Amy
30 Afterlife – Parte III
Notas iniciais
Capítulo 30 — Afterlife – Parte III
As estrelas desapareceram e a escuridão deu lugar ao céu azul, claro, calmo e convidativo demais para ser ignorado. Nós acordamos com essa visão, enquanto o navio ainda navegava nas ondas do vento. Eu sentia o corpo de Emma nu e gelado abraçado ao meu, mas os raios de sol aos poucos nos aqueceria. Ela se virou para mim, tocando meu queixo e beijando meus lábios, uma, duas, três vezes até eles se abrirem convidando sua língua a se juntar a minha.
Navegar nas nuvens era aquela sensação de estar em eterna suspensão. Eu mal reconhecia meu corpo, mas os braços de Emma, me segurando firme, afundando seus dedos em minha pele me situavam. Eu estava ancorada a ela e aquela evento. Apesar de sentir minha mente indo e voltando, eu sabia que de fato eu não iria a lugar algum.
As velas do navio balançavam com o vento, fazendo sombra em meu rosto e impedindo que a luz do Sol me forçasse a fechar os olhos. Então, eu vi e senti tudo, senti os lábios nos meus, seu corpo nu fazendo pressão no meu corpo que já sentia falta de todo e qualquer contato. Sua boca em meu seio, sugando-o, mordiscando-o, tornando essa experiência uma mistura de prazer, dor e anseio por mais.
Meus olhos se fecharam não pelo incomodo da luz do sol, mas sim porque ela tinha o poder de me fazer perder os sentidos. Seus lábios desciam pelo meu corpo em direção ao meu sexo e meus dedos afundaram em seus cabelos quando eu senti sua boca quente tocando os lugares certos e me fazendo gritar por seu nome.
Mas eu permitir que ela continuasse, eu queria ouvi-la gritar o meu nome, eu queria seu gosto em minha boca e saber que eu havia sido por responsável por fazê-la ver estrelas numa manhã iluminada. Interrompi seus movimentos, fazendo-a reclamar por um segundo, para depois se entregar aos meus beijos e aos meus toques, que invadiam seu sexo molhado e a fazia arquear o corpo em resposta ao toque.
Eu a fiz gemer e gritar fazendo com que o navio perdesse a estabilidade por um segundo, nos levando a várias voltas confusas ao redor da cidade, enquanto o Sol subia no céu. Teríamos que sair dessa fantasia a qualquer momento, mas prolongamos nosso amor pelo tempo que nos foi permitido.
Deitadas uma de frente para a outra, aquecidas pelo sol e pelo calor de nossos próprios corpos. Ela estava exausta, suada, linda e seu olhar denunciava todo o amor que sentia. Toquei em seu rosto, em seus lábios, me aproximei o mais perto que pude, beijei seus olhos, sua bochecha e seus lábios o que a fez sorrir e dizer que me amava. Aos poucos, eu senti o navio ancorando no cais e soube que nossa aventura no céu havia acabado, mas eu sabia que a sensação que havíamos tido nos acompanharia para todo o sempre.
Nós fomos direto para casa e enquanto eu ligava para o jornal local para me certificar de que minha nota circularia nas páginas matinais, Emma preparava o café da manhã e esperávamos por Amy que estava na casa dos avós. Era silencioso demais sem nossa pequena e parecia que não havia cores o suficiente naquela casa. O silêncio era quebrado apenas pelos sons dos meus beijos em Emma.
Totó latindo na porta anunciou que Amy e seus avós haviam chegado e Emma correu para recebê-los. Tomamos café todos a mesa e assim que acabamos David levou Henry para a escola e Emma, Amy, Snow e eu fomos até o jardim, onde nos sentamos sobre as cadeiras e observamos aquela manhã que parecia eterna.
“Mãezinha, sabe o que eu e a vovó fizemos ontem à noite?” Perguntou Amy, sentada sobre o colo de Emma, encostando seu corpo ao dela e acariciando seu rosto com as mãos.
“Não, meu anjo. O que vocês fizeram?” Emma perguntou, virando-a para si.
“Nós pintamos casas de passarinhos com tinta colorida.” Amy respondeu, em um tom animado demais. “Pintamos de todas as cores!”
“De todas as cores?” Perguntou Emma, na mesma animação, fazendo a pequena se empolgar com a conversa.
