Amy

29 Afterlife – Parte II


Notas iniciais
Hey, leitores! Obrigada pelo carinho e pelo retorno. Vou dedicar esse capítulo as leitoras monicalesen, Modern Love e swenregals, pois elas deixaram recomendações lindas aqui na história. Muito obrigada, meninas. =* Um beijo enorme. Até a próxima e boa leitura.

Capítulo 29 – Afterlife — Parte II

Nós seguimos de carro pela estrada de terra que nos levaria até o grande casarão onde Blue e suas fadas moravam. Era um lugar afastado da cidade, por entre as árvores das florestas e longe do caos da vida urbana. Eu havia ido ali poucas vezes, mas o acesso não era complicado e dentro de pouco menos de meia hora eu, Emma e Amy estávamos diante do grande casarão que uma vez fora um convento.

Estacionei o carro, olhei Amy pelo retrovisor, que encarava a janela ao seu lado e em seguida para Emma, que estava entretida demais tentando ler o mapa de Storybrooke. Parada diante da entrada estava Blue, que esperou que nós saíssemos do carro para nos cumprimentar. Amy foi a primeira a saltar do carro, Emma e eu a seguimos.

“Espero que não tenham tido problemas com a estrada.” Disse Blue, estendendo a mão em minha direção.

“Não tivemos. Embora parecesse que a cada minuto entravamos mais floresta a dentro.”

“É só um feitiço que eu coloquei.” Respondeu Blue. “Para afastar as pessoas com más intenções.” Completou e olhou para Amy, que agora estava de mãos dadas com Emma e olhava tudo ao seu redor. “É um prazer ter você aqui, Amy.” Continuou a fada, inclinando-se na direção da pequena que respondeu com um sorriso.

“Como eu adiantei no telefone, Blue.” Eu comecei a dizer, enquanto a fada voltava sua atenção a mim. “Eu gostaria de conversar com você sobre o feitiço de proteção da fronteira da cidade.”

“Sim, é claro. Vamos para uma sala mais reservada.” Disse ela e a seguimos até a entrada.

Lá dentro, inúmeras vozes de crianças eram ouvidas. Virei-me para Emma, que me encarou de cenho franzido, também tentando compreender de onde e por qual motivo aquelas vozes eram ouvidas. Amy nada questionou e soltou a mão de Emma, caminhando até as vozes e nos fazendo segui-la.

“Vocês têm crianças aqui?” Eu perguntei a Blue e observei Emma tentando alcançar Amy, que agora adentrava a uma das salas.

“Nós temos algumas. Nós começamos uma pequena escola há dois anos atrás.” Respondeu Blue e caminhamos até uma sala, onde algumas crianças da idade de Amy estavam sentadas, assistindo a uma aula.

Eram pouco mais de dez crianças, todas sentadas em suas cadeirinhas, enquanto uma das fadas dava aula para elas. Amy agora estava nos braços de Emma, observando a sala de aula e suas crianças. Havia algo que chamava atenção nelas, sobrevoando os ombros de cada uma delas pequenas fadinhas piscavam e piscavam como luzes de Natal.

Encarei o rostinho de Amy, que estava fascinada pelas pequenas fadinhas e depois me virei para Blue, esperando algum tipo de explicação. Ela então me contou sobre a pequena escola que havia montado. Era uma espécie de santuário para aquelas crianças, que assim como Amy possuíam também certa aptidão para a magia e não conseguiam se enquadrar normalmente na escola.

“Como isso começou?” Eu perguntei. “Pois eu não sabia dessa escola ou muito menos que existiam crianças como Amy que precisavam de algum tipo de auxilio.”

“É complicado, Regina. Os pais tendem a querer proteger seus filhos e foi assim que a primeira criança chegou até nós. Sua mãe não sabia como ajudar a controlá-la. Então, nós, as fadas, decidimos intervir por elas e começamos essa pequena escola. Achamos que manter a escola e as crianças em segredo seria melhor para elas e para as famílias. Embora a cidade esteja acostumada com magia e seres mágicos, nem todas as crianças controlam seus poderes e talvez essa falta de controle seja vista de forma negativa entre a população.”

