Amy

23 Por Entre Os Mundos


Notas iniciais
Dedico esse capitulo as leitoras Anatomy Once e a Kate Austen, pelas recomendações incríveis que vocês duas deixaram.

Capítulo 23 – Por Entre Os Mundos

O cenário a nossa volta se encontrava congelado como um filme pausado. Enquanto minha mente rodava, tentando estabilizar meus pensamentos. Alice se aproximou, seus olhos azuis fitavam os meus. Todas as perguntas que eu tinha em minha mente me deixaram, dando lugar apenas a última frase que ela havia me dito, que parecia tocar em replay na minha cabeça.

Durante todos esses anos, Emma e eu sempre pensamos que Amy apenas existia graças ao nosso amor. Pensamos que de alguma forma nossa magia havia sido forte o bastante para trazê-la a esse mundo. Escutar a verdade não apenas incomodava como também doía.

Era como se o nosso mundo perfeito simplesmente tivesse desabado diante de mim. Agora eu tinha uma resposta. Agora eu sabia como Amy havia sido criada. Porém, eu preferia antes. Eu preferia quando eu pensava que ela era nossa...

“Eu sei o que você está pensando.” Disse Alice e o cenário a nossa volta mudou, levando-nos ao Granny’s. Tudo ainda estava congelado, quando ela continuou a falar. “Você está pensando que isso muda tudo, que isso torna Amy minha, mas isso não é verdade.”

“Eu não estou pensando. Você que está me dizendo isso.” Eu respondi, sentindo algo preso em minha garganta. Ela balançou a cabeça, se aproximou, pegando minhas mãos e sorrindo. “Primeiro você me disse que era meu amor verdadeiro e então... Então Amy...”

“Não foi meu amor que a criou. Eu não tive nada a ver com isso. Eu apenas conjurei o pássaro. Eu nada tive a ver com a concepção de Amy.” Ela disse. “Foram vocês duas que fizeram tudo. Amy não teria existido se o amor de vocês não fosse verdadeiro, se ele não fosse forte o bastante.” Continuou. “Regina, pode não ter sido o Pó de Fada que colocou Emma em seu caminho, mas foi você que permitiu que o caminho dela cruzasse com o seu. Foi você que a escolheu entre tantas outras. Acredito que não há magia maior que o poder da escolha.”

“Eu estou muito confusa, Alice.” Respondi, olhando para as suas mãos que ainda seguravam as minhas. “O que deu errado, então?”

Então a ficha caiu. Eu pensei em tudo o que ela havia me contado e me mostrado e não soube como reagir ou o que dizer.

“Nada deu errado.” Ela respondeu.

“Como assim nada deu errado?” Eu perguntei, balançando a cabeça. “Emma e Amy não podem ficar juntas.” Continuei e ela soltou minhas mãos, engolindo a seco. “Tem a ver com o feitiço, não é mesmo?” Ela respirou fundo e o cenário a nossa volta ganhou vida.

“Sim, tem a ver com o feitiço.” Respondeu. “Regina, eu não sabia de nada disso. Nada. Eu não sabia quais eram as intenções de sua mãe. Eu não sabia o que de fato eu estava fazendo quando conjurei aquele pássaro. Eu só fui saber meses depois.” Continuou. “Sua mãe voltou para o meu mundo quando ela descobriu que vocês esperavam uma menina. Eu resolvi ficar. Eu tinha meus amigos, minha vida, acabado de concluir o ensino médio e conseguido a bolsa na universidade daqui.”

O cenário a nossa volta mostrou Alice sentada no balcão de Granny’s, ela conversava animadamente com uma garota, mas sua atenção foi roubada quando Ruby entrou na lanchonete e correu em direção a sua vó.

“Esse foi o dia que Emma foi levada ao hospital.” Disse Alice. “Eu ouvi toda a conversa e imediatamente fui até o hospital onde ela estava.”

Alice, nas memórias, caminhava pelos corredores do hospital. Eu pude me ver, parada junto a Dr. Whale e a Blue. Alice ouvia nossa conversa, escondida.

“Eu ouvi toda aquela conversa.” Ela disse, chamando minha atenção, enquanto a Alice das memórias corria em direção a um portal que havia acabado de criar. “Eu não pude parar de pensar que havia algo errado, que algo no feitiço havia dado errado. A única pessoa que poderia me dar essas respostas era a sua mãe.”

