Capítulo 17 – “s”

Emma me disse que sua viagem para Boston levaria apenas algumas horas, mas ainda assim meu coração ficou apertado quando a vi partir. Eu não poderia fazer essa viagem com ela. Não poderia visitar as clinicas de reprodução. Desse modo, apenas recebi um beijo de despedida e lhe disse para ficar bem e que voltassem logo.

Deixei que ela fosse sozinha e aceitei o fato de que se quiséssemos ter esse filho, eu teria que aceitar que Emma teria de enfrentar sozinha certas responsabilidades. Ela era capaz de enfrentar qualquer coisa sozinha, ainda assim foi doloroso demais vê-la atravessar a fronteira com aquele fusca velho que ela insistia em manter.

“Amy, nós vamos tomar café na Granny’s e você vai passar o resto do dia com Ruby e Belle.” Eu disse a Amy, que escovava seus cabelos, interessada demais na sua imagem no espelho. Ela fazia várias caretas ao espelho e ria de sua própria imagem, como se a garota no espelho fosse outra pessoa. “Você me ouviu, Amy?”

“Lógico que eu te ouvi.” Respondeu, revirando os olhos em sinal de impaciência, chegando a ficar igualzinha sua mãe. “Mas eu pensei que eu iria para o seu trabalho. Você disse que eu podia ir.”.

“Bem, depois do almoço você pode passar a tarde com a mamãe. Acontece que lá é tão chato e aposto que você vai se divertir mais com elas.”

“Não vou não!” Disse em tom de birra, cruzando os braços e fechando a cara para mim.

Eu me levantei e comecei a separar algumas de suas roupas, guardando-as em sua pequena mochila.

“Acontece que você não tem escolha.” Disse e me virei para ela, que permanência na mesma pose. “Qual é, Amy. Colabora.” Continuei e eu soube que ela insistiria na pirraça e que acabaria vencendo.

“Mas você prometeu!” Disse ela, batendo o pé no chão.

“Certo!” Respondi, desistindo da ideia de deixa-la com as garotas. “Você vai passar o dia comigo no escritório. Fechada em uma sala o resto da manhã, durante a hora do almoço e até a tarde acabar, que tal isso?” Perguntei e como resposta ela começou a correr pelo quarto gritando ‘eba’. “E não venha me reclamar que está entediada!” Eu gritei atrás dela, que descia as escadas enquanto eu a seguia.

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“Eu vou poder te ajudar em todas as coisas legais que você faz no seu trabalho, mamãe.” Disse Amy, desenhando em um guardanapo de papel.

Estávamos na Granny’s esperando nosso pedido chegar.

“Acredito que vai sim.”

“E o que você faz lá, mamãe?”

“Coisas bem chatas.” Respondi, fazendo-a rir.

“Mas vai ser mais legal hoje, porque eu vou estar lá.” Disse, olhando para mim com um sorriso no rosto.

“Sabia que às vezes eu te levava comigo a prefeitura quando você era pequeninha?” Ela pareceu mais interessada na conversa depois dessa afirmação.

“É mesmo?” Perguntou, agora se ajoelhando no banco.

“Aham, você me ajudava muito mesmo. Você ficava lá na sua cadeirinha, se balançando, enquanto eu te usava como peso de papel.” Continuei e lhe roubei uma gargalhada.

“Eu fazia um bom trabalho?”.

“Fazia sim, até hoje eu não encontrei um peso para papel mais eficiente do que você.” Respondi, tocando em seu nariz.

Ela então voltou ao seu desenho, enquanto Ruby aparecia trazendo nosso café da manhã. Amy estava naquela fase da qual uma refeição parecia durar uma eternidade. Isso me tirava do sério algumas vezes, principalmente quando eu tinha horários para cumprir.

“Meu amor, mamãe tem horário para entrar e fazer as coisas. Sabe disso, não é?”

Amy mal havia tocado em suas panquecas e minha observação não pareceu ter efeito algum. Ela olhou ao redor do Granny’s, colocou seus cotovelos sobre a mesa e ignorou completamente a comida a sua frente.

Eu resolvi ignorar o fato de ela estar ignorando o meu pedido e comecei a cortar as panquecas de seu prato. Ela deu uma olhada no que eu fazia, sentou-se normalmente no banco e se encostou, olhando-me com um olhar sério.

“Eu estou apenas adiantando as coisas para você.”

Espetei um pedaço da panqueca com um garfo e o entreguei a ela, que o segurou sem muito entusiasmo. Olhei para o relógio que marcava oito horas.

“Aquele homem parece estar muito triste.” Disse Amy.

Olhei para o homem sentado no balcão, suas mãos seguravam uma xícara de café. Já era um senhor de certa idade. Diferentemente de Amy, eu não podia ver o seu rosto direito.

“Estão precisando de algo a mais?” Ruby perguntou, se aproximando de nós duas e enchendo minha xícara com café fresco.

“Ruby, aquele homem ali do balcão, por que ele está triste?” Amy perguntou, pegando Ruby de surpresa. Ela olhou alguns segundos para o homem, antes de se virar para Amy.

“Ele sempre vem aqui.” Ruby disse. “Mas nunca notei que de fato ele sempre parece estar triste.”.

“Acha que isso alegraria ele?” Amy perguntou, entregando a Ruby o guardanapo com o desenho que ela havia feito. Ruby sorriu com o gesto e olhou para o desenho.

“Aposto que iria deixá-lo muito contente.” Ruby respondeu

Amy pareceu satisfeita quando Ruby se aproximou do homem no balcão e lhe entregou o guardanapo. O homem olhou para o desenho durante alguns segundos e sorriu, virando-se para Amy e lhe agradecendo com um sorriso e um aceno. Ela acenou de volta e começou a comer suas panquecas.

Eu a observei comer, seus movimentos calmos e seu olhar que caminhava de pessoa em pessoa. Às vezes, ela dizia ou perguntava coisas do tipo: “Para aonde você acha que aquela mulher vai vestida tão bonita daquele jeito?”; “Aposto que o livro que aquele homem está lendo não tem figura alguma!” ou “Por que adultos tomam tanto café se eles já têm idade para comprar sozinho seus sorvetes?”

