Amy
1 Presente
Capítulo 1 — Presente
Era tarde da noite, a casa inteira dormia e eu terminava seu bolo de sorvete. Era difícil acreditar que minha bebê estava completando cinco aninhos, pois ainda estava fresco em minha memória o dia em que eu preparei seu primeiro bolo de aniversário. A vela de um aninho, que Henry havia escolhido para a ocasião, ainda estava guardada em uma das gavetas e as memórias daquele dia não estavam assim tão distantes.
No seu primeiro aniversário, eu havia escolhido fazer uma pequena festa, com poucos convidados, somente a família. Este ano, porém, decidi que daria uma grande festa, já que ela estava maiorzinha e poderia me ajudar a preparar tudo. Sugeri vários temas, mas nenhum lhe agradou e no final ela decidiu que um bolo de sorvete e um cartão musical bastaria. Então, não haveria festa alguma.
Assim que o bolo ficou pronto, eu o guardei na geladeira e segui em direção ao meu quarto, parando antes no de Henry que ainda estava acordado. Também era difícil acreditar que ele estaria na faculdade em breve e eu desejei congelar aquele momento para que os dois permanecessem crianças para sempre.
Eu me aproximei para lhe dar um beijo e sugeri que ele não fosse dormir tão tarde, porque tomaríamos café da manhã juntos antes de eles irem para a escola. Ele soltou um “Tá bom, mãe”, denunciando que não iria para cama tão cedo. Em seguida, fui até o quarto de sua irmã, para lhe dar um último beijo de boa noite.
Amy também estava acordada. Na verdade, seu quarto inteiro estava acordado. Minha menina estava sentada em seu tapete rosa, segurando um livro nas mãos e rindo sozinha. Seus brinquedos voavam ao seu redor, acompanhando os movimentos de suas mãos. Em silêncio, eu observei minha pequena, vendo-a usar sua magia, da qual eu nunca precisei ensinar.
Os brinquedos giravam ao seu redor e as estrelas fluorescentes, que deveriam estar no teto, circulavam sobre o livro em suas mãos, iluminando suas páginas. Ela não me notou no primeiro momento, apenas percebeu minha presença quando os brinquedos e as estrelas, sob o meu comando, voltaram para os seus devidos lugares. Amy fechou o livro e me encarou com seus pequenos olhos azuis, fazendo uma carinha de quem não havia aprontado, seguida de um bico.
Já havia passado da hora de ir para a cama e eu havia lhe proibido de usar sua magia. Ela sabia muito bem disso, assim como sabia que eu não iria discutir a respeito e muito menos lhe dar uma bronca. Foi exatamente isso o que aconteceu. Ao invés de eu fazer um sermão, que já estava gravado em minha mente, eu simplesmente me aproximei dela e sentei-me ao seu lado.
“O que você estava lendo, pequena?” Perguntei, pegando o livro de suas mãos.
No mesmo instante, Amy se jogou em meus braços, me abraçando apertado e sentando em meu colo.
“Matilda!” Respondeu, abrindo em uma das páginas e apontando para a ilustração da pequena Matilda.
Era o seu livro favorito. Amy o sabia de cor, de modo que não estava lendo-o de fato, mas sim repetindo as palavras que tanto conhecia. Beijei seus cabelos, seu corpinho se encostou ao meu e eu comecei a ler em voz alta.
“É mais divertido com as estrelas, mamãe!” Disse, naquele seu tom de voz angelical e eu sorri, permitindo que Amy usasse sua magia para trazer as estrelas.
Eu continuei a leitura, com as estrelas girando sobre as nossas cabeças e tive que admitir que, de fato, era mais divertido com elas. Quando eu terminei, guardei o livro e a levei para a sua cama, mesmo sabendo que ela estava completamente acordada.
“Está animada com seus cinco anos?” Perguntei e Amy deu de ombros.
“Estou animada para ganhar meu bolo de sorvete e meu cartão! Qual musica ele toca?” Perguntou, levantando-se novamente da cama, mas eu a impedi, fazendo-a se deitar novamente e cobrindo-a logo em seguida.
“Não terá graça alguma se eu contar, não é mesmo? É parte da surpresa!” Respondi, mas notei que não ela não estava convencida e que estava me enrolando para continuar acordada.
Eu lhe dei um beijo de boa noite, mas não fui capaz de sair do quarto. Eu queria ficar mais tempo ao seu lado, curtindo minha bebezinha, que já não mais me deixava chamá-la dessa forma.
