Amy

16 Vejo Enfim


Notas iniciais
Um agradecimento em especial pra TheEvil que me deixou uma recomendação incrível aqui na fic, fiquei muito feliz com o carinho, pelos elogios e por ter criado uma conta pra vim expressar seu amor e carinho por essa historia! Fico extremamente agradecida!

Capítulo 16 – Vejo Enfim

Amy estava sentada na mesa da cozinha balançando seus pezinhos, que ainda não alcançavam o chão. Ela ignorava minha presença, enquanto comia seus biscoitos e assistia a um desenho qualquer na televisão. Era tarde da noite e eu logo teria que colocá-la na cama, mas assim como ela meus pensamentos se encontravam perdidos. Em minha mente, eu reprisava os eventos das últimas horas. Eu conseguia ver claramente Amy com o coração do garoto nas mãos e essa cena se repetia inúmeras vezes, a ponto de quase fazer minha cabeça querer explodir.

“No que está pensando?” Perguntou Henry, em um sussurro, se aproximando e me trazendo de volta a realidade.

“Em Amy. No que ela fez hoje à tarde. Em tudo...” Respondi, tentando ser o mais discreta possível, a fim de que Amy não pudesse ouvir nossa conversa. “Eu não consigo parar de pensar no que a levou a fazer aquilo e como.”

“Ela já te disse o por quê.” Henry respondeu, mantendo a voz baixa, assim como eu, mas não havia preocupação em sua voz. Provavelmente ele não estava vendo as coisas da mesma forma que eu via.

“Você não entende, Henry.” Eu disse, frustrada.

“Eu entendo sim, mãe.” Ele respondeu. “Você tem medo que ela se torne você. De que ela se torne a rainha má ou a princesa má, seja lá como você queira chamá-la. Mas te adianto algo, ela não é você e nunca será.” Completou, segurando minhas mãos em uma tentativa de me acalmar.

“Henry, eu sei muito bem disso. Mas querendo ou não, eu faço parte dela, não faço? E se, de alguma forma, eu a influenciar a tomar o caminho que eu tomei? E se, de alguma forma, eu já a influenciei? Você viu o rosto dela, Henry. A frieza que ela tinha no olhar. Por um momento, eu não a reconheci. E eu lembro muito bem a primeira vez que eu arranquei um coração. Eu me lembro como eu me senti. De todo o poder que aquele órgão tinha. Eu mudei a partir daquele momento. Eu virei outra Regina. E foi uma das coisas mais difíceis que eu fiz. Eu cheguei a jurar que não conseguiria e de fato eu não consegui da primeira vez. Mas Amy não, ela simplesmente arrancou o coração do garoto. Sem treinamento algum. Ela simplesmente o fez.” Eu concluí, enxugando as lágrimas de meu rosto.

Eu tentei respirar fundo, pois a última coisa que gostaria era ter uma crise na frente dos meus filhos. Henry, por sua vez, manteve a calma e se aproximou de mim para um abraço.

“Mãe, para de pensar nisso. E se te incomoda tanto, por que você não conversa com ela a respeito?”

“E digo o quê a ela?” Perguntei, tentando entender como isso me ajudaria.

“Não sei, converse com ela a fim de ver que existe sim uma parte sua nela, mas é a melhor parte.”

Em seguida, ele se afastou e caminhou em direção à irmã, beijando-a na testa. Ela deu risada com o gesto, oferecendo-o em seguida um de seus biscoitos. No minuto seguinte, sua atenção voltou totalmente à televisão. Talvez Henry estivesse certo. Talvez eu estivesse pensando demais no assunto. Amy se virou para mim, acenando com um de suas mãos, enquanto sorria. Eu acenei de volta e foi inevitável não lembrar que horas atrás essa mesma mãozinha que me acenava havia arrancado um coração.

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“Eu ainda não quero sair, mamãe.” Disse Amy, de dentro da banheira.

Ela estava brincando de pegar todos os seus patinhos de borracha e afundá-los de uma vez na água, para ver qual deles voltava o mais rápido a superfície.

“Bem, uma hora você terá que sair da banheira ou a água deixará seus dedos todos enrugados.” Eu disse, fazendo-a olhar para os seus dedinhos a fim de conferir se eu estava certa.

“Acho que ainda temos tempo. E eu até já escovei meus dentinhos. Acho que dormir pode esperar!” Ela respondeu e, mesmo sabendo que ela já estava ali há algum tempo, eu permitir que ficasse mais um pouco.

“Só mais cinco minutinhos.”

“Ok!” Ela respondeu, animada.

Eu me ajoelhei diante da banheira, me apoiando e observando-a brincar. Ela não parecia ligar para minha presença, até que depois de um tempo olhou para mim. Seus olhinhos azuis, repletos de inocência, fitaram os meus. Eu senti como se ela pudesse ler todos os meus pensamentos e sentir todas as minhas angustias. Ela ficou em silêncio por um tempo e se aproximou, colocando suas mãozinhas na borda, bem próxima a mim.

“O que foi, mamãe?” Perguntou, tocando em meu nariz com um de seus dedos, que agora estavam completamente enrugados.

“Nada, meu amor. Mamãe só está pensando.” Respondi, imitando seu gesto.

“Pensando em que?” Perguntou, parecendo realmente interessada.

“Pensando em tudo o que aconteceu hoje. Pensando em você e naquele garoto.”

“Mas isso já aconteceu.” Disse, como se o evento tivesse ocorrido em um passado muito distante. Eu dei risada e concordei com ela.

“Eu sei que sim, meu amor. Mas algo ainda me incomoda.”

“Tipo o quê?” Perguntou.

Eu me levantei e peguei uma toalha, tirando-a da banheira em seguida.

“O que passou pela sua cabeça, por exemplo.” Disse, ajoelhando-me diante dela. “Quando você tirou o coração daquele menino. Por que você decidiu fazer aquilo, meu anjo?” Eu perguntei.

