Amy
26 Segundas Chances
Capítulo 26 – Segundas Chances
Não havia mais vida em seu rosto e ela já não mais parecia estar doente, já não parecia sentir mais dor. Eu me levantei, enxugando as lágrimas de meu rosto e olhei para a caixa em minhas mãos, para o seu coração que já não mais batia. Fechei a caixa e me aproximei de seu corpo, dando-lhe um beijo de despedida em sua testa.
Havia uma leveza e uma dor em meu peito, eu sentia todas as palavras que eu não havia lhe dito enrolando-se em minha garganta. Eu nunca mais a veria. Eu nunca mais ouviria o som de sua voz e nunca mais sentiria ódio de tudo o que ela me fez passar. Ela havia ido embora.
Eu me aproximei de Amy, ainda adormecido, a peguei em meus braços e rezei para que a alma de minha mãe ficasse em paz. Olhei para o rostinho de Amy e para o livro de capa de couro. Tudo o que eu conseguia pensar era que Amy estaria nos braços de Emma a qualquer momento. Esse pensamento me acalmou, preenchendo o vazio que eu sentia e levando toda a dor embora.
Abracei o corpinho da menina contra meu corpo e saí do quarto, encontrando Alice no corredor. Eu lhe contei o que havia acontecido e ela simplesmente abaixou o olhar. Foi tão estranho ver a expressão em seu rosto, eu sentia como se ela quisesse dizer algo, mas ela apenas balançou a cabeça, elevou o olhar e andou em direção a um segundo quarto. Eu coloquei Amy sobre a cama que havia ali e a deixei dormir em paz.
“Você está bem?” Eu perguntei a ela, que assentiu algumas vezes, saindo do quarto e sendo seguida por mim.
Voltamos ao quarto de minha mãe e ela caminhou em direção ao corpo, parando ao seu lado e encarando-a em silêncio. Seu olhar era tão distante e eu sabia que ela estava se segurando para não desabar.
“Alice?” Eu disse, mas não houve resposta.
Era como se ela estivesse em outro mundo. Em qualquer lugar, menos ali.
“Eu a amava, sabia?” Ela disse, depois de vários segundos em silêncio. “Como uma mãe, eu acho. Ou uma amiga. Eu não sei.” Continuou, sua voz falhando e a fazendo dar inúmeras pausas, entre uma frase e outra.
“Eu acredito que ela também te amou, Alice.” Eu respondi, me aproximando dela e tocando gentilmente em seu braço. Ela se virou para mim e seus olhos azuis estavam cobertos por lágrimas.
“Talvez.” Ela respondeu e sorriu. “Você acha que ela está bem?” Eu assenti em resposta. “Certeza?”
“Certeza.” Eu respondi e ela sorriu, mas era um sorriso coberto de tristeza.
Eu me aproximei e a tomei em abraço, ela afundou o rosto em meu pescoço. Eu senti suas lágrimas em minha pele e a abracei mais forte, beijando-lhe os cabelos. Nós ficamos em silêncio, pois não havia muito o que dizer e eu acredito que aquele abraço conseguia dizer tudo.
Eu permiti que ela enterrasse minha mãe em seu mundo, pois afinal Storybrooke nunca foi a sua casa, mas eu não quis ficar para o velório. Eu queria que minha última memória de minha mãe fosse a de sua imagem dormindo. Vê-la em um caixão, descendo a sete palmos do chão, seria uma memória que eu não queria levar comigo. Eu decidi voltar para casa e Alice abriu um portal para nos levar de volta.
“Quantas horas se passaram?” Eu perguntei a Alice, assim que entramos em casa, Amy correu para o seu quarto e Alice me acompanhou até a cozinha.
“Não sei. Umas duas horas, eu acho.” Ela respondeu.
Ela tinha o livro em suas mãos e uma pequena cesta de piquenique na outra, sentou-se no balcão da cozinha, enquanto eu ia até o escritório atrás de meu celular. Havia 20 ligações perdidas de Emma, eu me sentei em minha cadeira do escritório, pensando em qual desculpa eu daria a ela.
