Amy
22 Do Outro Lado
Capítulo 22 – Do Outro Lado
Eu abri meus olhos e me afastei de Alice. Não nos encontrávamos mais no escritório. Nós estávamos diante de uma mansão enorme de estilo vitoriano. Eu olhei para Alice a minha frente e para a grande porta de madeira, que ela abriu, entrando na mansão e sendo seguida por mim.
“Desculpa pelo beijo.” Ela disse, enquanto caminhávamos pelos corredores escuros da casa, repletos de quadros nas paredes e grandes tapetes pelo chão. A casa tinha um cheiro forte e ela andava pelos corredores como se conhecesse o lugar.
“Não era preciso, mas, eu gosto de dar um toque pessoal na forma que conjuro um feitiço.” Respondeu, olhando para mim, que estava bem atrás dela. Em seguida, entrou em corredor que dava acesso a um grande salão.
“Onde estamos?” Eu perguntei.
“É uma memória.” Respondeu.
Nós estávamos no salão. Uma grande lareira se encontrava acesa e as grandes janelas fechadas, o que impedia a luz de entrar. Minha atenção foi em direção as pessoas que ali se encontravam.
Em uma grande poltrona, havia um homem, de terno escuro, botas negras e com ar de gente importante. Ao seu lado, uma mulher, de expressão decepcionada, mãos em frente ao corpo, olhando para uma garota loira no centro do salão. A garota tinha uma expressão triste e soluçava. Seu vestido azul de seda se encontrava completamente rasgado e sujo.
“Essa sou eu.” Disse Alice. “Aos treze anos.” Seu rosto sério e seu olhar triste.
“Você não está fazendo sentido algum, Alice!” Soou a voz do homem, como um grito em um sotaque carregado, assustando a garota.
“Mas, papai!” Respondeu a garota. “Eu realmente estava no País das Maravilhas. Acontece que eu tive que podar todas as flores antes de sair. Os homens cartas sempre ficam presos e se rasgam quando tentam cortas as flores mais baixas!” Continuou e o homem, em resposta, se levantou de sua poltrona. A mulher ao seu lado tentou segurá-lo, mas o homem estava fora de si.
“Você não está bem, Alice! Você está louca!” O homem respondeu, com a mesma fúria de antes e se virou para sair do cômodo. A garota ficou parada ali, a mulher não ousou consolá-la.
“Eu não estou inventando isso, mamãe!” Respondeu a garota, mas a mulher nada disse.
Abandonada no salão com suas lágrimas, a garota desabou ali mesmo, tentando secar as lágrimas de seu rosto nas partes do vestido que não estava sujo de lama. Eu me virei para Alice, que sorriu e saiu do cômodo. Eu olhei uma última vez para a sua versão aos trezes, antes de segui-la.
“Quando você começa a dizer coisas sobre mundos que só você pode ir, ninguém liga. Não se você tem cinco anos de idade ou sete. Mas aos treze... Bem, aos treze você já é vista como uma quase mulher. Eu era para estar sendo moldada a ser uma grande esposa, uma mulher exemplar, mas para decepção do meu pai eu preferia o jardim e as brincadeiras de moleque. Eu preferia meu próprio mundo a realidade da qual ele tentava me encaixar.” Ela disse e saímos pela porta do grande casarão e nos encontramos diante da entrada. “Eu posso ter mentindo sobre ser a Rapunzel, mas assim como ela eu passei anos presa contra a minha vontade.” Ela completou e olhei para a rua, onde um carro escuro se encontrava estacionado.
De dentro do carro saíram três homens uniformizados. Eles caminharam em direção a mansão, passando através de nós duas e batendo a porta. O pai de Alice foi quem atendeu, seu olhar era preocupado e ele se afastou para dar espaço para os homens entrarem.
“O que eles fizeram com você?” Eu perguntei, mas ela não respondeu.
Segundos depois, houveram gritos, seus gritos que vinham de dentro da mansão. A garota passou por nós, correndo em direção à rua. Mas não havia como ajudá-la, pois, tudo não passava de uma memória. Ela correu desesperada, pedindo por ajuda, mas ninguém apareceu.
Os homens de branco a alcançaram e a dominaram no chão. Um deles aplicou nela uma injeção e a menina, que antes lutava, agora se encontrava desmaiada no chão. Eu olhei para o rosto de Alice, vi a tristeza em seu olhar e me virei para os seus pais, parados ao nosso lado, observando a garotinha sendo levada dali. Alice, aos trezes, amarrada em uma camisa de força e seus pais tinham tudo menos tristeza no olhar, pareciam até aliviados.
“Eu vivi durante dois anos naquele manicômio.” Ela disse, levando minha atenção de volta a ela.