Encarei novamente as crianças, que liam em voz alta as frases que a fada escrevia no quadro. Blue continuou a explicar como funcionava a escola e contou sobre as fadas madrinhas, que eram fadas voluntárias que ficavam responsáveis pelos ensinamentos específicos e necessidades especiais de cada criança.

Ficamos ali por mais alguns minutos, Amy parecia fascinada demais com as fadas e por um instante eu esqueci minha verdadeira intenção ali. Até que Blue tocou novamente no assunto da fronteira e me pediu para segui-la até uma das salas, onde poderíamos ter alguma privacidade. Emma decidiu que ficaria ali com Amy e as crianças e eu segui sozinha com Blue, até uma das salas mais afastadas do lugar.

Era uma sala abafada, com poucos móveis e de paredes completamente de madeira. Por um instante, me senti como se estivesse dentro de um grande armário e me senti quase que claustrofóbica ali dentro. Eu me sentei em uma das poltronas, olhei para Blue que se sentara a minha frente e abri a boca para explicar o motivo da minha visita, mas alguém bateu a porta, interrompendo qualquer tentativa de conversa.

Uma das fadas adentrou, se aproximou de Blue e lhe disse algo em confidencial. No instante seguinte, Blue pediu licença e me deixou ali sozinha. Assim que a porta se fechou e eu me vi sozinha na sala, senti como se alguém me observasse. Por um minuto, era como se eu não estivesse sozinha e o ar da pequena sala se tornou denso e sombrio. Não havia ninguém ali, ninguém visível pelo menos. Eu me ajeitei na poltrona e me senti ridícula por chegar a sentir medo.

Ainda assim, me virei na minha poltrona, observei cada parede de madeira, escutei o silêncio ou ausência de sons e meu olhar se fixou em um ponto da sala. Não era nada ou parecia não ser nada. Por algum motivo eu me peguei encarando aquela parede de madeira e por um segundo não pareceu uma parede, mas sim uma porta entreaberta.

Não ousei me levantar ou desviar meu olhar, apenas prestei mais atenção ao vão que ali havia. Uma brecha negra, indicando que do outro lado daquela porta havia algo ou até mesmo alguém. Esse pensamento me congelou e me impediu de fazer o que quer que fosse. Eu apenas observei o silêncio, o vão daquela porta falsa entreaberta e o silêncio atípico que vinha dali.

Eu perdi a noção dos segundos e tive um sobressalto quando Blue voltou a adentrar a sala. Virei-me em sua direção e a encarei, pensando se deveria ou não questionar sobre a falsa porta. Então, assim que me virei novamente, a porta não estava mais lá e nem parecia que havia estado alguma vez. Tudo novamente era parede, madeira e nenhum vestígio da porta ou de algum vão ali.

Levantei-me e caminhei até onde eu havia visto a porta ou pelo menos pensava ter visto. Blue começava a se desculpar pela sua ausência, mas agora eu estava ocupada demais passando a mão pela parede, sentindo a textura da madeira sobre meus dedos e procurando algum vestígio de que eu não estava tendo alucinações.

“Algum problema, Regina?” Blue perguntou, se aproximando de mim.

“Essa porta estava aberta.” Eu disse, passando minhas mãos por toda a madeira e me sentindo patética.

Blue me encarou, com certa surpresa e imitou meu gesto, parando seus dedos sobre um ponto da porta. Um ponto que eu não tinha notado, era um pequeno buraco, quadriculado, deixando evidente que havia algo que deveria ser ali encaixado. Ela tirou suas mãos e eu me inclinei diante do pequeno espaço que ali havia.

“Aqui antes havia outro cômodo, mas ele foi desativado quando começamos a escola. Do outro lado temos uma sala de aula, que só é possível acessar do outro lado. Talvez tenha sido impressão sua.” Respondeu a fada, enquanto eu encarava o espaço, a porta desativada e tentava entender o que estava faltando ali.

“Você está sugerindo que minha mente inventou que essa porta se abriu?” Eu perguntei, imaginando se era uma maçaneta ou até mesmo uma chave que se encaixava ali.

