Amy
8 Possível
Notas iniciais
Capítulo 8 – Possível
Eu ainda conseguia sentir as lágrimas de Emma em minha roupa. Se eu fechasse meus olhos, eu ainda conseguia ouvir a última frase dela ecoando em minha mente. Havia sido bem difícil ouvir seu desabafo, foi mais difícil ainda vê-la quebrada a minha frente e não poder fazer mais nada para aliviar sua dor. Não era de mim que ela precisava, nunca havia sido. Não desde Amy.
Eu acredito que desde o primeiro momento em que Emma soube que estava grávida, todas as suas prioridades mudaram e sua vida passou a girar em torno daquela criança em seu ventre. Então, o destino, cruel como sempre, destruiu todos os nossos sonhos. Nós tínhamos tantos planos para essa família e nos vimos então tentando diariamente reescrever nossa história, juntando cada pedaço do que havia sobrado dela.
Sempre foi mais difícil para ela, eu nunca neguei isso. As conversas por vídeo ou por telefone, pareciam mais fáceis, menos cruéis. Pois Amy, quando pequena, não entendia que não podia ficar perto de sua mãe e sempre chorava quando a via, querendo seu colo. Ela se jogava em sua direção, suplicava por um toque e Emma desabava e eu sempre tinha que escolher qual das duas eu consolaria. Eu sempre escolhia Amy. Assim com Emma, eu botei aquela criança como prioridade em minha vida, de modo que todo tempo que eu tinha eu dedicava totalmente a ela.
Porém, agora eu podia sentir as consequências dessa escolha. Talvez se eu tivesse passado mais tempo ao seu lado, eu teria notado o quanto ela precisou de mim ao longo desses anos. E o quanto minha ausência a machucou. Eu não conseguiria ser capaz de preencher o vazio que Amy deixava em sua vida, mas pelo menos ela não teria passado por tudo isso sozinha. Mesmo ela tendo seus pais e Henry ao seu lado, não era a mesma coisa. Ela também precisou de mim e eu não estava lá.
Ela não teve a chance de ser mãe quando engravidou de Henry e Amy seria sua segunda chance — assim como para mim – mas então as coisas não saíram como planejamos. O que era para ser uma segunda chance, virou um dos piores castigos. De modo que, eu não podia dizer ‘não’ ao seu pedido. Eu não podia negar a ela a chance de ter Amy em seus braços, mesmo sabendo das consequências.
Ainda assim, eu supliquei para que ela desistisse dessa ideia. Eu supliquei para que ela lutasse por nós duas e que retirasse suas palavras, mas como resposta, ela balançou a cabeça, me encarou com seus olhos verdes tomados por dor e me abraçou. Nossas lágrimas se juntaram quando nos beijamos e todas as palavras, que não conseguimos dizer, ficaram mudas e se perderam no som de nossos soluços.
Ela me pediu, entre um soluço e outro, que a apoiasse, que não tirasse sua razão, que assim como eu, ela também estava perdida antes de me encontrar. Ela me disse que eu havia sido seu rumo e que ela jamais veria sua vida preenchida por outra pessoa que não fosse eu. Ela me disse também que não se importaria se eu seguisse minha vida, que eu ainda era nova e precisava me apaixonar novamente, pois Amy e Henry precisariam de uma nova mãe.
Eu achei esse pedido um absurdo, eu quis gritar para que ela se calasse, que retirasse tudo o que estava dizendo. Eu quis gritar que jamais amaria outra pessoa e que jamais outra mulher ocuparia o lugar dela em meu coração. Sempre seria ela. Sempre foi ela.
Porém, ao invés de gritar para o mundo, eu sentia como se eu estivesse gritando internamente e tudo o que saia de minha boca era um choro de desespero. Ela se afastou de mim, secou seu rosto com a palma de suas mãos e olhou para o céu enegrecido acima de nossas cabeças, que já não mais estava tomado por fogos de artificio.
“Vai se casar comigo, não vai?” Perguntou, tentando não chorar mais. Eu respondi que sim, mas por dentro eu estava gritando que não.