Eu olhei ao redor e nos encontrávamos agora no manicômio. Deitada em uma maca, completamente amarrada, estava Alice, que ainda lutava para se libertar. Ela gritava incansavelmente, enquanto médicos e enfermeiras tentavam acalmá-la.
Uma enfermeira colocou algo em sua boca, impedindo-a de continuar com os gritos. Uma segunda enfermeira se aproximou, com uma espécie de bastão em cada uma de suas mãos. Ela aproximou de Alice, uma máquina foi ligada e a garota se contorceu de dor, quando os bastões se aproximaram de sua cabeça. A cena da terapia de choque durou alguns segundos, mas eu não consegui olhar por muito tempo e desviei meu olhar.
“Eu não estava louca.” Ela disse, sem desviar o olhar da cena. “Mas eu estava prestes a ficar.” Concluiu e o cenário ao nosso redor era agora um quarto acolchoado.
Em um canto do quarto, completamente amarrada em sua camisa de força, havia Alice. Ela estava destruída, seus cabelos completamente bagunçados e sua expressão era de alguém que não aguentava mais lutar.
“Eu vi os dias sendo tirados de mim. Eu vi minha juventude ir embora, junto com a minha sanidade.” Disse Alice, aproximando-se de sua versão mais nova.
A menina tinha os lábios rachados e olheiras profundas, sentou-se ao chão, encostando contra a parede acolchoada. Então, fitou a parede a sua frente, buscando por algo.
“Mas eu jamais iria deixar de ser eu mesma só por causa deles.” Continuou Alice e a jovem agora se arrastava em direção a parede do outro lado do quarto, ajoelhando-se a sua frente.
Ela fechou os olhos, se concentrando, seu maxilar se contraiu e um portal surgiu diante de seus olhos. Ela se encontrava exausta, sua respiração era ofegante, mas ao ver o portal um sorriso surgiu em seus lábios. Um barulho do outro lado da porta a fez perceber que ela não podia perder tempo. Ela se jogou no portal, sendo seguida por mim e Alice.
Estávamos no País das Maravilhas. Vários animaizinhos receberam a jovem e todos a ajudaram a se soltar da camisa de força. Ela agradeceu cada um deles, com abraços apertados e um afago na cabeça. Eu olhei para a Alice ao meu lado, que sorria ao ver a cena.
“Eu nunca mais voltei para minha casa. Eu nunca mais deixei que nada me impedisse de ser eu mesma ou de ser feliz. Não sei o que eles pensaram que tinha acontecido comigo, mas sinceramente eu não ligo.” Ela disse, voltando sua atenção a jovem Alice, que agora era carregada pelos gêmeos Tweedledum e Tweedledee. “Eu passei o resto da minha vida criando portais por entre os mais fantásticos mundos.”
Enquanto Alice falava, sua memória nos levava a sua versão jovem diante de um grande portal. Novamente, nós a seguimos e nos encontramos em um mundo completamente diferente do País das Maravilhas. Havia uma grande estrada de tijolos amarelos, onde a jovem Alice corria alegremente, sendo seguida por nós duas.
“O mundo de Oz e a Terra do Nunca eram meus lugares favoritos.” Disse Alice, sua versão mais nova correndo pela estrada e nos levando aos portões da Cidade das Esmeraldas. “Até que eu conheci um mundo que me encantou mais ainda. E não era pela magia que tinha nele e sim pelas pessoas que me receberam tão bem, me fazendo acreditar que eu podia me encaixar em algum lugar.”
Somos então levadas a outro cenário. Sentada em uma mesa de bar, de aparência rústica, se encontrava a jovem Alice, que sorria e batia palmas, enquanto as pessoas do bar dançavam e cantavam.
“É a Floresta Encantada.” Eu disse, reconhecendo o lugar que uma vez eu morei.
“É sim.” Ela respondeu. “Meu terceiro lugar favorito de todos os universos.”
Uma mulher se sentou ao lado da jovem Alice. Não podíamos ouvir a conversa das duas, mas a jovem parecia verdadeiramente interessada. A mulher usava roupas verdes, seus cabelos amarrados no topo da cabeça, com alguns cachos caindo em seu rosto. Ela conversava empolgada com a jovem Alice. Depois de alguns minutos, as duas se levantaram e saíram do bar.
“Era o único local onde eu não me sentia uma turista. Eu me sentia em casa, assim como no País das Maravilhas. Mas acontece que a Floresta Encantada tinha algo especial, lá eu não me sentia solitária. Lá as pessoas eram reais, diferentemente do meu mundo, onde todos os seres eram mágicos demais ou irreais demais. Não que eu não gostasse, mas eu sentia falta de algo. Eu sentia falta de me sentir uma pessoa, às vezes.” Explicou Alice e nós seguimos a jovem e a mulher.
