros, pegando um deles e correndo em minha direção para entregá-lo a mim.

“Já que você é nova nisso, vamos te deixar ler um livro e Amy vai te ajudar, não é mesmo, Amy?” Snow perguntou e Amy assentiu, correndo em seguida para uma cadeira e sentando-se ao meu lado.

Eu olhei para ela, que tinha um de seus braços apoiados na minha perna. Eu me segurei para não lhe encher de beijos e era impossível não me derreter com seu sorriso. Porém, a última coisa que eu queria era matar minha filha de vergonha na frente de seus coleguinhas, de modo que não fiz nada e levei minha atenção ao livro que ela havia escolhido.

“Onde Vivem Os Monstros.” Ela disse, passando os dedos pela capa do livro. Na capa do livro havia dois monstros com grandes olhos amarelos, garras e dentes afiados que seguiam um garotinho. Ele tinha um sorriso perverso no rosto e usava uma fantasia de lobo e uma coroa na cabeça, assim como a que eu usava. “É meu livro favorito.”

“Não era “Matilda” seu livro favorito? ” Eu perguntei e ela deu de ombros em resposta.

“Mas eu ainda não conhecia esse.” Ela disse. “Então, agora é meu livro favorito.”

“Entendi, meu amor. Mamãe se esforçará muito para não estragar seu livro favorito, tudo bem?” Eu perguntei e olhei para as crianças, que estavam ansiosas para que eu começasse a leitura. “Onde vivem os monstros. Por Maurice Sendak.” Eu comecei, virando a primeira página e olhando mais uma vez para Amy ao meu lado, que parecia ter entrado em outro mundo.

Na figura da página seguinte, havia o mesmo garotinho da capa. Ele estava emburrado, ainda usava a fantasia de lobo e seu quarto estava uma verdadeira bagunça.

Na noite em que Max vestiu sua fantasia de lobo e saiu fazendo bagunça...” Eu li, virando outra vez a página, onde agora Max corria atrás de seu cachorro branco, usando um garfo como arma, com aquele mesmo sorriso perverso em seu rosto. “Uma atrás da outra. A mãe dele o chamou de “Monstro!” E Max disse “Olha que eu te como!” E acabou sendo mandado para a cama sem comer nada.” Continuei, mas Amy impediu que eu continuasse a leitura.

“Você tá lendo errado, mamãe. Você tem que fazer os gestos e mudar o tom de voz para cada personagem! A mamãe dele tá muito brava com ele e ela disse: ‘monstro’ com raiva!” Ela me explicou, falando a palavra ‘monstro’ em um tom mais alto e imitando uma mãe muito brava. Eu ri com essa cena e reli novamente o trecho do livro, repetindo a palavra ‘monstro’ com a mesma intensidade que Amy. “Olha que eu te como!” Continuou ela, em um tom de voz bem irritado, imitando o Max.

E acabou sendo mandado para a cama sem comer nada.” Continuei. “Naquela mesma noite, nasceu uma floresta no quarto de Max que cresceu e cresceu. Até aparecerem cipós pendurados no teto e as paredes se transformarem no mundo inteiro e um oceano surgir ondulante com um barquinho só para Max. E ele navegou noite e dia, semana vem, semana vai, durante quase um ano para onde vivem os monstros.” Durante a leitura, eu olhava para as crianças, que sequer piscavam.

Eu notei que Amy me acompanhava na leitura, seus lábios se moviam enquanto eu lia, como se de fato ela conseguisse ler as palavras. Ela já sabia todas as letras, conseguia juntar algumas sílabas e escrever algumas coisas, mas até então eu nunca a tinha visto ler.

E quando ele chegou aonde vivem os monstros, eles rugiram seus terríveis rugidos e arreganharam seus terríveis dentes...” Eu continuei; parando de súbito e então baixinho, para si mesma, ela começou a ler.

E reviraram seus terríveis olhos e mostraram suas terríveis garras, até que Max disse...” Ela continuou; dando uma pausa, quando percebeu que eu não mais a acompanhava na leitura.

“Eu não fazia ideia que você já sabia ler assim tão bem, meu amor.” Eu observei, dessa vez eu não liguei para seus amiguinhos e segurei seu rostinho com as duas mãos, enchendo-a de beijos em seguida.

Ela não pareceu ligar, mas eu a libertei de meus beijos e pedi que ela continuasse a ler para nós. Eu entreguei para ela o livro e tirei a coroa de minha cabeça, colocando na dela.

“Até que Max disse “QUIETOS!” e amansou todos eles com o truque mágico de olhar nos olhos amarelos deles sem piscar nem uma vez!” Continuou a ler, dando ênfase no ‘quietos’ e fazendo movimentos com as mãos, enquanto olhava para seus amiguinhos.

