Amy
25 Maior Que o Amor
Notas iniciais
Capítulo 25 — Maior Que o Amor
“Você está pronta?” Alice perguntou e eu encarei o portal que ela havia acabado de criar.
Eu podia ver o outro lado. Eu podia ver o seu mudo e o que me aguardava do lado de lá, mas eu não estava pronta. Eu não estava pronta para encarar minha mãe. Eu não estava pronta para perdoá-la. Então eu não a respondi e saí do escritório, deixando-a sozinha. Ela não demorou a me seguir e nos encontramos diante do quarto de Amy.
“Regina, está tudo bem?” Perguntou, em um tom baixo, para que Amy não percebesse sua preocupação. Eu assenti, embora minhas lágrimas dissessem o contrário. “Tudo bem, podemos esperar um pouco.”
“Vocês duas brigaram?” Amy perguntou, olhando para nós.
Alice riu, aproximando-se dela e se ajoelhando ao seu lado. Havia inúmeros livros de colorir espalhados pelo chão.
“Não, nós não brigamos.” Respondeu Alice, fazendo cócegas na menina, que riu alto.
Alice só parou quando Amy suplicou que ela parasse, Totó corria ao redor delas, latindo a cada risada. A cena me fez sorrir e também trazer a memória tudo o que Alice havia me mostrado. Enxuguei minhas lágrimas, sentei na cama de Amy e a chamei para junto de mim. Ela se levantou, deixando Alice sozinha com Totó.
“O que foi, mamãe?” Perguntou, encostando-se ao meu corpo.
Eu lhe beijei seus cabelos, pegando em meu colo e a sentando em meus joelhos.
“Nós vamos ver alguém hoje.” Eu disse. “Nós vamos ver minha mãe. Sua vó.” Continuei e Amy nada disse, apenas mexeu na gola de meu vestindo e me encarou com seus olhinhos azuis.
“Por isso você tá assim?” Perguntou. Eu balancei a cabeça e perguntei o que ela quis dizer com isso. “Assim nervosa.” Respondeu e eu sorri, tocando em seu queixo e lhe dando outro beijo.
“Você sente que eu estou nervosa?”
“Eu sinto sim.” Respondeu, colocando suas mãozinhas em meus ombros. “Mas ela é sua mamãe, você não devia ficar nervosa.”
“É, ela é sim...” Respondi, sorrindo e a coloquei no chão, pedindo para que ela arrumasse uma pequena mochila com alguns brinquedos e um casaco.
Ela concordou e correu até o seu guarda roupa, pegando a mochila e guardando as coisas que eu havia pedido. Alice a encarou, caminhando em minha direção e sentando-se ao meu lado.
“Sabe...” Disse Alice, seu olhar direcionado a Amy. “Eu coloquei o sonho de Daniel na mente dela, mas não fui eu quem colocou o anel na mochila.” Continuou e eu esperei por uma explicação.
“E quem foi?” Perguntei e ela deu de ombros.
“Eu gosto de acreditar na teoria de que vocês duas são mais conectadas do que acreditam ser.” Respondeu e sorriu, levantando-se e caminhando até Amy, para ajudá-la com sua mochila.
Em seguida, eu peguei Amy nos braços e segui Alice, que havia criado um portal. Ela perguntou novamente se eu estava pronta, novamente eu não me encontrava pronta, mas eu devia isso a Amy e principalmente a Emma. Abracei Amy em meus braços, que parecia ligeiramente confusa, mas ainda assim respondeu ao abraço e entramos no portal. Diante dos portões do castelo de Alice, eu coloquei Amy no chão e caminhámos de mãos dadas. O lugar era enorme e extremamente convidativo. Eu fui obrigada a soltar sua mão e ela correu pelo caminho que levava até a entrada.
Pequenos animais se aproximavam de Alice, enquanto andávamos. A maioria deles tinha roupinhas minúsculas e Amy achava tudo bem divertido. Todos eles a cumprimentavam, chamando-a de Rainha Alice. Atravessamos os portões, caminhamos por um amplo jardim e fomos recebidos por soldados e criados, que a cumprimentaram com um cortejo. Amy imitou seus gestos e riu dos uniformes dos guardas.
Existia tanta alegria em Amy, nenhuma preocupação e ela de fato estava se sentindo no mundo de Alice. Esse mundo de maravilhas do qual eu me sentia uma estranha. Meu coração pesava e se apertava de preocupação, mas então Amy sorria com tudo o que estava vendo e sentindo e eu permiti que minha preocupação fosse embora.