“Talvez.” Respondeu a fada, sem parecer muito interessada e voltando a se sentar em uma das poltronas.

Encarei por mais alguns segundos a porta, o espaço, a ausência de uma maçaneta ou de uma chave secreta e assim que Blue começou a falar, eu me afastei. Deixei a porta e meus pensamentos em paz e voltei a me sentar. Porém, eu ainda me sentia assombrada pela sensação de violação de privacidade. Eu ainda me sentia sendo vigiada como se estivesse a mercê de algum observador invisível.

“Eu estava agora mesmo vendo sua filha com as outras crianças.” Começou Blue. “Talvez você devesse cogitar deixá-la frequentar nossa escola.”

“Eu não posso tomar esse tipo de decisão sem conversar com Emma e também não acredito que esse é o tipo de ensino que procuramos para Amy.” Eu respondi, sentindo que minha resposta foi amarga demais. “De qualquer forma, eu vim aqui para falar sobre a magia que protege a fronteira e se você estaria disposta a me ajudar a quebrá-la.”

“Você quer tirar a proteção da cidade?” Perguntou a fada, que não parecia nada perplexa.

“Sim, bem, podemos colocar outro tipo de proteção. Eu estive pensando sobre isso. Podemos colocar algum tipo de filtro de percepção, para que as pessoas do outro lado não vejam ou sintam a magia da cidade, sendo assim a cidade e as pessoas daqui estariam protegidas de oportunistas.”

“Esse tipo de magia não é algo que eu costumo lidar, mas podemos sim pensar a respeito. Contudo, Regina, a proteção que há na cidade é forte demais. Ela foi feita para isso, eu não acredito que nós, as fadas, tenhamos a capacidade de quebrá-la.”

“Eu sei disso, por isso o plano é conversar com Rumple e entrar em um consenso com a cidade. Além do mais, foi por isso que eu trouxe Amy aqui.”

“Pois talvez ela possa nos ajudar.” Completou Blue, eu apenas assenti e a fada pareceu pensativa, como se pela primeira vez ela tivesse sido surpreendida por alguma informação que até antes não tinha. “Você já falou com Rumple sobre isso?”

“Não. Ele é o tipo de pessoa que eu tento evitar ao máximo.” Eu respondi, sentindo minha garganta arranhar só com o pensamento de ter que entrar em contato com ele.

“Ainda assim nós precisamos dele.” Respondeu ela. “Faça isso, fale com Rumple e eu falarei com as outras fadas. Como você mesma disse, a cidade também precisa ser consultada antes de tomarmos uma decisão que afete a todos.” Continuou e eu me levantei, assim que senti que a conversa havia acabado.

“Obrigada, Blue.” Respondi, olhando uma última vez para a porta que havia ou não ali.

“Regina...” Continuou ela. “Você deveria cogitar a ideia de trazer Amy para nossa escola. Acredito que nós seriamos de grande ajuda para ela e para seus poderes.”

Eu nada respondi, sai daquela sala, procurei por Amy e Emma. Encontrei as duas nos jardins do lugar e me aproximei de Emma, que estava sentada em um dos bancos, enquanto Amy brincava com algumas crianças.

“Amy adorou o lugar.” Emma disse, enquanto eu me sentava ao seu lado.

“Há algo muito estranho aqui.” Respondi, observando minha pequena que corria de um lado para outro, em uma brincadeira de pega-pega.

“Estranho como?” Perguntou Emma, fixando seus olhos nos meus e esperando uma resposta que fizesse sentido, mas eu apenas balancei a cabeça, pois não havia uma explicação lógica.

“Talvez seja paranoia minha.” Respondi. “Mas não sei, parece ter segredos demais esse lugar.”

Emma olhou ao redor, o jardim parecia tudo menos misterioso. Na verdade, era um lugar belíssimo, com árvores enormes coberta de pequenas flores e as crianças tornavam tudo ali mais belo. Eu queria simplesmente aproveitar o clima, o perfume das flores, a brisa do vento e a alegria que aquelas crianças passavam, mas eu ainda me sentia enclausurada pela sala e pela porta que nunca se fechava em minha mente.