Amy franziu o cenho e baixou o olhar por alguns instantes, como se pensasse em uma resposta, em seguida ela deu de ombros.

“Eu não sei. Eu apenas queria que ele parasse de dizer aquelas coisas.” Respondeu, senti pelo seu tom de voz que ela havia ficado chateada em ter que me responder.

“E o que você sentiu? Quando segurou aquele coração?” Insisti.

Seu rosto denunciava que falar sobre o assunto a incomodava, então eu a trouxe para perto de mim, enrolando-a na toalha. Ela afundo seu rosto na toalha, que a cobria até o pescoço e pareceu refletir a respeito.

“Antes de arrancar o coração dele, eu senti raiva.” Disse, em um tom extremamente chateado. “Mas então, quando eu senti o coração dele na minha mão. Eu senti a raiva dele, mamãe. Eu senti tudo o que ele estava sentindo. Tudo o que ele carregava no coração. Era tão pesado, tão cheio de raiva e doía tanto. Então, eu quis fazer algo por ele, mas eu não sabia como fazer. Ou o que fazer...”

Ela deu uma pausa e olhou para mim. Seus olhos estavam cheios de lágrimas e a puxei para um abraço. Ela afundou seu rosto em meu pescoço, enquanto eu lhe dizia que estava tudo bem.

“Eu não quis machucar ele, mamãe.” Disse, tentando controlar suas lágrimas.

“Eu juro que eu não queria machucar ele. Também não queria te preocupar. Eu só queria que ele nunca tivesse falado aquelas coisas. Eu só queria que as pessoas entendessem que a gente é criança e que somos pequenos, mas não quer dizer que a gente não sente as coisas iguais vocês que são grandes.” Continuou e me fez afastá-la a fim de ver seu rostinho coberto por lágrimas.

Era inevitável não chorar junto com ela. Eu enxuguei cada uma de suas lágrimas e tentei sorrir para ela, para lhe dizer que estava tudo bem.

“Você é mesmo um anjo, não é? Eu aqui me preocupando em você se tornar o que eu fui um dia, mas você só estava querendo acabar com a dor do garoto.” Disse, mas ela não pareceu entender muito bem o que eu havia dito. “Eu te amo muito por isso, meu anjo. Você é simplesmente tudo o que eu nunca pude ser.” Completei e ela forçou um sorriso, pois provavelmente não estava entendendo muita coisa.

Eu a levantei do chão e caminhei junto com ela em direção ao seu quarto.

“Que tal um pijama bem quentinho para te aquecer?” Perguntei e ela riu com a sugestão, enquanto limpava seu rostinho sujo por lágrimas com a toalha que estava enrolada.

Eu escolhi um pijama para ela e a ajudei a se trocar. Ela agora parecia tão distante, diferente de como estava minutos antes. Essa imagem quebrou meu coração, pois eu sabia que sido tudo culpa minha. Assim que ela terminou de colocar o pijama, se jogou em sua cama e eu a cobri, deixando-a completamente enrolada em seu cobertor.

“Bem, agora você está parecendo um bolinho primavera.” Eu disse e ela soltou uma gargalhada concordando comigo. “Desculpa, meu amor, por te chatear com aquelas perguntas.”

“Tudo bem, mamãe. Isso já aconteceu.” Disse, livrando seus bracinhos do cobertor. “Eu posso ligar para mãezinha para dar boa noite a ela?”

“Claro que pode.” Respondi.

Caminhei pelo quarto para pegar seu celular que se encontrava em sua mesinha. Entreguei a ela e esperei que fizesse a ligação. Um sorriso apareceu em seu rosto, quando a voz de sua mãe surgiu do outro lado da linha.

“Olá, mãezinha!” Disse e me deu espaço para que eu me juntasse a ela, a fim de ouvir a ligação.

“Oi, meu amor. Já está pronta para dormir?” Perguntou Emma.

Amy se virou e colocou o celular entre nós duas, colocando-o no autofalante de modo que nós duas pudéssemos escutar o que sua mãe dizia.

“Estou sim, mãezinha. Eu estava toda enrolada igual a um bolinho primavera, mas me desenrolei para falar com você. E eu estou usando um pijama maneiro de dinossauros!” Respondeu e escutamos Emma rir.

“Ah, é mesmo? Deve estar linda.”

“Estou bem linda sim!” Respondeu Amy e escutamos outra risada. “E você está usando pijamas de que?” Amy continuou.

“Ah, eu estou usando um pijama bem maneiro também.” Emma respondeu. “Mas é de ursinhos, não de dinossauros.” Continuou e agora foi a vez de Amy rir.

“Aposto que você está linda com ele também.” Amy respondeu.

“Bem, aposto que não tão linda quanto você, meu anjo. Mas agora é hora de dormir, não é mesmo?

“Mas eu ainda podia ficar mais acordada, mãezinha.” Ela respondeu, em um bocejo.

“Já passou da sua hora, meu amor e você está exausta.” Eu disse, acariciando seus cabelos.

“Tá certo, então eu vou dormir.” Respondeu, parecendo emburrada, mas deixando bem claro o quanto estava com sono.

“Boa noite, meu amor. Tenha vários sonhos bem lindos.” Disse Emma.

“Boa noite também, mãezinha. Eu amo você.”

“Eu também te amo.” Emma disse por fim e Amy me entregou o celular.

Eu me levantei, lhe dando um beijo em seus cabelos e lhe dizendo o quanto eu a amava.

“Só tenha sonhos bons, meu amor.” Disse.

“Vou ter sim, mamãe.” Respondeu e fechou os olhos.

Ela estava exausta e não demorou muito a pegar no sono. Eu esperei alguns instantes e saí do quarto com Emma ainda ao telefone.

“Hey, meu amor. Sou eu.” Eu disse.

“Hey, como ela está?” Perguntou e eu caminhei até o nosso quarto, sentando-me na cama e sentindo meu corpo completamente exausto.

“Ela está bem.”

“E você como está?” Perguntou, fazendo-me soltar um suspiro.

