Amy

2 Passado


Capítulo 2 — Passado

Seis anos atrás.

Eu só consegui acordar de fato quando entrei no banheiro e senti a água gelada molhando o meu corpo. Eu já estava mais do que atrasada para a minha reunião na prefeitura e estava ciente de que teria que pular o café da manhã, se eu quisesse chegar a tempo. Eu iria me atrasar, pois Emma e eu havíamos passado a noite inteira acordadas. Ela me dando motivos para não dormir e eu lhe dando todos os motivos para querer continuar acordada. Eu acredito que já havia passado das cinco da manhã quando ela simplesmente desistiu e adormeceu.

Eu acordei com ela ao meu lado, olhei para o meu relógio, vi as horas, dei um pulo e corri para uma ducha, sabendo que eu teria no máximo cinco minutos para ficar pronta e correr para o meu escritório. Porém, meus planos logo foram frustrados quando Emma apareceu na porta do banheiro, completamente nua, olhando em minha direção com um olhar que entregava tudo o que se passava em sua mente.

Emma se aproximou do vidro do box e eu soube que minha reunião definitivamente precisaria ser remarcada. Ela entrou no chuveiro comigo, sem cerimônia alguma, como se eu já tivesse lhe aguardando. Se aproximou de mim, permitindo que a água envolvesse a nós duas, reclamou do fato de a água estar gelada e se esticou para aumentar a temperatura, mas eu a impedi, dizendo que eu poderia muito bem aquecê-la com meu corpo.

Um sorriso surgiu em seus lábios e eu fui puxada em direção a sua boca para um beijo, que durou segundos suficientes para me deixar excitada. Logo em seguida, ela se afastou e saiu da ducha, pegando uma das toalhas e se enrolando em minha frente.

“Detesto te provocar...” Mentiu. “Mas é que eu realmente tenho que começar a arrumar as malas, se eu quiser sair daqui antes do anoitecer.”

“Inacreditável, Emma!” Respondi, frustrada. “Primeiro você me provoca, me deixa nesse estado...” Continuei e dei uma pausa, esperando que sua atenção se voltasse para mim. Emma encarou-me e soltou uma risada, pegando sua escova de dentes.

“Qual é, Regina. Vontade não me falta, mas Henry e eu temos horário, você sabe muito bem disso.”

“Assim como você também sabia que eu tinha uma reunião há meia hora. Então, deixe de seu papo furado e volte aqui.” Continuei, enquanto ela se encostava contra a pia e calmamente começava a escovar seus dentes.

“Ou o quê?” Provocou.

“Ou eu vou te dar um real motivo para voltar.” Respondi, conjurando dois tubos de shampoo em sua direção, sujando-a por completo.

Ela me encarou, fingindo estar indignada e entrou novamente no box comigo e fizemos amor pela... Sei lá, eu havia me perdido na conta.

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Eu de fato precisei remarcar a reunião, de modo que tive tempo livre para ajudar Emma com todas as coisas que ela ainda não havia organizado para sua roadtrip com Henry. Eles passariam um mês juntos na estrada, eu não poderia atravessar a fronteira com eles, de modo que já estava sofrendo com a saudades que eu sentiria. Eu os ajudei a guardar todas as malas dentro do carro e repeti, pela milésima vez, que eles tomassem cuidado. Enquanto Henry entrava no carro e se ajeitava no banco do passageiro, eu e Emma nos despedíamos.

“Nós voltamos antes do dia 23 de Outubro.” Disse-me, enquanto eu a encostava contra o carro e a beijava nos lábios.

“Você fala como se 23 de Outubro estivesse logo ali.”

“E você fala como se não soubesse o significado desse dia.” Respondeu, ficando em silêncio, enquanto eu a fitava, confusa. “Você não lembra, não é mesmo?” Perguntou, irritada.

“Não faço a menor ideia. ” Respondi, tentando segurá-la por mais um tempo, mas ela ficou tão revoltada com a minha resposta que simplesmente se livrou do meu abraço e se dirigiu ao carro.