Eu não tinha respostas para todas as suas perguntas, mas ela não parecia ligar para isso. Amy só queria observar as pessoas ao seu redor, deixar o tempo passar e ver as pequenas coisas que pareciam tão banais para adultos, mas que para uma criança era algo completamente novo. Não percebi a hora passar, não percebi também que meu café já esfriara e que Amy não havia comido suas panquecas. Já era quase nove e meia e ainda estávamos ali.

Em certo momento, Amy pediu a Ruby uma folha maior, pois já havíamos usado todos os guardanapos de papel. Eu pensei em dizer a ela para deixar isso para mais tarde, porque não podíamos perder mais tempo, mas eu não consegui impedi-la. Aquela manhã passou rápido e aquela folha de desenho se preencheu com inúmeros desenhos coloridos.

Eu joguei meu blazer em algum canto da mesa, dobrei minhas mangas para que eu pudesse me movimentar melhor e me juntei a Amy e seus desenhos. Várias folhas de papel foram usadas, vários desenhos foram feitos e todas as coisas das quais eu tinha que resolver na prefeitura simplesmente pareceram não ter importância alguma.

“Mamãe!” Ela disse assustada, sentando-se no banco. “Mamãe, o seu trabalho!”

“Ele continua lá, meu anjo.” Respondi, sem interromper meu desenho. Amy pareceu confusa.

“Mas você estava tão apressada antes.” Disse, franzindo o rosto que foi tomado por uma expressão de confusão.

“É, eu estava, não é mesmo? Eu sempre estou, eu acho.” Respondi, olhando para o relógio que marcava quase onze da manhã.

Eu dei risada, quando notei todas as coisas que eu havia jogado para o alto. Eu ri dos papeis que eu havia preenchido ao longo da manhã. Papeis cobertos por desenhos que provavelmente não possuíam tanta importância quanto ao papeis que eu de fato deveria ter preenchido, mas para Amy eles tinham. Eu olhei para o seu rostinho, para os seus olhos azuis que há poucas horas notaram aquele homem triste. Notei-os agora repletos de felicidade e me lembrei de quantas vezes eles já não estiveram cheios de tristeza.

“É tão simples ser criança, não é mesmo?” Perguntei e ela deu de ombros.

“Não tem muito segredo.” Respondeu, voltando ao desenho. “É só não ficar olhando muito para o relógio, porque a gente vai crescer de uma hora para outra e não dá para saber que horas isso vai acontecer.”

Sua resposta pareceu mais madura do que eu realmente esperava que fosse, mas me fez entender exatamente a essência do que significava ser criança. O segredo era não ter pressa.

“Você tem razão.” Eu disse, tirando meu relógio do pulso e guardando-o em minha bolsa. Ela sorriu com o meu gesto e voltamos ao desenho.

“Vocês vão querer mais alguma coisa para comer?” Ruby perguntou novamente para nós duas.

“Não, Ruby. Obrigada.”

“Mais folhas, então?” Ela perguntou, me fazendo rir.

“Mais folhas seria ótimo.” Respondi e a observei se aproximar da mesa ao nosso lado, onde dois homens estavam sentados.

“Vocês estão prontos para fazer o pedido?” Ruby perguntou, tirando de dentro do avental um bloquinho de papel.

“Bem, meu amigo aqui vai querer apenas um café, mas eu me pergunto quanto eu preciso pagar para ter algo a mais com você.” Eu escutei o homem dizer e tanto ele quanto o segundo homem riram. Em resposta, Ruby apenas guardou o bloquinho de volta em seu avental.

“Eu volto a atender vocês quando o seu amigo ‘respeito’ estiver presente.” Ruby disse, afastando-se, mas o homem a segurou pelo braço e mesmo ele falando em um tom baixo, eu ainda consegui ouvi-lo.

“Ah, qual é, morena. Com uma saia e um rabo desse tamanho, o mínimo que você pode esperar é um comentário desses.” Disse, rindo em seguida.

Ruby se soltou do homem, abrindo a boca para respondê-lo, mas nunca o fez, pois no mesmo instante Amy se levantou da nossa mesa e foi na direção dos homens.

“Você devia dobrar a língua duas vezes antes de falar com uma garota dessa forma!”

Disse Amy, suas mãos na cintura e seu tom de voz coberto de razão e de um pouquinho de repulsa. “Isso é muito rude!”

O homem riu de sua cara e estava prestes a responder algo, mas o segundo homem o impediu.

“Desencana, cara.” Disse e apontou o queixo em minha direção.

O primeiro homem engoliu a seco, olhando para mim, depois para Ruby e enfim para Amy ao seu lado.

“Eu sinto muito. Eu não queria ser...”

“Um completo babaca?”, Amy completou.

“É, isso ai.” Confirmou ele e seu tom de voz era tomado por medo. “A gente já estava de saída mesmo.” Continuou e os dois homens se levantaram e saíram da lanchonete.

“Obrigada.” Ruby disse a Amy. “Mas eu realmente sei me defender de idiotas desse tipo.”

“Amy, isso não foi muito elegante.” Observei.

Ela abriu a boca para contestar, mas uma voz que vinha da mesa atrás da gente tirou sua atenção.

“Não escute a sua mãe, Amy. Você foi incrível.”

Era Rapunzel, que agora se levantava e vinha em nossa direção. Ela usava enormes óculos de sol no rosto e sua aparência não era nada boa.

“Eu realmente não acho que eu deva incentivar esse tipo de comportamento.” Respondi.

“Ah, que besteira! Ela falou verdades. Não é mesmo, Amy?” Perguntou Rapunzel e Amy olhou para mim, como se pedisse algum tipo de aprovação. “Fica a dica, Amy.” Rapunzel continuou e se sentou ao lado de Amy na mesa. “Permita que apenas beijos calem a sua voz.”

“Ótima conselheira infantil você é.” Respondi e Rapunzel sorriu com a minha resposta, tirando os óculos de sol e deixando suas olheiras visíveis.

“Ah, qual é. Eles mereceram.” Continuou e se virou para Amy, sorrindo para a menina. “Como você está, Amy?”

“Eu estou bem!” Ela respondeu animada. “Mas você parece nada bem.” Observou, fazendo Rapunzel colocar de volta os óculos.

“Ah, Amy, a faculdade te faz isso, sabe? Te tira o sono, a paciência e a beleza. Eu nem lembro a última vez que eu lavei o cabelo.” Respondeu. “Aproveita bem o jardim de infância.” Completou. “Em falar nisso, por que diabos ela não está na escola?”