Nós seguimos por uma escada, seus degraus pareciam infinitos. Amy corria como se fosse um brinquedo em um parque de diversão e quando chegamos ao topo seguimos por um corredor. Paramos diante de uma porta, Alice se virou para mim antes de abri-la e eu soube pelo seu olhar que novamente ela queria saber se eu estava pronta.
Eu respirei fundo e assenti, com um sorriso nos lábios ela então abriu a porta e eu senti meu coração bater mais forte, quando ela entrou, segurando Amy pela mão. Eu reconheci o quarto da memória e lá estava minha mãe, dormindo em sua cama. No quarto, havia duas mulheres, uma delas ajeitava o lençol que a cobria e a outra arrumava o quarto, abrindo as janelas e permitindo que o sol entrasse, iluminando o cômodo.
Alice se aproximou da cama e pediu algo para uma das mulheres, que assentiu e saiu do quarto fazendo antes um cortejo. Eu não consegui dar um passo à frente, fiquei observando na distância. Alice pediu para a segunda mulher nos deixar a sós e, com um aceno na mão, pediu que eu me aproximasse.
Eu senti como se o tempo estivesse congelando, enquanto eu me aproximava. Eu senti como se ele já estivesse completamente congelado, quando eu me encontrei ao seu lado. Ela estava dormindo profundamente, sua respiração era cansada e ela estava pior do que na memória. Eu olhei para a Alice e depois para Amy, a imagem da minha mãe nesse estado me fez ter segundos pensamentos sobre se de fato eu devia ter trazido Amy conosco.
“Você está bem, meu anjo?” Eu perguntei, me ajoelhando diante de Amy.
Ela não tirou os olhos de minha mãe e não respondeu a minha pergunta. Alice se aproximou da cama, tocando gentilmente nos cabelos da mulher.
“Cora?” Sua voz era baixa, minha mãe não respondeu e a garota a chamou mais uma vez. Aos poucos, ela despertou.
“Ah, é você.” Respondeu minha mãe, abrindo os olhos e sua voz soou vaga e distante, como um sussurro.
“É bom te ver também, Cora.” Alice respondeu.
Minha mãe sorriu de lado e seu olhar percorreu o quarto, quando ela ouviu a voz de Amy, que agora subia na cama e se arrastava em sua direção. Minha mãe olhou confusa para a menina ao seu lado e meu coração se apertou, por medo do que ela poderia fazer ou dizer a Amy.
“Olá.” Amy disse, enquanto tirava sua mochila das costas e em seguida seus sapatos, jogando-o para fora da cama. Alice olhou para a cena, se divertindo com o que acontecia.
“Olá.” Minha mãe respondeu, franzindo o cenho. “E você é?” Ela continuou e eu a vi cerrar os olhos, como se tivesse dificuldade de enxergar a menina.
“Essa é Amy, Cora.” Alice respondeu e minha mãe abriu a boca em surpresa e sorriu logo em seguida.
Sua mão trêmula tentou alcançar o rosto de Amy, mas ela estava tão cansada e exigia tanto esforço, que desistiu. Amy, por sua vez, se aproximou mais dela, pegou sua mão e levou em direção ao próprio rostinho. Minha mãe sorriu, com lágrimas descendo por seu rosto. Ela não era a única que chorava, Alice também tentava esconder suas lágrimas. Amy era a única ali que não estava chorando. Ela se aproximou da avó, secando uma lágrima solitária de seu rosto.
“Você tá triste por eu ter vindo?” Amy perguntou, minha mãe balançou a cabeça várias vezes e apertou a mão da menina.
“É claro que não.” Ela respondeu com dificuldade. “É só que eu nunca tinha te visto antes.”
“Eu também nunca tinha te visto.” Amy respondeu, dando de ombros. “E eu não estou chorando.” Completou e minha mãe riu.
“Ela não devia estar aqui, Alice.” Minha mãe disse, se virando para a garota ao seu lado. “Regina não irá gostar disso quando souber.”
“Bem, Regina a trouxe até aqui.” Alice respondeu e o olhar de minha mãe foi tomado por preocupação.
“Regina está aqui?” Ela perguntou e Alice se aproximou mais, lhe ajudando a sentar.
A mulher percorreu o olhar pelo quarto, me fazendo perceber que sua visão já não era das melhores.
“Eu estou aqui, mãe.” Eu disse e seu olhar seguiu minha voz, mas eu não sabia se ela podia me ver. Ela sorriu e eu me aproximei, sentando-se em sua cama. “Olá, mãe.”
Ela se esforçou em levantar seu braço e eu a impedi, segurando suas mãos. Ela apertou o mais forte que pôde e fechou os olhos, permitindo as lágrimas escorrerem por seu rosto. Um dos empregados de Alice se aproximou, entregando a ela uma caixa de madeira e um caderno de couro envelhecido.
