Amy

24 Respostas


Capítulo 24 – Respostas

Tudo era névoa ao nosso redor, eu estava ajoelhada e nada conseguia ver a minha frente. Eu era capaz de sentir Alice ao meu lado, as lágrimas em meus olhos e aquela sensação de paz de minutos antes já não mais existia. Tudo era um vazio, capaz de causar uma dor imensa dentro de mim.

Encarei a névoa, que aos poucos se dissipava e dava lugar a um jardim, mas não era o mesmo de antes. Os pássaros cantavam ao longe e a grama áspera machucava meus joelhos. Então eu a vi, Alice, bem diante dos meus joelhos. Ajoelhada a minha frente, com lágrimas em seus olhos, esperando o momento certo para me dizer algo.

“Foi muito para você?” Perguntou, roubando-me uma risada.

Eu enxuguei minhas lágrimas, balançando a cabeça e lhe dizendo que havia sido sim. Ela sorriu, pegou minhas mãos e acariciando-as. Ela se perdeu nesse toque e eu acompanhei seu olhar, totalmente perdido na aliança que eu usava.

“Ninguém nunca tinha feito o que eu fiz.” Alice continuou. “Ir ao mundo dos mortos e trazer alguém de volta.”

“Eu sei. Você quebrou muitas regras.” Eu respondi e ela elevou o olhar para mim e riu, ainda segurando minhas mãos.

“É, eu quebrei sim.”

“É por isso que Emma e Amy não podem ficar juntas?” Eu perguntei e ela balançou a cabeça. “Por que então?”

“Quando nós voltamos e a alma de Emma voltou ao seu corpo. Nós percebemos que havia algo errado. Seu coração batia fraco e parecia que ela tinha cada pé em cada um dos mundos. O mundo dos mortos e o nosso. Whale não sabia dizer o porquê e então Rumple foi o primeiro a notar que Amy a enfraquecia.” Ela respondeu. “Eu sabia que não tinha nada a ver com trazer Emma de volta e sim com o feitiço. Por isso eu sabia que nada do que Rumple, Whale ou Blue dissessem estaria certo. Apenas uma pessoa sabia a resposta e essa pessoa era a sua mãe.”

Ela se levantou e a Alice da memória passou correndo pelo jardim. Nós então seguimos pelas masmorras, onde encontramos novamente minha mãe, sentada em um canto imundo da cela. Um dos soldados abriu as grades, permitindo que Alice entrasse. Minha mãe a encarou com curiosidade e a garota se ajoelhou a sua frente.

“Eu consegui.” Disse Alice. Minha mãe arqueou a sobrancelha, sorrindo.

“Conseguiu?” Perguntou e Alice concordou com a cabeça. “Mas aqui está você novamente. Então eu acredito que algo deva ter dado errado.” Continuou e Alice revirou os olhos, levantando-se. “O que deu errado?” Sua voz saia em um tom divertido, como se tudo não passasse de uma grande piada.

“As duas não podem ficar juntas.” Alice respondeu.

Minha mãe riu alto, sua risada ecoava mais alto ainda. Em meu corpo, algo corria e eu dei um passo à frente, mas Alice me impediu de prosseguir.

“O que eu faço?” Perguntou Alice e minha mãe apenas deu de ombros, sua atenção voltada a garota a sua frente. “Diga-me, Cora. Como eu posso quebrar o feitiço!” Insistiu e minha mãe balançou a cabeça.

“Não há como quebrar o feitiço.” Respondeu, sua voz soando baixo, coberta de tristeza. O sorriso em seus lábios sumiu e seu olhar se desviou de Alice, pois existiam lágrimas neles. “Por que você não me ouviu? Por que você simplesmente não aceitou que você tinha ganhado uma nova chance com a minha filha?” Continuou e sua voz saiu enrolada com o próprio choro. Alice se ajoelhou novamente a sua frente.

“Cora, nós duas já não mais pertencíamos à mesma história e você sabia disso!” Alice respondeu, mas minha mãe balançou a cabeça inúmeras vezes, permitindo que suas lágrimas caíssem pelo seu rosto. Eu nunca havia lhe visto chorar. Eu nunca a tinha visto tão fraca e vulnerável.

“Bem, agora nem ela e nem Emma pertencem mais.” Respondeu e seu olhar que antes era carregado por dor, misturou-se a algo a mais. “Não há mais nada que você possa fazer, Alice. Você arruinou tudo! Você jogou fora todas as chances da minha filha ser feliz!” Gritou, obrigando Alice a se levantar.

“Tem que haver um jeito.” Disse Alice e minha mãe a encarou, sem nada dizer.

Aquele olhar deixava claro que nada havia o que fazer para quebrar o feitiço. Eu encarei Alice, enquanto o cenário a nossa volta mudava novamente. Estávamos então em um quarto. A Alice da memória caminhava de um lado para o outro. Era o seu quarto em Storybrooke, ela estava de pijamas e pantufas e tinha um ar preocupado.

“Eu não sabia o que fazer.” Disse Alice. “Eu achava que tinha que fazer algo, pelo menos te procurar e dizer a verdade. Mas eu não tinha coragem, eu não sabia como dizer ou o que dizer. Eu tinha muito o que dizer, é claro que eu tinha. Mas, eu sempre fui tão covarde.” Continuou. A Alice da memória agora se jogava em sua cama, gritando de frustração. “Eu achava que ficaria louca.”

