Amy

27 Em Chamas - Final


Capítulo 27 – Em Chamas

Eu senti os raios do Sol tocarem o meu rosto. Eu estava deitada sobre uma terra gelada e havia um perfume de flores no ar. Um doce perfume, que acalmava e me fazia querer ficar ali para sempre, mas uma voz chamou pelo meu nome. Uma voz infantil, tão doce quanto a do perfume das flores.

Eu abri meus olhos, protegendo-os dos raios do Sol, vi as flores ao meu redor, inúmeras papoulas vermelhas balançando com o vento. Escutei a voz ainda chamando pelo meu nome, mas as flores eram altas demais e bloqueavam minha visão. Eu tinha que me levantar, mas eu me sentia muito bem sobre a campina, com todas aquelas flores ao meu redor, embalando meus sentidos com seus perfumes.

Talvez eu estivesse morta, pensei, ou no meio do caminho até a morte. Eu me levantei, vi todas aquelas flores e nada mais além disso, mas ainda havia a voz infantil chamando pelo o meu nome. Eu me sentia tão sonolenta, enquanto seguia a voz da criança.

“Regina?” Disse a voz.

Eu me virei e uma garotinha de cabelos negros, vestido azul e branco e grandes olhos castanhos me olhava, sorrindo.

“Olá.” Respondi.

A garota se aproximou, segurou minha mão, colocando algo sobre minha palma. Era uma bússola, seu ponteiro girava rapidamente e a garotinha o olhava atentamente, perdida com o movimento.

“Onde eu estou?” Eu perguntei.

“No Campo das Papoulas da Morte.” Respondeu. “Você não pode ficar aqui muito tempo.” Ela ainda olhava para a bússola, o ponteiro parecia desnorteado e algo o impedia de parar no Norte.

“Por que não?”

“Oras, porque todo mundo sabe o que acontece quando você está em um campo cheio de flores como essas.” Respondeu, me fazendo perguntar o que acontecia. “Você adormece. O perfume delas é muito forte e você não consegue mais acordar e então...”

“Então você morre.” Completei e ela sorriu. “Para que serve essa bússola?”

“Para apontar para o Norte, obviamente.” Respondeu. “Assim como todas as bússolas fazem.” Continuou. “Mas algumas almas não estão prontas para o Norte.”

“E para aonde elas vão?”

“Para o Leste, Oeste ou Sul, é claro.” Respondeu, dando de ombros. Eu percebi sua impaciência com o ponteiro da bússola, que ainda girava rapidamente. “Cada direção te leva a um destino diferente. O Leste é para onde as almas sem salvação são levadas. O Oeste é destinado as almas que ainda precisam ser purificadas.”

“E o Sul?”

“Para o Sul são levadas as almas que ainda não estão prontas para o Norte, mas que não pertencem ao Oeste ou ao Leste. São almas confusas, cheias de dúvidas e pendências no mundo dos vivos.” O ponteiro parou na letra ‘s’ e ela sorriu. “No Sul você também pode encontrar uma forma de voltar para casa.” Concluiu e desapareceu por entre as flores.

Eu olhei para bússola e para a seta que apontava para o Sul. Não havia nada ao Sul além de flores, eu caminhei, enquanto o perfume forte das flores perturbava meus sentidos. Eu senti sono e cansaço, lembrei-me do que a garotinha havia dito e andei mais rápido, sempre em direção ao Sul.

Eu sentia como se a qualquer momento o sono e o cansaço pudessem me vencer, mas chegar ao Sul era tudo o que tinha em minha mente. Eu acelerei o passo, tentando vencer o sono e o perfume das flores. Ao longe, uma forte luz me esperava. Cheguei o mais perto possível, fechei os olhos ao me aproximar, sempre caminhando em direção a luz, mesmo sem saber o que me esperava do outro lado.