A Alice agora corria pelos corredores de seu palácio. Nós a seguimos e entramos em um grande salão. Minha mãe se encontrava com um homem baixinho, que desenhava algo em uma grande folha de papel estendida sobre uma grande mesa.

“Cora!” Gritou Alice, minha mãe tirou a atenção do que estava fazendo e aguardou que a garota se aproximasse.

“Algum problema?” Ela perguntou e Alice tentou recuperar o fôlego, antes de continuar a falar.

“Emma...” Disse Alice e minha mãe dispensou o homem ao seu lado, ficando a sós com a garota.

“O que tem Emma?”

“Ela está muito mal. Eles acham que tem algo a ver com a criança. Eles acham que ela a enfraquece.” Alice respondeu, minha mãe ouviu com atenção as palavras da menina. “Eles acham que ela suga a magia dela ou algo do tipo. O que você acha que deu errado?” Sua voz era carregada de aflição, preocupação e medo.

“Nada deu errado, Alice.” Respondeu minha mãe, calmamente. “Tudo está saindo como previsto. Não se preocupe. Tudo ficará bem.”

Minha mãe se aproximou da garota, tocando em seu queixo. Ela sorriu para Alice e começou a caminhar, a garota a seguiu.

“Como previsto?” Perguntou a garota, mas minha mãe nada respondeu. Nós a seguimos, em direção a sala do trono. Minha mãe se sentou em seu trono, encarando Alice, que estava ali parada. “Você sabia que isso aconteceria?” Insistiu Alice, minha mãe respirou fundo. Seu olhar era de verdadeira impaciência ou tédio.

“É logico que eu sabia. Eu escrevi o feitiço.” Respondeu. “E logicamente sabia das suas consequências.”

“Elas ficarão bem?” Alice perguntou e minha mãe sorriu.

“Tudo ficará bem, Alice.”

“Você não respondeu exatamente a minha pergunta.” Disse Alice. “O que você está escondendo, Cora? O que acontecerá com elas?” Insistiu e minha mãe revirou os olhos, impaciente, com um sorriso nos lábios repleto de segundas intenções.

“Por que você acha que o feitiço do pássaro trouxe uma criança a esse mundo?” Minha mãe perguntou, soando misteriosa. Alice balançou a cabeça. “Eu queria dar uma segunda chance a Regina e não apenas a ela, mas também a você.” Respondeu e Alice se preparou para dizer algo, mas minha mãe a impede. “Mas é lógico que eu não podia simplesmente passar por cima de tudo o que minha filha sentia por Emma. Então, de certa forma, eu ajudei todas vocês.”

“Do que você está falando?” Perguntou Alice, sua voz tomada por raiva.

“Quando você me procurou, me pedindo ajuda para tirar Regina do seu coração, eu te entendi. Eu entendi sua dor e sabia que você estava certa em querer isso. Pois afinal, o amor é uma fraqueza.” Disse minha mãe. “Mas eu não podia te deixar fazer isso. Você viveu todos esses anos apenas para encontrá-la, apenas para fazê-la feliz. Então você vem com essa história de esquecê-la, de abrir mão de tudo o que sentia, de tudo o que ela significava para você. Simplesmente por amor. Mas é claro que eu não poderia deixar isso acontecer, mas é claro que também eu não podia passar por cima do que minha filha sentia por aquela mulher. Não podia cometer o mesmo erro duas vezes. Então eu resolvi te ajudar, mas também resolvi deixar que Emma permanecesse viva na vida de minha filha, nem que fosse uma parte dela.”

Alice balançou a cabeça, levando as mãos a testa, aproximando-se do trono em que minha mãe estava.

“O que você está querendo dizer?” Perguntou Alice, minha mãe sorriu, parecendo tão satisfeita e orgulhosa de tudo o que acabara de contar.

“Oras, eu criei o feitiço para que minha filha e Emma pudessem conceber uma criança. Mas o feitiço não se tratava apenas disso, era algo maior. Por isso eu precisava do seu amor. Eu precisava dele para tirar Emma do caminho.” Respondeu e Alice abriu a boca, mas nada saiu de seus lábios.

Ela encarava o chão, confusa, levando sua atenção a minha mãe, ainda sentada em seu trono, satisfeita demais com tudo ao seu redor.

“Do que diabos você está falando? O que vai acontecer com a Emma?” Alice falava e sua voz era puro ódio.

Ela avançou em direção a minha mãe, que apenas estendeu sua mão, impedindo a garota de se aproximar.