A Alice da memória levantou-se e caminhou em direção ao seu guarda roupa, abriu a porta e olhou dentro. Sem pensar duas vezes, ela entrou no móvel e eu me virei para a verdadeira Alice, esperando uma explicação.

“O que você estava fazendo?” Perguntei e ela riu, caminhando até o guarda roupa e entrando.

“Eu costumava fazer isso quando era criança e queria pensar.” Respondeu, enquanto atravessávamos o móvel que parecia não ter fim. “É claro que eu jamais me fechava lá dentro, pois sempre achei estupidez me trancar em um armário.” Continuou e deu uma pausa, eu vi que meus pés já não tocavam em madeira, mas sim em neve. “Eu pensava que estava fazendo isso aquele dia, mas nem percebi quando um portal foi aberto.”

Quando saímos do outro lado, estávamos em um bosque. Havia neve por todo lugar. Os altos pinheiros todos tomados por branco e Alice a alguns metros de nós duas, parada diante de um poste plantado bem no meio do bosque. Ela cercou o objeto, com um sorriso no rosto. No poste, havia um lampião aceso e o vento parecia incapaz de apagá-lo.

“Onde estamos?” Perguntei e quem respondeu foi Alice da memória.

“Nárnia!” Disse, parecendo surpresa e emocionada ao mesmo tempo.

Ela ria, tocando no poste e girando ao redor dele. Eu encarei a Alice real, o portal pelo qual havíamos passado ainda suspenso no ar. As roupas de Alice penduradas voando com o vento gelado.

Uma mulher ruiva, completamente de branco, se aproximava. Ela não parecia sentir frio, mesmo descalça e mesmo com todo aquele vento em seu rosto. A mulher caminhou até Alice, que parecia muito distraída com o poste para notar sua presença.

“Olá.” Disse a mulher, assustando Alice que imediatamente parou de rodar o poste e encarou a estranha a sua frente, que a contemplava com seus olhos azuis.

“Ah, oi. Eu acho.” Alice respondeu, timidamente, me fazendo rir da cena.

“Se divertindo com o poste?” Perguntou e Alice olhou para o objeto, tocando-o com as palmas da mão e tirando uma risada da mulher.

“É um poste muito interessante.” Alice respondeu, encarando a mulher de cima abaixo. Deixando claro, pela forma que ela a olhava, o quanto estava admirada com a presença da mulher a sua frente.

“De fato.” Respondeu a mulher, olhando para o poste e então para Alice, dando um passo à sua frente. “Não mais interessante que você, é claro.” Continuou e deu uma volta ao redor de Alice, tocando em seus cabelos com os dedos.

Alice se mexeu, parecendo incomodada ou excitava, era difícil dizer. Eu me virei para a verdadeira, seus olhos corriam pelo corpo da ruiva e eu compreendi que minha segunda hipótese era a verdadeira.

“Você é aquela doida da história?” Perguntou Alice.

A mulher parou atrás dela, bem próxima de seu corpo e Alice fechou os olhos quando a ruiva aproximou os lábios de seu ouvido e mordeu o lábio quando ouviu uma risada.

“Aquela doida?” Perguntou a ruiva.

Alice se virou para ela, encarando a mulher de cima abaixo, bem devagar, como se tentasse decorar cada linha de seu rosto pálido até seus fartos seios e as curvas de sua cintura. A mulher, por sua vez, não pareceu nada incomodada em ser devorada com os olhos pela jovem.

“É, a feiticeira de Nárnia. Jadis ou algo do tipo.” Respondeu Alice.

A ruiva se aproximou mais, quebrando qualquer distância que havia entre elas. Dessa vez, foi a vez da mulher de devorá-la com os olhos. Seu olhar era cheio de curiosidade e seu sorriso satisfeito, enquanto sua mão caminhava de encontro ao rosto da garota, tocando em suas bochechas, com as costas dos dedos.

“Você não está em Nárnia.” Respondeu a mulher e sua resposta deixou Alice aliviada e frustrada ao mesmo tempo.

“Não?” Perguntou e a ruiva balançou a cabeça.

“Não. Você está no meu mundo.”

“E como o seu mundo se chama?”

“Ele tem muitos nomes.” Respondeu e Alice revirou os olhos, fazendo a ruiva rir novamente. “E você já esteve aqui antes com aquela garotinha.”

Alice abriu a boca para dizer algo, mas não teve tempo. A ruiva começou a andar e depois de hesitar um pouco, Alice a seguiu. O cenário mudava à medida que nós andávamos, mas não era memória que estava mudando e sim o clima do lugar. O inverno foi embora e a primavera surgiu.

Tudo se tornou verde e as flores brotavam dos arbustos. Pequenos animais corriam pela grama verde e o cheiro das flores tomavam todo aquele local. Alice seguiu a mulher e em seu rosto havia um fascínio, misturado a uma curiosidade.

Em volta daquela mulher transbordava vida. Embora soubéssemos bem onde estávamos. Ao longe, uma mansão, completamente branca e bem convidativa nos aguardava. Percorremos o caminho em silêncio e não demoramos a chegar ao portão de madeira.

“Acredito que deva estar com fome.” Disse a mulher, assim que entramos.