Na parte do ‘truque mágico’ todos eles riram e eu apoiei meu rosto nas mãos, enquanto observava minha pequena, tão linda e tão pequena que estava crescendo bem diante dos meus olhos. Eu não ousei segurar minhas lágrimas e acho que não conseguiria se eu tentasse.

“E eles ficaram com medo e disseram que mais monstruoso do que ele não havia e o fizeram rei de todos os monstros.” Continuou, sem olhar para mim e, em certos momentos, ela se atrapalhou com as sílabas, de modo que releu algumas vezes as palavras, mas jamais saia do tom de uma verdadeira contadora de histórias. “Agora, exclamou Max, vamos dar início à bagunça geral.” Nessa parte, ela bateu os pés no chão e rapidamente todas as crianças a acompanharam.

Elas batiam palmas, batiam os pés e eu percebi que Amy era o Max e todos nós éramos os monstros.

“Agora parem!”, disse Max e mandou os monstros para a cama sem jantar.” Ela continuou e todas as crianças fizeram em um uníssono um ‘aaaah’. “E Max, o rei de todos os monstros, ficou sozinho com vontade de estar em algum lugar onde alguém gostasse dele de verdade. Então, por todos os lados, vindo de muito longe, atravessando o mundo inteiro, ele sentiu cheiro de coisa boa de comer e desistiu de ser rei do lugar onde vivem os monstros.” Ela virou a página, encarou as crianças e continuou a leitura. “Mas os monstros gritaram: “Oh por favor não vá embora... nós vamos comer você... gostamos tanto de você!”. E fez uma pausa e todas as crianças repetiram a última frase. Algumas foram além e juntaram as mãozinhas, suplicando para que Max não fosse embora.

E Max disse: “Não!”.” Disse Amy, falando um ‘não’ cheio de firmeza e continuou a ler. “Os monstros rugiram seus terríveis rugidos e arreganharam seus terríveis dentes e reviraram seus terríveis olhos e mostraram suas terríveis garras.” Ela encarou novamente as crianças, que imitavam o rugido dos monstros e fingiam terem garras e dentes enormes. “E Max entrou no barquinho que era só dele; e deu adeus; e navegou de volta por mais de um ano. Semana vem, semana vai e um dia inteiro para a noite de seu próprio quarto, onde encontrou o jantar esperando por ele ainda quentinho.” Ela concluiu a história, fechando o livro, enquanto todos a aplaudiram.

Eu me virei para Snow, que tinha um sorriso enorme no rosto e lágrimas nos olhos. Para ela, como professora, essa era uma cena diária, mas, naquele momento, ela era a vó de Amy e estava muito orgulhosa da neta. Além disso, ela também era uma mãe que estava se realizando através da minha filha, já que não pôde fazer isso com a dela.

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Emma chegaria naquela tarde e Amy estava muito ansiosa, pois haviam prometido a ela um ‘panda gigante’ de pelúcia. Eu havia combinado de almoçar com Emma e Henry no Granny’s e a noite iríamos jantar na mansão, com toda a família reunida. Eu tentei adiantar ao máximo tudo o que eu tinha para resolver na prefeitura e corri para o restaurante, sentando na mesa que havia sido reservada para nós e aguardei a chegada dos dois.

Eles chegaram pouco tempo depois e Henry correu logo ao meu encontro, me dando um abraço apertado e me beijando no rosto. Emma veio logo atrás me dando o mesmo abraço apertado e um beijo nos lábios. Foram inúmeros beijos, carregados de saudades e paixão. Henry revirou os olhos ao ver a cena, enquanto se sentava a mesa.

Nós nos sentamos junto com ele, rindo da cena. Emma se sentou ao meu lado, apertando minha mão com força. Ela estava muito feliz, o que me fez pensar que ela precisava desse tempo a sós com Henry.

“E então? Eu quero saber tudo!” Eu disse.

“Primeiramente.” Henry começou a dizer. “A senhora tem que saber que teremos que construir um segundo quarto para aquela panda de pelúcia. Devem ter precisado de umas trinta pessoas só para costurar o braço do boneco!” Concluiu, fazendo Emma rir.

“Muito exagerado de sua parte! Foi preciso também 30 pessoas para colocar seu queixo no lugar quando visitamos aquela praia na Califórnia!” Emma retrucou e Henry riu da observação.

“Bem, eu te digo o mesmo.” Ele respondeu, pegando o cardápio.

“Ah, quer dizer que eu fiquei aqui trabalhando enquanto vocês estavam na Califórnia, olhando mulheres?! É sério isso?!” Eu questionei, tentando manter meu tom sério, o que fez eles rirem mais alto.