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Eu abri os olhos, vi os flocos de neve caindo e estendi minhas mãos, vendo-os tocar na minha pele. Eu reconheci onde estava, era o mundo de Glinda. O lampião aceso no meio da neve e os altos pinheiros cobertos de neve denunciaram o lugar, mas ela não estava em lugar nenhum.

Aos poucos, o frio foi se tornando insuportável. Eu caminhei até o poste, tocando-o com meus dedos. O frio gélido do objeto contra meus dedos e a neve ainda caindo em meu corpo me fizeram tremer. Nos minutos seguintes, eu percebi que a neve estava parando e eu já não mais sentia o frio.

Eu olhei para trás e lá estava Glinda, seus cabelos ruivos brilhando para mim e ela sorria, enquanto caminhava em minha direção. O cenário mudou quando ela se aproximou, o frio foi embora e os flocos de neve já não mais existiam.

“Olá, Regina.”

De perto, ela era muito mais bonita e havia algo nela que eu jamais havia visto em qualquer outra mulher. Era uma leveza e uma paz que ela conseguiu me passar apenas com o seu ‘olá’ ou o seu sorriso. Talvez ela não fosse uma mulher ou mesmo uma bruxa. Talvez ela fosse algo além disso ou talvez ela fosse tudo isso ao mesmo tempo.

Respondi seu cumprimento e aceitei quando ela ofereceu um de seus braços para que eu a acompanhasse. Nós caminhamos em silêncio, ela me guiando pelo campo, antes coberto por neve. Enquanto caminhávamos, uma paz invadia minha alma, mas não a ponto de me acalmar, não a ponto de fazer com que eu me sentisse bem.

Eu pensei que morrer fosse algo completamente diferente. Eu pensei que a morte me levaria a um lugar como na visão de Alice. Eu pensei que teria uma paz e que tudo ficaria bem, mas não era isso que eu sentia. Ela me levou até o seu castelo, me guiou até a sua cozinha, onde eu me sentei em um banco e a observei se afastar para preparar um chá.

Reconheci tudo o que eu vi na memória de Alice e parecia que nada havia mudado, nem mesmo Glinda. Talvez nada mudasse nesse mundo. Talvez o tempo jamais passasse. Eu tentei absorver toda a calma que ela me transmitia, mas isso não era capaz de me preencher.

Era como se nada fosse capaz de me preencher. Era como se eu não estivesse ali, como se eu estivesse em qualquer lugar menos ali. Era como estar vazia. Ela se virou para mim e caminhou em minha direção, sorrindo e me entregando uma das xícaras de chá que tinha em mãos. Sentou-se à minha frente e eu olhei para minha xícara, para a fumaça que saia do líquido.

“O que eu estou fazendo aqui?” Perguntei.

“Dorothy não te disse?” Respondeu e eu balancei a cabeça. “Ela não explicou para aonde a bússola te levaria?”

“Dorothy?” Eu perguntei, confusa e Glinda assentiu. “Ela disse sim...” Eu continuei, ainda mais confusa, olhando para o líquido quente a minha frente. Glinda estendeu suas mãos sobre a mesa, tocando em meus dedos.

“Está tudo bem, Regina.” Ela disse, sua voz me transmitindo a paz que ainda não era capaz de me preencher ou me acalmar. A cada segundo que se passava, eu sentia o desespero e o medo me invadindo. “Ficará tudo bem.”

“Por que eu não fui para o Norte?” Continuei e ela sorriu novamente.

Era o tipo de sorriso que demonstrava nada além de compaixão. Era como se ela soubesse sobre tudo o que se passava em mim, sobre tudo o que eu estava sentindo, todas minhas angustias. Era como se ela pudesse ver minha alma. Na verdade, eu sabia que de fato ela conseguia ver minha alma, pois eu já não mais possuía um corpo. Eu me sentia tão exposta, pois ali, de fato, eu era minha própria alma.