As duas seguirem até uma cozinha. Não havia ninguém na mansão e um silêncio tomava conta de tudo. Havia também essa paz, que novamente eu não consegui descrever.

“Na verdade não estou não.” Alice respondeu e a ruiva pareceu desapontada. “Mas aceito uma xícara de chá.” Continuou e fez surgir um sorriso no rosto da mulher, que caminhou até um armário, tirando de lá uma chaleira. “Você não me disse seu nome.” Disse Alice, enquanto a ruiva preparava seu chá. As duas caminharam até um balcão, onde sentaram-se.

“Chamo-me Glinda.” Alice abriu a boca, para dizer algo e a mulher riu. “Chocada?” Perguntou, ainda rindo, Alice apenas confirmou com a cabeça.

“Você está morta?” Alice perguntou, em um tom preocupado, novamente a mulher riu e negou com a cabeça. “Eu estou morta?”

“Não, você não está morta.” Ela respondeu. “E eu pareço morta para você?”

“Não, você é muito quente para alguém morto.” Respondeu Alice e a mulher sorriu.

“Vocês duas...” Eu disse, observando a cena se desenrolar a minha frente. Alice olhou para mim e esperou que eu continuasse. “Parece que está havendo algo entre vocês duas.”

“Não sei se foi paixão à primeira vista.” Alice disse e a cena congelou. Pela forma que as duas se olhavam, era inegável que havia algo acontecendo. “Tinha algo nela que me encantou assim que meu olhar cruzou com o dela. Talvez fossem os cabelos ruivos, os olhos azuis. Eu não sei, tudo nela me encantou, foi difícil me concentrar em tudo o que eu ouvi aquele dia.”

“E o que você ouviu?” Eu perguntei e Alice suspirou, movimentando suas mãos e trazendo vida de volta à cena.

“Se eu encontro em mim um desejo que nenhuma experiência neste mundo pode satisfazer, a explicação mais provável é que eu fui feita para outro mundo." Disse Glinda e a Alice a sua frente franziu o cenho.

“Você é o que? Uma poetisa?” Alice a questionou e a ruiva riu, balançando a cabeça.

“Não. É uma citação. C.S.Lewis.” Respondeu e Alice lhe lançou um olhar de curiosidade. “Estou querendo lhe dizer que você tinha dúvidas, muitas dúvidas e elas a trouxeram para cá. Para outro mundo, pois você não as encontraria em nenhum outro.”

“Você é uma espécie de guru ou algo do tipo?” A garota perguntou.

“Uma espécie de guia, eu diria.” Glinda respondeu. “Sabe, eu ajudo as almas a fazer a travessia. De volta para a casa.” Continuou. “Muitas delas chegam aqui confusas, sem saber para que direção seguir e algumas delas chegam aqui perdidas sem saber que elas têm que voltar. Então ou eu as coloco na direção do Sul, levando-as para o outro plano ou eu permito que elas voltem para casa, como no caso de Emma.”

“Você sabe de Emma?” Perguntou Alice, em um tom de espanto.

“Eu sei de tudo.” Respondeu Glinda. “Tudo sobre todas as almas que chegam aqui.” Continuou e Alice abriu a boca para questioná-la. “De modo que sei toda a sua história.”

“Tipo uma stalker?” Alice perguntou e a ruiva apenas riu, não deixando claro na expressão de seu rosto se ela entendeu o que Alice havia dito. “Quer dizer, como você sabe?”

“É o meu trabalho.” Respondeu Glinda.

Alice colocou os cotovelos sobre a mesa e apoiou seu rosto sobre as mãos, observando a ruiva a sua frente. Ela parecia bem pensativa e Glinda apenas a contemplou. Eu acho que eu jamais havia visto troca de olhares tão cheia de cumplicidade.

“Você sabe quais são as dúvidas que me trouxeram até aqui?” Alice perguntou e Glinda assentiu.

“Sei da sua jornada em levar a felicidade para a Regina. Sei de todos os contratempos, de todas as vezes que você se sentiu enganada e de todas as vezes que sentiu medo. Eu sei também das vezes que você pensou em como teria sido se você tivesse feito diferente e devo te dizer que: não existe isso de ‘poderia ter sido’. As coisas simplesmente são. Elas acontecem por um motivo e não temos controle para todos os eventos de nossas vidas. De modo que o Pó de Fada te levou sim a Regina aquele dia, mas ele não estava adiantado e nem você perdeu sua oportunidade. O que aconteceu foi: a fada que te levou até Regina, simplesmente entendeu mal os sinais.”

“Entendeu mal?” Questionou Alice, sentando-se melhor no banco que estava. “O que isso quer dizer?”

“O Pó de Fada estava te levando não ao seu final feliz ou a sua alma gêmea. O Pó de Fada estava te levando ao primeiro passo para chegar até ele.” Glinda respondeu e Alice pareceu tão confusa e ao mesmo tempo em conflito. Ela balançou a cabeça algumas vezes e olhou para o nada, antes de encarar novamente Glinda.

“Mas eu me apaixonei por ela. De verdade!” Alice respondeu e Glinda sorriu e estendeu suas mãos sobre o balcão e pegou as mãos da garota, olhando para seus dedos e depois para ela.