“Sim! Sim! E então vovó disse que poderemos colocar as casinhas nas árvores da floresta para que os passarinhos possam morar lá dentro. Não é legal?” Ela perguntou e Emma assentiu. “Eu estava pensando que talvez a gente pudesse levar para a escola da Blue e colocar as casinhas nas árvores da floresta que tem lá. O que você acha?”
“Eu acho uma boa ideia. Então você vai querer voltar para lá?” Emma perguntou.
“Aham, eu vou sim. Pois eu quero ganhar uma fadinha igual todas as crianças!” Respondeu Amy, fazendo sua mãe rir. “E eu também gostei de lá, mãezinha.”
Emma me encarou por um segundo, como se esperasse algum comentário. Contudo, eu nada tinha a dizer, não poderia ir contra a vontade de Amy e já estava conformada que o que eu sentia sobre aquela escola não passava de neurose.
“Ótimo, então que tal eu e você subirmos até o seu quarto e nos arrumar para ir para lá? Eu estava pensando em te acompanhar nesses primeiros dias, para ver como você se sai. Se importa de ter a mamãe por perto por alguns dias?” Emma perguntou e Amy balançou a cabeça inúmeras vezes e a abraçou o mais forte que pôde.
“Logico que não! Nunquinha que eu me importaria!” Amy respondeu e beijou sua mãe no rosto tantas vezes que seria impossível contar.
Emma se levantou com Amy em seus braços, se despediu de Snow e de mim, beijando-me antes de ir embora. Totó foi correndo latindo atrás das duas, Snow e eu ficamos sentadas na varanda do jardim notando o silêncio que sempre ficava sem Amy.
“Sabe, as notícias já estão correndo sobre a sua decisão de deixar a prefeitura e também sobre suas intenções com a fronteira.”
“Eu imagino que estejam.” Eu respondi.
“Você tem certeza quanto a isso? Acha que os cidadãos vão votar a favor da liberação da fronteira?”
“Eu não sei, Snow. Eu vou tentar deixar claro para eles não haverá perigo, que não faremos isso de forma imprudente e que a segurança deles e da cidade está em primeiro lugar, mas está na mão deles a decisão.” Eu respondi e mergulhamos em um breve silêncio, talvez ela estivesse pensando no que faria quando não houvesse mais essa barreira que a impedisse de conhecer o mundo. Talvez, também, isso sequer passasse em sua cabeça. Eu me virei para ela, que me encarou esperando que eu me pronunciasse. “Eu estava pensando se quando eu não estiver mais atrás da mesa da prefeitura, talvez você queira se candidatar. Seria como te devolver o reino que uma vez eu roubei.”
Snow riu, segurou minha mão e sua expressão era quase incrédula. Ela nada disse, mas eu acredito que ela estava certa quando disse que nós estávamos em um nível do nosso relacionamento que permitia que nos entendêssemos no silêncio. Eu entendi então, enquanto aquela manhã ia embora, que Snow estava feliz com a sua vida e que eu não tinha nada para devolver a ela.
Naquela tarde, enquanto Emma e Amy estavam na escola de Blue, eu me dirigi ao auditório da prefeitura, onde eu havia convocado os cidadãos de Storybrooke para uma assembleia geral. O lugar estava lotado e eu falei para aquela multidão de rostos por pouco mais de meia hora. Os assuntos diziam respeito a minha renúncia ao meu cargo, uma nova eleição e a proteção da fronteira da cidade. Todos me encararam em silêncio, sem perguntas e sem interrupções. Apenas me ouvindo, enquanto eu informava cada detalhe, dizendo a eles que todos seriam ouvidos e que a proteção da cidade só seria quebrada depois de uma votação.
No final, quanto eu acabei, todos se encararam, como se a ideia fosse absurda demais ou como se temessem algo. Eu permaneci em pé, no palco, com todos me encarando e desejei que Emma estivesse ali para me dar algum tipo de apoio. Snow e David estavam presentes, mas algo dentro de mim me dizia que isso não era o bastante. Eu dei um passo à frente, elevando minhas mãos e pedindo silêncio, eles se viraram para mim novamente.