“Ela morrerá, é claro.” Respondeu.

Alice não disse nada e eu busquei pela Alice verdadeira, ao meu lado, senti como se meu coração tivesse sido arrancado de mim.

“Eu pensei que...” Eu disse. “Eu pensei que minha mãe tinha feito algo bom. Eu pensei que...”

“Eu também pensei. Eu realmente pensei que sua mãe havia mudado, mas eu estava errada.” Alice respondeu.

Voltei minha a atenção a memória, ainda acontecendo a minha frente.

“Por quê? Por que você faria algo desse tipo? Qual é o seu problema, Cora?” Alice gritou e minha mãe não reagiu, apenas ouviu. “Você não tem coração?”

“Não.” Respondeu. “Não, eu não tenho.” Continuou. “Eu fiz o que fiz, Alice, porque apesar de saber o quanto Regina estava feliz com Emma e do quanto elas se amavam, ainda assim eu não acho que Emma é o suficiente para minha filha. Eu sempre quis que Regina fosse uma Rainha e de fato foi o que ela se tornou. Mas então você surgiu, me mostrando que eu poderia fazer mais por ela. Eu poderia dar a ela algo maior que apenas um trono e um reino. Eu poderia dar a ela um Universo inteiro. Aliás, você poderia.”

Alice apenas a ouviu e balançou a cabeça em total confusão.

“Você é louca.”

“Não, eu não sou. Eu apenas faço as coisas de forma coerente e racional. Diferentemente de você, eu não penso com meus sentimentos. Abrir mão de seu amor por Regina era algo tão absurdo a se fazer.”

“Ela estava feliz com a Emma! Elas estavam felizes!” Alice gritou, mostrando-se verdadeiramente impaciente com tudo o que ouvia.

“Felicidade é algo muito relativo, Alice. Ela também poderia ter sido feliz com você.” Ela respondeu. “E ela será. Com Emma fora do caminho, você poderá entrar na vida da minha filha. Você poderá fazê-la feliz como sempre quis. Você poderá dar o mundo a ela.” Concluiu e o sorriso em seu rosto conseguia embrulhar o meu estômago.

“Você está se ouvindo?” Alice perguntou, perplexa. “Acho que também lhe falta um cérebro, além de um coração. Você quer tirar a vida de alguém simplesmente por... Poder, ou sabe lá deus o que você realmente quer.”

“Eu quero que minha filha tenha tudo. Eu quero que ela seja feliz e eu sei que será. Ela vai superar a perda da Emma. Você vai ajudá-la nisso, eu sei que vai.”

“Você é louca.” Disse Alice, gritando por seus guardas, que apareceram na sala do trono. Minha mãe riu com a cena.

“Você não tem nenhuma voz de comando aqui, Alice. Você não é mais a Rainha.”

“Não.” Disse Alice, enquanto os soldados a cercavam. “Você que não é mais a rainha. Como espera continuar no trono da Rainha de Copas se você não possui um coração?” Perguntou, em um tom de deboche e um sorriso surgiu em seus lábios, enquanto ordenada que minha mãe fosse levada paras as masmorras.

“O que você pensa que está fazendo?!” Perguntou minha mãe, os guardas arrastando-a pelos corredores, Alice a seguia.

“Estou apenas tornando esse lugar mais são.”

Minha mãe gritou por todo o caminho, até que chegaram as masmorras, onde a jogaram em uma das celas. Ela colocou suas mãos nas grades, gritando para que a soltassem, mas os soldados se afastaram.

“Você só tem poderes aqui, se eu permitir que você os tenha.” Disse Alice. “Esse é o meu mundo e ele segue as minhas regras.” Sua voz era séria, assim como a expressão em seu rosto. Naquele momento, ela era tudo, menos a garotinha perdida de anos atrás. “Você vai ficar aqui e pagar por todo o sofrimento que causou a sua filha, Cora.”

“Ela estará livre para você, Alice! Eu sei que você não vai aguentar vê-la sofrer e então fará de tudo para fazê-la feliz novamente! No fim, eu vou ter exatamente o que eu queria!” Minha mãe gritou, Alice se afastava, virando-se uma última vez para minha mãe.

“Não, você não vai.” Disse Alice, sua voz carregada de certeza. Minha mãe franziu o cenho, se afastando das grades, quando Alice se aproximou novamente. “Sabe por quê? Porque independentemente do que acontecer com Emma, as duas acharão uma forma de ficar juntas.” Concluiu e a risada de minha mãe ecoou alto pelas paredes do lugar.