“Eu vou ficar bem. Eu estaria melhor se você estivesse aqui comigo.” Respondi.

“Ah, Regina. Eu bem que gostaria, você sabe.”

“É, eu sei... Mas nada te impede, você sabe disso.” Eu disse e ela ficou em silêncio. “Desculpa, eu sei que não devo forçar essas coisas, mas é inevitável. Você faz muita falta aqui. Esse quarto, essa cama, não tem sentido nenhum sem você.”

“Eu sei, Regina. E eu já disse que gostaria de estar ai.”

“Então vem, traz seu corpo para cá, com seu pijama de ursinhos.” Eu disse e a escutei rir do outro lado. “Você não está usando pijama nenhum de ursinho, não é mesmo?”

“Não mesmo! Eu não estou usando nada, para sua informação!” Respondeu, apenas para me provocar e conseguindo muito bem.

“Isso é muita maldade, Emma.”

“Você sabe que é brincadeira. Eu estou usando aquela sua camiseta de seda que eu nunca te devolvi e vou te deixar imaginando a cor da minha lingerie.”

“Ok, agora isso sim é maldade, Emma!”

“Desculpa, Regina. Eu realmente gostaria de estar aí essa noite. Foi um dia bem estressante, sei bem disso. Mas hoje a única coisa que eu posso fazer é te desejar boa noite e que tenha bons sonhos.” Respondeu e eu me deitei em minha cama, olhando para o espaço vazio ao meu lado.

“Já é muito, Emma.” Eu disse, mas ainda assim a desejei ali comigo. “E mesmo porque você sempre estará em meus sonhos.”

“Bem, você sempre está nos meus também e eu sinto que falta pouco para nossos sonhos fazerem parte da nossa realidade.”

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Pela manhã, era sempre a mesma correria de todos os dias. Estávamos todos atrasados como sempre e mesmo sabendo disso, Amy fez questão de tentar amarrar sozinha seus sapatos o que nos tomou alguns minutos. Ela acabou ficando frustrada, Henry totalmente impaciente, que desistiu de esperar por nós duas e resolveu pegar um ônibus.

“Nós vamos se atrasar, Amy.” Eu disse.

Ela estava sentada no último degrau da escada, agora tentando outra forma de amarrar os cadarços.

“Eu tô quase conseguindo, mamãe.” Respondeu, mas obviamente nós não sairíamos dali nem tão cedo, se eu permitisse que ela continuasse.

Ajoelhei-me diante dela, recebendo seu olhar de total frustração.

“E se você usasse magia?” Perguntei, em uma tentativa de incentivá-la a usar sua magia.

Ela sorriu com a sugestão e olhou fixamente para os cadarços. Seu semblante era de total concentração e eu fiquei em silêncio. Alguns segundos depois os cadarços se levantaram no ar e os cordões pareceram dançar um com o outro. Em poucos segundos, eles se juntaram, formando um laço perfeito e deixando Amy bem satisfeita.

“Eu consegui!” Ela disse, ficando em pé e pulando pelo saguão de entrada com apenas um de seus sapatos amarrados.

“Muito bem, meu amor!” Eu disse, ela se jogou em meus braços e eu a abracei. “Agora faça também no outro sapato e vamos correndo para escola!”

“Tá certo, mamãe.” Disse e olhou para o segundo sapato. O segundo laço foi feito com mais rapidez do que o primeiro. “Eu só vou dizer para o Totó se cuidar, enquanto eu tiver fora.” Disse Amy, correndo para a lavanderia onde o cachorro estava preso.

“Ah, meu deus, Amy!” Eu disse, em um tom irritado, mas ela estava longe demais para me ouvir.

Meu relógio de pulso informava que faltava menos de dez minutos para o sinal da escola tocar. Eu fui até Amy e a encontrei ajoelhada diante da grade que prendia Totó.

“Nós estamos atrasadas, meu anjo.” Eu disse, pegando-a pela mão e a levando em direção à porta.

“Ele não gosta de ficar só, mamãe.”

“Bem, ninguém gosta, mas ele é um cachorro e cachorros não podem ir a todos os lugares com a gente.” Respondi, enquanto abria a porta do carro para ela.

“Eu sei!” Ela disse, em tom frustrado, sentando-se em sua cadeirinha de segurança. Eu a amarrei com o cinto e me sentei em meu banco. “Mas cachorros também aprendem, sabia? E eu tava pensando, por que ele não pode ir para escola comigo?” Perguntou e eu a olhei pelo retrovisor, seus braços cruzados em frente ao corpo e seu olhar fixo em uma das janelas, completamente irritada.

“Bem, porque ninguém leva os seus bichinhos de estimação a escola.” Respondi, enquanto dirigia, tentando ir o mais rápido possível, mas a essa altura já estávamos atrasadas demais.

“Harry Potter leva!” Respondeu, me fazendo rir.

“Certo, vamos fazer o seguinte, Amy.” Respondi, tentando segurar o riso. “Quando você receber sua carta de Hogwarts, você poderá levar o bichinho que quiser a aula, temos um acordo?” Perguntei e vi sua reação pelo retrovisor. Ela sorriu, enquanto se ajeitava na cadeirinha.

“Eba!” Respondeu em um tom animado e passou o resto da viagem em silêncio.

O colégio estava apenas alguns minutos de distância, mas, apesar de ser um dia normal de aula, as ruas estavam atipicamente calmas o que me fez chegar mais rápido do que eu esperava. Assim que eu cheguei ao colégio, algo chamou minha atenção. Havia uma barreira policial e o carro de Emma estava estacionado, assim como o de David e de Snow, Ruby também estava com eles. Eu não via sinal de criança alguma. David caminhou até o meu carro, o que me fez estacionar no acostamento.

“O que o vovô tá fazendo aqui, mamãe?” Amy perguntou, mas eu não soube o que responder.

Assim que parei o carro, David se aproximou da janela e seu semblante era de pura preocupação.