“Quem é essa?” Eu perguntei e Alice olhou para a mulher.
“O nome dela é Sininho.” Respondeu. “Ela me conheceu naquele bar. Ela era minha amiga na Floresta Encantada. Minha melhor amiga. Eu sempre vinha aqui e nós saíamos juntas. Eu a achava incrível, mas ela tinha esse lance de achar que eu precisava de um lugar para me fixar. Eu não queria isso. Quer dizer, fazia anos que eu andava por aí. Por entre os universos, conhecendo os mais diferentes tipos de pessoas e lugares. Eu jamais ficava mais de um dia no mesmo local. Ela achava que essa não era uma forma de viver, que eu precisava me fixar e que a única forma de fazer isso era achando o amor verdadeiro. Eu achava patético isso. Eu achava que ela não sabia nada sobe o mundo, mas ainda assim eu a ouvi e a deixei mostrar meu amor verdadeiro.”
Sininho segurava a jovem Alice pela mão. Em seguida, as duas voaram pelos céus, sendo seguida por uma trilha mágica criada por Pó de Fada. Elas se perderam de vista e quando eu me virei para Alice, percebi que nos encontrávamos em um estábulo. Uma trilha criada por pó de fada entrava pela porta do estábulo e Sininho e Alice apareceram voando.
“Você tem certeza que esse Pó de Fada funciona?” Perguntou a jovem Alice a Sininho.
As duas entraram no estábulo e olharam ao redor. Estavam completamente sozinhas e a jovem estava impaciente. Sininho, por sua vez, parecia confiante sobre o que estava prestes a acontecer.
“Eu nunca vi em toda minha vida Pó de Fada falhar.”
Um barulho fez com que Sininho puxasse Alice pela mão e as duas se esconderam em uma das baias. A trilha de pó de fada ainda estava ali, percorrendo o estábulo, procurando por algo ou alguém. As duas permaneceram escondidas. Eu olhei para a Alice ao meu lado e, segundos depois, o estábulo foi preenchido por uma voz infantil.
“Quando eu vou ganhar meu próprio cavalo?” Perguntou a criança, que estava acompanhada por um homem.
Eu não demorei para reconhecer a voz do homem que a acompanhava. Era meu pai e eu mesma, mais jovem.
“Essa sou eu.” Eu disse, espantada e a trilha de Pó de Fada caminhava na direção da criança, atingindo-a e a iluminando completamente de verde.
“Você tinha cinco anos quando eu te vi pela primeira vez.” Alice respondeu. “A idade de Amy.”
“Ela é uma criança!” Disse a jovem Alice, ainda escondida na baia, que espiava por entre a cerca de madeira.
“Bem, ela vai crescer.” Respondeu, dando de ombros.
Eu olhei para a versão criança de mim mesma, que estava completamente chateada por ter recebido uma resposta que não esperava. Meu pai se abaixou diante da garotinha e eu não pude evitar de me aproximar deles dois.
“Prometo, Regina.” Ele respondeu. “Você vai ter o cavalo mais bonito de toda essa terra, quando tiver a idade para montar. Agora você é muito pequena.”
“E a mamãe não deixa.” Respondeu a menina, fazendo-me ajoelhar a sua frente.
Ela não podia me ver, nem o meu pai e isso partiu meu coração em inúmeros pedaços. Ela estava completamente iluminada pelo Pó de Fada, mas nenhum deles notou esse fato.
“É, sua mamãe não deixa.” Ele respondeu e a menina sorriu e abraçou seu pai.
Eu senti as lágrimas rolarem em meu rosto. Eu senti a saudade invadindo meu peito. Já fazia tantos anos que isso havia acontecido e eu já nem mais lembrava. Ele havia sido o melhor pai que eu podia ter tido. Eu jamais poderia agradecê-lo por tudo o que ele fez por mim.
Eu enxuguei minhas lágrimas e observei os dois irem embora. Ele me carregava em seus braços e eu tinha um sorriso tão feliz e ainda carregava em mim toda aquela inocência. Aquele inverno ainda não havia acontecido. Ainda não havia cicatriz alguma, apenas a inocência. Eles enfim foram embora, Alice e Sininho saíram do esconderijo.
“Eu estou te dizendo.” Disse Sininho. “Pó de Fada não erra. Talvez só esteja um pouco adiantado, mas eu tenho certeza de que é ela. É ela seu final feliz!” Explicou, com uma empolgação na voz, mas a jovem Alice não parecia nada empolgada.