A verdade era que por dentro eu estava morrendo de ciúmes, enquanto imaginava a cena de Emma de biquíni em uma praia com sabe lá quantas mulheres e homens olhando para ela.

“Se acalme, mãe.” Henry disse. “Ela só sabia falar de faculdade e de como eu tinha que ser responsável e coisa e tal. Uma verdadeira chata!” Ele completou, eu direcionei minha atenção para Emma, que me chamou de ciumenta, enquanto me dava um beijo.

“Não sou ciumenta, isso se chama cuidado.”

“Ok, claro, Regina.” Ela disse em um tom irônico, pegando o cardápio e em seguida uma garçonete se aproximou para anotar nosso pedido.

Nas horas seguintes, conversamos sobre a viagem dos dois. Sobre as universidades que eles haviam visitado, sobre as cidades, o campus e as expectativas que Henry tinha para os próximos meses. Ele queria ser jornalista e não tinha outra universidade em mente que não fosse a Universidade Cornell em Nova York.

“Ah, desculpa, mas eu vou ter que abandonar vocês agora. Vejo vocês a noite?” Ele perguntou, olhando fixamente para a tela do seu celular.

“Nós acabamos de chegar, Henry.” Observou Emma, mas o garoto ignorou o que havíamos dito e se levantou para nos beijar rapidamente, indo embora logo em seguida.

“Eu nem acredito que ele já está indo embora.” Eu disse, observando Emma se perder brevemente em seus pensamentos.

“Bem, nem eu... Há seis anos atrás eu jamais imaginaria que eu estaria onde estou.” Ela disse, olhando em meus olhos, enquanto eu acariciava seu rosto.

Eu a trouxe para mais perto, para um beijo, que foi quebrado quando percebemos que estávamos ficando mais excitadas do que deveríamos.

“Melhor deixar isso para outro dia.” Ela disse, em um sussurro, me dando um breve beijo.

“Para outro dia?” Eu a questionei. “Por que não para mais tarde?” Continuei, enquanto ela ria.

“Porque mais tarde eu vou querer ficar com a nossa filha!”

“Sabe, tem uma hora que ela dorme.” Eu disse. “Eu sei que você é contra, mas você pode dormir na nossa casa. Ela não precisa ir para nenhum lugar, nós tomamos cuidado.” Eu completei, mas ela balançou a cabeça e se afastou de mim.

“Desculpa, eu vou compensar todos esses dias que eu estive fora, pode ser? Amanhã à noite você é toda minha. Eu prometo. Mas isso eu não posso fazer, eu não quero ir para sua casa.”

“Certo, promete mesmo que é toda minha amanhã?” Eu perguntei e ela sorriu, jogando seus braços ao redor do meu pescoço e me beijando novamente.

“Prometo! Eu trouxe alguns presentes para você e tenho uma surpresa.” Ela respondeu em um tom animado.

“Uma surpresa?!” Eu a questionei e ela assentiu, enquanto mordia o lábio inferior. “Da última vez que você e Henry fizeram uma road-trip, você me trouxe uma surpresa um tanto que especial.” Eu continuei e ela sorriu, apoiando o cotovelo na mesa e me observando em silêncio por alguns segundos.

“Foi mesmo, não foi?” Ela finalmente disse. “Aquele ano foi o melhor ano da minha vida. Você me pediu em casamento. Eu descobri que estava grávida e antes disso nosso namoro foi incrível. Você é incrível.”

“Você que é incrível.”

“É, nós somos.” Ela completou, pegando minha mão e acariciando meus dedos. “Desculpa, mas essa não é a surpresa.” Continuou. “Eu sei que você vai gostar.”

“Vou esperar ansiosamente, então.” Eu respondi, puxando-lhe para um último beijo e me controlando para não transformar o ‘outro dia’ em um ‘nesse instante’.

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Eu havia preparado uma lasanha para o jantar. Snow e David estavam lá conosco, assim como Emma e Henry. Ou seja, pela primeira vez em anos nós nos reunimos como uma família de verdade. Estava sendo um dia inesquecível para Amy, pois sua mãe tentava ficar perto dela o máximo que podia, mas eu sabia o quanto ela estava se esforçando para não aparentar que estava se sentindo fraca.

Na hora do jantar, as duas tiveram que se sentar longe uma da outra. Amy não aparentou ligar para isso e seu avô se sentou junto a ela e os dois passaram o resto do jantar brincando com a comida. Eles ficaram conosco até tarde, assim que Snow e David se despediram, eu avisei para eles que Amy dormiria com eles na noite seguinte o que deixou David muito animado com a ideia.