“Não espero que todos vocês queiram sair da cidade, imagino que muitos de vocês possuem estabilidade aqui e não queiram mudar isso. Mas acontece que o mundo lá fora revela novas oportunidades para aqueles que ainda não se veem totalmente nessa cidade. Não me refiro apenas as questões básicas, como educação, trabalho, saúde, mas também a uma busca mais pessoal, que pessoalmente é a minha intenção. Talvez essa decisão assuste vocês, mas eu os protegi durante todos esses anos e vou continuar garantindo isso. Contudo, eu quero que vocês pensem e votem a favor ou contra a decisão de quebrar a proteção da cidade e no final de semana nós teremos essa resposta. Eu quero agradecer a todos por permitirem que eu fosse a prefeita durante todos esses anos. Quero pedir perdão por todo e qualquer abuso de poder e dizer que eu aprendi com essa cidade muito mais do que eu aprenderei no mundo lá fora e que foi uma honra poder chamar vocês de ‘meu povo’.”
Quando eu acabei de falar, eu soube que no instante em que eu descesse daquele palco eu não seria mais a prefeita de Storybrooke. Eu não pensei em voltar atrás em nenhum segundo, independentemente do resultado da votação sobre a fronteira da cidade, eu sabia que eu não escolheria voltar atrás. Eu desci do palco em direção a saída e, no meu primeiro passo que eu dei, palmas se seguiram. Eu não posso dizer por todos os que estavam presentes, mas aquelas salvas de palmas me energizaram de tal forma que era como se eu finalmente tivesse feito uma boa escolha para essa cidade.
Dentro do meu carro, ainda sentindo a onda de energia, eu li a mensagem de Emma em meu celular dizendo para que eu fosse buscá-la na escola de Blue. Dirigi até lá, o Sol já havia indo embora e o céu começava a escurecer. Na entrada da escola não havia ninguém para me receber, entrei no casarão e percorri os corredores vazios. Enquanto andava, passei pelo corredor que Blue havia me levado e olhei a porta do escritório, entreaberta, e veio até a minha memória aquela outra porta que ainda não se fechava em minha mente.
Entrei no escritório de Blue que estava vazio e olhei para a parede onde antes eu havia visto a porta se abrir. Não havia nada ali além de uma parede. Eu me aproximei, passei a mão pelo buraco que ainda havia ali e que ainda cabia perfeitamente uma maçaneta. Encarei a parede por alguns segundos até me lembrar de que Blue havia me dito que do outro lado era uma sala de estudo.
Sai do escritório, caminhei pelo corredor vazio e procurei pelo cômodo que poderia nem existir. Enquanto eu andava, sentia aquela obsessão tomando conta de mim e entendi que era errado estar ali, era errado ter todos esses pensamentos que só me assustavam e me colocavam numa busca estúpida. Eu caí em mim, mas já estava parada diante de uma segunda porta, provavelmente a porta da sala de aula que Blue se referiu.
O sensato seria ignorar a porta, ignorar meus receios e procurar pela minha esposa e filha, mas a porta pareceu me chamar e eu me vi abrindo-a e adentrando a pequena sala de aula. Eu não dei mais que dois passos, parei ali mesmo sobre o batente, observando a sala de aula totalmente infantil, colorida e cheia de cadeiras e mesas pequenas o suficiente para crianças menores. Não era só isso que havia ali, no fundo da sala, sentada de costas para mim havia uma criança. Seus cabelos negros e enormes, a cabeça baixa e os movimentos de seus braços indicando que ela estava desenhando ou escrevendo algo.
“Por que você está aqui sozinha?” Eu perguntei e de súbito a criança parou e o lápis de sua mão caiu da mesa, rolando pelo chão e batendo em seus pés descalços.
O corpo da criança pareceu enrijecer ao som da minha voz e eu senti a energia do cômodo mudar. Eu senti medo, mas não era um medo que me pertencia e eu senti frio, um frio que parecia tão conhecido por mim. Eu dei dois passos em direção a criança, que jamais se virou para mim, mas não cheguei a ir longe, pois Blue adentrara a sala e me chamou pelo nome, forçando-me a me virar para ela.
“O que está fazendo aqui, Regina?” Ela perguntou, passando por mim e caminhando até a criança, ajoelhando-se diante dela. A criança se inclinou na direção do rosto de Blue, dizendo algo a fada.