“O Norte é um lugar muito além de todos os outros.” Respondeu. “Poucas são as almas que conseguem ir direto para o Norte.” Continuou. “O Norte será sua casa um dia, Regina. Mas não agora.” Concluiu e eu suspirei em frustração. “O Sul é o lugar das almas confusas ou daquelas que precisam se curar. É por isso que você está aqui. Há algo incomodando a sua alma, Regina?”

Olhei para a mulher, sua mão ainda tocando a minha, talvez em uma tentativa de me acalmar. Ou talvez fosse seu modo de ler minha alma.

“Talvez.” Respondi.

“Eu recebo muitas almas aqui, Regina.” Disse. “Todas elas, assim como você, estão confusas ou perdidas... Sem saber como lidar com todos esses sentimentos que a morte causa.” Continuou. “Meu trabalho é ajudá-las a lidar com eles, com esses sentimentos, com essas dúvidas.”

“Eu não acho que eu saiba fazer isso.” Respondi. “Há muita coisa na minha cabeça agora.”

“Quais coisas?”

Olhei para seus lábios rosados, seus olhos claros cheios de compaixão e pensei que sua bela aparência era apenas para acalmar as almas que ali apareciam. Todavia, toda sua beleza só fazia com que eu me sentisse mais angustiada. Pois ela me fazia pensar em Emma e no fato que eu jamais a veria novamente.

Perguntei-me como Emma estaria naquele momento. Perguntei-me quem havia enxugado suas lágrimas e quem a havia abraçado quando ela soube o que aconteceu. Se alguém havia segurado sua mão, quando meu corpo foi enterrado e se alguém havia lhe dito que tudo ficaria bem.

Será que tudo ficaria bem? Será que ela havia me perdoado? Será que Amy me perdoaria algum dia? Será que eu fiz certo?

Talvez eu não tenha pensado direito no que estava fazendo. Talvez eu jamais poderia ter pensado direito, pois eu não acho que havia o que se pensar. Todavia, eu poderia ter conversado com Emma. Eu poderia ter lhe dito toda a verdade, ter lhe dado a chance de escolher entre viver ao meu lado e longe de Amy ou ao lado de Amy, mas sem mim em sua vida. Talvez eu tenha sido egoísta demais. Talvez eu tenha sido mais do que isso. Talvez eu tenha sido muito covarde.

“O que você disse?” Glinda perguntou, me trazendo de volta a realidade. Eu olhei para a ruiva, balancei a cabeça, dizendo-lhe que não havia dito nada. “No que você pensou então...”

“Em nada demais.”

“Eu posso ouvir seus pensamentos, Regina. Talvez você se sinta melhor se dissesse o que sente em voz alta.” Disse e eu franzi o cenho. “Vamos lá, eu já ouvi coisas piores e acredito que o que você acha que é, não é de fato uma verdade.”

“Não.” Eu respondi. “Isso é verdade. Eu sou uma covarde.”

“Você acha mesmo?”

“Sim, eu acho.”

“E por que acha isso?”

“Bem, porque eu não tive coragem de enterrar minha própria mãe. Eu não tive coragem de lhe dizer adeus. Eu não tive coragem de olhar para ela deitada em um caixão. Não pela segunda vez, não mais. Não depois de tudo que eu descobri sobre ela, não depois de ter visto que existia essa humanidade por trás de todas as suas ações cheias de maldade. Porque metade de mim acreditava que ela merecia a morte e a outra metade. A outra metade queria que ela tivesse ficado boa e que ficasse comigo, que ela pudesse ter tido tempo de reparar todos os erros que havia cometido. Mas quando eu vi Alice devastada com a morte dela, quando eu percebi que eu não sentia o mesmo... Eu então me convenci de que talvez eu não a conhecesse de fato. Eu percebi que eu não a merecia, assim como ela não me merecia mais.” Eu disse e Glinda olhava para mim, minhas lágrimas desciam pelo meu rosto. “Enterrá-la seria confirmar que eu jamais poderia mudar o passado, que ela estava perdida, que sempre seria essa memória ruim em mim, que sempre seria essa cicatriz que eu levo em meu rosto.”