Eu preferia que ela tivesse terminado comigo, eu preferia que ela me odiasse. Eu não sabia o que pensar, ou o que dizer, eu senti minha cabeça girando e pulsando ao mesmo tempo. Recebi um beijo demorado nos lábios e em seguida ela disse que precisava entrar, perguntou se eu ficaria bem, provavelmente eu devo ter respondido que sim, pois não sabia mais o que dizer. Ela saiu do carro, entrou em sua casa e uma das luzes se acendeu. Eu permaneci sentada, por alguns segundos, processando tudo o que havia acabado de acontecer.
Como eu explicaria a Amy que sua mãe não estaria mais entre nós? Ou que ela se fora pelas suas mãos? Que havia escolhido a morte ao invés de lutar por nós? Ou pior, que ela não via outra saída além dessa? Eu não sabia como eu responderia essas perguntas ou como eu ficaria com meus pés firmes durante toda a cerimônia do casamento. Eu não sabia se eu seria capaz de dizer ‘sim’, sem desabar e sem suplicar mais uma vez para que ela não fosse embora. Com esses pensamentos, eu liguei o conversível, enxuguei minhas lágrimas e vi a luz de sua casa se apagar, antes de ir embora dali.
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Amy não estava dormindo quando eu cheguei. Ela estava deitada em sua cama, com Rapunzel ao seu lado e as duas liam um livro. Minha presença não foi notada, pois elas estavam muito focadas no que estavam lendo. Amy ria da forma que Rapunzel fazia as vozes dos personagens, enquanto eu me encostava contra o batente e observava as duas. Minha menina parecia exausta, porém, não ousava se entregar ao cansaço e eu tinha certeza que ela faria Rapunzel ler o livro até o final, antes de finalmente dormir.
Ela se virou para a loira ao seu lado, com seus olhos cheios de interesse e curiosidade e Rapunzel o retribuiu. Eu jamais havia visto alguém olhar para Amy dessa forma. Elas mal se conheciam. Amy se aninhou junto ao seu corpo, Rapunzel lhe beijou a testa e, com uma de suas mãos, acariciou os cabelos da minha filha, que piscou algumas vezes, se entregando aos poucos ao cansaço.
Foi inevitável não pensar sobre o que Emma havia me dito, talvez de fato eu pudesse me apaixonar novamente. Talvez minha história com a dela tenha de fato acabado e talvez ela apenas tenha existido para que Amy pudesse entrar em minha vida.
Não sabia o porquê eu estava tendo esses pensamentos, pois eu sabia que eu não queria ninguém na minha vida além de Emma. Eu passei minhas mãos em meu rosto, tentando tirar esses pensamentos e olhei uma última vez para as duas na cama. Amy apontava para uma das páginas do livro e se virou para Rapunzel, dizendo em seguida:
“Faz de novo! Faz eles se mexerem!”
Rapunzel passou uma das mãos sobre a página aberta do livro, que ganhou um tom prateado, surgindo em seguida um cavalinho branco, igualzinho ao que estava na página. O pequeno cavalo cavalgou pela folha, Rapunzel controlava seus movimentos com as mãos. Ele galopou no ar, deixando pegadas por onde passava que se iluminavam como pequenos fogos de artificio. O cavalinho retornou a página, soltando um pequeno relincho, sumindo logo em seguida.
Amy bocejou, se virou para Rapunzel e lhe deu um beijo no rosto, adormecendo em seguida, ali mesmo, nos braços daquela mulher. Rapunzel permaneceu ao seu lado, acariciando o rosto da minha pequena. Eu desejei que fosse Emma em seu lugar. Talvez Emma estivesse certa, talvez Amy precisasse de uma mãe e talvez não tivesse nada de errado em me apaixonar novamente.
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Eu não voltei para o quarto, eu desci as escadas e fui até a sala, onde eu me servi de um Martini. Eu realmente precisava disso e devo ter perdido a noção do tempo e pegado no sono ali mesmo, no sofá. Eu só acordei quando ouvi um barulho, me levantei e, ainda sonolenta, caminhei em direção ao som. Era Rapunzel, aparentemente procurando a chave de seu carro, na mesa próxima a entrada da mansão.