“Ela morrerá, Alice. Se é que já não está morta.”

“Então, eu irei até o mundo dos mortos e a trarei de volta.” Respondeu, um sorriso em seus lábios surgiu e o semblante de minha mãe se tornou sério.

Alice acenou para ela, desaparecendo por um portal. Nós nos encontramos em frente à casa de Rumple, onde Alice batia várias vezes a porta. Ela surgiu, encarando a garota, sua expressão era de confusão, mas assim que Alice disse quem era, ele permitiu sua entrada.

Nós permanecemos do lado de fora. Eu encarei Alice, seu olhar fixo na entrada da casa. Ela se virou e começou a andar pela rua. Eu a segui, perguntando para ela o que havia acontecido aquela noite. O cenário mudou, enquanto caminhávamos por um corredor de hospital.

“Aquela noite Emma morreu e eu contei a Rumple toda a minha história. Eu não tinha a quem recorrer. Ele era a única pessoa que eu sabia que poderia me ajudar. É claro que fazer um acordo com Rumple teria um preço. Porém, eu estava disposta a pagar qualquer coisa.” Disse, enquanto caminhávamos pelo corredor do hospital e eu percebi que estávamos no necrotério. “Ele ligou para Whale aquela noite, inventou uma desculpa qualquer e me levou até o hospital. O plano era abrir um portal para o mundo dos mortos, algo que até então ele só sabia na teoria.”

Estamos diante de uma sala, lá dentro estavam Whale, Rumple e Alice com Amy em seus braços.

“Eu sei que você deve estar se perguntando o porquê eles nunca lhe contaram nada. Acontece que eu fiz assim, eu transformei a memória deles em um sonho. Um sonho que eles simplesmente esqueceram. Era mais fácil assim.” Disse, entrando na sala, mas eu não a segui, pois, encostada a uma das paredes, havia o corpo de Emma sobre uma maca.

Eu respirei fundo, mas o ar não parecia entrar em meus pulmões. A imagem de Emma sem vida era demais para mim. Eu olhei para trás, pensando em voltar, mas o choro de Amy me fez encarar a cena que ocorria em minha frente. Alice nada disse, mas eu senti que ela entendia minha hesitação. Eu criei coragem, entrei na sala e a cena começou a acontecer.

“Eu pensei que magia não podia trazer ninguém de volta a vida.” Disse Whale e Rumple deu uma risada baixa.

“Não é magia. Isso é algo maior. Alice tem um dom incrível de abrir janelas entre os mundos e é isso que ela fará hoje. Ela abrirá uma janela para o mundo dos mortos, permitindo que a alma de Emma volte ao seu corpo.” Rumple respondeu, eu encarei a Alice da memória, com Amy em seus braços, balançando a criança gentilmente a fim de acalmá-la.

“E como sabe que isso funcionará?” Perguntou Whale e Rumple deu de ombros, explicando que não sabia dizer se funcionaria. “Certo, vou deixar vocês as sós com a experiência de vocês.” Continuou o doutor, saindo da sala e fechando a porta atrás de si.

Alice encarou o homem a sua frente, caminhando em seguida ao redor do corpo de Emma, obrigando-me a me aproximar. Não havia cor em seu rosto. Ela estava pálida, seus lábios enrugados e sua expressão vazia fizeram meu corpo estremecer. Um frio correu pela minha espinha e eu enxuguei as lágrimas de meu rosto, afastando-me então de seu corpo.

“Criar um portal para aquele mundo é algo bem complicado.” Disse Rumple para Alice, que acariciava o rostinho de Amy, que se encontrava mais calma. “Você precisará de uma conexão muito forte com o outro lado. É por isso que Amy está aqui. Primeiro temos que criar uma conexão com você, a criança e Emma.”

Ele caminhou para um dos cantos da sala, onde eu o vi pegar uma pequena caixa de madeira. Um pequeno frasco havia lá dentro. Alice se aproximou e o homem despejou o conteúdo líquido de cor âmbar na ponta de seus dedos. Em seguida, ele usou o dedo para molhar a testa de Amy, repetindo o gesto em Alice e depois em Emma.

“É só isso?” Alice perguntou, quando o homem guardou o frasco. Ele balançou a cabeça.

“Não.” Respondeu. “Não é só isso. Agora você de fato cria a conexão entre vocês três.”

“Certo, como eu faço isso?”