“E isso faz de você uma covarde? Não querer encarar o passado? Não querer enterrar o passado?”

“Não. Isso só faz de mim uma péssima filha. Mas talvez eu devesse isso a ela. Talvez eu devesse ter levado uma rosa ao seu tumulo ou ter dito algo a mais...”

“Você disse tudo o que tinha que ser dito, Regina. Talvez não com palavras, mas sua alma disse tudo. Ela não teria ido direto para o Norte se não soubesse de tudo o que você sentia de fato. Você a curou sim, talvez você não tenha curado o corpo que ela possuía em terra, mas você curou a sua alma. Nós somos almas, Regina e nós possuímos um corpo, não o contrário.” Respondeu e isso me acalmou, mas ainda havia algo em mim. Ainda havia uma angustia.

“Talvez você esteja certa.” Eu disse. “Mas eu ainda sou uma covarde. Eu tirei a minha própria vida e eu não tive coragem de dizer à mulher que eu amo o que eu iria fazer. Eu simplesmente fiz. Eu quebrei o coração dos meus filhos. Meu trabalho como mãe era me certificar de que nada, nem ninguém, jamais machucassem meus filhos, mas ao invés de protegê-los do mundo, eu simplesmente deixei-os sozinhos.”

Admitir isso em voz alta me quebrou em milhões de pedaços. Quebrou-me em tantas partes e me quebrou tão profundamente que eu senti como se não houvesse pior lugar no mundo do que o lugar do qual eu me encontrava naquele momento.

“Regina...” Ela disse. “Você tomou uma decisão que poucas pessoas conseguiriam tomar. Você se colocou por último, você tirou a sua própria felicidade, pois julgava ser a melhor coisa a se fazer no momento. De todas as coisas que você pode se chamar agora, a última é covarde. Você não foi covarde, você não foi egoísta...” Ela continuou, mas eu não sentia isso dentro de mim.

“Eles ficarão bem?” Eu perguntei.

“É claro que ficarão bem. Por que não ficariam?”

“Eu vou ficar bem?”

“O que você acha?”

“Eu acho que não vou conseguir ficar longe deles. Eu sinto que eu não sou nada sem eles. Você disse que nós somos almas e que nós temos um corpo, mas eu sinto que eu sou eles e que eles são tudo o que eu tenho.” Eu disse, enxugando minhas lágrimas.

“Então por que você não volta para eles?”

“Eu não posso. Eu destruí meu coração, eu me matei...” Eu respondi e ela riu me deixando confusa.

“Não, você destruiu um coração. Mas aquele coração já não era mais o seu. Sabe o que dizem sobre ser mãe?” Ela continuou e eu balancei a cabeça. “Que ser mãe é ter o coração batendo fora do peito.” Ela respondeu.

Eu abri a boca para respondê-la, mas eu não soube o que dizer. Ela sorriu e suas palavras pareceram tão confusas, até que eu as entendi e minhas lágrimas já não eram mais de angustia ou tristeza.

“Quando Alice veio até aqui, não foi guiada pelas suas dúvidas, mas sim por sua alma. Porque minha alma e a dela estavam conectadas e predestinadas a se encontrarem e a se reencontrarem algum dia.” Disse, enquanto eu tentava controlar minhas lágrimas. “Mas eu sabia desde o primeiro momento que a vi, que nosso romance seria complicado, que seria doloroso e que eu teria que esperar por ela por muitos e muitos anos. Eu sabia que haveria essa distância entre nós, sabia que seria o tipo de distância que não podia ser calculada em nenhuma unidade de medida. Existem mundos e mais mundos que me separam dela, Regina. Eu sabia que seria assim e eu escolhi que assim fosse. Nós escolhemos que assim fosse, mesmo sabendo que tudo isso nos machucaria.” Ela deu uma pausa, pois trazer Alice ao assunto era muito difícil para ela. Porém, não havia tristeza em seu olhar, só uma saudade em sua voz.