“Aconteceram algumas coisas.” Respondi.

“Tipo?” Perguntou, enquanto uma das garçonetes se aproximava de nós com uma xícara de café que Rapunzel tomou em um único gole.

“As pessoas estão com medo de mim.” Amy respondeu e a garota olhou em sua direção.

“Ah, é? Não consigo nem imaginar o porquê.”

“Porque eu fiz algo muito feio.” Amy respondeu, olhando para mim. Rapunzel seguiu seu olhar, tirando novamente os óculos de sol. “Eu tirei o coração de um garoto no parquinho no domingo e algumas mamães ficaram com medo de mim. Mas eu nunca tiraria o coração dos meus colegas.”

Rapunzel se aproximou de Amy e se inclinou em sua direção, respondendo a ela em um sussurro.

“Eu aposto que você teve um bom motivo para fazer o que fez.” Disse a Amy, que sorriu para ela e deteve seu olhar em mim por alguns instantes, provavelmente porque gostaria de encerrar o assunto. “E aposto que jamais faria algo desse tipo novamente, não é mesmo?” Rapunzel continuou e Amy assentiu. “Sabe Amy, você e eu temos algo em comum. Eu também fiz algo muito feio essa semana.”

“O que você fez?” Amy perguntou.

“É, o que você fez?” Eu insisti na pergunta.

“Eu comprei uma briga com essa menina idiota da minha turma. Acontece que, bem, eu não fiquei apenas nos argumentos e parti para cima da vadia. No meio da aula. O que me causou não apenas a minha expulsão do dormitório da fraternidade, como também eu perdi minha bolsa.” Ela respondeu. “Ah, desculpa pela palavra ‘v’, jamais repita o que eu digo, ok, Amy?!” Disse, olhando para Amy em um tom sério.

“Você tem sérios problemas, Rapunzel.” Observei e ela suspirou enquanto encostava-se ao banco.

“Ah, nem me fala.” Respondeu. “Bem, eu posso vender o carro da minha mãe e consegui pagar esse semestre e o próximo. Então, eu estou livre daquela droga. O problema é que aí eu não vou ter onde morar.”

“Você está morando no seu carro?” Perguntei, em um tom perplexo.

“Estou. Qual é o problema?” Respondeu em um tom indignado.

“Porque não volta a morar com a sua mãe?”

“Ai meu deus, eu prefiro dormir na rua a voltar a morar com aquela mulher. Eu nunca vou ter paz! Além do mais, já basta a faculdade me estressando. Eu realmente não preciso de mais problemas.”

“Ela pode vir morar com a gente!” Amy observou, em um tom animado. “Não é, mamãe?” Perguntou, olhando para mim e depois para Rapunzel. “Seria muito legal!”.

“Amy, não é assim que as coisas funcionam.” Respondi e no mesmo instante ela juntou suas mãozinhas e começou a pedir ‘por favor’.

“Mas ela vai dormir na rua!” Disse.

“Amy, não se preocupa comigo. Eu vou ficar bem.” Rapunzel respondeu, olhando para a menina.

“Na rua?!” Ela perguntou, perplexa.

“Não, meu amor. Eu vou encontrar algum lugar para ficar. Eu tenho amigos por aí.” Respondeu, deixando Amy mais tranquila. “Meu problema mesmo é que agora eu vou precisar de um emprego de verdade. Já que sem a bolsa de estudos, eu estou bem ferrada.”

“Bem, eu posso te ajudar com isso.” Eu disse, roubando sua atenção. “Quer dizer, se você quiser ajudar ela também, Amy.”

“Eu quero sim!” Amy respondeu em um tom animado.

“Ótimo! Porque, veja bem, eu preciso trabalhar e Amy precisa de alguém para ficar com ela.” Eu expliquei e Amy pareceu não ficar nada feliz com a sugestão.

“Mas eu pensei que eu ia trabalhar com você.” Amy respondeu, cruzando os braços.

“E eu pensei que você quisesse ajudar Rapunzel.” Eu disse e ela olhou para Rapunzel e depois para mim e enfim descruzou os braços, soltando um ‘que seja’ “Isso parece bom para você?” Eu perguntei a Rapunzel.

“Tá brincando, né? Isso parece ótimo. Eu adoro crianças e eu adoro Amy!” Ela respondeu, segurando Amy pelo rosto e lhe roubando um beijo na bochecha. “Prometo que você vai se divertir muito comigo!” Rapunzel disse a Amy, que sorriu para ela.

“Mas aposto que eu ia me divertir mais com a minha mãe!” Ela respondeu em um tom emburrado.

“Eu realmente duvido!” Rapunzel observou.

“Bem, então nós temos um acordo?” Eu perguntei a garota.

“Claro que temos!” Ela respondeu.

“Ótimo, que tal então se você começar hoje?” Eu perguntei a ela.

“Claro, eu estou livre, mas eu só posso ficar com ela até as 17hrs, porque minha aula começa às 18hrs e eu ainda tenho que resolver meu lance com o reitor e tudo mais.”.

“Não se preocupe quanto a isso. Eu chego cedo e qualquer coisa a avó dela está livre depois das 14hrs.”.

“E quanto a Emma?” Ela perguntou, com um tom meio hesitante.

“Minha mãezinha tá em Boston.” Amy respondeu.

“Não é isso que eu quis dizer.”

“Não se preocupe com Emma, Rapunzel.” Eu disse a ela que me deu um sorriso aliviado. “Vamos, eu levo as duas para a casa e depois volto para a prefeitura.”

Durante todo o caminho, Amy foi falando o quanto seria mais divertido se ela pudesse ficar comigo ao invés de ficar com Rapunzel, enquanto a garota retrucava dizendo que ela conseguia ser mais divertida do que eu. Eu ignorei o assunto principal e olhei para Amy pelo retrovisor. Ela estava feliz e não parecia se preocupar com nada. Olhei para Rapunzel ao meu lado e percebi então que não era a primeira vez que ela aparecia em minha vida para torná-la mais fácil.

Eu as deixei em casa e me despedi das duas. Rapunzel tinha Amy em seus braços, que acenou para mim, enquanto o carro se afastava. Suas figuras no retrovisor ficando menores e embaraçadas a medida que eu dirigia, a ponto de não ser mais possível ver os seus rostos.