“Por que não me acordou?” Eu perguntei, assustando-a e tirei do bolso do casaco, que eu ainda usava, a chave do carro dela.
“Não queria te incomodar. Você parecia exausta.” Respondeu, pegando a chave da minha mão.
“Não me incomodaria. Aliás, quanto eu te devo por essa noite?” Eu perguntei e caminhei em direção à sala novamente, onde eu havia deixado minha bolsa, ela me seguiu.
“O que havíamos combinado está ótimo.” Respondeu e eu entreguei a ela uma quantia em dinheiro, que eu era bem mais do que havíamos combinado. Ela pegou o dinheiro, o guardou no bolso do jeans e permaneceu parada onde estava, me encarando com seus olhos azuis. “Eu pensei que você só voltaria na manhã seguinte.”
“É, confesso que era esse o plano.”
“Ela não estava no clima?” Perguntou, rindo e eu, que não estava no clima para uma risada, me vi rindo com a observação, enquanto me jogava no sofá.
“Não, ela não estava.”
Rapunzel permaneceu onde estava, as duas mãos dentro da jaqueta que usava, se balançando para a frente e para a trás. Ela obviamente gostaria de dizer algo, provavelmente algo que a envergonhava, pois eu a conhecia o suficiente para saber que quase nada a envergonhava.
“Qual é o problema?” Eu perguntei e ela abriu a boca para dizer algo, mas desistiu.
Rapunzel era muito nova quando eu a conheci, não passava dos 17 anos, mas parecia estar bem à frente do seu tempo. Era como se ela soubesse muito sobre as coisas, mas no fundo, era apenas uma garota. Fazia muito tempo desde que eu a conheci, ela claramente era mais velha agora, mas ainda era a mesma garota de antes. Eu não acho que ela tenha amadurecido tanto assim, mas bem, eu não a conhecia tão bem.
“Eu vi você na porta do quarto. Eu vi que você viu que... Bem, eu consigo fazer aquelas coisas.”
“Magia.” Eu disse e ela concordou com a cabeça, repetindo novamente o que eu havia dito.
“Sim, magia.”
“Seres mágicos não me surpreendem, Rapunzel. Na verdade, isso é uma das suas qualidades que eu não esperava encontrar em você, mas isso não me surpreende. Você quer que eu guarde segredo?”
“Sim, eu gostaria. Eu não sou como você e os outros seres. Na verdade, meu poder é extremamente limitado. Eu basicamente só sei fazer o que estava fazendo.”
“Dar vida aos personagens de livros infantis.” Eu disse, ela riu, corando com a minha observação.
“É. Bem, basicamente a qualquer coisa, de qualquer livro. O que é uma mão na roda se você é uma babá.”
“É, eu te observei com Amy.” Eu disse, ela sorriu e passou as mãos pelos cabelos loiros.
“Amy é incrível.” Respondeu e, sem pedir licença, se sentou ao meu lado e se aproximou de mim.
“Ela é sim. Ela é um anjo.” Eu respondi, me virando para ela.
“Por que mesmo tento tudo isso, você ainda assim está triste? É como se você fosse a mesma pessoa que eu encontrei há anos atrás.”
“Bem, talvez eu seja.” Eu respondi, ela se ajeitou no sofá e se virou melhor para mim.
“É, eu sei que esse lance da distância de Emma com a menina é uma merda, mas vocês não deviam perder a esperança, não é mesmo? Quer dizer, vocês transformaram o ódio em amor. Uma maldição em uma benção. Por deus, tiveram um bebê mágico! Sabe quantas pessoas dariam a vida para ter uma criança como ela?”
“Sim, eu sei. Eu sei muito bem. Acredite, eu jamais desistiria dessa família. O problema não sou eu, o problema é Emma. Ela não vê mais esperança, ela não vê mais solução. Eu a entendo. Eu também estaria cansada de lutar.”