“Nós aceitamos e escolhemos enfrentar essa distância, pois havia algo maior do que qualquer coisa nesse mundo que nos unia uma a outra. Havia esse amor que nós duas compartilhávamos. Havia esse amor que nós duas permitimos que crescesse. Existem pessoas que entram nas nossas vidas e simplesmente reescrevem o sentindo de todas as coisas. Alice reescreveu o significado da palavra distância e ela reescreveu em mim o significado da palavra amor. Eu te digo isso agora, pois foi isso que Emma também fez em você. Ela simplesmente mudou tudo. Sem ela seu coração não estaria a salvo e batendo forte no peito dos seus filhos. A distância e todas as coisas que vocês passaram ao longo desses anos apenas fizeram com que o amor de vocês se tornasse cada vez maior e mais forte.”

Ela pegou minha mão, olhou para a minha palma aberta e a levou seus dedos até os lábios, beijando-os.

“Isso é para você trazer Alice de volta para mim.” Ela disse, tocando na minha palma da mão com seus dedos. “E isso é para você voltar para casa.” Continuou e assoprou em minha direção.

Seu hálito era como um vento em meu rosto. Eu fechei os olhos e quando eu os abri, encontrei Alice, sentada ao meu lado, gritando meu nome.

“Regina?!” Perguntou, em um tom assustado e me pegou pelos ombros, olhando meu rosto. “Ai, meu deus, como você fez isso?!” Continuou, suas mãos tremiam.

Ela chorava, enquanto eu ria, olhando para minhas mãos e para o livro aberto sobre a cama. As cinzas do meu coração estavam sobre as páginas abertas.

“Como você fez isso?!” Alice insistiu.

“Ah, Alice, eu nem sei como te explicar...” Eu respondi e suas lágrimas se misturaram a um sorriso.

“Eu sabia que uma história como a de vocês duas não podia acabar assim.”

“Quanto tempo eu fiquei fora?”

“Sei lá, um minuto ou dois...”

“Conjure o pássaro.” Eu disse. “Eu preciso voltar para casa e você precisa voltar para Glinda.” Eu continuei e ouvir o nome de Glinda a fez sorrir cada vez mais.

Ela se inclinou diante do livro, as cinzas do meu coração estavam espalhadas completamente sobre o pássaro. Era impossível ver o vermelho que o coloria. Ela passou a mão sobre o desenho, iluminando-o.

Era como se a página estivesse consumindo as cinzas. Todo o livro se iluminou e onde antes havia cinzas agora havia fogo. Nós nos levantamos, o fogo consumindo apenas o livro, deixando tudo ao seu redor intacto.

A cada segundo as chamas ficavam cada vez maiores e dentro da chama um pássaro surgiu. Sua imagem era fraca, mas o fogo lhe tornou mais forte e maior. Era como se o pássaro estivesse absorvendo todo o fogo para si. As chamaram sumiram e o pássaro ganhou sua verdadeira forma.

Esse pássaro não era o mesmo da memória de Alice. Ele era maior e muito mais gracioso. Seu olhar penetrava por através do meu corpo. Seu longo bico amarelo, contrastando com suas penas vermelhas-alaranjadas. Ele era o pássaro mais bonito que eu já havia visto na minha vida. Ele estava inquieto, como se quisesse que uma de nós se aproximasse.

“É uma Fênix!” Disse Alice, fazendo-me olhar para ela. “Vai até ela!”

Eu encarei a Fênix e caminhei em sua direção. Ela era enorme e me olhava bem fundo nos olhos. Estendi minha mão, mas hesitei no meio do caminho. A Fênix, inclinou a cabeça em direção aos meus dedos. Ignorei meu medo e permiti que meus dedos tocassem suas penas.