Eu não podia contar toda a história pelo telefone, me preparei para retornar sua ligação e então Alice entrou. Seu olhar ainda era distante, ela tinha o livro abraçado ao corpo e o semblante preocupado. Eu coloquei o celular sobre a mesa e ela se aproximou, sentando-se na cadeira a minha frente.
“O que foi?” Eu perguntei e ela respirou fundo. “Alice, o que aconteceu?”
“Eu sempre me perguntei o porquê ela simplesmente não me disse o contrafeitiço. Eu sempre pensei que era porque ela não queria desistir da ideia de você e eu ficarmos juntas. Mas nunca me passou pela cabeça que poderia ser por outro motivo. Nunca me passou pela cabeça que o contrafeitiço teria um preço.” Respondeu e cada palavra que saia de sua boca era cautelosa.
Seus olhos estavam cobertos por lágrimas. Ela colocou o livro sobre a mesa e eu inclinei-me para ver a página aberta.
“Sua mãe revelou todos os feitiços do livro.”
“Eu não entendo essa letra.” Eu disse encarando a página.
Em uma delas, havia o pássaro desenhado, que eu reconheci pelas memórias que Alice havia me mostrado. Na página seguinte, havia vários símbolos e nenhum deles eu podia entender.
“É, eu sei. Sua mãe criou esses símbolos, de modo que só ela pudesse entender.” Ela respondeu. “Mas ela me ensinou a lê-los.”
“Certo, o que tem que ser feito, então?”
“Nós temos que conjurar o pássaro novamente.” Ela respondeu.
“É esse o problema?” Eu perguntei, não entendo a confusão.
“Não. Não é esse o problema. O problema é o que tem que ser feito para conseguir isso.” Ela disse e eu perguntei o que precisava ser feito. Ela respirou fundo, pegou o livro novamente e o fechou. “O pássaro foi destruído quando eu o conjurei.” Continuou. “Para trazê-lo de volta, nós temos que usar um coração.”
“O coração de quem?”
“O seu.” Respondeu.
“Certo.” Eu respondi, encostando-me a cadeira e olhando para o celular em minhas mãos, onde o nome de Emma piscava na tela, mas eu não podia atendê-la. “Como faremos isso?” Continuei e recusei a chamada.
“Regina, nós não podemos fazer isso. Você sabe o que isso significa, não é mesmo? Significa destruir o coração. Significa...” Ela disse, seu olhar era de pura confusão e sua voz carregada de medo.
“Eu sei o que significa, Alice.” Eu respondi e ela apenas balançou a cabeça.
“Você não pode fazer isso.”
“Como não? Não é esse o preço?” Eu respondi.
“O que você vai dizer a Emma?” Ela perguntou.
“Emma faria o mesmo.” Eu disse. “Emma daria a vida dela.” Eu continuei e ela enxugou as lágrimas do rosto.
“Você não pode fazer isso. Quer dizer, você não vê? Sua mãe não queria que você fizesse isso.” Ela disse e eu levantei-me, caminhando em sua direção, ajoelhei-me a sua frente e segurei suas mãos.
“Minha mãe nunca soube o que significado de sacrificar algo.” Eu respondi. “Mas não importa mais. Se é esse o preço, eu pago. Eu pago o que for.” Continuei e Alice olhou para mim, segurando as lágrimas de seus olhos.
“Mas eu não posso... Eu não posso fazer isso.” Ela disse, seu choro era de desespero. “Regina, vocês duas foram feitas para ficarem juntas.”
“Não. Emma e Amy foram feitas para ficarem juntas. Ela não pode ficar sem a mãe.” Eu disse e seu rosto foi tomado por confusão.
“Você vai deixá-la sem mãe, Regina!” Respondeu, com raiva. Eu apertei suas mãos e balancei a cabeça.
Ela estava certa. Eu sabia que ela estava certa, mas o que eu podia fazer?
“Regina, eu não vou deixar você fazer isso.” Ela continuou e levantou-se. “Você não pode fazer isso.”
“Alice...” Eu disse, levantando-me, mas ela não me deixou continuar.
“Vai até Amy. Diga a ela que vocês nunca mais vão se ver. Explique que ela acordará amanhã e você não estará mais em casa. Explique que você não preparará mais seu café da manhã, que não a levará mais para a escola, que não estará lá quando ela acordar de um pesadelo.” Ela disse, ainda com raiva e seus olhos em lágrimas.