Emma ficou mais um pouco, Henry havia saído com seus amigos e disse que voltaria tarde e Amy se enfiou em seu quarto, deixando sua mãe e eu a sós na sala. Ela estava deitada junto ao meu corpo, enquanto observávamos Amy pela webcam do notebook a nossa frente. Era algo bem frustrante e de certo modo até patético, mas ao mesmo tempo era tudo o que nós tínhamos.

Pelo monitor nós podíamos ver Amy encostada à sua panda de pelúcia, lendo ‘Onde vivem os monstros’ para a panda. Emma se emocionava com Amy a cada segundo, assim que nossa pequena acabou de ler, ela se aproximou do notebook.

“Mãezinha, por que você está chorando?” Ela perguntou em um tom preocupado.

“É porque é tão difícil te ver crescer, meu anjo.” Emma respondeu. “E ver isso de longe dói mais ainda. Eu queria estar aí ao seu lado agora. Te acompanhar enquanto você lê e poder te abraçar a cada conquista.” Ela completou e Amy ficou em silêncio, olhando para baixo.

Emma percebeu que ela havia ficado triste com essa observação e sentou-se enxugando as lágrimas de seu rosto. Amy elevou o olhar, quando Emma trouxe o notebook para mais perto de si, permitindo que ela pudesse ver melhor o seu rosto.

“Mas eu tenho certeza que eu ainda verei muitas de suas conquistas. E vou te roubar tantos abraços e tantos beijos que mesmo se a gente tentar contar, vamos nos perder nas contas!” Ela continuou a dizer. “Você sabia que ‘Onde vivem os monstros’ foi o livro que eu mais li durante minha infância?”

“Não sabia não!” Amy respondeu, animada. “Do que você gostava mais no livro?”

Emma ficou em silêncio nos segundos que seguiram a essa pergunta. Talvez pensando ou tentando trazer da memória a infância difícil que ela teve. Uma infância difícil causada por mim, causada por uma maldição que há anos atrás eu havia jogado, pois achava que dessa forma eu encontraria meu final feliz. A parte irônica de tudo isso é que de fato eu havia encontrado meu final feliz, nos braços do fruto de um amor, que um dia eu tentei destruir.

Falando em fruto, eu não havia contado a Emma sobre os exames que eu havia feito. Eu não havia contado sobre o fato de que eu podia engravidar, mas que diferença isso faria? Eu ainda não poderia, embora eu quisesse muito. Sempre havia sido um sonho engravidar. Minha vontade de ter um filho foi o motivo pelo qual eu havia adotado Henry e pensando mais a fundo, foi o motivo pelo qual Emma entrou em minha vida.

Embora, às vezes, eu pense que tudo tenha acontecido por um motivo. Como se quem quer que estivesse escrevendo minha história, estivesse pensando em cada detalhe, cada minúsculo detalhe. Como se minha infertilidade fosse necessária, como se toda minha dor, todo meu caminho em direção às trevas fosse necessário. Como se eu não tivesse escolha. Como se eu tivesse percorrido uma jornada que só cabia a mim e que não podia ser de outra forma que não fosse pela escuridão, para que então eu pudesse achar uma luz. E essa luz era Emma...

Amy me disse uma vez que nós éramos estrelas. Eu acredito nela, acredito que todos eles sejam estrelas, menos eu. Talvez eu seja só o céu, escuro e imenso e tão grande que mal cabe em um universo, sendo necessário criar outro mundo. Aqui estou eu agora, em um mundo completamente diferente de onde eu nasci.

Pergunto-me se lá era a fantasia e aqui a realidade. Se tudo teve que ser da maneira que foi apenas para que eu pudesse conhecer Emma e então gerar um fruto de um amor tão verdadeiro e tão real. Um fruto que me salvou de tantas coisas que eu já nem consigo nomear. Esse mesmo fruto me curou, me curou de algo que há anos me atormentou, que me impediu de ser feliz, mas na verdade jamais impediu, apenas adiou essa felicidade.

Enfim, eu não posso ter filhos. Não posso pedir isso a Emma, não posso pedir a ela para reestruturar toda a sua vida, para que de alguma forma isso me ajude a realizar um sonho. Seria egoísmo e acima de tudo seria irresponsabilidade.