Quando eu a toquei, suas asas se abriram. As penas de seu corpo se iluminaram, tornando-a maior e mais bela. Ela abriu o bico, o som que emitia me preenchia completamente. A Fênix bateu as asas, planando por um segundo e voou em minha direção.

Enquanto ela voava até mim, meu corpo foi tomado por chamas, ela se chocou contra mim. Eu caí, meus olhos se fecharam e tudo dentro de mim queimava. Não era o tipo de fogo que machucava, mas sim aquecia. Tudo durou alguns segundos, mas foi tempo o suficiente para que eu me sentisse completamente viva.

Eu abri meus olhos, Alice ali do meu lado, perguntando-me se eu estava bem. Eu assenti e ela passou a mão por todo o meu corpo, certificando-se que eu estava dizendo a verdade.

“Eu estou bem.” Eu disse, tentando acalmá-la e levando minha mão até meu peito.

“O que foi?”

“Meu coração... Ele está em mim novamente. Ele está batendo...” Respondi, ela sorriu, pegando minha mão e me ajudando a levantar.

“Hora de voltar para casa, Regina.”

Sem pensar duas vezes, ela abriu um portal e nos levou até a minha mansão. Eu corri pelas escadas, até o quarto de Amy e encontrei meus filhos deitados na cama. Eles estavam dormindo e seus olhos estavam inchados de tanto chorar. Lembrei-me do que havia acontecido minutos antes e isso me quebrou por dentro.

Aproximei-me deles, decidindo que o melhor a fazer era permitir que eles se esquecessem de tudo. Seria muito cruel querer o contrário. Eu passei minha mão pelo rosto dos dois, tirando nossa despedida de suas memórias.

“Eles estão bem?” Perguntou Alice.

Eu me virei para vê-la, parada diante da porta e caminhei até ela e descemos juntas as escadas.

“Eles ficarão bem.” Eu respondi e ela me levou até a cozinha, parando diante do balcão, diante da cesta de piquenique que havia trazido antes.

“Eu acho que nossos caminhos se dividem aqui.” Ela disse.

“É, eu acredito que sim.”

Ela caminhou até mim, me abraçou e eu percebi que aquele seria nosso último abraço. Eu nunca mais a veria. Ela se afastou e eu vi seus olhos cheios de lágrimas. Ela sorriu e era uma mistura de tristeza e felicidade.

“Eu tenho algo para você. Glinda disse que isso te levará até ela.” Eu disse e ela sorriu, abrindo a cesta de piquenique.

“Eu tenho algo para você também. Quer dizer, é algo para você e para Emma.” Ela tirou de dentro da cesta uma pequena cestinha, contendo cinco pequenos bolinhos, cobertos de chocolate, escritos ‘coma-me’ em açúcar branco. “Na verdade, são para a Amy.”

“O que eles fazem?”

“Deixam você menor.” Ela respondeu.

“Você quer encolher a Amy? Que espécie de plano é esse?” Eu perguntei e ela riu da minha pergunta.

“É algo temporário, acredite. Será uma experiência e tanto.” Respondeu. “Bem, eu adoraria ficar para ver o reencontro das duas, mas acho que eu já não mais pertenço a esse mundo.”

“Não é verdade.” Eu respondi e ela sorriu. “Talvez a gente se veja algum dia.”

“Talvez...”

“Pronta?”

Alice assentiu e fechou os olhos. Eu levei minha mão até a altura de meus lábios e assoprei a palma. Eu não vi nada, nenhum sinal de magia, mas, aos poucos, Alice foi desaparecendo no ar, até não haver mais sinal algum de sua presença. Eu fiquei sozinha e olhei para o vazio que sua ausência causou. Escutei a porta da entrada se abrir e bater, então a voz de Emma preencheu o silêncio.

“Regina?!” Perguntou, sua voz quase exaltada.