“O que aconteceu? Emma está bem?” Perguntei, sentindo meu coração saltar pela boca.

“Ela está bem. Ela está lá dentro com a diretora. Aconteceu uma coisa, Regina.” Respondeu, em um tom baixo e sua atenção foi para Amy, que se desprendia de sua cadeirinha e tentava sair do carro.

“Que coisa?” Perguntei, saltando do carro e ajudando Amy a descer do banco de trás.

“Bom dia, vovô!” Disse Amy, jogando-se nos braços de David, que lhe distribui vários beijos no rosto, enquanto respondia de volta seu bom dia. “Eu amarrei sozinha meus sapatos hoje!” Continuou, completamente alheia ao que estava acontecendo.

“Mas você está ficando mesmo uma mocinha bem grandinha, não é mesmo?” Perguntou e Amy colocou seus braços ao redor de seu pescoço e assentiu para ele.

“Eu preciso ir para aula, vovô. Eu já estou atrasada bem bastante.” Disse, fazendo-o rir.

David olhou para mim e eu observei que durante todo o tempo ele tinha Amy voltada contra a escola. Eu olhei para prédio e entendi suas preocupações. O prédio inteiro estava pinchado com uma tinta vermelha. De onde eu estava, não era possível ler o que estava escrito. Eu olhei para David, buscando uma resposta.

“Meu amor, hoje as aulas foram canceladas.” Ele disse a ela. “Então, você vai passar o dia com sua avó, o que acha?” Perguntou, tentando manter o tom mais animado possível.

“Eu já ia mesmo passar o dia com ela, vovô. Mas pelo menos eu não vou dividir ela com ninguém.” Ela respondeu e ele riu com a observação.

“Regina, por que você não vai falar com Ruby e Snow? Eu levo Amy para casa e fico com ela até Snow chegar.” David disse e eu me aproximei de Amy, beijando-lhe o rosto e lhe desejando um bom dia.

“Até depois, mamãe.” Amy respondeu.

David a colocou no chão e os dois saíram caminhando em direção ao carro dele, que estava a alguns metros dali. Eu me virei e fui até Snow e Ruby.

“O que isso significa?” Eu perguntei, aproximando-me da barreira que havia sido criada, provavelmente por Emma.

“Eu não sei.” Snow respondeu, havia aflição e preocupação em sua voz. Então, eu olhei para as paredes do prédio e vi as palavras que ali foram pinchadas. “Mini-Bruxa”, “Filha do demônio”.

“Quem faria uma coisa dessas?” Perguntei, olhando para Snow e Ruby, que apenas balançaram a cabeça.

“Alguém que obviamente quer afetar vocês.” Ruby respondeu.

“E conseguiu, não é mesmo?” Eu respondi, completamente nervosa, olhando para a imagem a minha frente.

“Eu não consigo rastrear quem fez isso.” Ruby continuou. “Alguma coisa impede meu faro.”

“E quanto as câmeras de segurança?” Eu insisti e Ruby balançou a cabeça, me dizendo que as câmeras foram destruídas antes da ação.

“Isso é ridículo!” Respondi, senti meu tom de voz mudando, enquanto eu caminhava em direção ao prédio, observando o tamanho da mensagem ali deixado. “O que essa pessoa ganharia com isso?”

“A expulsão de Amy da escola.” Snow respondeu.

“Ela só tem cinco anos!” Eu retruquei e Snow ficou em silêncio.

“Mas para quem quer que tenha feito isso a idade dela não importa e sim o que ela é.” Ruby disse, fazendo-me olhar outra vez para a mensagem pinchada.

“A filha do demônio.” Li em voz alta. “Minha filha.” Eu pensei comigo mesma. “Onde está Emma?” Perguntei e Snow respondeu que ela estava com a diretora.

Eu fui até a diretoria, já de frente a sala eu pude ouvir a voz exasperada de Emma gritando com a diretora. Eu entrei na sala e no mesmo instante as duas ficaram em silêncio.

“Sra. Mills.” Disse a mulher, com uma de suas mãos apontou para mim uma das cadeiras. Eu me aproximei sentando-me e sendo acompanhada por Emma que não ousou olhar para mim.

“Sra. Keating.” Eu disse, Emma que olhou para mim por alguns segundos, forçando um sorriso. “Você está bem?” Eu perguntei a Emma, inclinando-me em sua direção e tocando em seu braço. Ela apenas assentiu e continuou com a atenção voltada para a diretora.

“Sra. Mills.” Ela começou. “Eu estava aqui antes conversando com a sua esposa sobre a situação de Amy.”

“E qual é a situação dela?” Eu perguntei e a senhora tomou alguns segundos antes de continuar.

“Bem, acredito que você tenha visto a mensagem que foi deixada na frente do nosso prédio.” Ela continuou.

“Eu não acho que tenha sido uma mensagem.” Emma a interrompeu. “Quem quer que tenha feito aquilo não quis deixar uma simples mensagem, Sra. Keating. A pessoa, seja quem for, tomou cuidado para que nenhuma das câmeras a filmasse e ainda por cima ligou no seu telefone pessoal ameaçando a minha filha!” Emma completou, seu tom de voz completamente transtornado.

“Como é?” Eu perguntei, inclinando-me na cadeira de modo a ouvir melhor o que a diretora tinha a dizer.

“Alguém me ligou esta manhã, Regina.” A senhora começou a dizer. “O telefonema foi direcionado para minha residência e a pessoa dizia ser mãe de uma de nossas crianças. Ela me pediu que ou eu expulsava Amy do colégio ou ela faria com que todas as mães tirassem seus filhos.”

“E o que você disse?” Eu perguntei.

“Bem, eu perguntei o porquê disso e ela disse que seu filho tinha visto Amy no parque na tarde de ontem e que sua menina arrancou o coração de um dos garotos do Colégio Secundário. Ela disse que isso assustou muito seu filho e que ele mal conseguiu dormir essa noite.” Ela completou e Emma se mexeu nervosamente na cadeira. Eu estiquei um de meus braços e segurei sua mão.