Eu não consegui ouvir o que era, embora tivesse me esforçado. Blue, ajoelhada diante da criança, me encarava esperando uma resposta, mas eu não conseguia pensar em algo a dizer. Eu olhei para a criança, para a mão de Blue sobre o braço da menina ou talvez fosse um menino, eu não saberia dizer. Tudo o que sabia naquele momento era que Blue não me queria ali.
Então, obedecendo a um comando que não era meu, eu dei meia volta. Antes que eu tivesse a chance de sair eu vi o rosto da menina se virar em direção a porta e nossos olhares se cruzaram por um milésimo de segundo. Havia algo naquele olhar que me gelou a espinha, era frio, distante e completamente oposto do que de fato eu estava sentindo naquele minuto.
Parei no corredor a fim de me acalmar, o frio corria por todo meu corpo, mas dentro de mim algo se aquecia. Eu coloquei minha mão sobre a barriga, sentindo o calor que havia ali e que lutava contra o frio de todo o resto do meu corpo. Respirei fundo e fui atrás de Emma e Amy que estavam no jardim com todas as outras crianças. Todas as crianças estavam sentadas na grama, com suas fadas madrinhas sobrevoando suas cabeças e iluminando aquela noite.
Uma das fadas lia para as crianças e Amy era a única delas que não possuía uma fada, mas ela parecia estar bem, sentada sobre o colo de Emma, que abraçava a pequena e beijava seus cabelos. Observei essa cena pelos minutos que se seguiram, Amy e as crianças vibravam com a história. Elas aplaudiam, cantavam, respondiam as perguntas aos berros e então eu notei que algo acontecia. Nas mãos de Amy havia algo, eu não conseguia distinguir o que era, mas havia algo que brilhava aos poucos e de forma fraca.
Eu me aproximei de Emma e Amy, me sentei ao lado delas e antes que Amy tivesse a chance de me abraçar eu apontei na direção de suas mãos e ela acompanhou meu olhar. Era o frasco da fadinha morta, brilhando fracamente. Amy encarou a garrafinha e seu olhar se tornou tão grande, tomado por surpresa. Emma me encarou sem entender nada e eu também estava muito perdida, mas Amy parecia saber o que estava acontecendo.
Ela se levantou, correu até a fada que estava lendo a história e disse algo em seu ouvido. A fada pareceu surpresa, mas olhou para as mãos da menina e depois buscou por algo na multidão, eu acompanhei seu olhar e vi que ela buscava por Blue, parada um pouco distante de nós. Blue encarava a fada como se a censurasse e a fada se virou para Amy, tocando em suas mãos e fazendo um gesto para que ela se sentasse novamente em seu lugar.
Dessa vez foi minha vez de levantar e caminhar até Amy que estava chateada demais, olhei para as suas mãos, para a garrafinha que não mais brilhava e perguntei a ela o que ela queria fazer. Ela me entregou o pequeno frasco e eu me ajoelhei diante dela. Amy olhou para a fada que mais parecia um inseto sem vida. Então, minha pequena bateu palmas, uma, duas, três vezes e pequenas faíscas saíram da pequena garrafa, mas muito fracas. Ela olhou para as crianças que a observavam e, com apenas uma troca de olhares, as crianças entenderam o que precisava ser feito.
No instante seguinte, cada uma delas começaram a aplaudir e um pequeno mar de palmas surgiu. Eu olhei para as minhas mãos, para a fadinha que não parecia morta, mas sim lutando para voltar para esse mundo. Eu abri o pequeno frasco, que agora parecia transbordar de luz e enquanto as palmas aumentavam a fadinha saia de sua pequena prisão e voava ao redor de Amy que tinha em seu rosto um enorme sorriso.
As palmas pararam, Blue ordenou que as fadas levassem as crianças para dentro. Nos minutos seguintes, quando todas as crianças haviam ido embora, a pequena fada que ainda rodava ao redor de Amy agora ganhava seu tamanho normal. Blue parou diante de nós, eu me levantei pegando Amy em meus braços e Emma se aproximou.
Eu não demorei a reconhecer a fada. Sininho, a fada das memórias de Alice. A mesma fada que a levou até mim e que a convenceu de que alguma forma Alice e eu um dia fomos alma gêmeas. Eu abri a boca para dizer algo, mas a fada sequer olhou para mim, seu olhar estava fixo nos olhos de Blue. A tensão que havia entre elas era clara e eu poderia jurar que a qualquer momento elas entrariam em uma briga.