“Feche os olhos e se coloque no lugar de Emma. Sinta Emma em você e sinta a criança em seus braços.” Disse Rumple e Alice encarou a menina, suspendendo-a em frente ao seu rosto. Ela respirou fundo, levando a criança junto ao corpo. “A menina te ajudará a criar um portal exatamente no lugar onde Emma se encontra nesse momento. Assim que você estiver lá, você terá que convencê-la a voltar.”

“Convencê-la?” Alice perguntou, parecendo confusa.

“Sim, acontece que o mundo dos mortos é um lugar confuso. Talvez ela não se lembre de quem é ou do que aconteceu com ela. Você terá que convencê-la a voltar.”

“E se eu não conseguir?” Perguntou, quando o homem tirou da pequena caixa de madeira um cordão prateado. Ele amarrou uma ponta ao pé direito de Emma e a outra extremidade no pulso esquerdo de Alice.

“Assim que você encontrar Emma e a convencer a voltar, você amarrará a outra ponta do cordão no pulso direito dela. Então, você abrirá o portal de volta.”

“E isso trará Emma de volta?”

“Talvez.” Ele respondeu.

“Talvez?”

“Você tem que entender que eu nunca fiz tal coisa. Pode não dar certo. Por isso você tem que voltar assim que perceber que não tem como trazê-la de volta. Ficar por muito tempo no mundo dos mortos te deixará confusa. Aos poucos, você vai se esquecer do motivo pelo qual foi até lá, se tornará um deles e jamais poderá voltar.”

Alice o fitou e depois olhou para Amy. Seu rosto demonstrava o medo que sentia, mas ainda assim ela estendeu uma de suas mãos e abriu um portal. Porém, ela hesitou. Encarou a pequena Amy e seus olhos foram tomados por lágrimas. Ela beijou a menina, fechando os olhos por alguns segundos.

“Eu pensei em desistir do meu plano.” Alice disse. “Eu poderia ter escutado o que sua mãe me disse. Eu poderia deixar que Emma continuasse onde estava. Eu poderia então tomar o seu lugar. Você poderia ser minha de novo, mas então eu lembrei que você jamais foi.”

Nós não estávamos mais na sala do necrotério, mas sim em um jardim. Gramas verdes sob meus pés e o vento em meu rosto. Havia uma paz que eu não sabia descrever e um silêncio que tomava conta de tudo.

“Siga-me.” Disse Alice.

Nós caminhamos pelo jardim. Não havia nada, apenas o vazio, mas o cenário mudava lentamente a medida que caminhávamos. O silêncio foi embora, dando lugar ao som de pássaros e risadas distantes. Onde antes havia árvores e flores, agora havia pessoas, em sua maioria crianças.

Elas passavam por mim, correndo em meio a risadas, pareciam uma brisa quente e nada mais do que isso. As pessoas ali pareciam em paz, felizes, conversando sobre a grama ou caminhando sem rumo. Pareciam bem, pareciam vivas e tudo era completamente diferente do que eu imaginava.

“Eu sei.” Disse Alice, surrando e se aproximando de mim. “Não parece nada com o mundo dos mortos. Porque aqui não é exatamente o mundo dos mortos. É um lugar antes dele.” Continuou e apontou para uma direção.

Em um banco, uma mulher estava sentada, mas estávamos muito distantes para que eu a reconhecesse. A Alice da memória caminhava na direção da mulher. O cordão preso em seu pulso, completamente estendido pelo chão, com a outra ponta suspensa no ar. Alice se sentou ao lado da mulher, que eu notei ser Emma. Amy ainda em seus braços. Eu demorei a perceber o que estava acontecendo e hesitei antes de caminhar na direção delas.

“Olá, Emma.” Disse Alice.

Emma, completamente de branco, seus cabelos loiros e ondulados completamente soltos. Ela estava feliz, em paz e eu me ajoelhei diante dela, sentindo meus olhos se encherem de lágrimas, pois ela nunca antes esteve tão perto de Amy como agora.

“Oi.” Emma respondeu, sorrindo.

Era um dos seus sorrisos mais sinceros. Ela conseguiu me passar toda a paz que sentia, apenas com aquele sorriso. Era como estar diante de um anjo e ela sequer precisava de suas asas.

“Você não se lembra de mim.” Alice continuou e ajeitou Amy em seus braços, que estava despertando de um sonho. “Eu sou sua amiga. Uma amiga de outro mundo e eu estou aqui para te ajudar.” Emma pareceu confusa, mas sorriu para Alice. “Você está confusa agora. Eu sei, mas tudo fará sentindo em breve. Você só tem que querer voltar comigo.”