“Ainda assim, eu disse a ela que isso era uma grave acusação e que não havia acontecido na minha escola. De modo que eu não podia fazer nada, até ter mais detalhes sobre o ocorrido.” A diretora continuou. “Mas então quando eu cheguei hoje na escola, eu vi isso e os pais das crianças ficaram muito incomodados e assustados e algumas delas nem permitiram que as crianças descessem do carro. Eu achei melhor então cancelar as aulas por hoje, chamei a Xerife aqui para investigar o vandalismo e também para conversar sobre Amy.”

“Quem era a mãe do aluno?” Eu perguntei e a diretora balançou a cabeça dizendo que não podia dizer sua identidade, pois não queria comprometer o garoto. “E o que a gente deve fazer?”

“Sinceramente, Sra. Mills, como eu estava dizendo para a sua esposa, antes de você entrar, eu realmente acho que o melhor a fazer é afastar Amy das atividades escolares até tudo se acertar.” A senhora respondeu, percebi o quanto ela estava tomando cuidado com suas palavras.

“O que se acertar, Sra. Keating?” Emma perguntou, seu tom de voz tomado por tamanha tristeza. “Até ela deixar de ser filha de um demônio ou sabe lá deus o que mais a chamam pelas nossas costas?” Continuou e seus olhos se encheram de lágrimas.

“Sra. Swan, sua filha aqui é vista da mesma forma que todos os outros alunos. Você sabe muito bem que nós nunca a tratamos diferente, assim como também nunca a discriminamos.” Respondeu a Sra. Keating, mas eu sabia bem que não era isso que incomodava Emma. “Eu estou apenas sugerindo o afastamento de Amy, pois eu acho que nesse momento é o melhor a se fazer. O caso dela já repercutiu na cidade e eu temo a reação das crianças com ela. Pela segurança, não física, mas emocional, de sua filha, eu fortemente sugiro que ela fique em casa alguns dias. Nós faremos o possível para garantir que ela volte às atividades na escola o quanto antes.” Ela concluiu. “Eu sinto muito, por tudo.”

“Nós também sentimos muito.” Emma respondeu e se levantou da cadeira, saindo do escritório e me deixando sozinha com a diretora.

“Você concorda com aquelas palavras?” Eu perguntei para a mulher a minha frente. Ela deu um sorriso, antes de me responder.

“Quem quer que tenha escrito aquilo, não conhece Amy como a equipe desse colégio conhece, Sra. Mills.” Ela deu uma pausa. “Não, eu não concordo. Eu acredito fielmente que o que quer você tenha sido no passado, já não existe mais e Amy deixa isso bem claro. Não ligue para o que os outros dizem, apenas olhe para ela e veja o que você criou. Você não verá vestígios da antiga Regina nela.” Ela completou e eu agradeci com um sorriso, enquanto saia do escritório.

Não encontrei Emma no corredor. Olhei ao redor e vi uma das portas abertas e caminhei até ela, refletindo sobre as palavras que a diretora havia me dito. Era estranho, mas era como se eu ainda pudesse sentir a rainha má em mim, adormecida em alguma parte de meus pensamentos. Tão escondida que nem eu sabia como procurá-la. Eu sabia que não existiam vestígios desse monstro em minha filha, mas ainda assim eu acreditava que existiam vestígios dela em mim.

“Você está mesmo bem?” Eu perguntei a Emma, que havia entrado na sala de aula de Amy e agora caminhava por entre as cadeiras coloridas e os tapetes em forma de bichinhos, parando exatamente em uma das paredes, onde vários desenhos estavam pendurados em um barbante.

“Não, não estou.” Ela respondeu, virando-se para me encarar, enquanto eu me aproximava dela. “Eu estava tentando não pensar no que aconteceu ontem, sabe? No que aconteceu no parque, mas foi inevitável não pensar nisso hoje.”

“Emma, as pessoas têm medo do que Amy pode fazer com a sua magia, mas nós sabemos muito bem que ela nunca machucaria ninguém.” Eu disse, aproximando-me dela, a fazendo se virar para mim. Ela sorriu e soltou uma risada em um tom de deboche.

“Você não entende, não é mesmo?” Ela perguntou, deixando-me confusa. “Tudo isso aconteceu não porque Amy usou sua magia e arrancou o coração de um garoto. Tudo isso aconteceu porque um garoto disse para os nossos filhos, enquanto nós duas estávamos nos beijando, que eles não têm uma família de verdade!” Ela deu uma pausa, seu tom de voz era tomado por tristeza e raiva.

“Não importa quantos anos se passem. Você e eu nunca seremos vistas como um casal normal, Regina!” Continuou Emma e seus olhos se encheram de lágrimas, ela nem ousou enxugá-las. “E não é porque você é a Bruxa Má e eu deveria ser a Princesa, é simplesmente pelo fato de que você e eu...” Ela deu outra pausa, soltando um suspiro cheio de exaustão, caminhando então por aquela sala de aula. “Nós nunca vamos ser totalmente aceitas, não é mesmo? Contos de fadas não foram criados para dar finais felizes para pessoas como nós. Ninguém nunca escreveu e nem vai escrever contos sobre duas garotas que se apaixonaram e tiveram uma família. Nós vamos sempre nos submeter a receber o ódio gratuito, aos olhares tortos e a todos os nomes e títulos que eles insistem e nos dar, pois simplesmente não conseguem aceitar que nós queremos apenas ser felizes da maneira que somos.” Ela completou e sentou em uma das cadeiras, repousando a cabeça em suas mãos, enquanto eu me ajoelhava a sua frente.

“Nós sempre soubemos que enfrentaríamos todos os tipos de julgamento, Emma. Nós conversamos tanto sobre isso e nós demoramos tanto para enfrentar nossos medos, mas no fim entramos em um acordo de que não importava o que os outros pensavam ou falavam de nós duas. Nós iriamos enfrentar isso e iríamos construir nossa história. Então por que isso agora, Emma?” Eu perguntei, trazendo as mãos dela para mim e a fazendo me encarar, seus olhos repletos de lágrimas e dor.