Foi inevitável não querer que aquela imagem não fosse de Emma segurando nossa filha, mas eu sabia que não era. Eu sabia que não teria essa visão quando voltasse para casa, assim como também sabia que nem Emma teria.

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Eu cheguei em casa e encontrei Rapunzel me esperando a porta. Desci do carro, achando estranho a garota ali, mas não disse nada. Assim que me aproximei, ela me pegou pelo braço, subindo comigo as escadas em direção ao meu quarto e fechando a porta atrás de si assim que entramos. A olhei de cima abaixo, vendo a roupa que ela usava, que era basicamente um short jeans, uma camiseta e all star. Seus cabelos, porém, estavam completamente trançados e caiam pelo seu ombro, o que dava a ela um certo charme.

“O que você fez?” Eu perguntei a ela, que abriu a boca, perplexa.

“Como assim o que eu fiz?” Ela perguntou, irritada. “Eu passei o dia com os seus filhos. Preparei a janta e você vem para cima de mim com esse tom acusador?”

“Você não precisava ter feito a janta.” Respondi, mostrando a ela a sacola do Granny’s que eu tinha em mãos.

Ela simplesmente arrancou a sacola de minhas mãos e olhou dentro, direcionando-me um olhar acusando, enquanto jogava a sacola na cama. Ela caminhou até o meu guarda-roupa. Eu observei toda a cena em silêncio, enquanto ela analisava cada um dos meus vestidos.

“Por que diabos você só tem vestidos pretos?” Perguntou, ainda irritada. Em seguida, tirou um vestido de cor azul e se aproximou de mim. “Perfeito.” Disse, agora com um sorriso no rosto. Eu segurei o vestido em minhas mãos e a encarei.

“O que você fez?” Insisti, em um tom pausado, tentando me manter o mais calma possível.

“Eu fiz um jantar incrível para você e seus filhos.” Respondeu, pausadamente, assim como eu havia feito. Em seguida sorriu para mim, o tipo de sorriso que escondia várias segundas intenções.

“Ok, entendi essa parte. Mas o porquê disso?”

Ela ainda mantinha o mesmo sorriso no rosto, mordeu o lábio, segurou minhas mãos e caminhou comigo em direção a cama, onde nos sentamos.

“Henry trouxe uma garota!” Disse, em um tom animado, como se fosse uma garota do colegial contando uma fofoca.

“Henry trouxe uma garota?”

“Meu deus, Regina. Você precisa conhecê-la. Ela é um amor. O nome dela é Claire. Ela é super fofa, educada, extremamente inteligente e está muito nervosa em te conhecer!”

“Henry nunca me falou sobre ela.”

“Ah, talvez só agora a coisa seja séria, sabe?” Respondeu ela. “Você não parece muito animada! É a primeira namorada dele!”

“É, eu sei. Nossa, eu odeio ver os dois crescerem." Disse e Rapunzel sorriu, apertando gentilmente minhas mãos.

“Não podemos fazer nada sobre isso, não é mesmo?”.

“É, acho que não.”

“Bem, o jantar está feito. Eu já quebrei o gelo, então ela está um pouco menos nervosa em te conhecer.” Disse, levantando-se. “Eu tenho que ir para aula e achar um lugar para passar a noite.”

“Rapunzel.” Eu disse e ela parou diante da porta, virando-se para mim.

“O quê?” Perguntou.

“Nós temos um sofá-cama no escritório. Você pode voltar e passar a noite aqui.” Eu disse.

No mesmo instante, ela correu em minha direção e me deu um forte abraço.

“Muito obrigada!” Disse inúmeras vezes. “Mas eu realmente tenho que correr para aula. Te vejo mais à noite ou amanhã de manhã, se você não estiver acordada.”

Em seguida, ela desapareceu pela porta. Eu olhei para o vestido que ela havia separado e me perguntei por que diabos eu possuía tantos vestidos pretos.

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Claire era uma garota incrível e se encantou por Amy de tal forma que Henry chegou a ficar com ciúmes. Ela de fato estava muito nervosa em me conhecer, mas aos poucos ela foi se soltando e tivemos um jantar incrível. Ela contou sobre sua vocação para a música e sua vontade de ser cantora, o que deixou Amy muito animada e as duas passaram o resto da noite conversando sobre suas músicas favoritas.

“Vamos lá, Amy.” Eu disse, chamando sua atenção. Ela estava sentada no sofá entre Henry e Claire. Para Henry fora um alivio quando Amy enfim se levantou e se despediu dos dois. “Hora de ir para cama.”

“Eu sei.” Ela respondeu, completamente frustrada, enquanto passava por mim e subia as escadas.

“Boa noite para vocês dois. Foi um prazer te conhecer, Claire.” Eu disse a garota, que caminhou em minha direção e me deu um abraço.

“Foi um prazer para mim também.” Respondeu.

“Eu vou levá-la em casa.” Henry disse, saindo em seguida com a garota.

Eu subi as escadas em direção ao quarto de Amy e a encontrei diante de seu espelho, escovando sozinha os seus cabelos. Eu fiquei em silêncio e ela me notou, virando-se para mim com um sorriso no rosto.

“O que achou dela?” Ela perguntou e eu caminhei até o seu guarda-roupa, tirando de lá um pijama.

“Eu gostei muito dela e você?” Perguntei, andando até a sua cama. Ela me seguiu e começou a tirar a roupa, permitindo que eu trocasse o seu pijama.

“Gostei também, desde que ela não leve ele da gente.” Observou, me fazendo rir.

“Ela não vai fazer isso.” Eu disse, ainda rindo dela.

“Faz uma trança igual à da Rapunzel no meu cabelo?” Pediu e eu me encostei contra a parede, para que ela pudesse se sentar à minha frente.

“Faço sim, meu amor.” Respondi, escovando seus cabelos e começando uma trança. “Como foi a sua tarde com ela?”

“Foi muito legal!” Ela respondeu, animada.

“Está vendo? Eu disse que seria.”

“Mas teria sido bem mais legal se você estivesse aqui.” Ela disse. “Ela é muito engraçada e sabe um montão de coisas. A gente fez cookies e ela deixou colocar pedacinhos de chocolate a mais na receita. E me deixou comer um montão! Ainda quente!”.