“O que eu mais gostava no livro...” Emma disse, me trazendo de volta a realidade. “Era o fato de que Max tirou proveito de algo ruim e a transformou em uma aventura. Ele poderia ter ficado emburrado com a mãe, poderia ter se trancado em seu quarto e esperado o castigo acabar, mas ele fez o contrário. Ele criou um mundo só dele e viajou para um lugar longe e ao mesmo tempo bem ali ao seu lado. Ele viajou para dentro de si mesmo. E, caramba, como eu fazia isso quando era pequena. Eu me fechava em mim mesma, minha companhia eram meus pensamentos, meus medos, meus monstros e Max me ensinou a ser rei. Aliás, Rainha de mim mesma e a enfrentar todos os meus monstros. Me ensinou que eu podia viver no mundo da Lua, mas que eu podia voltar a terra a qualquer momento. E, acima de tudo, ele me ensinou o mais importante da vida: Às vezes, nós temos que ser extremamente irresponsáveis.” Ela concluiu, Amy assentiu com um sorriso nos lábios e bocejou “Vai lá dormir, meu anjo.”

“Eu vou sim, mãezinha. Mas antes eu vou te mandar um beijo.” Ela disse, levando as mãozinhas a boca e jogando um beijo em direção a webcam. Emma fingiu pegar o beijo com suas mãos e mandou outro beijo em resposta. “Te amo, mãezinha. Te amo, mamãe!” Ela continuou e mandou um beijo para mim.

“Também te amo. Mamãe já sobe para te cobrir, ok?”

“OK! Boa noite!” Ela respondeu, desligando em seguida o notebook.

O silêncio reinou logo em seguida. Emma também desligou seu notebook e o colocou na mesa de centro a nossa frente. Em seguida, ela me encarou, ainda em silêncio, como se tivesse algo muito sério a me dizer.

“É melhor eu ir para casa.” Ela disse e embora eu quisesse pedir que ela ficasse, eu não ousei pedir mais nada, a deixei se levantar, acompanhando-a até o seu carro, onde eu a beijei e a vi partir.

Já no meu quarto, durante uma ducha demorada, eu tentei apagar tudo da minha mente, enquanto a água gelada molhava o meu rosto. Porém, apenas a água ia embora pelo ralo. Meus pensamentos, medos e monstros permaneceram comigo. Talvez eles desaparecessem ao me deitar ou talvez eu os resolvesse em sonho. Quando eu apaguei a luz e me deitei em minha cama, eu percebi que meus monstros não iriam embora sozinhos. Eu precisaria enfrentá-los. Ou talvez, eu não precisasse. Talvez eu precisasse apenas ser um pouco irresponsável.

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Antes de ir à casa de Emma, eu levei Amy para os seus avôs. Ela preparou uma mala enorme de brinquedos e apenas um conjunto de roupa. Se eu não tivesse olhado sua mala, provavelmente ela teria levado uma Barbie ao invés de uma escova de dentes.

“Tem tempo para um pedaço de bolo?” Snow perguntou, assim que eu entrei em sua casa, mas eu recusei a oferta. “Relaxa, não é de maça e está delicioso.” Disse, rindo logo em seguida e eu a segui até a cozinha.

Eu sentei-me a mesa e observei Amy e David na sala. Não era possível ouvir a conversa dos dois, mas Amy parecia muito interessada no assunto. David sempre foi um modelo de pai para Amy, porém, ela nunca o chamou dessa forma. Sempre o chamou de vovô, mas a verdade era que, para mim, ele era como um pai para os meus filhos.

Ele tinha uma vocação natural para isso. Ele sabia conversar sobre assuntos sérios. Era um verdadeiro crianção na hora de brincar e absurdamente responsável quando necessário. Eu não acredito que Snow poderia ter escolhido melhor marido.

“Por que o Henry não veio?” David perguntou, vindo em minha direção com Amy em seus braços e a colocando sentada sobre o balcão. Snow se aproximou dos dois, entregando uma fatia do bolo para ela.

“Ele disse que tinha um encontro com uma garota!” Amy disse, colocando um pedaço enorme de bolo em sua boca. “Ele trocou a gente por uma garota, vovô!” Ela continuou, com a boca cheia de bolo.

“Eu sempre pensei que eu seria a única mulher na vida do Henry.” Eu disse.

“E eu sempre pensei que eu seria a única mulher na vida da Emma, e veja só...” Snow disse, entregando uma fatia de bolo a mim.

“Justo!” Eu respondi, David pegou Amy em seus braços e saiu com a menina, deixando Snow e eu sozinhas novamente. Eu fiquei em silêncio, enquanto comia a fatia de bolo que ela havia me servido. Ela, por sua vez, não tirava os olhos de David e Amy que brincavam de luta de espadas na sala. “Por que vocês nunca tiveram outro filho?” Eu perguntei, trazendo sua atenção para mim. Ela franziu o cenho, enquanto pensava em uma resposta.