“Por causa de Amy.” Emma respondeu, em um sorriso de lado. “E Henry e desse outro filho que eu realmente acho que não deveríamos ter... Porque, Regina, eu e você podemos enfrentar o mundo inteiro, todos os dias, até o final de nossas vidas, mas a gente não pode ignorar o fato de que nessa batalha não existe só eu e você. Existem nossos filhos e não é justo com eles. É muito egoísmo de nossa parte decidir termos um terceiro filho e submetê-lo a esse mundo doente. Por que faríamos isso, Regina? Por que escolheríamos fazer isso?” Ela terminou e minhas mãos ainda seguravam as dela e ela chorava copiosamente a minha frente, enquanto eu insistia em segurar minhas lágrimas. “E nós nem podemos protegê-los, a gente simplesmente não pode! Eu não posso!”

Eu então a puxei para mim, abraçando-a o mais forte que eu pude. Permiti que ela chorasse por alguns segundos e a afastei, fazendo-a se sentar no chão a minha frente, onde sequei seus olhos com os polegares e sorri para ela.

“Emma, não é só o preconceito que eles vão sofrer. O mundo não se restringe apenas a Storybrooke. Não são apenas as pessoas daqui que vão fazê-los se questionar e odiar o mundo. É o mundo por si só que fará isso. Serão as dificuldades do mundo, todos os nãos que eles receberão ao longo de suas vidas. Serão as guerras e a maldade dos homens que os farão ter medo do amanhã. Será simplesmente o amanhã e a incerteza do que a vida reservará a eles. Será o presente, Emma, que fará com que eles tenham seus medos e suas inseguranças e nós não podemos protegê-los de nada disso.”

“Não sei quais são suas intenções, mas você não está me ajudando muito.” Ela disse, me interrompendo.

Eu segurei seu rosto com as minhas mãos e a beijei por alguns instantes, antes de afastá-la novamente a fim de fazê-la olhar para mim.

“Nenhuma mãe pode proteger seus filhos do mundo, Emma. Nenhuma mãe pode mudar o mundo para que seus filhos cresçam em um lugar seguro. Nenhuma mãe pode garantir que seus filhos sejam felizes. Nem toda magia que eu e você temos em nós pode fazer isso, mas nós podemos criá-los para serem pessoas maravilhosas e isso eles já são, Emma. E graças a nós duas, graças a tudo o que nós somos e a tudo o que nós fizemos por eles.”

“Eu não fiz nada, Regina. Eu nunca estive lá por eles, por nenhum deles.” Ela disse, afastando minhas mãos de seu rosto.

“Você sabe que isso é mentira, Emma. Você esteve lá sim, todos os dias, sempre. Você pode não estar com eles fisicamente, mas você é inspiração que eles precisam para serem mais fortes, assim como você. Assim como você sempre foi. Você é a heroína deles, Emma.” Eu terminei e ela sorriu enfim, secando as últimas lagrimas de seu rosto.

“Você quer realmente ter esse filho, não é mesmo?” Ela me perguntou em um sorriso e eu não senti mais a raiva em seu olhar.

“Não é isso. Eu só quero te convencer de que o mundo inteiro vai tentar pisar nos nossos filhos, mas que nós demos a eles força o suficiente para levantarem quantas vezes for preciso. Eles têm muito orgulhos de ter nós duas como mães, Emma.” Eu concluí e lhe dei um beijo na testa.

“Eu sei que eles têm.” Ela respondeu. “Perdoe-me por ter esses pensamentos, Regina. É que eu só gostaria que-”

“Eu também, Emma.” Eu a interrompi, pois sabia que ela diria exatamente o que eu também tinha em meus pensamentos.

Ela diria que gostaria de protegê-los de tudo e de todos, assim como eu sabia que essa era uma de nossas preocupações de todos os pais ao redor do mundo.

“Eles são incríveis, não são? Nossos filhos.” Perguntou em um sorriso. “Eu gostaria que todos eles pudessem ser mágicos, sabe? Que fossem completamente nossos.”

“Eles são, Emma. Eles são bem mais que isso.” Eu respondi e ela se jogou novamente em meus braços.

“Não vamos desistir desse bebê.” Ela disse em um sussurro e me abraçou o mais forte que pode.

Eu senti em seu abraço toda a insegurança que ela estava sentindo e todo o medo que carregava consigo. Eu sabia que era normal, pois eu também tinha meus medos e minhas inseguranças. Assim como eu sabia o quão difícil e importante era essa decisão de ter outro filho e que não importava as dificuldades que enfrentaríamos, pois nós iríamos superar todas elas.

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Eu cheguei em casa mais cedo, pois não consegui me concentrar no trabalho. Encontrei Snow preparando o jantar e Henry fazendo seu dever de casa na mesa da cozinha. Dei um beijo em meu filho e me aproximei de Snow, dizendo-lhe que não precisava se preocupar com o jantar.

“Sei que não preciso, mas as crianças adoram minha comida e David está vindo jantar conosco. Se você não se importa, é claro.” Ela respondeu, caminhando em direção à geladeira.

“É claro que não me importo. Como está Amy?”

“Ela está bem. Está lá no quarto.” Disse. “Liguei para a Emma. Nós conversamos e ela me contou tudo o que aconteceu. Sinto muito, Regina.” Ela completou. “Se precisar de mim para ficar com a Amy, não hesite em pedir, pois eu largo aquela escola e venho ficar com minha neta.” Ela concluiu, me fazendo rir.

“Não vamos precisar. Tenho certeza que consigo uma babá para ficar com ela. Enquanto isso eu vou levá-la ao trabalho comigo.” Respondi e ela concordou. Fui até Henry, sentando-se ao seu lado. “E como foi na escola hoje?” Eu perguntei e ele deu de ombros.