“Eu vou deixar vocês a sós.” Disse Alice, me entregando os objetos. “Você quer que eu leve Amy?” Perguntou e eu balancei a cabeça.
Alice se despediu e nos deixou sozinhas. Eu respirei fundo, enquanto Amy me encarava com curiosidade.
“O que tem ai, mamãe?” Ela perguntou e eu abri a caixa, revelando o coração de minha mãe.
Encarei Amy e depois minha mãe, que olhava para o seu coração, em silêncio. Eu o segurei em minhas mãos, olhei para o ponto negro que havia nele e Amy engatinhou em minha direção.
“Igual ao seu coração!” Ela observou.
“É. É igual.” Eu respondi, encarando minha mãe.
“Você sabe o porquê ainda tem esse pontinho, vovó?” Amy perguntou e minha mãe riu.
“Eu nunca pensei que algum dia ouviria alguém me chamar assim.” Ela respondeu, com tanta dificuldade e tomando fôlego em cada palavra. “Vovó.” Continuou e novamente fechou os olhos, tomando o máximo de ar que pôde, antes de continuar. “Eu sei sim, Amy. Sei exatamente o que prende meu coração nas trevas.”
“E o que é?” Amy insistiu e ela não precisou responder, pois eu sabia exatamente o que era.
Era eu que a prendia nas trevas. Na verdade, era a falta do meu perdão. Era tudo o que ela jamais me disse e que agora já parecia muito distante e sem sentido. Todavia, agora mais do que nunca, minha mãe precisava dessas palavras. Ela precisava do meu perdão.
“Vem até aqui, Amy.” Ela disse, ignorando a pergunta da menina, que se aproximou novamente. Com certa dificuldade, minha mãe levou sua mão até o rosto de Amy, contornando-o com a ponta dos dedos. “Você sabia que eu criei o feitiço que te levou até as suas mamães?” Perguntou e Amy balançou a cabeça. “Eu o escrevi em meu livro de feitiços, desenhei um belo pássaro e pedi para que Alice o conjurasse.”
“Um pássaro?” Amy perguntou, surpresa.
“Sim, um pássaro.”
“Que tipo de pássaro?” Amy perguntou e sem pedir licença, se deitou ao seu lado e minha mãe se virou para ela.
“Oh, o tipo de pássaro mais leal que existe. Um dia quem sabe você possa vê-lo. Ele é muito bonito.” Minha mãe respondeu.
“E onde ele está agora?” Amy insistiu e minha mãe balançou a cabeça.
“Eu não sei, mas se um dia você precisar dele, ele virá até você.” Ela respondeu e Amy sorriu com a resposta.
“Você vai voltar com a gente, não é mesmo?” Amy perguntou e minha mãe sorriu, mas não a respondeu. Ela suspirou e sua mão procurou as da menina.
“Eu não pertenço ao mundo de vocês, Amy. Meu lugar é aqui e eu já estou muito doente.”
“Não pode ficar boa?” Ela perguntou e minha mãe balançou a cabeça. “Quando eu fico doente, minha mãe me deixa ficar em casa na cama também.” Continuou. “Ela conta uma historinha para eu dormir melhor e no outro dia eu acordo boa.” Ela deu uma pausa, sentou-se na cama e se arrastou até a sua mochila, tirando um livro de lá. “Eu trouxe um, talvez você goste desse.” Completou e deitou novamente ao lado dela. “É meu favorito.”
Dessa vez, o seu livro favorito da semana era “O Pequeno Príncipe”, de modo que isso tomou um tempo maior na leitura. Minha mãe parecia muito interessada, olhando para as páginas do livro com muita atenção. Amy se divertia, com as figuras e as vezes parava para descrever cada uma delas.
Amy foi se cansando, bocejou algumas vezes e se esforçou bastante para continuar. Eu peguei o livro de suas mãos, pedindo para continuar a história em seu lugar. Ela permitiu e enquanto eu lia, ela ia pegando no sono. Minha mãe, porém, não tirava os olhos de mim e sorria, algumas vezes, parecendo pensativa em outras. Quando enfim Amy adormeceu, eu fechei o livro e perguntei se ela queria que eu continuasse.
“Não, Regina. Não precisa. Eu creio que você não veio aqui para isso.” Respondeu, sua voz mais cansada do que antes. “Você tem uma criança muito iluminada.” Continuou e eu olhei para Amy, deitada ao seu lado, completamente perdida em seus sonhos.
“É, ela é bem especial.”.
“Ela é mais que isso, você sabe disso.”