Seu olhar estava repleto de perguntas, mas eu não tinha tempo para explicações. Eu me aproximei e lhe puxei para um beijo. Ela não fazia ideia de tudo o que eu havia passado nas últimas horas. Ela não fazia ideia de que, por um momento, nossa história quase teve um fim.

Ela sentiu a urgência em meu beijo, sem entender o porquê eu estava tão desesperada em tocá-la e em sentir seu perfume ou seus lábios. Ainda assim, ela me beijou com a mesma paixão e desespero. Minhas mãos se perderam em seus cabelos e quando o ar se fez necessário, ela se afastou e sorriu.

“O que foi isso?” Perguntou, sua respiração cansada e seu olhar cheio de paixão me fizeram sorrir.

“Isso foi porque eu te amo.” Eu disse, beijando lhe mais uma vez. “E também porque eu estava com saudades.”

Foi a vez de Emma de me puxar para os seus beijos e suas mãos deslizaram pelo meu corpo, empurrando me até o balcão. Eu sabia onde estávamos indo com tudo isso, então a fiz parar.

“Eu pensei que estava com saudades.” Disse Emma, em um tom frustrado.

“Estou, mas tem algo que eu tenho que te mostrar.”

Eu a peguei pela mão e caminhámos até as escadas. Ela me seguiu e paramos diante do quarto de Amy.

“O que Henry está fazendo em casa?”

“Emma, existem muitas coisas que eu preciso te contar, mas no momento nenhuma delas importam.” Eu disse.

Eu a deixei por um momento e caminhei até a cama de Amy, tocando gentilmente nos cabelos de Henry e acordando o garoto. Ele me encarou, confuso e depois olhou para a irmã, aninhada ao seu corpo. Ele se afastou, tomando cuidado para não a acordar.

“Mãe?” Ele perguntou, olhando para mim e depois para Emma. “Eu voltei casa porque você me ligou, mas eu não lembro sobre o que era a ligação.”

“Eu só queria que você viesse para casa.” Eu disse e me aproximei de Amy, pegando-a nos braços. “Amy?” A menina despertou lentamente, bocejando e passando as mãos pelos olhos, quando me viu, ela sorriu.

“Oi, mamãe.” Disse, sua voz cheia de doçura, lembrando-me que há pouco tempo atrás eu a havia visto chorar em desespero. Ela não se lembrava mais disso, mas só a memória dessa cena foi capaz de me fazer chorar. “Por que você tá chorando, mamãe?” Perguntou, seus dedinhos tocando em meus olhos e secando minhas lágrimas.

“Estou chorando porque ver você me emociona.” Eu respondi, ela riu da resposta e me abraçou.

“Eu tive um sonho muito bonito, mamãe.” Ela disse, quebrando o abraço. “Você estava lá, Henry estava lá...” Ela viu Emma parada diante da porta. “Você também estava lá mãezinha!”

“Aposto que foi um sonho muito lindo, meu anjo.” Emma respondeu e Amy assentiu.

“Eu também tive um sonho enquanto você estava tendo um sonho.” Eu disse, ouvindo sua risada. “Posso contar o meu primeiro?”

“Pode sim.” Respondeu e eu me levantei da cama, com ela ainda em meus braços.

Eu olhei para Emma, que tinha seu olhar em nós duas e depois para Henry, que ainda parecia muito confuso. Eu comecei a falar, Amy colocou suas mãos ao redor do meu pescoço e olhou bem dos meus olhos.

“Eu sonhei com uma manhã muito bonita, igual a essa.” Eu disse. “Estávamos todos no seu quarto e eu estava com você nos braços, contando sobre um sonho que eu tive.”

“Mamãe!” Amy me interrompeu. “Não seja boba. Você não está contando um sonho, você está contando o agora.” Continuou e eu dei risada de sua observação.