“Bem, nós queríamos sim.” Ela começou a dizer. “Mas depois que a maldição foi quebrada teve todo o lance de nos adaptarmos aqui. Quando percebemos que não teríamos mais como voltar à floresta encantada e nos estabilizamos teve... Bem, teve você e Emma. Depois a gravidez da Emma e eu adiei a vontade de ser mãe novamente, pois queria viver isso com Emma. Então...”

“Então Amy aconteceu.” Eu completei.

“Sim, então Amy aconteceu e embora nós ainda quiséssemos tentar ter um filho, achamos melhor não.”

“Por causa da Emma.”

“É, exatamente. Ela precisaria de nós. Então, os anos foram passando e acho que a vontade de ser mãe também. Estava conversando com David esses dias sobre isso. Amy preencheu essa vontade. Na verdade, eu acho que nós queríamos outro filho para compensar a nossa ausência durante a vida de Emma. Amy nos deu essa oportunidade. Além do mais, eu amo ser avó! Queria que vocês pudessem ter me dado mais netos.” Ela concluiu, eu cogitei lhe contar sobre as minhas preocupações, sobre todos os monstros que me assombravam. Foi como se ela pudesse ler meus pensamentos, pois ela esticou seu braço sobre a mesa e segurou minha mão. “Está tudo bem?” Perguntou, olhando antes na direção de Amy e David, temendo que eles pudessem nos ouvir.

“Eu queria te contar uma coisa.” Eu comecei a dizer e ela se levantou, pedindo para eu lhe seguir até o seu quarto, fechando a porta atrás de si. Eu me sentei em sua cama e esperei que ela se aproximasse.

“É algo sério, Regina?” Ela perguntou, em um tom preocupado.

“Não, não é. Quer dizer, não é algo que não tenha solução. É só algo que eu estou guardando e preciso desabafar.” Respondi, ela esperou que eu continuasse. “Você sabe que eu não posso ter filhos.”

“Eu sei.”

“Mas você não sabia que Amy me curou, não é mesmo?” Eu perguntei e ela ficou em silêncio. “Eu fiz os exames. Os mesmos exames que eu tinha feito anos atrás e dessa vez os resultados não foram os mesmos. Dessa vez eles disseram que não tem nada de errado comigo. Que eu posso perfeitamente ser mãe e que...” Eu nunca cheguei a terminar, pois Snow se jogou em minha direção e me abraçou o mais forte que pôde, dizendo o quanto essa notícia era maravilhosa e o quanto estava feliz por nós duas.

“Então, quer dizer que você está...” Ela começou a perguntar, quando quebrou o abraço e eu logo respondi que não estava e o sorriso em seu rosto desapareceu. “Vocês estão tentando?” Ela continuou.

“Não. Para ser sincera Emma ainda não sabe e eu não acho que eu quero contar a ela.”

“Por que não?” Ela perguntou, confusa.

“Porque eu tenho medo de ela aceitar. Eu tenho medo de ela aceitar ter outro filho comigo, por pena, por sei lá.”

“O que te faz pensar que ela não quer também?”

“Ela mesma me disse que não quer.” Eu respondi e Snow nada mais disse. “De qualquer forma, desde que eu descobri, eu estou me cuidando. Eu não faço a menor ideia de como funciona esse lance de bebês mágicos, mas eu não quero que aconteça, se pudermos evitar.”

“Regina, me poupe. Você quer muito isso. Deixe pelo menos Emma saber dessa vontade. Deixa ela saber dessa possibilidade. Eu entendo o lado de ela não querer ter um filho nesse momento, mas eu entendo o seu também. Eu entendo muito. Pode ser que ela não aceite. Provavelmente não aceitará, mas você tem que ser honesta com ela, não acha?” Eu apenas assenti, enquanto ela me puxava para um abraço.

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Eu voltei para a mansão, troquei de roupa e me dirigi para a casa de Emma. Eu estava usando um vestido preto que ela adorava e antes de descer do meu carro, eu me peguei encarando meu próprio reflexo no retrovisor do carro. Comecei a refletir sobre o que Snow havia me dito mais cedo e de fato eu precisava conversar com Emma.

Eu tinha que enfrentar meus monstros e ouvir o ‘não’ definitivo de sua boca. Dessa forma, eu descobriria logo que não havia mais espaço para sonhos em minha vida. Com esse pensamento, eu desci do carro e me dirigi até a sua porta. Não houve necessidade de tocar a campainha, bastou que eu pisasse em seu capacho que a porta então se abriu.

“Meu deus, Regina! Eu já estava preocupada. Eu ouvi seu carro parado há quase 10 minutos. O que aconteceu? Você estava pensando em me dar um bolo?!” Ela perguntou, não me dando a chance de respondê-la, enquanto eu ria do seu desespero e a puxava para um beijo demorado.

“Jamais!” Eu respondi, assim que o beijo foi quebrado.