“Voltar?” Emma perguntou. “Para onde?”

“Para casa, é claro.” Alice respondeu e Amy começou a chorar em seus braços.

“Eu já não estou em casa?” Emma perguntou, olhando para a bebê que Alice segurava.

“Não, você não está. Você tem a sua casa. Você tem a sua família e eles precisam de você. Eles precisam que você queira voltar.” Respondeu Alice, mas Emma nada disse, sua atenção estava em Amy, que chorava cada vez mais alto.

“O que ela tem?” Emma perguntou, ignorando tudo o que Alice acabara de dizer.

“Eu não sei.” Alice respondeu, frustrada e se levantou, com Amy em seus braços, balançando a de um lado para o outro.

Emma permaneceu sentada, olhando para Alice. Seu olhar então se distanciou, como se houvesse alguma parte dela que ainda conseguia se lembrar de sua filha. Ela colocou suas mãos sobre o ventre. Alice a encarou, curiosa e Amy ainda chorava, fazendo meu coração se apertar.

Eu estava bem ali, ajoelhada diante de Emma, encarando seus olhos que aos poucos se enchiam de lágrimas. Emma levou suas mãos em direção aos seios. Uma lágrima solitária desceu de seu rosto.

“Você está se lembrando, não é?” Perguntou Alice. “Você está lembrando-se de sua filha. De sua família. Tudo bem, isso é bom. Isso é ótimo.” Continuou, Amy ainda chorando em seus braços.

“O que aconteceu?” Emma perguntou e Alice se aproximou, entregando-lhe Amy.

Emma a segurou com dificuldade, suas mãos tremiam e agora ela chorava, arrancando minhas lágrimas também. Eu me virei para Alice, que sorria para a cena de Emma tentando acalmar Amy em seus braços.

“Eu sonhei com você todos os dias.” Emma disse a bebê, que apenas chorava. “Sonhei com cada detalhe de você. Cada detalhezinho.” Continuou e riu por entre lágrimas. “Mas nunca imaginei que seria assim tão perfeito. Melhor que um sonho. Você é mais perfeita que qualquer coisa que eu já tenha visto nesse mundo.” Ela levou a menina para perto do corpo.

Por um segundo, Amy parou de chorar e esticou seu pescoço em direção ao corpo de Emma.

“É por isso que você está chorando, meu anjo?” Perguntou Emma, tocando no rostinho de Amy e levando seu dedo até os seus lábios. A menina o sugou, deixando claro que sentia fome. Emma encarou Alice. “O que eu faço?” Perguntou, aflita por não saber o que fazer com a própria filha.

Alice deu de ombros, sentando-se ao seu lado e Emma encarou sua filha. Era notável o quanto ela estava frustrada, mas esse sentimento durou pouco. Ela levou Amy para mais perto de si, desceu a alça de seu vestido e permitiu que a bebê tivesse acesso ao seu seio. Sua expressão se misturou a dor que sentiu e ela sorriu para Amy.

“Dói?” Perguntou Alice, sua expressão tomada por medo.

Emma a encarou, rindo, mas balançou a cabeça, dizendo que era uma dor suportável. Sua atenção voltou a pequena em seus braços e eu me levantei, aproximando-me das duas. Emma contornava o rostinho de Amy com a ponta de seus dedos, descendo por seu corpinho até os seus pequenos pés. O sorriso em seu rosto e a forma que ela encarava a bebê encheram meu coração de alegria. Eu me permiti entrar em contato com toda essa paz e felicidade que o lugar transmitia.

“Regina e eu enrolamos tanto para escolher um nome. Nenhum parecia bom o suficiente.” Disse Emma. “Mas tinha esse nome que eu realmente queria colocar nela. Eu gostava do jeito que ele soava e de seu significado.” Continuou e Alice perguntou a ela qual nome havia escolhido. Emma sorriu, percorrendo os cabelos loiros de nossa menininha. “Amy.” Respondeu, beijando Amy na testa.

Alice se aproximou de Emma, amarrando o cordão prateado em seu pulso. Aos poucos, a cena foi desaparecendo. Antes de ser tomada por uma névoa, eu ouvi a voz de Emma, sussurrando para a nossa princesa: “Mamãe está voltando, meu anjo. Mamãe está voltando para você.”