“Mas Emma estará.” Eu respondi, aproximando-me. “Emma estará com ela.” Completei e balancei a cabeça, várias vezes.
“Se você conseguir fazer isso.” Ela disse. “Se você conseguir se despedir de Amy. Se você conseguir se despedir da sua família, então eu te ajudo. Caso contrário... Caso contrário você terá que dizer a Emma que não há nenhuma maneira de quebrar o feitiço.”
“Ela ficaria devastada se soubesse disso.”
“Ela ficará devastada quando enterrar seu corpo, Regina!” Alice gritou. “Ela ficará devastada todos os dias que acordar sem você, todos os dias que abraçar Amy e saber que isso só foi possível porque você deu sua vida. Isso é egoísmo, Regina.”
“Tudo bem.” Eu respondi e ela ficou confusa. “Eu vou me despedir deles.” Concluí e ela abriu a boca, mas nada disse, apenas concordou com a cabeça.
Eu voltei para minha cadeira, peguei meu celular e encarei as várias ligações perdidas de Emma. Olhei para Alice, segurando o livro contra o corpo e então fiz uma ligação, não para Emma, mas sim para Henry.
“Mãe?” Ela perguntou, em um tom confuso.
“Oi, querido, tudo bem?”
“Tudo sim, aconteceu alguma coisa?” Perguntou em um tom preocupado.
“Não, querido. Está tudo bem.”
“Você nunca me liga quando eu estou no colégio...”
“Eu sei, acho que eu senti falta do som da sua voz.” Eu disse e ele riu do outro lado.
“Bem, matou a saudades?”
“Um pouco.” Eu respondi, olhando para um retrato sobre a mesa.
Era uma foto de Amy e Henry. Eu respirei fundo, enquanto a ficha caia. Alice estava certa. Meus filhos ficariam órfãos, sem uma de suas mães. Mas o que eu poderia fazer? Eu não pensava que isso fosse egoísmo, pois Emma merecia ter Amy em seus braços. E se eu pudesse dar isso a ela, por que então não fazer?
“A gente pode almoçar juntos no Granny’s, se você quiser.” Henry disse, trazendo-me de volta.
“Henry?” Eu perguntei, ouvindo o silêncio do outro lado da linha.
“O que foi, mãe?”
“Eu achei uma forma...” Eu disse, pensando no que diria a seguir, pois não havia melhor maneira de contar. “Eu achei uma forma de sua mãe e Amy ficarem juntas.”
“Sério?! Como?!” Perguntou.
“Alguém vai te explicar tudo.” Eu respondi, olhando para a Alice.
“Por que você não explica?”
“Porque, Henry... Para que isso aconteça, eu tenho que abrir mão de algo.”
“O que?”
“Meu coração.” Eu respondi e novamente o silêncio. “Henry?”
“O que isso quer dizer, mãe?” Perguntou.
“Isso quer dizer que eu não estarei em casa quando você voltar.” Eu respondi. “E que você terá que ser forte, assim como foi quando Amy chegou a esse mundo, pois elas precisarão muito de você. Henry, onde quer que eu esteja, eu estarei com vocês. Eu acho que se tem uma coisa que essa família sabe, é que a distância não significa nada. Continuei e não soube explicar de onde eu tirei forças para dizer tudo isso a ele, sem desabar em lágrimas. “Eu te amo, Henry.”
“Eu também te amo, mãe.” Ele disse e sua voz saiu totalmente enrolada. “Por favor, não vá embora.” Continuou, mas eu não consegui responder e desliguei o celular, olhando para Alice.
“Ele ficará bem.” Eu disse.
“Vai mesmo?” Ela perguntou, mas eu ignorei o que ela disse e encarei meu celular. “Liga para Emma.” Continuou e eu sabia que ela estava querendo que eu desistisse, mas eu não podia.
Eu a obedeci e Emma não demorou para atender.
“Você quer me matar do coração ou o que?” Ela disse. “Quando sua esposa te liga, você larga tudo o que está fazendo e simplesmente atende o celular!” Continuou e sua voz era carrega de raiva. “Onde você estava, Regina?!”