“Não. Não estaria.” Ela disse. “Você esperou 28 anos por ela. Você viveu todo esse tempo infeliz, nem mesmo Henry foi o bastante, porque é logico que ele não seria. Você precisava delas. De Emma e Amy. Mesmo sem saber dessa espera, você ainda assim esperou. Ninguém deve desistir da felicidade, Regina.”
“O que aconteceu com você? O que os anos fizeram com você?” Eu perguntei, a fazendo sorrir. Rapunzel segurou seus grandes cabelos loiros, com uma das mãos.
“Eu acho que foram meus cabelos.” Ela respondeu, ainda rindo.
“É, pode ser. Eu gosto deles maiores também.”
“Eu sei que gosta. Eu os mantinha curto porque quando eu os corto, minha magia vai embora.”
“Pensei que era por outro motivo.” Eu disse. “Bem, isso é bom, não é?” Eu continuei. “Quando você se encher da magia, você pode cortá-lo. Amy não pode fazer isso.”
“Talvez ela não possa, mas talvez haja uma forma de cortar a magia da cidade. Ou sei lá, e se ela sair da cidade? Se ela atravessar a fronteira?!” Ela perguntou, sentando-se ereta no sofá. “Não podem fazer isso?!”
“Não.” Eu respondi. “Ela não pode sair da cidade, já tentamos isso. Acontece que assim que a maldição foi quebrada e as coisas se ajeitaram. Rumple e eu colocamos um feitiço de proteção na cidade. Ela está fora do mapa para qualquer um. Ninguém pode sair, caso contrário, perdem a memória e, por algum motivo, esse feitiço teve um efeito em Amy também. Quando ela era mais nova, ainda bebê, Henry tentou atravessar com ela. Assim que sua mãozinha entrou em contato com o campo de força ao redor da fronteira, ela começou a chorar. Um choro de dor e desespero. Notamos que aquela barreira a machucava de fato, sua mãozinha ficou completamente queimada do incidente e desde então nunca mais fizemos isso. Rumple, a fada azul e até eu mesma, tentamos quebrar a magia, mas parece que não existe uma forma. Mas se existir uma, nós ainda não a encontramos. Por enquanto, apenas Emma e Henry podem atravessar a fronteira e de fato, uma vez Emma lá fora, sua magia vai embora. Então a única saída era treiná-la. Porém, isso não parece ser o bastante.” Eu continuei, Rapunzel suspirou e se jogou no sofá.
“Então de fato não há um jeito?” Perguntou.
“Eu acho que não.” Eu respondi e ficamos em silêncio o resto do da noite.
Ela se despediu de mim e foi embora, me deixando sozinha com meus pensamentos. Enquanto ela estava ali comigo, eu havia esquecido completamente das últimas horas do meu dia, mas agora, sozinha, Emma havia então voltado a minha mente. Eu não conseguia parar de pensar em outra coisa que não fosse o fato de que eu teria que deixá-la ir.
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Henry saiu cedo, Emma havia ligado e gostaria de tomar café da manhã com ele. Eu deixei que ele fosse com um dos carros e tomei café da manhã sozinha com Amy, que aparentemente estava muito feliz.
“O que mamãe achou dos fogos de artifício?” Perguntou, enquanto eu colocava suco de laranja em seu copo e me levantava para ir até o armário buscar uma caixa de cereal.
“Ela adorou, meu amor. Ela até chorou.”
“De felicidade?” Perguntou, colocando sozinha o cereal na tigela e derrubando metade na mesa. Ela rapidamente jogou o resto do cereal para o chão e Totó, alegremente, fez o favor de comer.
“Sim, meu amor. De felicidade.” Eu respondi, colocando o leite no cereal, mas sendo impedida por Amy, que queria fazer tudo sozinha. Obviamente, ela derrubou também o leite, mas parecia estar tão orgulhosa por ter feito tudo sozinha, que eu não fiz nenhum comentário e me sentei ao seu lado, observando-a comer.
“Vocês adultos são estranhos. Vocês choram de felicidade e choram também de tristeza.”