“Eu sei que sim e você a amou de uma forma que ninguém nunca a amará novamente. Seu amor era puro, não exigia nada em troca. Você a amou por vocês duas.” Glinda respondeu. “As pessoas acreditam que amar significar exigir algo em troca. O que é mentira, você deve amar sem exigir nada em troca, nem mesmo que a pessoa te ame de volta e foi isso que você fez. Seu amor por Regina te colocou em uma jornada para levá-la a felicidade. Todos os acontecimentos que vieram depois daquele encontro nos estábulos te trouxeram exatamente onde você está agora. Te trouxeram até aqui e olhe para trás e veja tudo o que você de certa forma deu a Regina...”

Alice a olhou em silêncio e depois abaixou o olhar, parecia refletir tais palavras, parecia repensar em todos os eventos. Todos eles. Quando ela então encarou a ruiva a sua frente, havia lágrimas em seus olhos, lágrimas das quais Glinda enxugou.

“Você está me dizendo que tudo o que aconteceu estava predestinado? Tipo destino?” Alice perguntou, quando Glinda trouxe suas mãos de volta ao corpo. A ruiva assentiu e sorriu para a garota. Alice parecia nervosa. Na verdade, ela parecia perdida. “Mas eu arruinei as coisas...” Continuou. “Emma e a menina não podem se tocar e aparentemente não há nada que eu possa fazer.”

“Não é verdade. Sabe, Dorothy teve momentos de dúvidas também. Houve momentos em que ela pensou que jamais voltaria para a casa, que jamais veria sua família. Ainda assim ela continuou sua jornada. Mesmo com as dúvidas.”

“É, mas ela tinha os sapatinhos o tempo todo. No final das contas, ela teria como voltar para casa, não é mesmo?” Alice perguntou, irritada. “Já eu... Eu não tenho solução mágica alguma! Eu não sei onde buscá-las!” Continuou e sua voz era carregada de frustração. Ela levou as mãos a testa. “Eu fiz errado em trazer Emma de volta?” Perguntou, olhando para Glinda, que balançou a cabeça.

“Logico que não. Se não fosse para ela voltar, eu não teria permitido.” Glinda respondeu.

“Bem, mas agora ela não pode ficar perto da filha. Não acha isso muito cruel?”

“Não apenas acho, como também sei que será...”

“Você sabe, é? E não pode me ajudar como ajudou Dorothy? Não pode me dar algo mágico ou coisa do tipo?” Alice insistiu, mas Glinda lhe deu um sorriso triste.

“Sabe, Alice... Dorothy poderia ter voltado para a casa desde o primeiro momento em que ela pisou nas terras de Oz. A bruxa que a recebeu poderia ter dito a ela como voltar, mas ela não disse. Não seria o certo a se fazer. Concordo que foi muito cruel deixar aquela garotinha enfrentar todas aquelas coisas, mas Dorothy veio até aqui com um propósito. A história dela não era sobre seu destino, o Kansas, mas sim sobre sua jornada por Oz.” Glinda respondeu e Alice pareceu muito frustrada com a resposta.

“O que isso tudo quer dizer?”

“Quer dizer que talvez não haja uma solução. Talvez Emma e Amy jamais se toquem.” Glinda respondeu e Alice pareceu verdadeiramente chateada. “Sabia que foi esse o nome que Regina escolheu?” Continuou e Alice balançou a cabeça. “É um belo nome, não acha?”

“Acho.” Alice respondeu, sem muito interesse. “Acho também que essa criança terá uma vida muito difícil.”

“Eu sei muito bem disso. Porém, a história delas não diz respeito a como elas ficarão juntas no fim, mas sim como elas permanecerão juntas, mesmo distantes.” Glinda continuou a dizer e houve esse silêncio entre as duas.

A ruiva tocou gentilmente nos fios de cabelos de Alice, os tirando da frente do rosto e eu pude ver a forma que seus olhares se cruzavam.

“Eu só queria que elas fossem felizes.” Alice respondeu, enquanto Glinda ainda mexia em seus cabelos.

“E quem disse que elas não serão?” Questionou Glinda. “Quem disse que elas não acharão uma forma de serem felizes?” Continuou. “Você devia se focar mais na sua própria felicidade e deixar que Regina e Emma tracem o próprio caminho.”

“É que de alguma forma eu me sinto responsável por ela...”

“Mas você não é.” Respondeu Glinda e Alice se preparou para respondê-la, mas Glinda não permitiu.

Ao invés de dizer mais alguma coisa, a ruiva apenas a tomou em um beijo e o cenário a nossa volta mudou.

“É, eu sei...” Alice disse, enquanto caminhava e nos encontramos ainda na mansão de Glinda. Agora em um corredor completamente escuro. “Ela foi bem rápida.” Continuou e se encostou a parede do corredor onde estávamos. “Eu fiquei aquela noite com ela. Fiquei também o dia seguinte. Os dias se passaram e eu continuei com ela, mas não conseguia te tirar da minha cabeça. Não é que eu te amasse, pois eu não te amava mais. Mas ainda existia algo em mim que queria achar uma forma de Emma e Amy ficarem juntas. Eu não queria desistir e isso afetou nosso relacionamento.”

Ela entrou por uma porta. Glinda estava sentada em uma cama de casal e Alice estava na outra ponta. As duas estavam em silêncio e a expressão no rosto de Glinda era de total tristeza. Tanto ela quanto Alice choravam.