“O que te faz pensar que eu preciso ou quero um final feliz? Eu gosto do meu mundo. Eu gosto de andar por aí. Eu não preciso de ninguém. Além do mais, ela é uma criança.” Ela respondeu. “Assume que você está errada, Sininho.” Concluiu e Sininho se aproximou dela, colocando suas mãos sobre seus ombros.
“Um dia você ficará entediada de tanto viajar por aí. Um dia você vai querer chegar em casa e ter alguém te esperando e você não vai encontrar. Você não vai querer ser para sempre a menina que conhece todos os mundos, mas nada sabe sobre o amor. Você ficará entediada de jamais crescer.” Sininho disse e Alice se afastou, quebrando o contato que havia sido criado.
“Você não sabe nada sobre mim.” Alice respondeu e criou um portal atrás de si. “Eu não preciso de um final feliz.”
“Você está sendo egoísta, Alice! Você não pode negar isso a você e muito menos a ela.”
“Ela parecia bem.” Alice respondeu, dando de ombros
Sininho apenas suspirou e deixou a garota desaparecer pelo portal. Alice, ao meu lado, seguiu a jovem e eu não tive escolha, além de fazer o mesmo. Ela permaneceu em silêncio, nos minutos seguintes. As cenas ao nosso redor mudavam constantemente. Eu olhava atentamente para Alice real e para Alice das memórias. Passaram-se anos, a expressão da jovem era de infelicidade.
“Ela estava certa.” Alice disse enfim, me fazendo olhar para ela. “Eu iria querer alguém.” Continuou. “Então, eu voltei. Onze anos depois. Para aquele mesmo estábulo onde eu te vi pela primeira vez.”
Nós estávamos no estábulo. Onde uma versão minha, aos 16 anos, abraçava o pai em um abraço apertado. Eu havia acabado de ganhar meu primeiro cavalo. Essa memória, me fez sorrir. Eu olhei para Alice, não era possível ver sua versão jovem em nenhum lugar.
Aos 16 anos, muita coisa havia mudado em mim. Aquela cicatriz estava agora em meus lábios. Meu olhar era perdido e sonhador. Naquele ano, houve um baile. O cenário a nossa volta nos levou aquele baile. Alice estava lá, olhando tudo ao seu redor, encostada em um canto, sem ser notada por ninguém.
Ela usava um vestido azul, seus cabelos loiros soltos e seu olhar fixo na Regina que eu fui aos 16 anos. Eu lembrei o quanto eu estava nervosa aquele dia. Eu queria sair dali, cavalgar e ficar livre de todas aquelas obrigações. Naquele momento, eu me vi como a Alice, presa a um manicômio. Presa a uma camisa de forças, que minha mãe apertava cada vez mais e mais.
“Eu nunca em toda a minha vida tinha sentindo algo por alguém, como eu senti por você naquele dia. Para mim você ainda brilhava, mas dessa vez não havia Pó de Fada algum. Eu passei a noite inteira tentando criar coragem para falar com você. Para te chamar para dançar. Ou sei lá, te roubar para mim.” Ela disse, seus olhos tomados por lágrimas. “Eu poderia ter te roubado para mim. Eu poderia ter te levado para um reino onde só existisse você e eu.” Seu olhar fixo na sua versão mais jovem, que agora corria em direção a saída. “Mas eu tive tanto medo de estar errada. Tanto medo de te fazer infeliz. Então, eu fui embora.” Concluiu e o cenário ao nosso redor nos levando ao seu castelo no País das Maravilhas.
A jovem Alice andava de um lado para o outro, usando o mesmo vestido que usava antes. Ela parecia transtornada e eu esperei por alguma resposta.
“Eu não podia ser sua. Quer dizer, como eu poderia? Você era tão nova e eu essa garota que simplesmente não crescia, mas eu me sentia tão velha por dentro. Eu vivia em queda livre em um buraco que eu mesma havia criado dentro de mim. Eu não podia te convidar para cair junto comigo. E se eu convidasse, você viria?” Ela deu uma pausa, não porque precisava de uma resposta, mas sim de fôlego. “Eu tive que perder minha mente, minha sanidade para achar o melhor caminho para minha vida. Eu ainda estava aprendendo a me guiar por ele, te arrastar comigo seria tão errado.”
O cenário mudou novamente e estávamos agora nos estábulos. A jovem Alice escondida, espiando uma Regina de 17 anos.
“Você se tornou um vício para mim. Eu sempre voltava para te ver. Você conseguia fazer com que eu me sentisse como eu me senti quando cheguei ao País das Maravilhas pela primeira vez. Eu olhava para você e via aquele pequeno frasco escrito beba-me. Eu ouvia sua voz e podia sentir o gosto daquele bolinho escrito coma-me. Você era como um veneno em mim e ao mesmo tempo um antidoto. Eu não fiquei louca naquele manicômio, mas eu me vi perdendo a cabeça por você. E você nem ao menos sabia da minha existência.”