“É, nós somos muito estranhos, não somos? É por isso que precisamos tanto de crianças.”
“É, faz sentindo.” Respondeu, colocando uma grande quantidade de cereal na boca.
Ela estava radiante aquela manhã e eu tão em pedaços, mas incapaz de desabar ali, na sua frente. O que Rapunzel havia dito fazia sentido. De fato, era como se eu tivesse esperado todos esses anos apenas para ter essa criança em minha vida. De modo que todo o sofrimento e toda a dor que eu causei se justificassem. É logico que eu jamais faria novamente tudo o que eu fiz no passado. Porém, eu não podia negar que todos as minhas escolhas me trouxeram até esse momento, de modo que nada poderia ser diferente.
Eu não sabia ao certo o que pensar a respeito de todas as coisas que estavam acontecendo no momento. Eu só sabia que, assim como Emma, eu também daria minha própria vida para poder sentir Amy em meus braços. Por isso, eu me aproximei de Amy, pegando-a de sua cadeira e a colocando sentada a minha frente.
Ela ficou tão confusa com o gesto, me encarou em silêncio, enquanto eu limpava sua boca, completamente suja de cereal. Eu a abracei, o mais forte que eu pude, dando um beijo demorado em sua testa. Ela queria terminar seu café da manhã e se arrumar para o colégio, eu sabia disso. Porém, ela simplesmente me abraçou de volta e perguntou se esse abraço havia sido um pedido de Emma.
“Foi sim, meu anjo. Sua mamãe pediu para que eu te abraçasse bem forte assim, já que ela não pode fazer isso.” Eu me afastei dela, vendo um sorriso em seus lábios.
“Ela me ama mesmo longe!”
“Sim, meu amor e sempre vai te amar.”
“Sei que vai.” Respondeu, parecendo pensativa. Depois de alguns segundos em silêncio, ela finalmente voltou a falar. “Mamãe, eu sei que o seu corpo e o da mamãe funcionam de forma diferente das outras pessoas. Por isso, vocês duas conseguiram me fazer. Eu sei também que as outras mamães não poderiam, porque elas não têm o que vocês têm, mas por que foi mamãe? Por que eu não vim da sua barriga?”
Eu não soube como reagir aquela pergunta. Na verdade, eu não sabia como reagir ao fato de que ela, sozinha, conseguiu fazer toda aquela ligação. Então eu tomei alguns segundos, para pensar o que responderia.
“Eu não devia ter perguntado isso?” Ela perguntou.
“Não, meu amor. Não é esse o problema. É que sua pergunta me espanta de certa forma.” Eu respondi, enquanto ela esperava por sua resposta. “Bem, é que como você disse, nossos corpos são diferentes de fato. O meu é mais diferente, ele não funciona como da sua mamãe. Tem algo errado nele.” Continuei a falar, colocando minha mão sobre a minha barriga, ela acompanhou com o olhar. “Ele nunca funcionou. Eu sempre suspeitei disso, mas só tive a certeza quando tentei ter um filho. Eu resolvi, então, que não valia a pena a frustração e resolvi adotar uma criança. Eu sabia que o amaria da mesma forma.” Concluí, seu olhar ainda estava fixo em minha barriga.
“Você gostaria de funcionar igual às outras mamães?” Perguntou, seu olhar fixo no meu.
Eu assenti e ela levantou a camiseta que eu usava, colocando suas mãos sobre a minha barriga. Uma mão de cada lado, olhando fixamente para o que ela estava fazendo e permanecendo dessa forma por alguns segundos. Ela tirou suas mãos, olhou para mim, enquanto abaixava minha camiseta e sorriu. Seus olhos pareciam se iluminar, com algo que talvez apenas ela tivesse sentido.
“Você está se sentindo melhor, não é?” Perguntou e eu não pude dizer a verdade a ela.