“Apenas relaxe, Regina.” Emma respondeu, com uma calma atípica e seus braços se envolveram aos meus, sua cabeça encostou em meu ombro e a calma veio enfim.

Eu não disse a Emma sobre o que de fato me incomodava ou sobre a proposta de Blue. Permiti que eu relaxasse e que meus problemas não interferissem aquela tarde. Na manhã seguinte, enquanto Emma preparava o café da manhã e eu ainda tentava tirar da minha mente a porta entreaberta, eu então entrei no assunto e Emma ouviu atentamente.

“Amy estudando na escola de Blue?” Perguntou ela, trazendo os pratos para a mesa do café da manhã. “Quer dizer...” Continuou ela. “Aquilo nem parece uma escola. Parece mais um santuário ou algo do tipo. O que você acha?”

“Eu não sei.” Eu respondi. “Eu acho que uma hora ela terá que voltar a escola. Não pelo sistema de educação, mas sim porque ela é uma criança extremamente antissocial com as outras crianças da idade dela. E talvez seja fruto de sua personalidade ou talvez nós incentivamos.” Eu completei e Emma parou o que estava fazendo e me encarou, seu semblante sério e seu olhar buscando por algo mais do que eu havia acabado de dizer.

“Você acha que isso é um problema?” Ela perguntou.

“Eu não sei, Emma. Talvez. Ela não tem amigos da idade dela ou nem se interessa por isso.”

“Amy é uma criança normal, Regina. Você precisa relaxar quanto a isso, mas talvez devêssemos dar uma chance a Blue. Quer dizer, pelo menos Amy vai se divertir enquanto estiver lá. Você viu como ela se sentiu à vontade com crianças que compartilham algo em comum com ela.”

“Magia.”

“Exatamente.” Completou Emma e ouvimos passos pela escada de Henry e Amy que se juntaram para o café da manhã.

Enquanto estávamos todos juntos, Emma e eu sugerimos a ideia a Amy, que pareceu mais empolgada do que esperávamos. Ela pediu que a levássemos imediatamente e antes que pudéssemos responder, ela pulou de sua cadeira e correu para o seu quarto. Eu encarei Emma, que apenas deu de ombros e pediu para que eu a levasse, pois ela precisava ir para a delegacia mais cedo.

Eu me despedi de Emma, a acompanhei até seu carro e o observei se afastar, até que eu não pudesse mais vê-lo. Entrei na mansão novamente e fui até o quarto de Amy, que estava ajoelhada diante do seu guarda roupa. Sobre o chão de seu quarto, havia inúmeros livros, brinquedos e roupas espalhadas.

“Amy o que você está fazendo?” Eu perguntei e antes que eu tivesse a chance de me aproximar, ela fechou rapidamente a porta do guarda roupa e me encarou como se por um segundo tivesse esquecido quem eu era.

“Arrumando minha mochila para a aula.” Respondeu, em um tom de voz assustado.

Encarei seu rostinho por um segundo, observei o quarto completamente bagunçado e me aproximei dela. Amy rapidamente se levantou, começou a pegar cada um dos objetos espalhados e enfiar em uma pequena mochila que havia ali.

“Meu amor, você só passará uma tarde lá. Você não precisará de todas essas coisas.” Eu disse a ela, que olhou para mim e depois para o guarda roupa, agora com as portas fechadas. “Esqueceu de pegar alguma coisa?” Eu perguntei e ela balançou a cabeça, colocando a mochila abarrotada de objetos inúteis nas costas.

Eu a ajudei, abri a mochila e tirei de lá cada objeto, roupa e brinquedo. Então, algo me chamou a atenção. No fundo da mochila, havia uma maçaneta redonda e pesada. Ela era negra, antiga e completamente lisa. Senti o peso do objeto em minhas mãos e encarei Amy, que parecia tão curiosa com o objeto quanto eu.

“Onde você achou isso?” Eu perguntei e Amy deu de ombros.

“No sótão, hoje de manhã.” Ela respondeu.

“E o que você estava fazendo no sótão?”