Uma nova memória surgiu, nós ainda estávamos no estábulo, mas agora Daniel estava lá, comigo em seus braços. Meus lábios completamente nos dele. Mesmo sendo uma memória, ainda assim eu me senti como eu me senti naquele dia. Eu me senti feliz ao ver o sorriso em seu rosto, depois que quebramos o beijo. Eu me senti completa, quando ele me tomou em seus braços para um abraço.
“Meu coração partiu em milhões quando eu te vi com ele. Eu havia te perdido.” Disse Alice, fazendo-me olhar para ela. “Jamais voltei a te ver depois disso.” Nós voltamos ao País das Maravilhas, Alice agora estava completamente infeliz, em seu palácio, com sua coroa na cabeça. “Passei anos tentando te esquecer, em vão. Você já estava completamente em mim. De modo que eu já não sabia mais quem eu era.”
Eu a encarei, seus olhos cheios de lágrimas, enquanto eu tentava absorver tudo o que eu acabara de ouvir. Embora tudo fizesse sentido, eu ainda estava tendo dificuldades em aceitar tudo o que acabara de ver e ouvir.
“Então, algo aconteceu.” Disse Alice, caminhando pelo pátio de seu palácio, onde um grupo de Soldados-Cartas apareceram, carregando minha mãe como uma prisioneira. “Você expulsou sua mãe para minhas terras.” Continuou, minha mãe agora ajoelhada diante de Alice. “Ela me contou tudo sobre a sua vida. Ela mal sabia que minha história já havia se cruzado com a sua. Ela buscava por vingança, queria sair do meu mundo e se vingar de você. Ela chegou até mim dominada por uma fúria e ódio. Felizmente, as regras do meu mundo são muitas e ela jamais poderia sair dele, já que ela veio por outro portal.”
Nos encontrávamos agora em um amplo quarto. Eu supus que pertencesse a ela. Lá, minha mãe e a jovem Alice conversavam. A garota tinha uma coroa em sua cabeça e escutava atentamente o que minha mãe lhe contava.
Pela primeira vez, eu vi minha mãe completamente desarmada diante de alguém. Ela suplicava para que Alice lhe permitisse sair de suas terras, enquanto a garota tentava lhe explicar que isso era impossível
“Depois de ouvir sua mãe, eu voltei à Floresta Encantada. Voltei para você.”
As memórias nos levaram ao meu castelo. Eu andava de um lado para o outro, usando minhas roupas de Rainha Má e despejando o ódio em tudo e todos no meu caminho. Rever a mulher que um dia eu fui era extremamente doloroso. Eu já não lembrava mais como era carregar todo aquele ódio. Eu já não lembrava mais como era me sentir odiada ou como era carregar tanto ódio em mim.
“E eu não te reconheci mais.” Disse Alice. “Você já não era mais a garota pelo qual eu havia me apaixonado. Você estava entregue as trevas e seu coração já não mais pertencia a mim.”
O cenário mudou ao nosso redor. Alice corria até Sininho, as duas estavam naquele mesmo bar onde eu as vi pela primeira vez.
“Você tem que me ajudar.” Disse Alice, desesperada, segurando as mãos da fada. “Eu a perdi.”
“Você escolheu perdê-la.” Respondeu a fada. “Você teve a sua chance.” Continuou. “Mas você escolheu não arriscar. Você escolheu a infelicidade. Acontece que você não tornou apenas você infeliz, mas também ela.” Concluiu, quebrando o contato com a garota, que ficou completamente devastada com a resposta.
“Como eu a salvo? O que eu posso fazer?” Alice insistiu.
“Não há o que fazer, Alice. Ela está perdida. Você pode saber várias passagens para vários mundos, mas nenhuma delas te ajudará a tirá-la do mundo do qual ela se encontra agora. Ela se afundará por completo e levará todos ao seu redor.” Sininho respondeu, sua voz carregada de tristeza. “Eu sinto muito, Alice.”
“Não.” Alice disse, balançando a cabeça. “Eu vou fazê-la escolher outro caminho.”
“Talvez você falhe.” Sininho respondeu, enquanto a jovem Alice criava um portal atrás de si.
“Não, talvez eu apenas me perca no caminho.” Respondeu, desaparecendo pelo portal e nos levando consigo.
“Naquele dia, eu jurei que iria te tirar das trevas.” Disse Alice, enquanto caminhávamos pelos corredores de seu palácio. “Eu jurei que te ajudaria a escolher a felicidade acima de todo o ódio que você carregava.”