Eu não havia sentido nada, mas menti, dizendo que estava me sentindo melhor sim. Se antes ela já estava feliz, agora parecia fora de si. Eu desejei ter metade de sua alegria e foi inevitável que as lágrimas aparecessem em meu rosto. Sem dizer uma palavra sequer, ela começou a enxugá-las, com a ponta dos dedos. Seu sorriso, aos poucos, foi desaparecendo de seu rosto.
“Eu pensei que você ficaria feliz, mamãe. Por que então você chora?” Perguntou, quando não sobrou mais nenhuma lágrima em meu rosto.
“É que eu queria que todas as coisas pudessem ser resolvidas assim. Com apenas um toque.” Eu respondi e ela franziu o cenho.
“Nem todo toque precisa ser sentindo.” Respondeu e levantou sua mãozinha até a altura do meu rosto. Ficando a centímetros de minha bochecha.
Sem me tocar, ela levou sua mão de um lado para o outro. Eu não sabia como ela estava fazendo isso, mas eu era capaz de senti-la, como se de fato ela estivesse me tocando. Era como se seus dedos estivessem em contato com a minha pele, eu era capaz de sentir o calor de sua mão em meu rosto.
Ela levantou mais a mão ao alto, em direção aos meus olhos, que novamente estavam tomados por lágrimas. Ainda sem me tocar, ela enxugou cada uma de minhas lágrimas e, por fim, trouxe sua mão de volta ao corpo. Eu a puxei para mim, em um abraço apertado.
“Quem te ensinou isso, meu anjo?”
“Rapunzel” Respondeu. “Ela disse que é algo que ela faz com a amiga dela. Porque, às vezes, elas não podem se tocar como querem. Então, Rapunzel faz com que ela apenas a sinta.” Concluiu, enquanto eu agradecia aos deuses pela pequena luz que eu segurava no colo.
“Que tal faltar aula hoje?” Eu perguntei e ela pareceu surpresa com a pergunta.
“Sério?!” Perguntou, animada.
“Sério. Eu acho que existe alguém que precisa sentir algo hoje.” Eu respondi e mais uma vez, ela se jogou em meus braços, para mais um abraço.
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“Você disse que era extremamente importante.” Emma disse, assim que eu cheguei ao estábulo.
Eu estava montada em meu cavalo, ao longe, eu podia ver Amy montada no cavalo que havia ganhado do avô. Emma acompanhou meu olhar, antes de voltar sua atenção a mim.
“É muito importante de fato.” Eu respondi, estendendo minha mão, ela revirou os olhos, antes de aceitar minha mão e, mesmo relutante, montou comigo, encostando seu corpo ao meu.
“Diferentemente de você, eu não sou tão apaixonada por cavalos.” Disse, virando seu rosto, para que eu pudesse vê-la. Eu lhe roubei um beijo, fazendo-a se calar e enfim a respondi.
“Eu não podia fazer o que queria em uma luta de espadas ou dentro daquele seu fusquinha apertado.” Eu respondi, fazendo-a rir. “Você está melhor?”
“Eu vou ficar melhor.” Respondeu, enquanto eu começava a cavalgar em direção a Amy. “Ela não deveria estar na escola?”
“Deveria sim, mas ela tem algo para ensinar a você.” Respondi, parando a alguns metros de distância de nossa menina, que cavalgava sozinha como uma verdadeira amazona. É claro que havia um dos tratadores ao seu lado, mas ainda assim, a menina cavalgava naturalmente.
“Tem, é?” Emma perguntou.
“Sim, mas eu peço que tenha calma. Antes eu preciso lhe dizer algo. Na verdade, antes eu preciso retirar algo que lhe foi dito.”
“Você já me disse sim ontem, por favor, não o retire.” Disse, com certa irritação na voz.
“Eu sei que eu disse, mas eu peço que me escute. Eu quero de fato o casamento. Eu quero dizer o ‘sim’ na frente da cidade inteira, do mundo inteiro, se possível. Eu quero te ver toda de branco, Emma. Eu sei que você será a noiva mais linda do mundo. Eu sei que será o casamento mais perfeito.”