“Não acho muito legal comer muitos doces assim.”

“Eu disse isso a ela. Eu disse que você não ia gostar, mas ela disse que açúcar deixa as crianças mais doces e que vocês adultos deveriam deixar de serem mesquinhos com doces.” Ela respondeu, me fazendo rir.

“Isso é bem algo que ela diria mesmo.” Eu disse, observando a trança que eu havia feito em seus cabelos. Então, eu a virei para mim, beijando seu nariz.

“Ficou parecido com a trança dela, mamãe?”

“Com a da Rapunzel?”.

“Aham.”

“Ficou sim, meu anjo. E ficou muito mais linda que ela.” Eu disse e ela se ajeitou, sentando-se ao meu lado.

“Eu gosto muito dela, mamãe.” Ela disse, um pouco tímida.

“Eu sei que sim. Ela é muito legal.” Eu observei, ela suspirou com a minha resposta.

“Não é só isso. Ela é mais coisas também.”

“Mais coisas?”

“Sim, mais coisas. Ela é tipo uma mamãe.” Disse, me deixando surpresa com sua observação.

“Bem, é o trabalho dela. Ela está aqui para cuidar de você, não é mesmo?” Eu disse e ela ficou em silêncio, olhando para as próprias mãos. “O que foi, meu amor?” Eu perguntei e ela começou a mexer uma mão na outra, parecendo bem nervosa.

“Sabe por que ela estava usando tranças, mamãe?” Perguntou e eu balancei a cabeça. Ela sorriu então, um sorriso cheio de tristeza. “Eu dormi hoje à tarde no sofá, depois que comi vários cookies. Quando eu acordei ela estava na cozinha. Eu parei na porta e eu a vi de costas e a primeira coisa que eu vi foram os cabelos dela soltos.” Continuou e me deixou um pouco confusa. “Eu pensei que fosse a mãezinha.” Concluiu, baixando o olhar.

“Oh, meu anjo. Eu sinto muito.” Eu respondi, tocando em seu queixo com o dedo, fazendo-a olhar para mim.

“Então eu a chamei de ‘mãe’.” Continuou, agora sua voz era carregada de vergonha e tristeza. “Eu pedi desculpas quando eu vi que era ela. Rapunzel disse que eu não precisava pedir desculpas e então me abraçou. Mas mesmo eu sabendo que ela não era minha mãezinha, ainda assim eu fechei os olhos e fingi que ela era.” Concluiu e me encarou em silêncio.

“Ela fez a trança no cabelo para ficar diferente da sua mãe?” Perguntei e ela assentiu com a cabeça. “E adiantou?” Insisti e ela balançou a cabeça e seus olhos se encheram de lágrimas.

Ela se jogou em meus braços, seu rosto afundando em meu pescoço, continuando a falar com a sua voz completamente misturada em seus soluços.

“Ela só me fez desejar mais que ela fosse minha mãezinha.” Disse e eu não consegui respondê-la de volta.

Eu esperei que ela se acalmasse e a coloquei na cama. Ela já estava tão exausta de chorar que pegou no sono em poucos minutos. Eu me ajoelhei diante de sua cama, observando-a dormir por algum tempo. Eu enfim me levantei, quando Henry apareceu no quarto.

“Não vai para a sua cama?” Ele me perguntou em um sussurro, sentando-se no chão ao meu lado. Olhou para a irmã dormindo em sua cama e depois para mim.

“Eu não estou com sono.”

“Por algum motivo especifico?” Ele perguntou, trazendo meus pensamentos à tona.

“Você já imaginou como seriam as coisas se sua mãe tivesse morrido de fato?” Eu perguntei e o garoto assentiu. “Você acha que as coisas seriam mais fáceis?” Insisti e ele balançou a cabeça.

“Você acha?” Perguntou e eu olhei para Amy, tentando imaginar como as coisas seriam para ela.

“Não sei. Talvez fosse menos doloroso.” Respondi, sentindo uma lágrima descer em meu rosto.

“Talvez.” Ele disse. “Mas ao invés de você imaginar como seriam as coisas se ela não estivesse aqui, por que você não começa a imaginar como vão ser as coisas quando ela estiver?” Perguntou, aproximando-se de mim e me dando um beijo na testa.

Em seguida, ele me deu um boa noite e se levantou, caminhando até o seu quarto. Eu fiquei alguns segundos a mais observando Amy, mas depois de um tempo eu me levantei, já convencida de que eu não conseguiria dormir aquela noite.

Eu desci até a cozinha, onde encontrei uma cerveja perdida na geladeira e a abri. Encostei-me contra o balcão da pia e me perdi em meus pensamentos, enquanto bebia minha cerveja e nem percebi quando Rapunzel chegou.

“Pensei que rainhas deviam ter dignidade.” Ela disse, fazendo-me olhar para a garrafa.

“Bem, essa rainha aqui tem apenas uma heineken gelada no momento.” Respondi e ela riu, balançando a cabeça assim que eu lhe ofereci a bebida.

“Eu tenho que estar sóbria amanhã para cuidar dessa garotinha de cinco anos que por um acaso é sua filha.” Disse ela e eu dei um último gole na cerveja, antes de colocá-la na pia.

“Tem razão.” Eu disse. “Eu vou pegar alguns lençóis e um travesseiro para você. Acha que consegue montar o sofá-cama sozinha?” Perguntei, saindo da cozinha e sendo seguida por ela.

“Claro que sim.” Respondeu e eu lhe mostrei a direção do escritório.

Caminhei até o meu quarto onde peguei alguns lençóis e travesseiros para ela. Segui de volta ao térreo, até o meu escritório, onde eu a encontrei sentada no sofá cama, que ainda não havia sido montado.

“Não estou com sono.” Ela disse, quando eu lhe entreguei os lençóis.

“Nem eu.” Eu disse, sentando-me ao seu lado.

“Noite difícil?”

“Está perguntando isso por causa da cerveja ou...”

“Apenas puxando assunto.”

“Só as coisas de sempre.” Respondi de volta e ela balançou a cabeça algumas vezes.

“Eu voltei ao Granny’s. Eu tinha deixado meu carro lá.” Disse Rapunzel. “Ruby me contou sobre o que aconteceu na escola da Amy.”

“É, consegue acreditar nisso?” Eu perguntei, relembrando as frases escritas na parede do prédio.