Na nova memória, a jovem Alice estava conversando com a minha mãe. Minha mãe sorria, enquanto Alice fazia uma reverencia e lhe entregava uma coroa.
“Eu fiz um acordo com a sua mãe. Eu pedi que ela me treinasse, que me ensinasse tudo o que ela sabia sobre magia. Eu não podia te ajudar apenas com meus poderes limitados. Abrir portais não era o suficiente. Sua mãe não sabia de nada, de modo que aceitou me treinar. Em troca, ela queria ser Rainha do País das Maravilhas e também pediu que eu sequestrasse seu pai. Eu concordei. Não tinha o que perder.”
Nos vimos então Alice de volta ao meu castelo. Ela estava atrás do meu pai, que estava distraído, o pegou por trás e o carregou consigo por um portal. Meu pai estava completamente assustado, diante do trono em que minha mãe se encontrava. Ela o transformou em um pequeno objeto, guardando-o em uma caixa e ordenando que a guardassem em seu cofre.
“Ela sabia que trazendo seu pai, você um dia voltaria para resgatá-lo e então ela se vingaria. Ela não contava com a sua esperteza. Ela não contava que eu estava do seu lado e que meus guardas jamais obedeceriam às ordens de outra rainha que não fosse eu. De modo que, eu ordenei que eles te dessem vantagem e que te deixassem escapar. Você deixou o pobre Jefferson para trás, que passou o resto dos seus dias, tentando encontrar uma forma de fazer um chapéu mágico para tirar sua mãe desse reino. Eu sabia que ele jamais conseguiria. Só existia um chapéu mágico e ele estava com você. A cada dia que se passava a sede de vingança da sua mãe crescia e ela não via a hora de sair de meu reino e acabar com você. Até que um dia, aquele pirata chegou. Pobre pirata, achando que teria alguma chance com a Rainha de Copas. A Rainha de Corações. Ele não conseguiu matá-la aquele dia, não conseguiu arrancar seu coração, mas como poderia? Ele estava bem guardado, fora de seu peito. Com a chegada do pirata, sua mãe ganhou uma chance de sair do País das Maravilhas. Eu insisti que ela ficasse, pois eu temia que ela conseguisse se vingar. Então, eu a segui para o seu mundo, sem que ela soubesse.”
Estávamos no meu castelo, no mausoléu onde eu guardara o corpo de minha mãe. Eu estava diante do corpo dela, que eu julgava estar morta. Havia tristeza misturada com ódio em meu rosto. Não era possível ouvir o que eu disse a minha mãe, mas eu conseguia lembrar exatamente daquelas palavras. Eu lhe entreguei uma flor e então sai do mausoléu. Segundos depois, o pirata e Alice se aproximaram do caixão. Minha mãe tinha uma expressão distante no rosto.
“Eu quero voltar para o seu mundo.” Disse minha mãe e eu pude ver a expressão de confusa no rosto da jovem Alice.
“Claro.” Foi tudo o que ela respondeu.
“Você talvez queira ir comigo, pirata.” Disse minha mãe ao pirata que apenas acenou, dizendo que sabia se virar. “Haverá uma maldição e todos vocês serão carregados para outro mundo. Você não se lembrará de quem é. Você se esquecerá de sua vingança.” Ela concluiu e o pirata apenas balançou a cabeça.
“Talvez esquecer seja a melhor opção.” Respondeu, desaparecendo assim que Alice criou outro portal, levando minha mãe de volta ao seu mundo.
“Sua mãe voltou diferente.” Disse Alice, enquanto na memória minha mãe e ela jantavam em silêncio. “O que quer que você tenha dito a sua mãe, quando pensava que ela estava morta, a mudou completamente. Ela já não mais buscava por vingança. O que ela queria era poder ir até o mundo que você iria criar com a maldição e te ajudar. Te ajudar na sua vingança. Pois ela acreditava que era a única forma de você ser feliz.” Continuou. “Então, eu contei a ela sobre tudo. Sobre o Pó de Fadas. Sobre o que eu tinha feito e o que eu não tinha feito. Ela me ouviu atentamente e eu contei o meu plano de também te ajudar. É claro que eu e ela tínhamos ideias diferentes sobre como te ajudar, mas ainda assim ela concordou que a melhor forma de fazer isso, era fazermos juntas. Ela estava verdadeiramente arrependida de tudo o que havia feito para você. E mesmo sem carregar um coração no peito, ela ainda assim te amava e ainda assim queria sua felicidade. Ela só tinha essa ideia distorcida do que de fato era amor.”
Na memória, minha mãe treinava a jovem Alice. Ela parecia fascinada em ver como a garota se desenvolvia e de como era habilidosa com a magia que Alice naturalmente carregava em si. Os anos foram passando, Alice crescia, mas ainda carregava sua aparência jovem.