Na posição em que estávamos, ela não podia se virar completamente para me olhar diretamente nos olhos, de modo que apenas se encostou totalmente ao meu corpo. Ela segurou uma das minhas mãos e a acariciou com seus dedos, enquanto eu continuava a dizer.
“Eu também estou doida para escrever o “Recém-Casadas”, naquele seu fusquinha ridículo, que você já deveria ter vendido. Eu também quero ouvir as latas batendo no chão. Eu quero abafar o som das latas com nossos beijos e por que não dizer nossos gemidos?” Quando eu disse essa parte, ela riu e eu a beijei em seu pescoço. “Porém, eu não posso dizer sim a sua morte. Eu não posso permitir que você tire a própria vida, com a nossa filha nos braços. Eu sei que um dia a vida vai te tirar de mim, mas não dessa forma, não tão cedo. Então, por favor, Emma, continue sendo minha salvadora. Henry uma vez te fez acreditar no impossível e eu te peço agora que acredite no possível. Porque é o que nós somos, Emma. Nós somos possíveis.” Eu terminei de dizer e ela se esforçou para se virar para mim e tomar minha boca, em um beijo demorado, cheio de algo que já fazia algum tempo que eu não sentia nela. Seu rosto estava tomado por lágrimas, mas eu sabia que agora elas não eram de tristeza. “Eu amo você.” Eu disse, recebendo um ‘eu te amo também’ de volta.
Eu cavalguei com ela, para mais perto de Amy, que assistia toda a cena e tinha esse sorriso bobo nos lábios. Eu sabia o quanto ela amava nos ver juntas, de modo que beijei Emma novamente.
“Devo temer o plano de vocês?” Emma perguntou e quando enfim estávamos a uma boa distância da nossa menina, eu peguei o walkie-talkie, que estava preso a sela do cavalo.
“Amy?” Eu disse.
“Tô te ouvindo, mamãe! Oi, mãezinha!”
“Olá, meu amor.” Emma respondeu e a menina acenou para nós.
“Pronta para a “Operação Sentir”?” Eu perguntei, Amy respondeu que sim do outro lado.
“Operação Sentir?” Emma questionou, mas eu não respondi, pois não havia necessidade.
Eu sabia que estávamos a uma distância segura de Amy, que agora levantava suas mãos para o ar e mexia seus dedos. Eu perguntei a Emma se ela podia sentir e em resposta, eu vi seus cabelos se mexerem, mas não por causa do vento, mas sim, graças a Amy.
A menina desceu suas mãos, no mesmo instante, Emma levou a mão para o próprio rosto, sentindo o toque de Amy. Eu não era capaz de ver o rosto de Emma, mas podia ouvi-la chorando, enquanto nossa menina continuava a fazer carinho em seu rosto, agora com as duas mãos.
“Eu a sinto.” Emma respondeu, sua voz misturada a toda a emoção que sentia no momento. “Eu sinto seu toque.” Continuou. “É como se eu também pudesse sentir seu perfume.”
Amy continuou, suas mãos agora acariciando os cabelos de Emma, que se mexiam a minha frente.
“Eu posso fazer isso?” Emma perguntou, se virando para mim.
“Bem, eu não sei como fazer.” Eu respondi, mas Emma ignorou minha resposta e levantou suas mãos, tentando fazer o mesmo.
Pela reação de Amy, eu percebi que Emma havia conseguido. A menina levou as duas mãozinhas ao rosto, sentindo o toque de sua mãe. Ela sorriu em resposta e seus cabelos se moveram, à medida que Emma movimentava suas mãos. A cada toque, Amy se emocionava e chorava, mas não de tristeza.
“Eu sei que não é a mesma coisa.” Eu disse, junto ao ouvido de Emma. “Mas eu espero que seja o suficiente por agora.”
“Eu sei que não é a mesma coisa, assim como eu também sei que é muito. Muito mais do que eu tive durante todos esses anos. Obrigada, Regina. Obrigada por nos tornar possíveis e por amar novamente. Me amar novamente.” Ela concluiu, me beijando. Ela ainda desejava ter Amy em seus braços, mas por ora, isso era tudo o que eu podia tornar possível.
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