“Não. Não consigo e é só você me dar um nome, porque eu conheço uma galera barra pesada. A gente vai lá e faz o serviço bem feito na cara da pessoa.” Disse, em um tom bem sério, mas ainda assim eu ri de sua observação. “O que foi?”

“Não vai ser preciso fazer nada, Rapunzel. Não importa mais. Amy está bem e eu até acho melhor que ela fique longe daquele lugar.”

“Eu posso ficar aqui o tempo que for preciso, sabe disso, não é?”

“Sei sim e muito obrigada por isso.” Respondi. “Ela gosta muito de você.”

“E eu dela! Ela é um amor de criança.” Disse, encostando-se ao sofá. Eu fiquei em silêncio, relembrando em minha mente a história que Amy havia me contado. “Ela te contou, não foi?” Perguntou. “Sobre o que aconteceu hoje à tarde.”

“Como você sabe?”

“Porque você está me olhando da mesma forma que ela me olhou. Como se eu fosse a Emma.” Disse, desviando o olhar de mim.

“Desculpa, eu não queria fazer isso.” Eu disse.

Ela sorriu, ainda com o seu olhar distante de mim.

“Se a minha presença aqui incomoda ou confunde a menina de alguma forma, eu acho melhor que eu não fique aqui.” Disse, olhando então para mim novamente.

“Sua presença aqui é muito bem-vinda. Amy precisa de alguém e eu preciso de alguém para ficar com ela. Então não se sinta mal por isso.”

“Eu tenho que confessar que eu realmente desejei que eu pudesse ser a Emma naquele momento.” Ela disse. “Ver aquela garotinha tão pequena a minha frente. Tão quebrada. Precisando de algo que eu não podia dar, me quebrou em tantas partes. Sabe, eu sempre gostei de crianças. É por isso que eu vou me especializar em psicologia infantil quando eu concluir a faculdade. Eu sempre pensei que se eu não pudesse ter as minhas próprias crianças, eu então ajudaria a dos outros.” Continuou, em um tom triste, que não combinava nada com ela.

“Isso é muito nobre de sua parte.” Eu disse. “E psicologia, huh? Estou um pouco surpresa, devo dizer, mas não muito.”

“Sou uma caixinha de surpresa!” Disse, virando-se para mim no sofá e me roubando uma risada.

“Sabe, quando Amy me contou a história, eu também-”

“Não diga isso.” Ela me interrompeu, dando uma pausa antes de continuar. “Não diga que também desejou que eu fosse a Emma, porque isso realmente me machucaria.” Concluiu. “Porque em algum universo paralelo, você e eu poderíamos ter dado certo.”

“Um universo paralelo?”

“Não acredita em universos paralelos?”

“Se eu acreditasse em um universo paralelo, então eu teria que acreditar que existe outro mundo em cima desse mundo com outra versão de mim. Bem impossível, não acha?”.

“Só se você acreditar que é.” Respondeu. “Agora, se você quiser me dar licença, eu vou me deitar.” Disse, fazendo-me levantar do sofá para lhe dar espaço.

Eu me levantei, mas assim que eu fiquei em pé uma dor enorme consumiu o meu peito, fazendo-me sentar novamente. Eu levei a mão ao peito e escutei a voz dela ao meu lado. Era difícil focar em sua voz, devido toda a dor que eu sentia.

Era como se a qualquer momento eu pudesse desmaiar de dor. Sua voz era distante e a dor profunda demais. Então eu gritei e cai ali mesmo no chão, sentindo seus braços me segurar. Era uma dor aguda e durou alguns minutos.

“Regina, você está bem?” Perguntou Rapunzel, em um tom preocupado. Eu estava no chão, olhei ao redor, antes de encará-la. “Está tudo bem?” Insistiu e seu rosto carregava a mesma preocupação de sua voz.

“Eu não sei.” Respondi, ainda sentindo a dor em meu peito.

“O que foi isso?” Insistiu ela, mas eu não sabia responder.

Eu me levantei e me sentei no sofá, enquanto ela foi buscar um copo de água para mim. Era como se alguém tivesse tentado arrancar o meu coração. A dor havia sido tão real e intensa que agora meu peito se encontrava completamente dolorido.

“Toma.” Disse, estendendo-me um copo com água. Eu bebi com dificuldade, pois ainda sentia a dor que tomava conta de mim. “Eu te ajudo a chegar ao seu quarto. Você precisa descansar. Eu fico com você o resto da noite, se você não se importar.” Disse, ajudando-me a levantar e me acompanhando até as escadas.

“Eu estou bem.” Respondi.

Ainda assim, ela me amparou e me ajudou a subir as escadas. Chegamos ao meu quarto e enfim ela me soltou, deixando que eu terminasse sozinha o percurso até a minha cama.

“O que foi isso?” Perguntou, em um tom assustado. Eu balancei a cabeça, pois não sabia o que responder a ela. “Eu vou ficar aqui até você dormir.” Ela insistiu.

“Não, Rapunzel. Pode ir para sua cama. Eu estou bem. A dor já passou.” Eu respondi e ela me encarou.

“Desculpa, Regina, mas eu acho que você tem que deixar de ser durona e me deixar te ajudar. Sabe lá deus o que aconteceu com você. Deixa eu te levar ao menos a um hospital. Assim eu posso dormir tranquila.” Disse, seu tom de voz era pura preocupação.

“Eu estou ótima e qualquer coisa eu grito por você. Pode ir dormir.”.

“Grita mesmo?”

“Grito sim, eu prometo.” Eu disse e a garota sorriu para mim, ainda com seu olhar tomado por preocupação. Ela me desejou um boa noite e saiu do quarto logo em seguida.

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Foi a voz de Amy que me despertou. Eu me virei e a encontrei ao lado de minha cama. Em seguida, olhei para o relógio despertador que indicava ser duas da manhã.

“Meu amor, o que você está fazendo acordada?” Perguntei, sentando-me na cama e olhando para a minha pequena.

“Eu tive um sonho.” Ela respondeu em um tom chateado.

“Um sonho ruim?” Perguntei e ela balançou a cabeça em negativa.

“Só um sonho.” Completou, dando de ombros.

Eu a olhei por alguns segundos e lhe perguntei se gostaria de dormir comigo, mas ela balançou a cabeça.