“Eu amo você, Emma.” Eu disse.
“Eu também te amo, Regina.” Respondeu e seu tom de voz já não tinha mais raiva. “O que você fez?”
“Eu não fiz nada.” Eu respondi, rindo, enquanto tentava segurar minhas lágrimas. “Eu só liguei para te dizer isso e para dizer que ficará tudo bem.”
“Eu sei que vai.” Ela respondeu. “Te vejo mais tarde?” Perguntou e eu sabia que eu tinha que lhe contar a verdade, mas eu tive medo.
Eu tive medo do que ela poderia dizer. Eu tive medo de que ela dissesse ‘não’. E a última coisa que eu queria era que ela vivesse sabendo que eu poderia ter escolhido ficar.
“Eu te vejo mais tarde.” Eu respondi, desligando o celular e olhando para Alice, que revirou os olhos, saindo do escritório.
“Você não pode me impedir de fazer isso.” Eu disse, seguindo-a.
Ela nada disse, apenas subiu as escadas e eu a segui. Eu hesitei ao chegar no topo, enquanto ela desaparecia pelo corredor, parando diante da porta de Amy. Eu me aproximei, Amy estava em sua cama, penteando os cabelos de uma de suas bonecas. Eu olhei para Alice e então para Amy, que notou nossa presença.
“Eu não posso me despedir dela.” Eu disse.
“Você também não pôde se despedir da Emma.” Alice respondeu. “Você não vê? Você não pode deixar eles sem você. Henry não será forte o suficiente. Emma não será forte o suficiente. Amy precisa das duas mães hoje e ela precisará sempre. Você não pode deixar esse vazio na vida deles.” Concluiu e então eu ouvi a porta lá embaixo bater e Henry gritar pelo meu nome.
“Mãe?!” Ele gritou, assim que me viu e me abraçou apertado.
“Henry, meu amor. Se acalme.” Eu disse, tentando quebrar o abraço.
“Mamãe, o que ele tem?” Amy perguntou, vindo em nossa direção.
Seu rostinho estava tomado por medo. Eu quebrei o abraço, olhando para o rosto de Henry e secando suas lágrimas.
“Meu amor, ficará tudo bem.” Eu disse, mas ele apenas balançou a cabeça, sem conseguir dizer nada. “Henry, se calme.” Eu insisti, pegando suas mãos e o levando até a cama de Amy.
“Eu vou buscar um copo de água.” Disse Alice.
“Pode levar Amy com você?” Perguntei, mas Alice tinha um semblante sério e balançou a cabeça, fechando a porta ao sair.
“O que ele tem, mamãe?” Perguntou Amy, ainda preocupada, chorando ao ver o irmão desesperado. “O que você tem, Henry?” Insistiu, subindo na cama e abraçando o irmão.
Eu olhei para os dois, sem conseguir mais controlar minhas próprias lágrimas. Henry olhou para mim, pegou a irmã nos braços e a beijou nos cabelos.
“Você tem certeza?” Ele perguntou para mim. “Tem certeza que esse é o único jeito?” Continuou e eu assenti. “O que minha mãe disse?”
“Eu não consegui contar para ela.” Respondi.
Ele fechou os olhos, deixando suas lágrimas escorrem pelo rosto. Ele ainda segurava Amy em seus braços e isso me fez lembrar do primeiro dia de Amy em nossa casa. Lembrei-me de Henry sentado na cadeira de balanço com Amy em seus braços. Lembrei-me também da conversa que tivemos e mesmo ele não dizendo nada agora, eu sentia como se estivéssemos tendo a mesma conversa de cinco anos atrás.
Henry ajeitou Amy em seu colo, de modo que ela encostasse seu corpo ao dele. Eu olhei para os seus olhos azuis, completamente tomado pelas suas lágrimas. Lágrimas de compaixão pela dor de seu irmão. Eu olhei para Henry, com seu queixo encostado em Amy e me aproximei dos dois, buscando a mãozinha de Amy.
“Henry, você sabe que se tivesse outro jeito, eu faria, não é mesmo?” Eu perguntei e o garoto assentiu. “Ficará tudo bem, eu prometo.” Ele nada disse e a porta se abriu.