Em breve, seu quarto, todo cheio de bonecas e lápis de cera espalhados pelo chão, mudaria completamente. Seu gosto por livros infantis também mudaria e não haveria mais necessidade de um adulto para lê-los.
Em alguns anos, talvez, até haveria uma placa na porta de seu quarto, proibindo minha entrada. Amy iria crescer em breve. Na verdade, ela já estava crescendo e eu estava tendo sérias dificuldades em lidar com isso.
“Boa noite, Amy.” Disse, dando um beijo demorado em sua testa.
“Boa noite, mamãe.” Respondeu de volta, me beijando na bochecha. “Eu amo você.” Continuou e foi inevitável não me derreter com essa frase tão simples, que eu tanto amava ouvir.
Eu não conseguia mais lembrar de como era no passado, em tempos onde o que eu mais desejava na vida era ter alguém que me amasse e me dissesse todos os dias essa frase tão simples. Cinco anos atrás, eu ganhei tudo o que eu mais desejava e havia dias em que eu me questionava se de fato eu merecia tudo isso. Por isso, eu agradecia todos os dias por essa família e principalmente por Amy, que foi o segundo melhor presente da minha vida.
“Eu amo você também, pequena.” Respondi. “Se importa se a mamãe ficar por aqui até você pegar no sono?” Perguntei, rezando para que ela respondesse que não se importava.
Assim que ouviu minha pergunta, um sorriso surgiu em seus lábios, dando espaço para que eu me juntasse a ela. Minha pequena não demorou para pegar no sono, deitada sobre o meu corpo. Diferentemente de Amy, eu não consegui dormir, observá-la adormecida me fez lembrar de todas as noites que eu havia passado em claro por causa dela.
Além disso, me fez lembrar também da noite em que eu passei em claro comemorando o fato de que ela chegaria em nossas vidas. Nós não sabíamos, na época, que teríamos uma garotinha, assim como também não sabíamos que a sua chegada mudaria tudo. Ou talvez, lá no fundo, nós já sentíamos que essa mudança viria.
Eu não voltei para o meu quarto, acabei adormecendo ali mesmo, na cama de Amy. Quando eu acordei na manhã seguinte, a encontrei sentada, encostada contra a parede, seus cabelos castanhos completamente bagunçados e um sorriso em seus lábios. Eu sorri para ela e me sentei, a fim de confirmar as horas, que não passavam das seis da manhã.
“Eu acho que podemos dormir mais um pouco, Amy.” Disse, ajeitando seus cabelos.
“Então perderíamos o dia todo!” Observou.
Eu resolvi não a contrariar e a puxei para um abraço apertado, dando enormes beijos na minha pequena princesa.
“Feliz aniversário, querida.” Respondi, lhe dando outro beijo.
Ela me agradeceu, mas sua atenção foi roubada para a caixa de presente no meio do quarto. Amy rapidamente correu até ela, sentou-se no chão e olhou cuidadosamente a caixa, procurando a forma mais fácil de abri-la.
“Muito obrigada, mamãe!” Disse.
“Esse não é o meu, querida.” Respondi, me juntando a ela.
Um sorriso enorme surgiu em seu rosto, quando percebeu de quem era o presente e rapidamente começou a abrir o embrulho. Quando a caixa se encontrou aberta, tirou de lá um vestido rosa de princesa, com uma tiara prateada e ficou verdadeiramente empolgada com o presente.
Ela quis colocá-lo imediatamente e não perdeu tempo em tirar o seu pijama, mas desistiu do que estava fazendo, quando notou que dentro da caixa havia um segundo presente. Olhou para mim, se inclinando para pegar a pequena caixinha que havia no fundo da caixa maior. Seu interesse no vestido agora já não mais existia e, assim como ela, eu também estava surpresa com esse segundo presente, pois não havia sido esse o combinado.
Abriu a segunda caixinha, que cabia exatamente em suas mãos, e outro sorriso surgiu em seu rosto, dessa vez um sorriso maior que o primeiro. Sentou-se no chão e eu me aproximei dela, olhando o conteúdo da caixinha em suas mãos. O presente era pequeno apenas no seu tamanho, pois o significado dele era enorme para nós duas.
“Eu nunca tive um colar!” Disse, empolgada. “Nunca mesmo!”
“Bem, talvez você apenas ganhou um agora, porque finalmente o merece.”