“Tem certeza que eu não posso ir e voltar?” Alice perguntou e sua voz estava triste, embargada em seu choro. Glinda se arrastou pelo colchão, seu corpo completamente nu.

“Não. Não pode.” Respondeu, passando as mãos pelos cabelos loiros de Alice. “Alice, esse mundo tem regras. Não é igual aos outros mundos que você conhece. Você não pode simplesmente abrir uma porta para cá. Não é simples assim. Eu posso permitir que você vá, mas não posso prometer que você conseguirá abrir um portal de volta. Se você for, talvez nós nunca mais nos veremos.” Sua voz se esforçava para não se misturar ao choro.

“Eu queria que você suplicasse para que eu ficasse.” Alice respondeu e Glinda riu da sua resposta e a beijou inúmeras vezes no rosto.

“Seria muito egoísmo de minha parte te fazer tal pedido. Eu sei o quanto você quer ajudá-la. Eu sei sobre seus sentimentos por ela.”

“Eu não a amo.” Alice respondeu.

“Eu sei disso. Eu sei que você me ama, mas sei que você quer ir e eu jamais pediria para você ficar.” Glinda respondeu e Alice a tomou em um beijo.

Havia tanta tristeza nessa cena. Havia tanta dor. Eu me virei para a Alice ali ao meu lado. Toda aquela tristeza e toda a dor estavam estampadas no rosto dela, que abaixou o olhar e saiu do quarto. Eu então a segui e o cenário a nossa volta mudou. Glinda estava diante do poste onde um dia ela e Alice se conheceram pela primeira vez. Alice estava ao seu lado, olhando para o lampião aceso.

“Eu me lembro da primeira vez que te vi.” Glinda começou a dizer, seus olhos azuis cobertos de lágrimas. Alice a encarou e esperou que ela continuasse. “Eu sabia que você não era uma das almas que eu tinha que guiar.” Continuou. “Mas ainda assim, se você fosse, eu não acho que eu saberia abrir mão de você.”

Alice se aproximou e a tomou em um abraço apertado. Glinda afundou o rosto no pescoço de Alice, seu choro era tomado por desespero e tristeza. Eu me virei novamente a Alice e seu olhar era distante.

“Eu voltarei para você.” Disse Alice. “E eu vou te amar a cada dia, mesmo que eu não possa te ver ou te sentir.”

Glinda sorriu para ela. Um sorriso triste e estendeu a mão a sua frente, fazendo surgir um pequeno espelho.

“Para que você possa me ver.” Disse Glinda. Alice pegou o espelho, de moldura prateada que refletia sua própria imagem. Segundos depois, a imagem refletida deu lugar a imagem de Glinda. “Sei que é pouco. Eu vou sentir falta do seu toque e de tudo em você.”

Alice sorriu e olhou para a imagem de Glinda refletida no espelho, tocando na imagem. Eu percebi que Glinda podia sentir o toque e isso a emocionou. Dessa vez, as lágrimas em seu rosto não eram de tristeza. Alice sorriu novamente e a puxou novamente para um abraço.

“Não importa quantos mundos eu encontrar, eu sempre estarei pensando em você.” Disse Alice, com Glinda em seus braços. “Eu estarei sempre te mandando meu amor, te mandando meus beijos e todos os meus carinhos.” Continuou e afastou Glinda, para que pudesse ver o seu rosto. Ela enxugou o rosto da ruiva e a beijou na testa. “Nem todo toque precisa ser sentido. Eu amo você.” Concluiu e Glinda respondeu que a amava de volta.

Um portal se abriu, Alice se afastou de Glinda e então somos levadas a outra memória. Nos encontramos novamente nos jardins do castelo de Alice. A verdadeira Alice, corria a minha frente, sem me esperar. Eu gritei por seu nome, fazendo-a parar e se virar para mim.

“O que foi?” Perguntou, seus olhos estavam vermelhos. Ela enxugou suas lágrimas e eu me aproximei dela.

“Por que você fez isso? Por que você a deixou?” Eu perguntei e ela respirou fundo, dando de ombros.

“Porque eu precisava achar uma forma de unir vocês duas novamente!” Respondeu, seus olhos cheios de lágrimas. “Eu não podia viver dessa forma. Eu não queria viver dessa forma e perdê-la foi sim muito trágico, mas eu não podia viver sabendo que essa garotinha iria crescer sem a mãe por perto. E que, em parte, seria por minha culpa.” Concluiu, sua voz exaltada. Ela se desculpou e levou as mãos a testa.

“Não precisa se desculpar.” Eu disse. Ela tentou se recompor, forçou um sorriso e voltou a caminhar, mas eu a impedi, segurando-a pelo braço. “Então você viveu longe dela todos esses anos?”

“Sim. Ela estava certa. Eu jamais consegui abrir um portal de volta.” Respondeu. “Mas nós sabíamos que isso poderia acontecer. Nós sabíamos que havia essa possibilidade.” Continuou. “Eu voltei a Storybrooke. Eu vi que vocês tinham certa ideia do que acontecia entre Emma e Amy e que achavam que treinar Emma seria a solução. Sua mãe não disse nada a respeito. Na verdade, ela simplesmente parou de falar comigo. Eu passei o resto desses anos indo a todos os reinos que eu conhecia. Tentando achar uma forma de quebrar o feitiço. Mas todos os magos, feiticeiros e bruxos que eu encontrei não sabiam o que fazer. Eu me encontrei num beco sem saída. A única que podia me ajudar era a sua mãe. Embora ela tivesse me dito que não havia uma forma de quebrar o feitiço, algo em mim dizia que existia sim e que ela sabia.” Concluiu e nos encontramos então nas masmorras.