“Então, qual é o problema, meu amor?” Eu insisti, pegando-a no colo e a trazendo para perto de mim.

Ela encostou sua cabeça contra o meu corpo, assim como fazia quando era apenas um bebê e ficou em silêncio. Eu não insisti na pergunta, apenas apoiei meu queixo gentilmente contra a sua cabeça.

“Parecia tão real.” Ela disse, depois de alguns minutos.

“Sonhou com a sua mãezinha? Foi isso?”.

“Não. Foi outra coisa.”

“Não quer me contar?” Eu perguntei e ela inclinou a cabeça para trás a fim de ver o meu rosto.

“Você acreditaria se eu contasse?” Perguntou, seu tom de voz tomado por preocupação.

“Existem poucas coisas nesse mundo que eu não acredito.” Eu respondi. “Mas você não precisa me contar se não quiser.” Continuei. “Agora, que tal voltar para a cama? Porque mamãe está muito cansada.” Ela então se levantou e eu acompanhei até o seu quarto, colocando-a na cama logo em seguida. “Bom restinho de noite, meu anjo.” Eu disse, dando-lhe um beijo em seu rosto e ganhando o sorriso mais lindo do mundo de volta.

Eu me virei em direção a porta, mas ela me chamou, fazendo-me virar para vê-la.

“Mamãe.”

“O que foi, meu anjo? Você quer que eu fique aqui até você pegar no sono?”

“Não, eu quero que você acredite em mim. Porque ele disse que talvez você não acreditasse.” Disse, sentando-se em sua cama.

“Ele?” Eu perguntei, um pouco intrigada.

“O homem que estava em meu sonho. Ele disse que você não acreditaria nele, por isso ele deixou um recado para você na minha mochila.” Continuou e apontou para a sua mochila que estava encostada próxima ao seu guarda-roupa.

“Foi só um sonho, meu amor.” Eu disse, acompanhando seu olhar para a mochila.

“Eu sei, mamãe. Mas você pode me escutar?” Insistiu e eu caminhei novamente em sua direção e sentei-me em sua cama.

“Claro, meu amor. O que é que você quer me contar?” Perguntei. Ela ficou em silêncio, seus olhos azuis denunciavam certo medo. Eu segurei suas mãozinhas, apertando-as gentilmente, tentando lhe passar a ideia de que estava tudo bem. “Por que você está tão preocupada?”

“Mamãe, eu não posso te salvar.” Ela disse e seus olhos se encontraram com os meus.

Havia medo escondido em seu olhar e sua voz era de pânico. Novamente eu senti meu coração se apertar, mas dessa vez eu sabia o motivo.

“Meu amor, não é o seu trabalho me salvar. Aliás, eu não preciso ser salva, mamãe está bem.” Eu disse, mas ela balançou a cabeça.

“Precisa sim, mamãe. Mas você não vai me deixar te salvar.”

“Amy, tudo isso foi só um sonho. Você está um pouquinho confusa, porque acordou agora, mas daqui a pouco sua mente vai estar um pouco melhor. Por que não volta a se deitar e tenta dormir um pouco? Eu vou estar aqui o tempo todo, até você pegar no sono.” Eu disse e seu rostinho se transformou em pura decepção.

“Eu disse que você não acreditaria em mim.” Respondeu. “Mas, mamãe, você tem que acreditar. Eu vim aqui para isso! Ele disse isso!” Ela continuou, agora sua frustração misturando-se ao desespero.

“Amy...” Eu comecei a dizer, segurando-a pelos ombros. “Foi um sonho. Tudo foi um sonho. Seja lá quem for esse ele, seja lá o que ele te disse, foi só um sonho. Vai ficar tudo bem amanhã.” Concluí e a soltei imediatamente. Seu rosto franzido, indicava a raiva que ela estava sentindo naquele momento.

“Mas, mamãe. Eu tenho que te salvar! Assim como mamãe fez uma vez!” Ela disse, seus olhos se enchendo de lágrimas. “Eu quero te salvar, mamãe.” Completou, levando suas mãozinhas ao rosto.

Eu olhei para ela e eu nunca a vi tão desolada. Escutei o seu choro e seus soluços, que conseguiram partir meu coração em inúmeros pedaços.

“Me salvar do que, Amy?” Perguntei, sentindo que a qualquer momento eu poderia desabar junto com ela.

“Eu não sei.” Respondeu, balançando a cabeça. “Mas está aí dentro de você. No seu peito. Ele disse que dói e que vai doer mais se você não me deixar te ajudar.” Continuou e me deixou sem reação. Eu sabia que ela estava se referindo a dor no meu peito que eu havia sentindo horas antes, mas eu não sabia como ela poderia saber disso. “Ele disse que você escondeu tão bem dentro do seu coração que não lembrava disso.”

“O que eu escondi?” Perguntei, temendo a resposta.

“Raiva. Ódio. Muitas coisas, mamãe.” Respondeu em um sussurro, como se fosse um assunto que ela estivesse proibida de falar.

“Se eu as escondi, por que só estão vindo à tona agora?” Perguntei e ela olhou em direção a janela, engatinhando então até mim, ficando bem próxima.

“Porque ela está perto.” Respondeu, em tom tão baixo que eu mal a escutei

“Quem, Amy? Quem está perto?”

“Sua mãe.” Respondeu, sentando-se sobre suas pernas e olhando para mim.

Ela esperou por uma resposta e eu senti meu coração parar por alguns segundos.

“Meu amor, minha mãe está muito longe daqui. Ela não pode me machucar.” Eu respondi e novamente ela balançou a cabeça.

“Ela nunca esteve tão distante assim.” Respondeu. “Ela sempre foi uma das coisas que você escondeu ai no peito.” Completou, passando as mãos pela testa e afastando uma mecha de seu cabelo que lhe cobria os olhos.

“Boa noite, Amy.” Eu disse, aproximando-me dela e lhe dando um beijo na testa.

“Você ainda não acredita em mim, não é?” Insistiu.

Eu me levantei de sua cama e a encarei por alguns segundos. Eu só queria voltar para minha cama, esquecer todo esse assunto, mas ela ainda tinha aquele olhar quebrado de antes. Então, eu respirei fundo e esperei por alguma explicação que fizesse sentindo.

“Meu amor, é muita coisa para digerir. Nós deveríamos apenas voltar para a cama.”