Eu peguei o colar de suas mãos e coloquei em seu pescoço. Em seguida, ela pegou a tiara, a colocou em sua cabeça e correu para ver seu reflexo no espelho de seu quarto. Eu olhei para dentro da caixa maior e tirei de lá um cartão que dizia: “Parabéns, Princesa!”. Eu sorri, quando reconheci a letra e observei minha princesinha. Eu me perdi em meus pensamentos, até que a voz de Amy me trouxe de volta.
“Mamãe?” Perguntou, duas vezes, até eu notar que ela estava falando comigo.
“O que foi, querida?”
“Por que a senhora está chorando?” Perguntou e eu notei as lágrimas em meu rosto.
“Não é nada, querida. Eu estou apenas me lembrando do dia em que você nasceu.”
“Mas já faz tanto tempo!” Disse, me fazendo rir.
“Não faz tanto tempo assim, Amy. Para mim, você ainda é a mesma bebezinha que eu segurei nos braços pela primeira vez há cinco anos.”
“Não sou nada!” Disse, se jogando em meus braços. “Estou um pouco maior que antes!”
“Ah, isso é verdade. Antes eu conseguia te segurar com apenas um braço. Hoje eu preciso dos dois!” Respondi, enquanto ela me abraçava.
Eu a segurei por algum tempo em meus braços, sentindo o cheirinho de seus cabelos que eu tanto gostava.
“Mamãe te ama muito, Amy. Não fique com raiva quando eu te chamo de meu bebê, ok?”
“Eu não ligo, mamãe.” Respondeu, sentando-se em meu colo e encostando seu corpinho contra ao meu.
Eu encostei minha cabeça em seus cabelos, a envolvendo em meus braços. Eu sabia bem que eu era a mãe mais coruja que existia, mas eu não ligava, pois meus filhos eram as criaturas mais incríveis desse mundo, de modo que justificava tudo.
“A senhora chorou muito quando eu nasci?” Perguntou, inclinando o rosto para me ver.
“Chorei sim. Chorei muito.”
“Chorou por que doeu?” Perguntou, fazendo uma careta.
“Não, querida. Não foi porque doeu, mesmo porque, não foi de mim que você nasceu, sabe disso, não é? As pessoas choram quando estão felizes também e foi por esse e por vários outros motivos que eu chorei aquele dia.”
“Entendo.” Disse, parecendo bem vaga. Ela tirou o colar que estava por dentro do vestido de princesa e observou seu pingente redondo que continha um cisne. “Mamãe Emma chorou?” Continuou e tirou sua atenção do colar, olhando para mim.
“Sim, querida. Ela também chorou muito.”
“Por que doeu? Não foi mesmo?” Perguntou, em um tom preocupado.
“Querida, a última coisa que sua mãe sentiu aquele dia foi dor. Se ela chorou, foi pelo mesmo motivo que eu. Foi porque nós não víamos a hora de ter você em nossos braços.” Dei um beijo em seus cabelos. “Por que você não vai agradecer o presente?” Com essa sugestão, Amy se levantou do meu colo e correu para fora do quarto.
Em seguida, eu me levantei e andei até a prateleira que havia em seu quarto e me lembrei que fora Emma quem havia decorado todo aquele quarto. Ela queria que fosse o mais parecido com um quarto de princesa e devo dizer que conseguiu. Naquela prateleira, Emma havia colocado todas as “primeiras coisas” que Amy havia ganhado, de modo que lá estava a caixa de acrílico com o seu primeiro sapatinho, que Amy jamais usou.
Eu peguei a caixa da prateleira, no mesmo instante me voltou aquele dia em minha mente. O dia em que eu ganhei aquele sapatinho de Emma. Nós estávamos comemorando nosso primeiro aniversário de namoro e eu havia preparado um presente emocionante para Emma: um álbum de fotografias. Porém, apesar de Emma ter se emocionado muito com o meu presente e dito a mim que havia sido a coisa mais linda que ela havia ganhado na vida, o presente dela para mim foi o que de fato marcou aquele dia.
Era um presente que ela havia trazido de sua viagem a Disney com Henry. Eu imaginei que pudesse ser qualquer coisa, menos o que de fato era: Um par de sapatos de bebê dentro de uma caixa de acrílico. Eu encarei Emma, confusa com o presente e esperei uma explicação. Naquele dia, nós comemoramos nosso primeiro aniversário de namoro, nossa primeira troca de presentes e a certeza de um segundo filho.
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