Alice estava dentro da cela, minha mãe lhe direcionava uma expressão vazia e a garota se ajoelhou a sua frente.

“Sabe, eu criei uma teoria.” Disse a garota, minha mãe não parecia estar interessada no que ela falava. "Pensei comigo mesma, talvez ela seja assim tão errada por não ter um coração.” Continuou e algo no olhar de minha mãe sugeriu certo interesse agora. “Então eu pensei, que se você tivesse um, que se você não pensasse apenas com a razão, mas também com seus sentimentos, então talvez, apenas talvez... Você consiga entender o mal que você fez a sua filha. E então você me diga – se é que existe – um contrafeitiço.” Concluiu e minha mãe soltou uma risada demorada.

“E qual é o seu plano?” Perguntou e Alice chamou um de seus soldados, que se aproximou com uma caixa de madeira em mãos. Alice abriu a caixa, revelando o seu conteúdo. “Meu coração?!” Perguntou, sua voz tomada de ódio. “Como você conseguiu?”

“Não foi tão difícil assim, sabe?” Alice respondeu, pegando o órgão em suas mãos.
“Ele estava no cofre de Regina. Não é muito difícil invadir um cofre quando se consegue criar janelas entre os mundos.” Continuou e se levantou.

Com um movimento nas mãos, ela fez com que a minha mãe se levantasse e se aproximou dela. O órgão era negro e completamente deformado, mal batia na mão da garota. Alice se aproximou, minha mãe olhava atentamente para o órgão. A garota foi em direção ao peito dela, mas sua mão jamais atravessou.

“O que você fez?!” Alice perguntou, em um tom irritado. “Você o protegeu?” Continuou e encarou minha mãe, que apenas balançou a cabeça.

“Não.” Minha mãe respondeu, enquanto Alice a libertava de seu poder. “Você não vê? Ele já não cabe mais em meu peito.” Continuou e Alice olhou para o órgão, que de fato era bem pequeno.

“Como eu o conserto?” Perguntou Alice e minha mãe balançou a cabeça.

“Você não o conserta.” Respondeu. “Desista, Alice. Não há o que fazer.”

Alice devolveu o órgão para sua caixa e deu um passo em direção a minha mãe. As duas se encararam, tentei imaginar o que se passava na mente delas.

“Eu estou nessa busca há quase quatro anos agora.” Disse Alice. “E há quase quatro anos sua neta vê a mãe por vídeos e fotos. Ouve sua voz na distância. Consegue imaginar isso? Consegue se colocar no lugar de Emma? No lugar de Regina? Consegue imaginar como ela se sente ao acordar de manhã, olhar para o lado e Emma não estar lá? Ou de ter que explicar para a filha, em seu próximo aniversário, o motivo pelo qual suas duas mães não estarão presentes?” Continuou e minha mãe nada disse. “Eu só preciso saber, só para abandonar essa busca, só para saber se tudo o que eu abri mão nesses últimos anos não foi em vão. Eu preciso saber se existe uma forma de quebrar o feitiço.” Perguntou e minha mãe fechou os olhos e assentiu, Alice respirou aliviada. “Então me diga.” Alice pediu, sua voz quase em uma suplica.

“Eu não posso.”

“Por quê?”

“Não insista, Alice!” Minha mãe gritou para a menina, fazendo-a se afastar. “Desista da sua ideia!”

“Eu não vou. Não agora que eu sei que existe uma forma de quebrar o feitiço.” Disse Alice. “Eu vou achar uma forma de curar seu coração, Cora. E uma vez ele no seu peito, uma vez ele batendo e você podendo amar novamente. Você entenderá o porquê você precisa me ajudar a quebrar o feitiço.”

Alice saiu da cela, deixando minha mãe sozinha. O cenário mudou e somos levadas ao colégio de Amy. Meu carro parado diante dos portões. Alice escondida, observando a cena, onde eu desço do carro e tiro Amy do automóvel.

Era seu primeiro dia de aula, ela estava tão nervosa aquele dia. Eu me abaixei diante dela, lhe dei um forte abraço, mas ela lutou para não me soltar. Ao invés de eu convencê-la a me deixar, eu a abracei mais forte e a peguei em meus braços, beijando-lhe.

Eu caminhei com ela em meus braços, subi as escadas em direção a Snow, que nos esperava. Eu soltei a menina, que correu para os braços da avó. Eu me despedi das duas e voltei para o meu carro.

“Você ficou um tempão parada lá.” Disse Alice.

“É, eu lembro. Foi a primeira vez que eu fiquei longe dela por mais de uma hora. Foi mais difícil para mim do que para ela.” Respondi, encarando o carro parado diante do colégio. “Qual era o seu plano?”