“Bem, você terá um mês para descobrir.” Continuou e sentou-se no banco do motorista, batendo a porta logo em seguida. Eu a vi revirar os olhos e se inclinar para fora da janela, de modo a me dar outro beijo. “Eu te amo, não vai esquecer disso também.” Concluiu, voltando novamente para o seu banco.

“Eu te amo também, querida.” Respondi. “Você sabe que eu estou brincando, não é? É logico que eu não esqueci.” Menti, observando um sorriso surgir em seus lábios.

Eu me despedi novamente dos dois e observei o carro desaparecer. Eu não fazia a menor ideia do que aquela data realmente significava, mas, por sorte, Henry sabia. Prevendo que eu não lembraria, ele deixou anotado em minha agenda que daqui a pouco menos de um mês, Emma e eu completaríamos um ano de namoro.

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Era difícil acreditar que completaríamos um ano juntas. Era difícil acreditar também que eu havia conseguido ficar longe deles por tanto tempo. Pareceu uma eternidade, as ligações e os e-mails não foram suficientes, pois havia um espaço vazio na minha cama de casal e tomar banho de manhã, sem ela para me atrasar, não era a mesma coisa.

Na manhã que eles enfim voltaram, Henry não conseguia parar de falar no quanto havia sido incrível a viagem deles para a Disney e eu desejei poder compartilhar essa experiência. Entretanto, eu estava feliz por eles terem tido esse momento a sós, pois eu sabia o quanto essa viagem era importante para os dois.

Depois de ter ouvido todas as histórias que Henry tinha para contar, eu sugeri que Henry passasse a noite na casa dos avôs e finalmente Emma e eu matamos a saudade que estávamos sentindo uma da outra. Na manhã seguinte, eu acordei com um verdadeiro banquete de café da manhã na cama. Emma havia preparado tudo e estava sentada na ponta da cama, me encarando com um olhar cheio de segredos e um sorriso no rosto.

“Hmm. Para que tudo isso?” Perguntei, roubando uma torrada, fingindo ter esquecido do nosso aniversário de namoro.

“Como assim ‘para que tudo isso?” Perguntou, irritada, me fazendo notar que ela escondia uma caixa de presente ao seu lado.

“Bem, nós nunca fazemos isso de café da manhã na cama. Deve ter uma ocasião especial para isso. Foi por causa do sexo incrível de ontem à noite?” Perguntei em um tom provocativo e isso pareceu aumentar a fúria que ela tentava conter.

Em resposta, ela simplesmente se levantou, pegou a caixa de presente, a bandeja com o café da manhã e saiu do quarto, deixando mais do que explícito que estava irritadíssima comigo. Eu sabia que essa provocação toda era como pisar em um campo minado, mas eu estava contando que a surpresa que eu havia preparado fosse capaz de compensar tudo.

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Emma me evitou o resto do dia. Ela estava realmente com raiva e eu não vi alternativa senão entregar o jogo. Eu não queria piorar a situação, de modo que entrei na sala de estar, onde ela fingia ler um livro e me aproximei, escondendo o presente que eu havia preparado.

“Ainda está com raiva?” Perguntei, sentando ao seu lado.

Ela simplesmente bufou e fechou o livro, se ajeitando no sofá e me encarando. Não havia só raiva em seu olhar, havia também frustração e tristeza.

“Você sabe o quanto essa data significa para mim?”

“Significa muito para mim também, Emma.”

“Se significasse, você nunca teria esquecido.”

“Eu não esqueci totalmente, Emma. E é só uma data.” Respondi, tornando as coisas piores.

Ela revirou os olhos em sinal de desaprovação e em uma tentativa frustrada de segurar o choro.

“Certo, que seja só uma data para você então!” Respondeu, nervosa. “Mas você tem noção que é a primeira vez que eu a comemoro? Alias, será que você sabe que você é a primeira pessoa que eu namorei nessa vida? Que antes de você eu só havia cometido erros e mais erros e que nunca havia dado certo com ninguém?” Concluiu, colocando a mão sobre o rosto. “Desculpa, é que eu estou um pouco irritada.”