“Ótimo!” Ela respondeu e me puxou pela mão. “Desculpa, o máximo que eu consegui preparar essa noite foi um spaghetti, mas vou compensar na sobremesa e no vinho!” Ela continuou e eu novamente a virei para mim para um segundo beijo.

“Você realmente acha que eu vim para jantar?!” Eu a questionei e seus braços envolveram meu pescoço e eu a encarei de cima abaixo, observando a roupa que ela usava, que se resumia a um jeans apertado e uma regata branca.

“Desculpa, eu não tive tempo de colocar uma roupa decente, mas aguenta um pouquinho.” Ela respondeu, me beijando rapidamente e correndo em direção ao seu quarto.

Ela demorou quase uma hora para voltar, mas compensou cada segundo. Ela não precisava de tanto, mas ainda assim ela voltou deslumbrante. Eu sabia que era uma tortura para ela usar vestidos. Durante a gravidez de Amy, ela usou apenas porque não havia outra alternativa.

Ainda assim, lá estava ela, com seu vestido vermelho tão justo que eu realmente acho que ela o pediu emprestado a Ruby. Eu me encontrava sentada em seu sofá quando ela voltou do quarto e embora eu não quisesse, foi inevitável não rir.

“Ah, cala a boca, Regina!” Ela disse, com um sorriso em seus lábios, se aproximando de mim.

Ela se sentou em meu colo, fazendo com que seu vestido vermelho subisse, revelando suas coxas. Eu me afundei cada vez mais no sofá, suas mãos estavam cada uma do meu lado e eu joguei a cabeça para trás, a fim de vê-la melhor. Seu corpo se arrastou sobre o meu, se encaixando perfeitamente.

“Você realmente quer pular a parte da janta, não é mesmo?” Ela perguntou, em um tom cheio de sedução e eu não a respondi com palavras. Meus lábios tocaram os seus, enquanto minhas mãos percorreram suas costas em direção ao zíper de seu vestido. “Desculpa.” Disse, me fazendo parar. “Mas eu tive muito trabalho com esse jantar!” Continuou, se levantando do meu colo e me puxando pela mão até a cozinha.

Emma sempre teve isso de me provocar e depois negar fogo, o que era bem irritante a ao mesmo tempo excitante, mas depois ela sempre compensava de um jeito que só ela era capaz de fazer. Eu me sentei a mesa, a observei terminar nosso jantar. Ela estava linda, incrivelmente linda e eu realmente não sabia como alguém não era capaz de se apaixonar por ela à primeira vista.

Eu também não sabia como eu havia demorado tanto a gostar dela. Sou bem patética, às vezes. Ela se virou para mim e caminhou com a travessa de vidro em suas mãos, a colocando sobre a mesa, fazendo questão de servir o meu prato, enquanto eu ficava babando nela e me dava conta de que eu realmente não havia vindo para o jantar.

De qualquer forma, a comida estava incrível, nós nos divertimos e rimos muito. Ela me contou cada detalhe, que ainda não havia tido a oportunidade de contar, sobre as universidades que eles haviam visitado. Também me contou alguns segredos que Henry havia compartilhado com ela sobre a garota que ele estava saindo. Eu contei sobre o meu dia, na maioria das vezes coisas referentes a Amy e nenhuma delas sobre os exames que eu havia feito, pois não queria estragar a noite.

“Certo. Agora sua surpresa!” Ela disse, levando a louça para a pia.

Eu me levantei também, ela pegou minha mão e me guiou pela casa. Nós caminhamos até um corredor, onde havia os quartos. Ela parou em frente ao quarto de Henry, que se encontrava com a porta fechada e pediu que eu fechasse meus olhos. Eu a obedeci e a escutei abrir a porta, senti sua mão segurando a minha e a segui, com passos incertos, para dentro do quarto, mantendo meus olhos ainda fechados. Tudo era silencioso, até que sua voz se fez presente, pedindo que eu abrisse meus olhos.

O que eu vi diante dos meus olhos era de fato um quarto, mas não o de Henry e sim um berçário. As paredes do quarto haviam sido pintadas todas de um tom azul claro e havia um lindo berço no centro dele com um mobile que girava ao som de uma canção de ninar. Prateleiras com brinquedos decoravam o quarto e uma cadeira de ninar em um dos cantos da parede davam um toque a mais ao quarto. Eu nada disse e muito menos ela, caminhei pelo quarto, em direção ao berço, onde havia um pequeno macacão sobre o colchão. Eu me virei para ela, esperando que algo saísse de sua boca, mas só recebi o silêncio.

“Emma, você...”