“Usar Amy para curar o coração de sua mãe.” Respondeu e a memória mudou novamente. “Eu sabia que seria difícil, pois ela não estava sendo treinada. Então eu a observei durante um ano. Ela jamais usava sua magia na escola, de modo que eu não podia dizer o quanto ela era forte.” Continuou e nós estávamos na Granny’s, onde Alice entrava com um bebê nos braços.

“Foi naquele dia que nos encontramos?” Perguntei e ela assentiu.

Eu lembrei-me da briga que Emma e eu tivemos aquele dia. Eu lembrei do quanto suas palavras haviam me quebrado, fechei os olhos e respirei fundo, tentando deixar tudo no passado. Eu abri os olhos e estávamos agora em minha casa. Eu abria a porta para Alice e Amy descia as escadas correndo na direção da garota.

“Amy, essa é Rapunzel.” Eu disse e Amy estendeu sua mãozinha para a garota, que se ajoelhou diante dela.

“Olá, Amy.” Respondeu Alice, tocando nos cabelos da menina, que sorriu em resposta. “Então, qual é o plano?”

Foi no dia dos fogos de artifícios, somos levadas a memória dessa noite. Eu estava diante do meu próprio carro, onde Alice se encontrava com Amy no banco de trás fazendo todos aqueles fogos. O conversível de Alice ao longe, onde Emma e eu nos encontrávamos. Novamente eu sou machucada por essa memória, que dura pouco, levando-nos ao quarto de Amy.

“Eu não gosto desse pijama.” Amy disse, quando Alice se aproximou com um conjunto de roupa.

“Certo.” Respondeu Alice, voltando ao guarda roupa e pegando uma segunda peça de roupa. “Que tal esse?” Perguntou e Amy concordou com a cabeça. Alice sorriu, caminhando em direção a Amy, ajudando-a a tirar a roupa. “Deve ser muito difícil não poder ver sua mamãe, não é mesmo?” Perguntou Alice, enquanto ajudava a menina a trocar de roupa.

“É sim.” Amy respondeu, em seu tom de voz triste. “Mas eu posso ver ela. Eu só não posso tocar.” Continuou e subiu em sua cama.

Alice sorriu para ela e levantou sua mão em sua direção, chegando bem perto do rosto da menina, mas sem tocá-la. Ela simplesmente passou a mão próxima a sua bochecha, pelo sorriso de Amy, eu percebi que ela podia sentir o toque.

“Nem todo toque precisa ser sentido, Amy.” Disse Alice e Amy se arrastou pela cama, indo de encontro a garota.

“Como você faz isso?!” Ela perguntou, animada.

“Eu apenas penso nisso e então eu toco.” Alice respondeu, dando de ombros.

“Não parece tão difícil.” Amy respondeu e Alice riu.

“É, não é tão difícil. Eu faço isso com uma amiga minha.” Disse Alice e Amy perguntou o porquê ela simplesmente não a tocava. “Eu não posso tocá-la da forma que eu quero.” Respondeu. “Quer uma historinha antes de dormir?”

Amy correu até a sua prateleira de livros, escolhendo um deles. Alice sorriu e uma lágrima solitária desceu por seu rosto. Amy voltou com o livro em mãos e se deitou em sua cama. O cenário mudou e fomos levadas ao palácio de Alice, que corria pelos corredores, entrando em um dos quartos.

“Como ela está?” Perguntou a um dos soldados, sua voz carrega de preocupação.

“Não muito bem.” Respondeu o soldado.

Estávamos em um quarto. Em uma cama, cercada por empregados, se encontrava minha mãe.

“O que aconteceu com ela?” Perguntei, virando-me para Alice, que sorria com a cena.

“Ainda não aconteceu nada, mas ela está muito doente. Acredito que viver muito tempo sem um coração faz isso com você.” Alice respondeu e eu voltei a atenção a cena.

Minha mãe tinha um rosto pálido, Alice se aproximou de sua cama, buscando por sua mão.

“Nós precisamos te levar a um médico.” Disse e minha mãe levou, com certa dificuldade, sua mão até o rosto da menina, balançando a cabeça. “Pode ser que tenha uma forma de te curar.” Continuou e minha mãe respirou fundo, tossindo fortemente.

Um dos empregados se aproximou, com um pano, enquanto ela começava a tossir sangue. Alice começou a suplicar para que minha mãe permitisse ser ajudada.

“Alice, você já fez tudo o que tinha que fazer por mim.” Minha mãe respondeu. “É hora de você desistir.” Continuou e sua voz saiu com dificuldade, em meio a tossidas. Alice enxugou seu próprio rosto coberto de lágrimas.

“Não, Cora. Eu sei que eu posso curar seu coração. Quer dizer, a menina pode. Você só precisa aguentar mais um pouquinho.” Respondeu, mas minha mãe balançou a cabeça.

“Você é muito teimosa.” Respondeu e Alice se levantou, beijando o topo de sua testa.

“Eu sei.” Respondeu Alice. “Mas eu não posso desistir de você. Não agora.” Continuou e se afastou da cama. “Cuidem dela.” Ordenou aos guardas, antes de sair do quarto e nos levar a outra memória.

“O que ela tem?” Perguntei, enquanto caminhávamos até a entrada do Granny’s.

“Não sei. Ela não quis um médico.” Respondeu.

Dentro do restaurante, eu e Amy nos encontrávamos e eu contratei Alice como babá de Amy.