Alice entrou com o copo de água, mas Henry o recusou. Eu olhei para os meus filhos, Henry ainda bem nervoso e Amy parecendo tão pequena e confusa em seus braços. Eu enxuguei as lágrimas da minha menina e a beijei no rosto. Eu tentei sorrir, mas eu sabia que não seria um sorriso sincero, de modo que ela não responderia o gesto.
“Meu amor, mamãe terá que ir a um lugar hoje.” Eu disse, segurando suas mãos. Ela me encarou e olhou para as nossas mãos.
“Que lugar, mamãe?” Perguntou.
Eu sorri ao ouvi-la me chamar de ‘mamãe’, olhei para Henry, pensei no quanto eu sempre quis ser mãe. O quanto eu sempre quis esse título, pois ser Rainha ou Prefeita, o que quer que fosse, não me daria a metade da alegria que esses dois me deram.
Eu era a mulher mais realizada desse mundo e eu fui muito feliz. Esses dois me fizeram a mulher mais feliz do mundo e tudo graças a Emma. Tudo graças a essa mulher que me amou na mesma intensidade que eu a amei. Eu devia tudo a ela, toda a minha felicidade. Então por que não devolver essa felicidade?
Eu sabia que seria doloroso e que ela sofreria com a minha morte. Eu sabia que talvez ela jamais superasse essa dor, mas eu também sabia que ela encontraria forças nos braços de Amy. Eu sabia que eles encontrariam uma forma de serem felizes e que eu os amaria e cuidaria deles para sempre.
“Que lugar, mamãe?” Amy perguntou novamente e eu me aproximei dela, beijando seu rosto.
“É um lugar muito bom, meu anjo. Um lugar onde eu vou poder tomar conta de vocês. Vou estar bem longe, mas ainda assim eu vou poder ouvir e ver vocês. Então não precisa sentir minha falta ou ficar triste se nunca mais me ver.” Eu disse e ela franziu o cenho, completamente confusa.
“Entendi, mamãe.” Respondeu, sorrindo. “Te vejo mais tarde, então?” Perguntou, usando a mesma frase que Emma havia usado minutos antes. Eu havia mentido para Emma, mas eu não podia fazer o mesmo com Amy.
“Não, meu amor. Você não me verá mais tarde.”
“Amanhã, então?” Insistiu e eu balancei a cabeça.
“Meu amor, mamãe não voltará mais. Mamãe vai para bem longe.” Respondi.
“Por quê?” Perguntou, encarei o seu rosto e para seus olhos molhados de lágrimas. “Por que, mamãe?” Continuou e começou a soluçar. “Eu fiz alguma coisa?” Concluiu e se jogou em meus braços.
“Não, meu amor. Você não fez nada, mas mamãe precisa ir.” Eu disse, afastando-a do meu corpo a fim de ver o seu rosto. “Você ficará bem, porque quando eu for embora. Você poderá ficar com a sua mãe. Vocês poderão se abraçar e...”
“Eu não quero!” Amy gritou, impedindo-me de continuar. “Eu não quero os abraços dela! Se você não estiver aqui, eu não quero mais abraço nenhum.” Disse, soluçando e enxugando suas próprias lágrimas.
Suas palavras me quebravam, seu choro me quebrava. Ela levou suas mãozinhas aos olhos e eu as segurei, fazendo-a olhar para mim.
“Ela precisará de você.” Eu disse, tentando não tropeçar nas minhas palavras. “Sinto muito, meu amor.” Continuei e me aproximei de seu rosto, beijando suas bochechas.
Eu fechei meus olhos, tentando me concentrar no beijo e ignorando seu choro. Eu me concentrei no nosso toque, em seu perfume e nesse momento. Eu afastei-me, olhei para ela, completamente quebrada, devastada a minha frente. Henry, ao seu lado, se aproximou de nós duas. Eu lhe beijei demoradamente, enquanto lhe dizia para jamais permitir que Amy se culpasse. Ele assentiu e eu lhe entreguei Amy em seus braços.