“Olha na minha mochila, mamãe! Olha o recado que ele te deixou!” Eu olhei novamente para a mochila e depois para Amy.

“Você mesma disse que foi um sonho. Ele não teria como me deixar um recado.”

“Mas ele é real.” Respondeu. “Eu sei que é.”

Eu fui em direção a mochila, a fim de provar que tudo não havia passado de um sonho. Procurei em cada um dos pequenos bolsos e então me ajoelhei diante da mochila, quando meus dedos tocaram em um objeto.

Eu o tirei do bolso da mochila e encarei a pequena argola de aço que uma vez ornamentou a sela de um cavalo e que uma vez Daniel usou para me pedir em casamento. Mas eu o havia perdido anos atrás, quando o usei para recuperar a maça envenenada.

“Quem colocou isso aqui, Amy?” Perguntei, olhando em sua direção.

“Eu já disse. Ele colocou.” Ela respondeu e eu encarei novamente a argola em minha mão.

“Amy, não mente para mim. Quem colocou isso aqui?” Eu insisti e ela pulou da cama e caminhou em minha direção.

Amy se ajoelhou em minha direção e olhou a argola de minha mão. Ela insistiu em sua resposta e eu senti meus olhos se encherem de lágrimas. Eu sabia que não podia ser a mesma argola, pois eu a havia perdido anos atrás, assim como havia perdido Daniel.

“Meu amor, isso é uma brincadeira de muito mau gosto.” Eu disse, sentindo meus olhos se encherem de lágrimas, apenas por ter trazido essa lembrança de volta aos meus pensamentos.

“Ele não queria te chatear.” Ela disse e eu ri, secando minhas lágrimas.

“Eu sei, mas quem quer que tenha colocado isso aqui, queria. Queria muito me chatear.” Eu respondi e ela tocou na minha mão que ainda segurava a argola.

“Não foi outra pessoa, você sabe disso.” Ela disse olhando bem em meus olhos.

Eu não consegui ver mentira alguma no olhar dessa criança, mas também não conseguia acreditar que o que ela me dizia era verdade.

“Meu amor, há muitos anos atrás alguém me deu uma argola igual a essa-”

“Eu sei a história, mamãe.” Ela disse. “Ele me contou e não foi uma argola igual a essa. Foi exatamente essa.”

“E você sabe disso por que ele te contou?” Insisti e ela assentiu. “Meu amor, foi tudo um sonho.”

“Por que é tão difícil acreditar em mim, mamãe?”

“Porque se eu acreditar em tudo o que você está me dizendo. Então eu vou ter que acreditar que o fantasma do meu ‘ex’ está te assombrando. Eu vou ter que acreditar que minha mãe está voltando!”

“E também teria que acreditar que eu posso te salvar.” Respondeu. “Por que não quer ser salva?”

“Por que acha que eu preciso ser salva?”

Ela então se aproximou de mim, tocando em meu peito com uma de suas mãos. Não houve troca alguma de palavras, mas eu consegui entender suas intenções. Eu fiquei em silêncio e a ouvi perguntar se eu aceitava ser salva. Dessa vez, eu não a questionei e não tentei convencê-la de que tudo havia sido um sonho. Não tentei lhe dizer que ela estava errada. Eu apenas disse que sim e fechei meus olhos, enquanto apertava em minhas mãos o anel que uma vez significou o mundo inteiro para mim.

Eu senti sua mãozinha sobre o meu peito, seus dedos invadindo meu tórax e tocando o meu coração. Em nenhum momento eu senti dor, mas ainda assim eu chorei com o seu gesto. Minhas lágrimas desceram pelo meu rosto, quanto ela enfim retirou meu coração de meu peito.

Quando eu abri meus olhos, lá estava ela a minha frente, segurando meu coração com as suas duas mãozinhas. Vários pontos negros haviam ao redor do órgão. Ela não disse nada, apenas observou em silêncio o coração batendo em suas mãos. Amy elevou seu olhar para mim e sorriu, enquanto aproximava seu coração de seus lábios, assoprando cada um dos pontos negros que havia nele.

Se antes havia lágrimas em meu rosto, agora eu mal podia vê-la nitidamente a minha frente. Apenas lágrimas havia em meu olhar e já não fazia mais sentido algum em secá-las. Ela então parou e eu percebi que havia sobrado um pequeno ponto negro no coração.

“Eu não posso tirar esse, mamãe.”

“Por que não?”

“Porque você escondeu esse muito bem.” Respondeu, fazendo-me sorrir. “Desculpa, mamãe.”

Eu me aproximei dela e lhe beijei no rosto, dizendo-lhe em seguida que estava tudo bem. Ela então se aproximou novamente e colocou meu coração de volta. Eu senti meu peito mais leve e novamente as lágrimas desceram pelo meu rosto.

“Tá tudo bem agora, mamãe.” Ela disse, secando minhas lágrimas e beijando minhas bochechas. “Você vai conseguir tirar esse último pontinho.” Continuou e eu sorri novamente para ela. Segurei suas mãozinhas e as beijei inúmeras vezes, antes de beijá-la novamente no rosto.

“Eu te amo muito, meu anjo.” Eu disse e ela se jogou em meus braços.

Eu a abracei o mais forte que eu pude e ela afundou seu rostinho em meu pescoço, dizendo o quanto me amava. Eu senti seu corpo aos poucos se entregando ao cansaço, mas eu não me atrevi a levantar com ela. Apenas continuei com ela em meus braços, como eu fazia quando ela era um bebê.

Quando ela enfim adormeceu, eu a coloquei sobre as minhas pernas, vendo seu rostinho e tentando imaginar quais sonhos passavam pela sua cabeça. Em seguida, olhei para a argola que eu ainda segurava. Eu não saberia dizer em até que ponto sua história era verdadeira e eu já não mais queria pensar sobre isso.

Então, eu olhei uma última vez para a argola, trazendo-a para os meus lábios, dando um último beijo, antes de fazê-la desaparecer por magia. Eu olhei para Amy, toquei em seu rosto com a ponta de meus dedos e percebi o quanto ela estava certa sobre uma coisa e eu nem precisava me esforçar para acreditar nisso. Ela de fato estava aqui para me salvar. Eu só gostaria que ela entendesse que ela já havia feito isso há muito tempo atrás.