“Você devia ter insistido.” Respondi e Alice deu de ombros, enquanto a cena acontecia.

Nós nos levantamos da mesa do restaurante e caminhamos em direção ao carro. Observamos o carro desaparecer e somos levadas a memória seguinte.

“Olha, Regina. O meu interesse em sua mãe é outro. Ela é a única que sabe o contrafeitiço. De modo que eu não poderia deixá-la morrer. Sua filha era minha única e última solução.” Respondeu. Estávamos em minha casa, onde Amy brincava no jardim. “Por isso eu arquitetei todo esse plano para ficar perto da Amy. A ligação para a diretora, as frases do muro.”

Alice chamou por Amy e a levou para um dos cantos do jardim. As duas se ajoelharam e Alice abriu um portal por entre os arbustos, pegou Amy pela mão e entraram por ele.

“Antes eu precisava saber se a teoria de Rumple estava certa. Se Amy poderia ficar mais forte. Então eu a levei para o meu mundo e a treinei. Ela nem notava. Não passava de brincadeiras e ela achava tudo divertido. Acontece que não precisei ficar com ela mais de um dia para perceber que o poder dela era algo que eu jamais havia visto antes.” Disse, enquanto a memória passava mais rápido. Amy brincava e conjurava coisas no mundo de Alice e então fomos levadas de volta a mansão. “Percebi que Rumple estava errado, como sempre. A teoria dele era falha, não havia nenhum poder em Amy que precisava ser expandido.”

Na mansão, Alice e Amy estavam na cozinha, conversando sobre fazer cookies. Amy parecia empolgada com a ideia e novamente outra memória. Agora, Amy estava dormindo no sofá e Alice ajoelhada ao seu lado, dizendo algo em seu ouvido.

“O último passo era saber se ela podia curar um coração.” Disse Alice. “Por isso eu coloquei aquele sonho na mente dela. O sonho de Daniel.” Continuou e a Alice da memória se afastou de Amy. “Perdoe-me. Eu sei que foi doloroso para você tudo o que aconteceu com Daniel, mas eu precisava fazer isso. Era a única forma que eu pensei.”

Nós fomos levadas de volta ao seu mundo. Estávamos em uma grande cozinha, Amy sentada no balcão e Alice a sua frente com uma caixa a sua frente. O coração de minha mãe estava ali dentro.

“O que é isso?” Amy perguntou, com certa curiosidade, inclinando-se sobre a caixa.

“É um coração.”

“Mas não parece um coração.” Amy respondeu, pegando o órgão, que cabia perfeitamente em sua mãozinha. “É bem pequeno!”

“É. É bem pequeno.” Respondeu. “Por que você não faz o mesmo que você fez pela sua mãe?” Perguntou e Amy olhou para o órgão com curiosidade.

Ela o virou em suas mãos, procurando por algo. O coração era negro, mais negro do que qualquer outra coisa que eu já tenha visto e agora batia, fracamente. Amy o levou junto aos lábios, fechando os olhos e assoprando o pequeno coração. Ele então cresceu, lentamente até ficar grande o suficiente, tomando a forma de um coração normal. Amy abriu os olhos e Alice sorriu.

“Eu consegui!” Disse Amy, ainda segurando o coração, com as duas mãos. “Mas ainda tem coisa ruim nele.” Continuou e levou novamente o coração aos lábios, assoprando-o até que toda a escuridão que havia nele desaparecesse, tornando-o vermelho. Todavia, ainda havia um ponto negro no coração, que ainda batia fraco. “É igual ao da mamãe.” Concluiu e o colocou de volta em sua caixa.

“É, meu anjo. É igual ao da sua mãe.” Alice respondeu, fechando a caixa. “Amy, eu tenho que fazer algo. Você se importa em ficar aqui alguns minutos?” Perguntou e Amy balançou a cabeça.

Alice pediu que um dos seus empregados servisse a menina com biscoitos. Ela pegou a caixa e saiu da cozinha. A memória foi mudando, enquanto Alice caminhava por um corredor, com o coração da minha mãe na pequena caixa.

Em um quarto, minha mãe se encontrava deitada em sua cama. A garota caminhou até ela, sentando-se ao seu lado. Sua aparência não era das melhores, Alice abriu a caixa e encarou o coração.

“Você conseguiu.” Disse minha mãe, sua respiração era cansada.

“Eu disse que conseguiria.” Alice respondeu e minha mãe sorriu.

Alice pegou o órgão, com as mãos e se aproximou do peito dela, mas novamente algo a impediu de continuar. A garota encarou o coração, frustrada e minha mãe balançou a cabeça.

“Qual é o problema?” Perguntou e minha mãe tocou no órgão, com um dos seus dedos, apontando para o último ponto negro que havia sobrado.

“Minha maior fraqueza.” Respondeu. “Apenas ela pode me devolver aquilo que uma vez eu abri mão.”

“Regina?” Alice perguntou e minha mãe concordou.

Aos poucos, a memória foi perdendo vida e nós voltamos ao meu escritório. Alice, diante de mim, enquanto eu olhava ao redor, tomando fôlego e tentando me adaptar de volta a realidade.

“Você está bem?” Perguntou e eu assenti. “Precisa de um tempo?”

“Não. Eu apenas preciso que você me leve até ela.”