“Eu amo muito vocês dois.” Eu disse, levantando-me da cama e olhando para Alice, diante da porta, com o livro em suas mãos. Ela tinha um olhar tão triste e eu sabia que se houvesse mais algo a ser feito, ela o faria, mas não havia mais nada. “Você está pronta?” Eu perguntei e ela balançou a cabeça. “Mas vai me ajudar de qualquer forma, não é mesmo?” Ela assentiu.
Eu caminhei até a porta, olhei uma última vez para Henry e Amy, sem saber mais o que dizer ou o que fazer. Amy correu em minha direção, abraçando minhas pernas.
“Não vai embora, mamãe.” Ela suplicou, com sua vozinha ainda tomada por choro. “Eu te amo muito, mamãe.” Continuou e eu fechei meus olhos, ajoelhando-me até ela.
“Eu também te amo. Eu vou continuar te amando.” Eu disse a ela, passando minhas mãos pelo o seu rosto.
Ela fechou os olhos, seu corpo foi caindo em meus braços. Eu precisava colocá-la para dormir. Eu não aguentava mais ouvir o seu corpo e eu não aguentaria ouvi-la pedindo para que eu não fosse embora. Henry se aproximou, pegando sua irmã de meus braços e me olhando uma última vez.
“Isso não é um adeus, mãe.” Disse ele e eu concordei com a cabeça, aproximando-me dele uma última vez.
“Dê esse abraço em sua mãe.” Eu disse. “Nunca a deixe esquecer que eu a amei com todo o meu coração e toda a minha alma. Nunca a deixe esquecer de que eu vou continuar amando-a.” Continuei e o abracei. “Diga-lhe para não se prender a minha memória e se apaixonar novamente. Diga-lhe para entregar seu coração à outra pessoa algum dia.”
“Você sabe que ela não pode fazer isso. O coração dela sempre foi e sempre será seu. Ele não pertence e não se encaixa em nenhuma outra pessoa.” Ele respondeu. “Espere por ela do outro lado.” Continuou. “Um dia vocês se encontrarão novamente em outro mundo, apenas para terminar essa história de amor que vocês duas começaram.” Concluiu, deixando-me sem palavras. “Amo muito você. Você foi e sempre será a melhor mãe desse mundo e de qualquer outro.”
Eu caminhei até Alice e a pedi para me levar para o seu mundo, pois a última coisa que eu queria era que Emma encontrasse meu corpo em nossa casa. Ela abriu um portal, me levou e nós caminhamos até o seu quarto, onde eu me sentei em sua cama e esperei que ela estivesse pronta.
“Eu vou precisar das cinzas dele.” Ela disse e eu coloquei as mãos em meu peito, tirando meu coração.
Eu senti a dor ao fazer isso, mas não chegava aos pés da dor que eu já estava sentindo em ter que me despedir de meus filhos. Encarei aquele coração, que uma vez fora negro e agora era de um vermelho intenso. Ele só era forte assim graças a Amy e graças a todo o amor que Emma me ensinou a sentir. Eu o beijei e o entreguei a Alice.
“Eu não posso fazer isso.” Ela disse. “Sinto muito, Regina. Se você quiser que eu continue, se você quiser que eu conjure o feitiço, você terá que destruí-lo sozinha.”
Eu não podia culpá-la, por não querer fazer isso. Ela colocou o livro em cima de sua cama e coloquei meu coração sobre a página que o pássaro estava desenhado. Eu sabia que seria doloroso ter o meu coração esmagado, mas não sabia se seria capaz de aguentar a dor e ir até o final. Eu fechei meus olhos, pensei em Emma e no quanto e amei durante todos esses anos e no quanto ela havia significado para mim.
Henry estava certo, nossa história não havia acabado. Eu sabia que um dia nos encontraríamos e continuaríamos nosso ‘Era Uma Vez’, para então podermos finalizá-lo com um “E Viveram Felizes Para Sempre”.
“Você terá que segurar o meu braço, pois a dor me impedirá de mantê-lo suspenso.” Eu disse e Alice assentiu.
Eu segurei meu coração com as minhas mãos, com a ajuda de Alice. Apertei o órgão, gritando com a dor que isso causava e ouvindo, ao longe, a voz de Alice chamando meu nome. Eu não podia hesitar ou pensar muito. Eu fechei então meus olhos, sentindo meu próprio coração em minhas mãos e então...
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