“Eu não sabia disso, Emma. Quer dizer, como eu saberia? Olhe só para você. Você é o tipo de pessoa que qualquer um daria o mundo só para ter a chance de te ter por perto.” Ela sorriu ao ouvir isso e se aproximou mais de mim.

“Eu não quero o mundo.” Respondeu. “Você me basta, Regina.” Continuou, me beijando e me empurrando gentilmente em direção ao sofá, ficando sobre mim. “Eu espero que você jamais esqueça dessa data novamente ou das próximas datas que virão.” Concluiu, me beijando e permitindo que minhas mãos percorressem suas costas, por cima de sua camisa.

Ela não estava mais com raiva, sua boca foi de encontro ao meu pescoço e suas mãos caminharam em direção a minha blusa, desabotoando os botões. No momento seguinte, eu a impedi, apesar de querer muito continuar. Ela ficou extremamente irritada com a interrupção, abriu a boca para reclamar, mas se calou imediatamente, quando eu procurei pelo seu presente e lhe entreguei.

“Para você.” Eu disse. “Para que você saiba que eu não esqueci esse dia.”

Ela encarou o papel de presente, por alguns segundos, antes de olhar para mim novamente.

Emma sorriu e rapidamente começou a rasgar o papel, para enfim revelar o álbum de fotografias que eu havia preparado. Sua capa era igual ao livro de contos de fadas de Henry, ela o abriu e parou na primeira fotografia.

Era um retrato de Henry, na legenda dizia que ele havia acabado de chegar em minha vida, tinha um mês de idade: ‘Primeiro dia do meu bebê em casa’. Logo embaixo, em uma nova legenda, eu adicionei: ‘Primeiro dia daquele que seria responsável por trazer para essa cidade a mulher mais importante da minha vida.’

Ela olhou para mim, com um sorriso nos lábios e passou para a outra página, onde havia uma foto de Henry dando seus primeiros passos. Ele tinha um belo sorriso no rosto e estava apoiado, com apenas uma de suas mãos, em um móvel.

Na legenda antiga dizia: ‘Meus primeiros passos!’. Na atual: ‘Eu sempre soube que ele tinha os olhos mais lindos do mundo, só não sabia que eles pertenciam a mulher mais linda do mundo’. Ela se virou para mim, com suas bochechas completamente vermelhas, se aproximou para um beijo demorado e se afastou, me dizendo que havia sido o presente mais lindo que já havia ganhado na vida.

“Não terminou.” Eu disse e me inclinei para virar a próxima página, onde havia uma foto de nós três, tirada no Natal passado.

Na legenda dizia o seguinte: ‘E eles viveriam felizes para sempre se...’

“Se?” Perguntou, levando sua atenção para mim e balançando a cabeça em confusão.

Eu virei a página seguinte, onde havia uma aliança grudada por uma fita adesiva. No mesmo instante, ela olhou para mim e levou suas mãos a boca.

“Regina...” Tentou dizer e seus olhos se encheram de lágrimas.

Eu me segurei para não chorar também, enquanto tirava o anel da página e me ajoelhava a sua frente.

“Emma Swan...” Eu comecei a dizer e se antes já tinha lágrimas em seus olhos, agora ela simplesmente tentava controlar os seus soluços. “Você tem ideia de que eu nunca me ajoelhei diante de nada ou de ninguém? Porém, aqui estou eu aos seus pés. Completamente aos seus pés! Você disse que não queria o mundo, que eu te bastava, mas eu quero te dar todo universo, se preciso. Não vou te prometer um romance de contos de fadas, pois nossas vidas não cabem em nenhum livro, mas eu prometo te fazer feliz, nem que seja a última coisa que eu faça nessa vida.”

Naquele momento, eu já não era capaz de controlar minhas lágrimas. Eu lhe estendi minha mão, recebendo a dela. Com a mão trêmula, eu posicionei o anel em seu dedo, enquanto dizia a seguinte frase:

“Emma Swan, você aceita ser minha Rainha pelo resto de nossas vidas?” Ela já não respondeu mais com palavras, simplesmente permitiu que eu colocasse a aliança em seu dedo.