“Um saco, como sempre. Normal.” Ele respondeu, sem tirar a atenção do livro que estava lendo.

“Não foi isso que eu quis dizer. Você sabe.” Eu disse e ele direcionou sua atenção a mim.

“Mãe, foi tudo bem na escola hoje. Depois do que aconteceu ontem eu duvido que alguém vai querer mexer comigo.” Ele continuou e riu.

“Sabe que pode conversar comigo sobre qualquer coisa que acontecer na escola, não é mesmo?” Eu insisti.

“Eu sei sim, mãe. Mas eu sei me cuidar.”

“Eu sei que sabe.” Eu disse, me levantando e dando novamente outro beijo nele. “Eu vou ver sua irmã.”

Antes que eu pudesse subir as escadas, Snow me seguiu, fazendo-me parar para encará-la.

“Regina, acho que você deveria conversar com Amy sobre o porquê ela não irá mais à escola esses dias.” Snow disse, trazendo minhas preocupações de volta a minha mente.

“Eu vou inventar algo.” Disse, subindo o primeiro degrau, mas ela me impediu novamente, segurando meu braço.

“Não, Regina. Acho que você tem que ser totalmente sincera com ela.”

“Você acha?”

“Sim, ela merece saber a verdade e, além do mais, um dia ela vai descobrir a verdade.”

“É, eu acho que você tem razão.” Eu disse enfim e subi as escadas até o quarto de Amy.

Eu parei assim que cheguei a sua porta. Ela estava sentada em sua mesinha de pintar, Totó deitado em sua cama, observando minha garotinha desenhar enquanto cantava uma música que eu mal podia ouvir direito. Eu bati a porta, chamando sua atenção.

“Olá, mamãe.” Disse e voltou sua atenção ao desenho.

Eu entrei, sentando-me em sua cama. Ela estava a poucos centímetros de mim, sua mesa cheia de colas coloridas, purpurinas e lantejoulas prateadas. Um grande papel branco estava em sua frente e suas mãos estavam completamente sujas de purpurina prateada. O chão do quarto se encontrava tão bagunçado quanto a mesa e eu sabia que toda essa bagunça sobraria para mim.

“O que você está fazendo, meu anjo?” Eu perguntei, levantando-me e sentando-me em uma cadeirinha ao seu lado.

“Um desenho para você e a para mãezinha.” Ela respondeu, limpando o rosto com a mão e o sujando completamente de purpurina prateada.

“E você vai precisar de todas essas coisas?” Eu perguntei, olhando novamente para a bagunça e para as lantejoulas espalhadas pelo chão.

“Aham! Preciso de tudinho!” Respondeu, pegando um dos lápis de cor e se preparando para desenhar, mas eu segurei sua mão fazendo-a parar.

“Mamãe pode conversar com você antes?” Eu perguntei, soltando sua mão.

Ela olhou para o papel branco a sua frente e depois para mim.

“Não pode ser depois, mamãe?” Perguntou, em um tom chateado. “É que eu tô com essa ideia na cabeça, porque eu vi o filme da Rapunzel hoje de novo com a vovó e eu pensei em fazer um desenho igualzinho aquela cena do barquinho e as lâmpadas no ar, sabe?”

“É logico que sei. É por isso que você precisa de todas essas coisas que brilham?” Eu perguntei e ela assentiu, voltando a pegar o lápis de cor.

“É por isso também que eu não posso demorar, porque às vezes quando você tem uma ideia na cabeça e um papel branco, você tem que fazer logo, senão o papel rouba toda a sua ideia e você esquece!” Ela respondeu e começou a desenhar um barquinho no meio do papel.

“Eu sei que seu desenho é muito importante, mas o que eu tenho a dizer também é. Então, se a gente puder conversar agora, eu prometo que se o papel roubar sua ideia, eu te ajudo a desenhar, que tal?” Eu perguntei.

Ela então parou de desenhar, segurou o lápis algum tempo no ar e olhou para mim.

“Tá certo, o que foi, mamãe?” Ela perguntou, colocando o lápis de cor em cima da mesa e me olhando.

“Vovó não te disse o porquê você não pôde ir à escola hoje, não foi?” Eu comecei a dizer, ela balançou a cabeça em resposta. “Bem, meu amor, acontece que o que você fez ontem com o menino no parque assustou algumas pessoas e essas pessoas incluem os pais das crianças da sua escola.”

“Como assim, eu assustei eles?” Ela perguntou, em um tom de confusão.

“As pessoas não entendem a sua magia e elas temem que você machuquem as crianças, assim como machucou o garoto no parque.”

“Mas eu não queria machucar ele, mamãe! Eu já te disse isso!” Ela respondeu, extremamente chateada.

“Eu sei, meu amor. Eu sei muito bem disso.”

“Eu nunca machucaria meus colegas da escola, mamãe. Eu gosto deles!” Continuou, sua voz se misturou a um choro que se esforçava em segurar.

“Meu amor, eu sei disso, todos sabem disso.” Disse, tentando acalmá-la trazendo-a para perto de mim. “Mas alguns pais não sabem e eles não temem você, mas sim a magia que você carrega.”

“Mas eu não posso tirar isso de mim!” Respondeu, agora sem tentar segurar o choro. “Eu não posso.” Concluiu entre um soluço e outro.

“E eu nem quero que você tire isso de você, ok? Eu só estou lhe dizendo isso, porque você vai ter que ficar em casa mais alguns dias. Até todos se esquecerem do que aconteceu, então você poderá voltar para escola.” Expliquei, mas ela continuou a chorar. “Meu amor, vai ficar tudo bem.”

“Não vai não.” Ela disse, suas lágrimas se misturando a purpurina em seu rosto. “Eles nunca vão esquecer. Eles sempre vão ter medo de mim.”

“Não vão, meu amor. Não vão, porque são apenas os pais que pensam assim, seus colegas não. E eles vão morrer de saudades de você e aposto que eles já estão com saudades agora.” Eu disse, limpando seu rosto com as mãos, mas não resolvendo muito.