“Então você será a minha fada madrinha agora?” Perguntou Amy e sua voz fez com que a fada desviasse o olhar de Blue, virando sua atenção para nós.
“Você me salvou?” Perguntou a fada, seu tom de voz tomado por alivio e seu olhar fixo em Amy. Eu podia ver a gratidão em seus olhos e um medo contido. Senti vontade de enchê-la de perguntas, mas jamais tive a chance.
“Sim.” Respondeu Amy. “Eu e meus amigos.”
Sininho fez uma mesura e um sorriso surgiu em seus lábios. Ela se aproximou de Amy, tocando em sua mão e a agradeceu. Em nenhum momento ela olhou para Blue de volta, que ainda a encarava com um certo desprezo no olhar.
“Meu nome é Sininho.” Disse a fada por fim. “Talvez vocês me conheçam por outro nome.” Continuou e bateu suas asas, permitindo que barulhos de sinos tocassem por alguns segundos. “Onde eu estou?”
“Storybrooke.” Respondeu Emma. “Talvez você não se lembre do que aconteceu com você na floresta encantada.”
Tinkerbell não estava mais prestando atenção no que Emma dizia. Ela agora olhava para a copa das árvores, nos fazendo seguir seu olhar. ‘Storybrooke’ ela repetia para si mesma, baixinho e depois de rodar por alguns segundos, olhando para as árvores, ela finalmente parou, olhou para Blue e depois para nós.
“Eu nasci aqui.” Ela disse. “Em Storybrooke.”
“Como isso é possível?” Perguntou Emma, olhando para mim e depois para Blue.
“Eu nasci aqui nessa floresta, na copa dessas árvores em uma primavera. Meu ovinho nasceu nas pétalas de uma flor e assim que foi chocado eu ganhei vida e busquei pela minha mestre.”
“Sua mestre?” Eu perguntei, notando que Blue tinha o cenho franzido e não tirava os olhos de Sininho.
“A Fada Negra. Ela nasceu aqui, como eu também nasci. Nós nos conhecemos ainda crianças e desde então eu nunca a abandonei.”
“Mas ela abandonou você.” Disse Blue, roubando a atenção da fada. “Não foi? Quando Rumple te capturou, ela poderia ter dado a ele seu filho e então te libertado e impedido a maldição, mas ela era egoísta.”
“Eu sabia o que estava fazendo.” Respondeu a fada. “Nós duas sabíamos. Assim como você. Por que questiona isso agora? Depois de todo esse tempo?”
Houve um silêncio, Blue a encarou e seus punhos se fecharam, seu cenho se franziu. Algo acontecia com Blue e nós éramos incapazes de entender. Eu ousei então quebrar o silêncio e dei um passo à frente na direção de Sininho.
“Você se lembra de mim?” Eu perguntei.
Em resposta, a fada me encarou, sem nenhuma expressão em seu rosto. Eu esperei, com Amy em meus braços, enquanto a fada percorria meu rosto com o seu olhar. Então, ela abriu a boca, seus olhos se arregalaram por um segundo e ela riu. Houve uma mesura, como se eu fosse sua rainha ou algo do tipo.
Ela encarou Amy, com um enorme sorriso nos lábios e os olhos marejados. Sininho nada disse, mas não era necessário. Em um movimento dos ombros, se transformou novamente em uma pequena fada e ganhou voo, deixando para trás o som de pequenos sininhos no ar.
“Você a conhece?” Perguntou Blue, com um ar de desprezo e começou a andar em direção ao casarão e nós a seguimos.
“É uma longa história.” Eu respondi.
“Imagino que seja. Eu também tenho uma história com Sininho, não uma das boas como vocês perceberam.” Continuou a fada, estávamos então em seu escritório. Entreguei Amy nos braços de Emma e nos sentamos em duas poltronas que havia ali.
“Então, qual é a história de vocês?” Perguntou Emma.
“Algumas fadas que eu tinha na floresta encantada eram banidas do meu grupo caso quebrassem alguma regra. Sininho nunca foi uma das minhas, mas eu a conhecia, pois ela recrutava essas fadas expulsas.” Respondeu Blue. “Uma vez eu fui atrás dela e perguntei o que ela fazia com as fadas, foi então que descobri que todas as fadas expulsas, incluindo Sininho, trabalhavam para a Fada Negra. Até então a Fada Negra nada mais era do que uma lenda. Só ouvíamos falar do que ela era capaz, mas jamais a víamos. Então, coloquei uma das minhas fadas como espiã e consegui a varinha fada negra.” Concluiu a fada, fazendo surgir uma varinha sobre a sua mesa.