“Eu estava no campus com Henry...” Ela começou a dizer. “E recebi uma ligação. Era do seu médico. Ele ligou para mim sem querer. Eu perguntei para ele qual era motivo que ele queria falar contigo e fiquei sabendo dos exames. Eu pedi a ele para me dizer os resultados e então-” Ela fez uma pausa. “Regina, por que você não me contou que faria esses exames? Eu queria tanto estar lá com você. Não é justo. Nós já dividimos tantos poucos momentos e então você me corta dessa forma. Foi isso que eu pensei na hora, mas então eu entendi o porquê você queria ir sozinha. Era porque você tinha medo. Dos resultados, de se decepcionar, de me colocar no processo e se decepcionar duplamente. Então, quando eu soube do resultado, eu esperei sua ligação.”

Houve uma nova pausa, ela levou as mãos até seus lábios e seus olhos se encheram de lágrimas, assim como os meus.

“Meu deus, Regina! Você pode engravidar! O quão incrível é isso?!” Ela caminhou em minha direção, pegando minhas mãos. “Mas eu nunca recebi sua ligação ou sequer uma mensagem. Eu fiquei tão nervosa com você, tão decepcionada e então novamente eu entendi o porquê. Porque eu já havia dito que não queria um filho com você. Eu fiquei o tempo todo martelando isso em minha cabeça, pensando o quão precipitado foi de minha parte dizer um não aquela noite. Eu tive tempo o suficiente para refletir a respeito. No final das contas, Amy me ajudou a tomar uma decisão.”

“Eu sei que minha razão está gritando para não seguir essa ideia, mas meu coração me diz que é o que devemos fazer. Amy nos disse uma vez que ela era um milagre. Ela é mais que um milagre, ela é um anjo. Um anjo que entrou em nossas vidas de uma forma inesperada e arrebatadora. Ela mudou tudo e ainda muda, mas cada vez mais para melhor. Eu sei que teremos que mudar nossa rotina e que será difícil dividir duas casas. Eu sei que não poderei estar com você a cada segundo, mas eu sei que eu quero fazer e que eu topo fazer.”

“Eu não acho que devemos dizer não a isso, pois embora eu tenha muito medo, ainda assim eu não consigo parar de pensar que essa é a sua chance de realizar um sonho. Eu não quero adiar seu sonho. Eu não quero envelhecer e descobrir que eu tirei sua chance de sentir algo mais incrível na vida que é dar a vida alguém.”

Ela parou, soltou minhas mãos e pegou uma pequena caixa que havia dentro do berço, se ajoelhando em seguida na minha frente. Dentro da caixa, havia um sapatinho branco de crochê, com uma de suas mãos ela segurou o sapatinho e com a outra pegou minha mão.

“Regina, você quer ter outro filho comigo?” Ela perguntou e eu, patética como sou, comecei a rir e a risada se misturou ao meu choro, que se misturou com um ‘sim’ e então se misturou com toda a alegria que eu estava sentindo.

Ela colocou a fitinha do cadarço do sapatinho em meu dedo, amarrando-o bem apertado, de modo que ele não caísse. Então, se levantou, me puxando para um abraço e para um beijo e disse que me amava inúmeras vezes. Um eu te amo não era capaz de descrever o que eu sentia por ela. É algo além das palavras, além de qualquer sentimento. Ela se ajoelhou novamente e beijou minha barriga inúmeras vezes.

“Gostaria de te lembrar que eu ainda não estou grávida.” Eu disse, mas ela continuou com os beijos, que subiram até chegar aos meus seios, pescoço e finalmente meus lábios.

“Ainda não.” Ela disse, bem próximo a minha orelha. “Mas eu quero começar a treinar desde agora, assim como eu quero começar a fazer esse bebê desde já!” Continuou ela e seus beijos viraram pequenas mordidas, que se intercalaram entre chupões e mais beijos.

Ela me puxou pela mão e me levou em direção ao seu quarto, nossos sapatos foram ficando pelo caminho. Quando chegamos a sua cama, ela fez questão de correr suas mãos pelo meu vestido, até encontrar o zíper e o abrir, deixando-o cair pelo meu corpo. Em seguida, ela me jogou no colchão, ficando sobre mim. Me roubou vários beijos, me arrancou suspiros e eu perdi a conta de quantas vezes ela me deixou sem fôlego.

Naquela noite, todos os monstros ficaram debaixo da cama, junto com nossos sapatos e roupas. Tudo o que restou em mim, depois que os monstros foram embora, foi amor. Um amor que Emma fez questão de tornar maior, tornar mais real. Um amor que nos dominou aquela noite, tão grande que foi capaz de matar todos os monstros que estavam em mim. Tão grande que seria capaz de trazer vida onde antes só havia escuridão.