“O que eu vou fazer se eu não for para a escola? Eu não quero ficar sozinha com o Totó.” Disse, fazendo-me rir.

Eu a trouxe para mais perto e a abracei, em seguida me levantei com ela nos braços e caminhei até o banheiro.

“Você vai comigo para o meu trabalho.” Respondi, colocando-a no chão, assim que chegamos ao banheiro e comecei a procurar por algo para limpar seu rosto.

“Eu vou ser tipo sua assistente?” Perguntou, enquanto eu limpava seu rosto. Em seguida, ela procurou um banquinho que costumava usar para alcançar a pia e começou a tirar toda a purpurina de seu rosto.

“Sim, vai ser tipo minha assistente.” Eu respondi, olhando para seu reflexo no espelho.

“E eu vou poder usar essas roupas de gente adulta igual você usa?” Ela perguntou, animada.

“Sim, vai poder usar a roupa que quiser.” Respondi e ela olhou para mim pelo reflexo do espelho e sorriu. Ainda sobravam vestígios de purpurina em seu rosto que faziam com que ela brilhasse um pouco. “Que tal a gente terminar aquele desenho?” Sugeri.

No mesmo instante, ela pulou de seu banquinho e correu até o seu quarto, onde eu a segui. Encontrei Amy sentada novamente diante de sua mesa, sentei-me ao seu lado, observando-a enquanto ela escolhia os lápis e começava a desenhar o barquinho.

“Você pode desenhar as lanternas, mamãe.” Ela disse. “Mas tem que colocar bem muita purpurina para parecer que realmente estão acesas.”

“Tá certo, acho que eu posso fazer isso.”

Eu peguei um dos lápis de cor e comecei a desenhar as lanternas em vários cantos da folha. Amy não tirava sua atenção do desenho, depois de alguns minutos, ela terminou o barco e começou a desenhar uma pessoa dentro dele.

“Essa é a mãezinha.” Disse, fazendo-me sorrir. “E você tem que fazer mais lanternas.”

Eu obedeci sua sugestão e comecei a desenhar mais lanternas na folha. Então, Amy começou a cantar baixinho, roubando minha atenção. Era a canção do filme, da mesma cena da qual estávamos desenhando. Sua voz era tão fofa e ela jamais tropeçava na letra.

“Essa música me lembra da sua mãe e eu, sabia disso?”

“Por quê?” Perguntou, sem parar de desenhar. Ela havia terminado de desenhar Emma e agora me desenhava junto a sua mãe.

“Porque acho que eu sempre me senti como a Rapunzel, talvez seja difícil para você entender.”

“Não é tão difícil assim de entender.” Ela respondeu, sem olhar para mim. “Você ficou tanto tempo presa e tanto tempo sem conhecer alguém novo, que demorou a ver que minha mãezinha era a sua luz.” Ela concluiu e olhou para mim em um sorriso. “Eu entendi direito?”

“Entendeu sim, meu anjo.” Respondi, inclinando-me em sua direção e lhe beijando no rosto. “Eu gostei muito de como você me desenhou.” Eu disse, notando que ela fez questão de fazer meu cabelo bem grande e cheio de flores pelos fios, como no filme.

“Mas você ainda não colocou a purpurina nas lanternas, mamãe!” Disse, em um tom irritado, fazendo-me rir. Peguei uma das colas e passei por todas as lanternas que havia desenhado. “Agora é só jogar em cima, mamãe.” Continuou e pegou o saquinho de purpurina. “Faz assim, mamãe.” Disse, fazendo uma concha com sua mão. Eu a imitei. “Ai você faz assim.” Concluiu e pegou um pouco da purpurina, jogando em cima da lanterna. “Fácil, não é?”

“É, bem fácil.” Respondi e comecei a jogar purpurina nas lanternas do desenho.

Ela me observava em silêncio, parecendo bem atenta ao que eu fazia. Eu então sujei um dos meus dedos de purpurina e toquei em seu nariz, ela deu uma gargalhada.

“Canta para mim, mamãe.” Pediu, pegando-me de surpresa, enquanto limpava a purpurina do nariz.

“Eu não sou uma boa cantora.”

“E também não é uma boa desenhista!” Respondeu, roubando-me uma risada. “Mas ficaram muito boas as lanternas.” Continuou. “Canta, mamãe.”

Por um momento, eu cogitei dizer não, mas olhei para o desenho, para as lanternas cobertas por purpurinas e depois para ela.

“Vem aqui.” Eu disse, levantando-me e estendendo minha mão. Ela se levantou e segurou minha mão. “Eu acho que eu nunca tinha cantado na vida, antes de conhecer seu irmão.” Continuei e a peguei no colo. “Mas ai ele chegou e me fez aprender todas as canções de ninar que existiam no mundo para acalmá-lo.”

“Ele era um bebê chato?” Ela perguntou, colocando os braços ao redor do meu pescoço.

“Não, ele era um bebê incrível.”

“Aposto que eu era mais legal que ele.” Ela respondeu, bem baixinho.

“Vocês dois eram incríveis.” Eu respondi, encostando minha testa na dela. “Por que você não começa a cantar?” Eu pedi e ela concordou com um sorriso.

Amy começou a cantar, enquanto eu dançava pelo quarto com ela em meus braços, assim como fazíamos quando ela ainda era só um bebê. Sua vozinha cheia de inocência enchia todo o quarto com uma luz que só ela possuía. Em minha mente, eu imaginei várias lanternas girando ao nosso redor.

Em um certo momento da música, minha voz se juntou a dela. Ela sorriu e me deixou cantar sozinha, acompanhando-me apenas no refrão. Quando a música terminou e a última frase foi dita, ela deitou sua cabeça em meu ombro. Nós continuamos a dançar e a última frase da música ecoava em minha mente, reafirmando uma certeza que eu sempre tive: Amy definitivamente era a minha luz.