Era um pedaço de madeira, negro, brilhoso e de aparência rudimentar. Inclinei-me sobre o objeto e senti a magia que havia nele. Jamais cheguei a tocá-lo e Blue fez logo com que ele desaparecesse.
“Ela nunca tentou recuperar sua varinha?” Eu perguntei e Blue respondeu que não. “Por quê?”
“Não saberia responder, mas guardei essa varinha com todo cuidado, esperando que um dia ela aparecesse para pegá-la de volta. Minha teoria é que essa fada jamais existiu, que era uma lenda de fato ou talvez até uma espécie de religião.”
“Ou talvez ela não precisasse mais da varinha.” Foi Amy quem disse e Blue lhe direcionou o olhar, com um sorriso no canto dos lábios.
“Talvez.” Respondeu a fada.
“De todo modo, apesar de a Fada Negra jamais ter vindo tirar satisfação, Sininho veio. Ela se sentiu traída por mim e desde esse dia nossa relação não foi boa. Um dia ela simplesmente desapareceu e os boatos eram que Rumple lhe havia capturado e essa foi a última vez que eu ouvi falar de Sininho ou da Fada Negra.”
“Você acha que talvez a Fada Negra veio para Storybrooke? Com a maldição?” Eu perguntei e Blue deu de ombros.
“Eu ainda acredito que ela seja uma lenda.” Respondeu Blue.
“Mas há magia na varinha e ela definitivamente pertenceu a alguém, não é mesmo?”
“Talvez.” Blue respondeu. “Mas talvez só seja um objeto mágico. Existem inúmeros deles e sempre existirão.”
“Sininho parece acreditar que ela existe.” Respondeu Emma.
“Eu também acredito nela.” Disse Amy, fazendo com que Blue sorrisse.
“Que tipo de poder ela tem?” Eu perguntei. “Quer dizer, que tipo de poder diziam que ela tinha?”
“Diziam que ela era capaz de quebrar as três regras da magia. De viajar no tempo e mudar a história, ressuscitar os mortos, fazer qualquer um se apaixonar por outra pessoa. Ninguém nunca quebrou essas regras e ninguém sabe de fato quais as consequências de existir alguém com esse nível de poder, principalmente no mundo lá fora. É por isso que a existência dessa fada é controversa. Alguém com tanto poder o usaria para algo e jamais tivemos evidência de que ela usou qualquer desses poderes.”
“E se ela só estiver esperando para cruzar a fronteira?” Perguntou Emma, em um tom de voz realmente preocupado.
Houve um silêncio e todo mundo, menos Amy, pareceu ponderar a respeito.
“Eu pensei sobre isso.” Respondeu Blue. “Se quebrarmos a magia da fronteira, todos os seres com magia perderão seus poderes ao cruzar a linha. Assim, garantimos a segurança de nossas identidades e também preservamos o mundo lá fora. É uma medida extrema, mas infelizmente necessária.”
“E se ela simplesmente poder quebrar essa regra?” Eu perguntei.
“Se ela existir de fato, talvez ela possa quebrar essa regra também. Mas se ela pode fazer isso, pode também simplesmente quebrar a magia que existe agora e imagino que se ela tivesse pensando em fazer algo, já teria feito.” Respondeu Blue.
“Talvez ela seja uma fada boazinha.” Disse Amy e nós rimos, embora houvesse um clima de total desconfiança no ar.
“É uma hipótese, Amy.” Disse Blue, sorrindo de forma sincera.
Nada mais dissemos além disso, eu encarei Amy nos braços de Emma e percebi o quão cansada ela estava do seu dia. Enquanto olhava para minha menina, percebi que de todas as hipóteses a dela era a única que eu queria acreditar. Então, ignorei meus medos, meus anseios e me despedi de Blue, levando minhas meninas para casa.
Os dias seguintes passaram lentamente, jamais tivemos notícias de Sininho novamente. Amy continuou a frequentar a escola de Blue e no final da semana, meus medos já não mais existiam, apenas a ansiedade de descobrir o resultado da votação pública me controlava. Naquela manhã, descobrimos que os cidadãos haviam votado sim e permitido que a proteção da cidade fosse retirada.