“Mãe.” Eu disse. “Por que você simplesmente não disse a Alice como quebrar o feitiço? Se existe uma maneira, por que você está escolhendo levá-la para o túmulo? Já não basta toda a dor que você me causou?” Ela fechou os olhos, como se pensasse no que responder.
“Regina, não é tão simples assim...”
“E o que é tão complicado?”
“Sabe, Alice apareceu na minha vida quando você me tirou da sua.” Respondeu. “Eu tinha tanto ódio em mim e essa sede de vingança sem fundamento. Mal sabia eu que enquanto crescia um ódio em mim em relação a você, em Alice, porém, crescia algo completamente diferente.” Ela deu uma pausa. “Oh, Regina, acredito que você já sabe de toda a história da busca dessa pobre criança. Eu precisei viver isolada em uma cela por cinco anos para poder entender o que de fato a guiava nessa busca. Eu não preciso do meu coração em meu peito para me colocar em seu lugar, eu não preciso dele para te amar ou saber o quanto Emma sofre por não poder tocar na filha. De certa forma, eu compartilho da mesma dor.”
“Como, mãe? Como você compartilha essa dor?”
“Bem, existe também uma distância enorme entre mim e minha filha. Mas diferentemente de Emma, não existe nada que me conecta a ela. Eu permiti que houvesse essa distância, eu permiti a dor.”
“Por quê? Por que você escolheu tudo isso? Você sabia o quanto eu estava feliz com ela. Você sabia o quanto eu ficaria infeliz em perdê-la, mas ainda assim, você fez com que Alice conjurasse aquele feitiço, mesmo sabendo das consequências.”
“Você sabe o motivo, não é mesmo?”
“Por poder.” Eu respondi e ela apenas assentiu. “Porque você achava que era de reinos e mundos que eu precisava. Quando na verdade tudo o que eu precisava eu já tinha bem debaixo do meu teto. Minha família é tudo para mim, mãe. Tudo. Às vezes, eu paro para pensar o quanto eu sou sortuda em ter todos eles, o quanto o amor deles me transformou no que eu sou hoje. Eu não mudei graças a eles. Graças a eles, eu renasci. De certa forma, eu acho que eles significam mais do que qualquer coisa para mim. Tudo o que eu sinto por eles não cabe em frases, não cabe em sentimentos. O que eu sinto por eles é maior que o amor.” Ela sorriu, como se me entendesse, como se pudesse amar da mesma forma que eu. “Queria que você pudesse entender de verdade.”
“Eu também.” Ela respondeu e eu senti as lágrimas descerem pelo meu rosto. “Eu queria que você pudesse me entender de verdade.”
“Sabe, mãe. Eu queria te odiar. Eu queria tanto sentir esse ódio. Acredito que seria mais fácil te enfrentar agora. Mas não, eu não consigo. Não cabe mais isso em mim. Te odiar significa admitir que eu odeio tudo o que você fez e sem você eu não teria encontrado Emma, não teria encontrado Henry e jamais teria conhecido Amy. É tão estranho colocar dessa forma, pois é como se eu ignorasse toda a dor que você me fez passar. Eu não ignoro. Eu não esqueço. Eu levo em mim as cicatrizes que você me deixou e eu as carregarei para sempre. Ainda assim eu te perdoo por tudo, eu te perdoo por cada cicatriz, eu te perdoo por cada dor. Eu te perdoo por ter tirado Emma de mim e eu te agradeço por ter me dado Amy.”
Eu tentei abafar meus soluços e encarei o coração ainda na caixa, que brilhava em um vermelho intenso, sem mais nenhum ponto negro ao seu redor. Meu próprio coração bateu forte e eu senti um alívio que eu não saberia explicar. Eu fechei meus olhos e permiti que as lágrimas descessem pelo meu rosto.
“Obrigada.” Disse ela, sua voz fraca, distante e seu rosto tão pálido, que parecia poder sumir a qualquer momento. “Eu precisava ouvir isso.” Continuou e seu olhar buscou por algo, encontrando o caderno que Alice havia trazido. Ela o pegou, abrindo e passando a mão por uma das páginas. “A escolha é sua em quebrar o feitiço, mas espero que você entenda os motivos pelo qual eu preferia levá-lo comigo.”
“E quais são eles?” Perguntei e ela sorriu, entregando-me o caderno.
Em seguida, ela fechou os olhos, sem dizer mais nada. Seu peito subiu e desceu, mostrando que ela ainda estava ali comigo, mas esse fraco sinal de vida, aos poucos, foi desaparecendo. O coração, ainda na caixa, pulsava lentamente. Em um minuto ela estava comigo, mas no outro ela havia me deixado para sempre.
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