“Eu não podia abrir um portal para o seu mundo, pois ele não tinha magia. Tivemos que esperar 28 anos. Tivemos que esperar a maldição ser quebrada.”
Fomos levadas a Storybrooke. Era noite e as ruas se encontravam desertas. A jovem Alice apareceu no meio da rua, por um portal no ar, minha mãe estava com ela. As duas olharam ao redor, minha mãe escondida por um capuz que cobria parcialmente o seu rosto, mas não o suficiente para que eu não pudesse ver sua expressão de fascínio e espanto.
“Minha mãe...” Eu comecei a dizer, virando-me para Alice. “Ela estava em Storybrooke desde quando?” Perguntei, sentindo minhas palavras saindo em tropeços.
“Desde a quebra da maldição.” Respondeu, enquanto caminhávamos pelas ruas de Storybrooke e somos levadas para outra lembrança. Estávamos em uma casa, onde provavelmente ela dividia com a minha mãe. “Ela preferiu ficar escondida. Viver nas sombras. Mas sempre que podia, ela te via escondida.” Continuou. “Ela não tinha um plano de fato e muito menos eu. Então, deixamos os meses passarem, enquanto eu te observava. Naquele dia, porém, eu cansei de observar. Eu precisava te conhecer. Eu precisava saber se havia restado algo da garota que um dia eu amei. Eu precisava saber se eu ainda podia resgatá-la. Então, eu fui até você aquele dia. Eu não sabia de fato como seria e o que te diria, mas eu fui.”
Estávamos diante da minha mansão, no dia que eu a vi pela primeira vez. Alice estava parada a minha porta, eu abri, permitindo que ela entrasse. O cenário mudou e novamente estávamos na rua, naquela manhã onde eu havia acordado na delegacia.
“Você já não era mais a Regina pelo qual eu havia me apaixonado. Já não havia mais vestígios dela em você.” Disse Alice. “Não havia mais espaço para mim em seu peito. O espaço que tinha antes havia sido substituído por um ódio. Uma sede de vingança que só fazia crescer em você. Mas eu percebi aquela manhã, quando eu te encontrei na delegacia, que havia um espaço entre todo o ódio e escuridão que você carregava em si. Um pequeno espaço, que você precisava deixar crescer e permitir que alguém entrasse por ele. Acontece que nesse espaço não me cabia. Esse espaço havia sido criado por Emma e você relutava em admitir isso. Relutava em aceitar que você estava deixando que ela crescesse em você. Eu vi isso e vi também que você não precisava que eu te ajudasse a escolher caminho nenhum, você mesma poderia fazer isso. Por isso, eu me afastei. Não sem antes dizer a você aquelas coisas. Coisas que você precisava saber e que eu precisava dizer.”
O cenário mudou diante de nós, Alice estava escondida atrás de uma árvore. Ao longe, Emma e eu andávamos de mãos dadas. Emma colocou seus braços envolta do meu pescoço e me puxou para um beijo, soltando-me em seguida, mas eu a puxei novamente, lhe dando um segundo beijo.
Alice, ao meu lado, não esboçou nenhuma reação, diferentemente da Alice escondida, que agora corria, secando as lágrimas de seu rosto. Nós a seguimos, o cenário ao nosso redor desaparecendo e dando espaço para outra memória. Agora, estávamos de volta a casa. Alice em sua cama, seus olhos completamente vermelhos e minha mãe ao seu lado. A garota deitou sua cabeça no colo de minha mãe, que acariciou seus cabelos em silêncio.
“Você estava feliz enfim.” Disse Alice e eu encarei a visão de uma jovem Alice completamente quebrada. “Mas eu não estava. Você ainda tinha um lugar em mim. Na verdade, não havia espaço para mais nada em meu peito. Saber que você estava feliz e te ver feliz não era o suficiente. Havia uma parte em mim, uma parte egoísta de mim, que ainda te queria. Os dias foram passando e eu já não aguentava mais carregar o que eu sentia por você em meu peito. Doía tanto e de forma tão violenta e me rasgava por dentro a cada vez que eu pensava em você. Eu não conseguia parar de pensar em você.” Completou e o cenário nos levou até a cozinha da casa.
Na cozinha, Alice e minha mãe se encontravam. Minha mãe tinha um pequeno caderno de capa de couro envelhecido e alguns utensílios mágicos a sua frente. A jovem Alice, prestava atenção em cada detalhe do que minha mãe fazia.
Minha mãe produziu uma tinta e com uma caneta tinteiro desenhou algo na folha do caderno. Eu me aproximei e vi o desenho de um pássaro. Minha mãe estendeu a ela uma de suas mãos e a jovem levou a própria mão em direção ao peito, tirando seu coração vermelho que pulsava em um vermelho intenso.