Eu cheguei em casa naquela tarde, Amy e Emma estavam no quintal planejando uma casa na árvore. Amy foi a primeira a me receber, ela correu em minha direção, me fazendo pegá-la nos braços para abraçá-la o mais forte que pude. Eu recebi um beijo no rosto e em seguida ela começou a falar, como se fizessem horas que não nos víamos.
“Mamãe!” Disse, enquanto Emma se aproximava de nós. “Eu estava pensando no que Sininho disse.” Continuou a dizer e eu beijei sua mãe e caminhamos para dentro da mansão.
“O que esteve pensando?” Perguntei.
“Se Sininho estiver dizendo a verdade. Se ela disse que nasceu em Storybrooke e que conheceu a Fada Negra aqui. Então quer dizer que talvez a gente conheça a Fada Negra. Lembra o que eu te disse? Ela ganhou suas asas no dia mais feliz do mundo e que mil pássaros voaram no céu nesse dia. Você se lembra desse dia? Consegue lembrar quando mil pássaros voaram no céu?”
Eu a coloquei sobre o balcão da cozinha e observei Emma caminhar até a geladeira com uma expressão no rosto que dizia que já havia escutado essa mesma história mais do que gostaria. Eu encarei minha pequena, tentei buscar em minha mente uma explicação que a acalmasse, mas ela estava excitada demais.
“Meu amor, mil pássaros são muitos pássaros. Eu jamais conseguiria olhar para o céu e dizer esse número exato.”
“Então pode ser que já tenha acontecido?” Ela perguntou, mexendo suas mãos e falando tão rápido que parecia que perderia o ar a qualquer momento. “Ou que ainda vai acontecer?”
“Pode ser que tenha sido apenas uma história, Amy. Pode ser que não tenha sido bem assim que a fada nasceu.” Respondi.
“Mas mamãe, pensa comigo. Henry me explicou tudinho. Ele disse que se for verdade, faz sentido. Porque se a Fada Negra pode viajar no tempo, foi assim que Sininho e ela foram parar na Floresta Encantada!” Disse Amy e Emma se aproximou de nós duas, dessa vez Emma parecia tão perplexa quanto eu.
“Talvez, meu anjo.” Eu disse. “Mas por que você está tão preocupada com isso?”
“Porque eu quero conhecer essa fada, mamãe.”
“Sim, mas por quê?” Eu perguntei e Amy deu de ombros e sua animação se extinguiu por alguns segundos.
“Ela parece ser alguém que eu quero ser amiga.” Respondeu e eu a ajudei a pular do balcão.
Enquanto Amy corria para fora da cozinha, eu olhei para Emma que se aproximava do balcão, colocando algumas guloseimas no móvel. Ela me encarou, um sorriso cansado no rosto e esperando pelo momento certo de começar a falar.
“Você está preocupada, não está?” Ela perguntou, pegando minha mão e a segurando a fim de me acalmar.
“Não sei.” Respondi, sendo sincera, pois eu estava confusa com tanta informação. “Eu estava tentando não pensar a respeito da Fada Negra ou qualquer outra coisa, mas e se Amy estiver certa?”
“Regina, Amy passou o dia inteiro falando sobre filmes, desenhos, doces e sobre a Fada Negra. Ou seja, nossa filha não sabe do que está falando e sim repetindo o que ela ouve ou acha que entende. Eu acho que essa Fada Negra nunca deu motivos para que você se preocupasse com ela no passado, por que você precisa se preocupar agora?”
“Você realmente não se preocupa?” Eu perguntei. “Mesmo sabendo que a Fada Negra, Sininho, Alice e eu todas estamos de alguma forma conectadas?”
Ela pareceu refletir, suspirou por um segundo, sua mão ainda sobre a minha e a mesma expressão cansada.
“Eu não acho que nada mais possa atrapalhar nossa história. Nada.” Ela respondeu, com uma certeza em sua voz que me acalmava.
Eu sorri de volta, não tão cansada quanto ela, mas sendo sincera em meu gesto. Eu me inclinei em sua direção, beijei seus lábios, toquei em seus cabelos e nosso beijo foi quebrado pela voz de Amy nos chamando. Olhei para Emma, para seus olhos verdes tão calmos e serenos e tive a certeza de que tudo de fato estava bem.