Em seguida, deslizou do sofá, se ajoelhando em minha frente e me tomando em seus braços, beijando-me inúmeras vezes e gritando ‘sim!’ entre um beijo e outro. Eu me perdi naqueles beijos e permiti que ela me levasse em direção ao tapete da sala, nossas línguas e corpos confirmaram o quanto todos aqueles ‘sims’ eram reais e mais que isso: eternos.

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“Ainda falta o meu presente.” Ela disse, se levantando e andando, completamente nua, pelo quarto.

Logo em seguida, puxou um lençol da cama e cobriu seu corpo, voltando a andar em direção ao closet. Voltou de lá com uma caixa de presente nas mãos, sentou-se na cama e entregou a mim. Era uma caixa embalada por um laço rosa, eu o puxei lentamente, desfazendo o embrulho e olhando para ela, a fim de ver sua reação. Emma estava aparentemente nervosa, mordendo o lábio inferior, enquanto esperava que eu terminasse de abrir o presente.

“Devo me preparar para o que tem nessa caixa?” Perguntei.

“Relaxa, vamos ter muito tempo para nos preparar.”

Eu decidi não perguntar mais nada, já que a resposta acabou me deixando mais confusa. Eu desatei o laço e abri a caixa, olhando confusa para o seu conteúdo.

“Sapatos?” Eu perguntei.

“Compramos na Disney!” Respondeu, animada.

“Eles não tinham meu número?” Perguntei, tirando o par de sapatinhos de dentro de sua caixa e os colocando em minha mão.

Era um par de sapatos de bebê, tão pequenininhos que cabiam perfeitamente na palma da minha mão. Eu olhei para ela, pois estava verdadeiramente confusa, seus olhos cheios de lágrimas.

“Regina, eu não vou pedir que você acredite no que eu vou te dizer, porque eu ainda não estou acreditando.” Disse Emma. “Eu não sei como isso aconteceu e sinceramente eu não me importo.” Continuou e deu uma pausa, sorrindo, enquanto suas lágrimas se desmanchavam em seu sorriso. Ela pegou minha mão e a colocou sobre a própria barriga. “Acho que já deu para entender que esse sapatinho não é exatamente para você, não é mesmo?” Perguntou e esperou por minha resposta.

Eu não fazia a menor ideia de como reagir, assim como não fazia a menor ideia do que dizer. Tudo o que eu consegui fazer foi chorar copiosamente, enquanto eu observava a mulher da minha vida fazer o mesmo.

“Você acha que nós vamos ser capazes de seguir com essa gravidez sem ter um colapso emocional?” Perguntou, rindo, enquanto eu me aproximava de sua barriga, beijando-a inúmeras vezes.

“Quando você ficou sabendo?” Perguntei, sem conseguir tirar minha mão de sua barriga e sem conseguir conter as lágrimas.

“Durante a viagem. Eu passei mal e me levaram para um hospital. Fizeram alguns exames e descobriram. Henry ainda não sabe.”

“Por que você não voltou assim que soube? Por que não me contou logo?”

“Porque eu queria que fosse surpresa. Eu queria que fosse meu presente para você.”

“Foi o melhor presente de todos, Emma.”

“Você não está preocupada como isso aconteceu?” Perguntou e eu balancei a cabeça e a puxei para um beijo, pois nada mais precisava ser dito.

Nunca pensei que pudesse ser mais feliz em toda a minha vida, nunca pensei que Emma seria mais do que a salvadora dessa cidade. Nunca pensei que ela seria minha salvadora. Emma quebrou mais do que a maldição dessa cidade, também quebrou a maldição que havia em mim e foi capaz de preencher o vazio que existia em meu peito, que conseguia ser maior do que qualquer maldição já lançada. E ali estava ela, na minha frente, me dando mais do que a certeza de um futuro, me dando a certeza de uma família.