“Ah, é?” Eu disse. “Bem, deixa eu continuar, então. No meu sonho, eu estava com você nos meus braços, como eu disse antes. Mas à medida em que eu contava sobre meu sonho, eu me aproximava da sua mamãe.” Continuei e foi isso o que eu fiz. Eu dei um passo à frente e Amy me olhou, preocupada. “Você ficou bem preocupada no sonho, mas você confiou em mim.” Amy olhou para Emma e depois para mim, seus dedos afundaram em meu pescoço. Ela estava com medo, então eu encostei minha testa na dela. “Vai ficar tudo bem, meu amor. Confia na mamãe.”

“Eu não quero machucar ela.” Disse Amy, sussurrando e eu senti sua voz carregada de medo.

“Você não vai machucá-la.” Eu respondi em seu ouvindo e ela me abraçou mais forte.

“Regina, o que você está fazendo?” Emma perguntou, mas eu a ignorei e dei mais um passo em sua direção.

Ela estava confusa, mas enquanto eu me aproximava, notou que eu não estava mentindo. Amy não mais poderia machucá-la. Eu estava a poucos passos de distância de Emma com Amy ainda me abraçando forte. Ela não viu quando sua mãe levou suas mãos até a boca e não viu quando seus olhos se encheram de lágrimas, quando eu me encontrei diante dela.

Emma olhou para mim, suas mãos trêmulas e sem conseguir conter suas lágrimas. Ela estendeu suas mãos até Amy, tocando em seu corpo e seu olhar cruzou com o meu. Amy quebrou o abraço, quando sentiu o toque de sua mãe e olhou para ela. Sem pensar duas vezes, ela se jogou nos braços de Emma, que a abraçou contra o corpo.

Ela se sentou com nossa pequena nos braços e eu me ajoelhei diante delas, sentindo Henry tocando em meu ombro. Eu perdi as contas de quantas vezes eu idealizei essa cena e de quantas vezes eu sonhei com Amy em seus braços. Emma a beijou inúmeras vezes e não houve troca de palavra alguma.

Havia apenas os toques, os beijos e os sorrisos. Emma a abraçou novamente, seu olhar se encontrou com o meu e ela sorriu e eu lembrei do dia que Amy veio ao mundo. Lembrei-me do que ela havia dito quando eu segurei Amy em meus braços.

“Ela é como você imaginava?” Foi o que Emma perguntou aquele dia. “Não, Emma. Ela é muito mais do que eu imagina.” Foi minha resposta.

Era como repetir aquela cena, mas dessa vez Emma não iria embora, dessa vez ninguém iria para lugar algum. Não haveria mais lágrimas de tristeza e não haveria mais distância ou espera. Tudo isso havia ido embora e dado lugar aos beijos e aos abraços, que antes pareciam um sonho distante.

Quantos monstros nós havíamos enfrentados nos últimos anos? Eu me perguntei, olhando para Amy sentada no colo de sua mãe, tocando seus cabelos e lhe dizendo algo que a fez sorrir. Quantas lágrimas de tristeza nós havíamos derrubados nesses últimos anos? E quantas nós tivemos que secar para chegar até esse final?

Não importava mais. Já não importava mais as pedras no caminho ou os rios de lágrimas. Tudo o que havíamos vivido e passado nos levaram até aqui, nos levaram até esse final. Embora eu não conseguia ver dessa forma. Eu não conseguia ver um final. Nós começaríamos outra história e ela seria diferente de todas as outras. Ela não começaria com um ‘Era Uma Vez’, mas sim recomeçaria com um “E Viveram Felizes Para Sempre.”

Notas finais
Sem muito o que dizer, sei lá... Só obrigada eu acho, eu posso continuar, como eu disse... eu tenho muita historia pra contar... Mas antes de mais nada, apenas agradeço ao carinho e a paciência de todas, acredito que muitos vão achar o reencontro delas bem fraco, mas sinceramente seria difícil vencer toda a expectativa que foi criada por todos vocês... Enfim, até o próximo? (um dia eu continuo, eu acho, mas por enquanto esse é o fim de "Amy", muito obrigada)