“Sua mãe me deu uma saída.” Disse Alice. “Para te esquecer, para esquecer tudo o que eu sentia por você.”
A jovem entregou o coração a minha mãe, que o colocou sobre o desenho e o espremeu sobre a folha. Alice se curvou de dor, mas minha mãe não parou e continuou até que saísse um líquido vermelho do coração da garota.
O líquido tocou o papel, fazendo-o brilhar e preenchendo completamente o pássaro de vermelho. Quando o pássaro se tornou totalmente vermelho, minha mãe devolveu o coração da garota, mas ele não pulsava mais com a mesma intensidade de antes.
Alice olhou para o próprio coração e o colocou novamente em seu peito. Minha mãe lhe entregou o caderno e a garota encarou o pássaro desenhado, fechando-o e levando-o consigo. Nós a seguimos até a minha mansão. Era noite e Alice havia ido até lá com o seu conversível vermelho. Ela permaneceu sentada no carro, abriu o caderno e encarou o pássaro, passando a mão sobre ele e o trazendo para o mundo real.
Um enorme pássaro surgiu diante de seus olhos, mas não era vermelho como no desenho, mas sim branco, completamente branco. Alice saiu do carro e o seguiu, observando enquanto o animal ganhava altura e sobrevoava a mansão.
“Era um feitiço que consistia em abrir mão de tudo o que eu sentia por você. Que consistia em devolver meu amor a você.” Disse Alice.
Eu observei a jovem da memória que sorria ao ver o pássaro sumir por entre as nuvens. As nuvens foram tomadas por um vermelho, como se algo tivesse simplesmente explodido nos céus. Alice sorriu e então algo aconteceu, começou a nevar. Ela abriu as mãos e permitiu que os flocos de neve tocassem sua pele e seu rosto, desmanchando-se em seu sorriso.
O sorriso desapareceu, quando Emma surgiu a porta da mansão, sendo seguida por mim. Alice correu para se esconder e eu me prendi aquela lembrança. Eu lembrava desse dia, eu me lembrava da noite que havia nevado.
Olhei para a Alice, que agora seguia a versão mais nova de si mesma e segui as duas. Nos encontramos em uma rua, onde a jovem estava sentada de volta ao seu carro. Suas mãos apertavam fortemente o volante e ela sorria, ligando o automóvel e dirigindo para longe dali.
“Funcionou?” Eu perguntei a Alice, que observava o conversível desaparecer. Ela sorriu e caminhou pela rua solitária.
“Funcionou.” Respondeu.
Fomos levadas até uma escola, onde Alice estava sentada em uma das cadeiras. Todos os alunos estavam prestando atenção e copiando o que havia no quadro. Todos, menos Alice, que olhava fixamente para uma das garotas.
“Eu estava livre de você.” Disse Alice.
Outra memória surgiu, Alice caminhava agora pela calçada, Henry estava do outro lado comigo e Emma. Alice olhava para nós e a expressão de seu rosto denunciava que não havia mais dor alguma em seu peito.
“Sua mãe tirou apenas o amor que eu sentia por você, mas não minha capacidade de amar.”
No novo cenário, Alice entrava em sua casa, correndo e jogando sua mochila pelo chão. Na cozinha, ela encontrou minha mãe, sentada em uma cadeira, folheando sem muito interesse uma revista qualquer.
“Ela está gravida!” Disse a jovem, aos gritos, assustando minha mãe, que fechou a revista e encarou a garota. “Emma!” Ela continuou e tentou recuperar o fôlego, sentando-se ao lado de minha mãe. “Elas vão ter outro filho...” Concluiu e sorriu. “Isso não é incrível?” Minha mãe levou uma de suas mãos ao queixo da menina, tocando-o com um de seus dedos. Ela sorriu, voltando a atenção para a revista. Alice franziu o cenho. “Você não está surpresa?”
“Surpresa?” Perguntou minha mãe. “Por que eu estaria? Eu já esperava que meu feitiço funcionasse.” Alice, sentada ao seu lado, abriu a boca em resposta, mas nada saiu de seus lábios e muito menos dos meus.
Eu me virei para Alice, que observava toda a cena.
“O que ela quis dizer com isso?” Perguntei e Alice pareceu um pouco surpresa com minha pergunta.
“Ah, qual é, Regina. Você é mais esperta que isso.” Respondeu. “Aquele feitiço não era para abrir mão de todo o amor que eu tinha em mim. Aquele feitiço era para te devolver esse amor. Naquela noite, o pássaro sobrevoou a sua casa e fez nevar. Eu não te dei apenas meu amor de volta. Eu te dei a Amy.”
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