Naquela noite, nos divertimos com jogos de família, rimos com filmes de animações que Amy tanto gostava e dormimos todas juntas na nossa cama de casal. Eu acordei no meio da noite, sentindo todo meu interior pegando fogo, em uma espécie de febre resultado de uma ansiedade que me consumia. Olhei para a imagem de Amy dormindo nos braços da mãe, seus cabelos castanhos colados em sua testa e sua expressão leve. Inclinei-me sobre ela, beijei seus cabelos e a peguei em meus braços, a fim de colocá-la em sua cama.
Emma se aninhou ao meu corpo assim que eu voltei para o meu quarto. Abracei seu corpo quente ao meu. Lutei contra meu sono, pois a manhã seguinte mudaria tudo em nossas vidas e nosso mundo se tornaria tão vasto e tão cheio de possibilidades. Eu queria tudo, mas ao mesmo tempo temia o que esse tudo me reservava.
“Para de pensar tanto.” Disse Emma, beijando meu queixo e me chamando a atenção.
“Eu estou tentando.”
“Não, não está. Eu consigo ouvir seus pensamentos batendo na mesma tecla. Se acalme, Regina. Está tudo bem agora. Estará tudo bem amanhã.” Disse Emma, novamente na mesma confiança e eu estava cansada demais para lutar contra toda a sua certeza.
Adormeci mais rápido do que esperava e a noite também foi embora na mesma velocidade. Acordamos com Amy pulando sobre o colchão, em uma explosão de felicidade que pertencia só a ela. Observei minhas meninas se abraçando, Amy beijando o rosto de Emma e a abraçando apertado. Era como ver imagens de um sonho antigo, agora se realizando a minha frente.
Nessa mesma manhã, Blue me ligou, atrapalhando nosso café da manhã em família e informando que o feitiço estava pronto. Eu poderia esperar, mas não havia sentido e naquela tarde, Emma, Amy, Blue e Rumple nos encontramos nos limites da cidade, diante da linha vermelha que nos separava do mundo.
Rumple foi em seu próprio carro, ele estava sério e parecia que estava pronto para partir. Não houveram perguntas em relação a isso, era como se ninguém se importasse para aonde o homem iria. Acredito que ele também não se importava com seu destino, o que importava era simplesmente ir embora.
Blue deu as instruções para todos e Amy, apesar de ter prestado atenção em tudo, parecia distante demais. Ainda assim, ali estava minha pequena com as mãos sobre a cortina transparente que protegia a cidade. Imitamos seus movimentos, seguimos as palavras de Blue e sentimos quando a magia aos poucos deixava de separar a cidade do mundo lá fora. Foi como sentir uma onda elétrica correr pela ponta dos dedos até a minha nuca.
Ninguém disse nada quando acabamos, apenas contemplamos a estrada que se seguia, sabendo que agora poderíamos percorrê-la. Blue pediu ajuda novamente para que colocássemos uma nova proteção na cidade e assim que foi feito olhamos novamente para a linha vermelha sobre o chão. Era possível sentir que havia uma magia ali, forte o suficiente para repelir quem entrasse, mas não o suficiente para impedir alguém de sair.
Quando não havia mais nada a fazer, Blue se despediu e Rumple entrou em seu carro saindo lentamente pela estrada, cruzando a linha e acelerando à medida que seu carro ganhava a estrada. Por um segundo eu imaginei seu destino, sua nova vida e seus novos planos, mas eu sabia que aquele homem que estava partindo já não mais possuía tais ambições.
Emma olhou para mim e depois para Amy, que estava entre nós duas, encarando a estrada. Eu segurei a mão de Amy e Emma imitou meu gesto. Se Rumple havia conseguido, significava que era seguro atravessarmos. Com o olhar ainda fixo em Emma, eu dei então o primeiro passo, ela me seguiu e no instante seguinte estávamos do outro lado da linha, juntas, mas Amy jamais atravessou.
Do outro lado, ainda em Storybrooke, Amy nos encarava. Essa visão durou poucos segundos, até a proteção de Blue funcionar mostrando a nós duas uma ilusão de que nada havia do outro lado. Eu nada consegui dizer ou pensar, mas uma coisa havia ficado claro, Amy, por algum motivo, permanecia presa a Storybrooke.
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