“Henry disse que ele tinha um montão de quadrinhos dentro de uma caixa no sótão. Então, ele me levou até lá e enquanto ele procurava, eu achei essa bolinha.”

“Você sabe o que é isso?” Eu perguntei e novamente ela deu de ombros.

“Uma bolinha.”

“É uma maçaneta, Amy. Ela serve para abrir portas.” Eu expliquei a ela, que se aproximou de mim e tocou no objeto com a ponta dos dedos, virando-o e olhando por completo.

“Parece uma bola pesada.” Respondeu. “Daquelas de boliche, só que bem pequenininha.”

“Era para isso que você a queria?” Eu perguntei e ela pareceu cada vez mais confusa, encarando o objeto com um olhar que variava de confusão a curiosidade.

“Eu não sei, mamãe.” Ela disse, pegando o objeto de minhas mãos. “Parecia que eu devia pegar e guardá-lo comigo. Então eu guardei.”

Encarei minha pequena, com a maçaneta em suas mãos. Encarei seu olhar, confuso e distante e encarei a maçaneta que não pertencia a nenhuma porta em específico, mas que ainda assim parecia estar exatamente onde devia.

“Eu posso ficar com a bolinha?” Perguntou, eu lhe beijei os cabelos e disse que ela podia ficar sim.

Eu me certifiquei que ela levasse somente o necessário em sua mochila, a ajudei a se arrumar e liguei antes para Blue, avisando-a que levaria Amy para conhecer a escola. Já no carro, dirigimos em silêncio, Amy estava em sua cadeirinha, com suas mochilas nas costas, olhando pela janela. Aquele silêncio me incomodou a ponto de fazer parar o carro para me certificar que ela estivesse bem.

“Meu amor, por que esse silêncio?” Eu perguntei e por um segundo era como se ela não tivesse me ouvido. “Está tudo bem?” Eu insisti, quando seu olhar cruzou com o meu.

“Mamãe, como a gente sabe que estamos acordados ou dormindo?”

“O que?”

“Como a gente sabe se é de verdade ou de mentira as coisas?”

“Você não sabe se está sonhando ou não?” Eu perguntei e ela assentiu. “Por que você acha isso?”

“Porque o dia está muito confuso.” Ela respondeu, parecendo pensar no que diria a seguir, mas ela nada mais disse, apoiou seu rostinho na mão e olhou para fora da janela.

“O que quer dizer com isso?” Eu perguntei e ela deu de ombros.

“Porque eu vi um coelhinho entrando no meu guarda roupa, mas quando eu entrei lá dentro, eu não vi mais nada!”

“Você pode ter imaginado, meu anjo.” Eu respondi.

Pensei então na porta entreaberta, na sensação de estar sendo vigiada e talvez Amy não estivesse imaginando nada. Talvez algo estivesse em seu quarto.

“Podemos não ir para Blue, mamãe?” Ela perguntou. “Eu queria só tomar um sorvete, talvez isso curasse a confusão.”

“É claro, meu anjo. Sorvete cura tudo.” Eu respondi, a ajudei sair de sua cadeirinha e seguimos pela rua da cidade.

Na sorveteria, Amy decidiu que experimentaria todos os sabores do lugar e a pobre atendente teve que pegar um pouquinho de cada sabor, para que Amy pudesse se sentir satisfeita. Ela enfim escolheu um sabor que a agradasse e nós saímos da sorveteria, com uma grande casquinha de sorvete de chocolate derretendo pelas mãozinhas de Amy.

“Então, já sabe se está sonhando ou acordada?” Eu perguntei, enquanto caminhávamos pela rua, em direção a delegacia onde nos encontraríamos com Emma.

“Mamãe, agora eu estou mais confusa que antes!” Ela respondeu, frustradíssima e com o rosto completamente sujo de chocolate. “Porque esse sorvete é tão gostoso que não parece ser de verdade. Parece um sonho.”

“Acredite, meu anjo.” Eu respondi, parando e me ajoelhando diante dela. Eu tirei de minha bolsa um lenço e limpei seu rosto. “Esse sorvete é tão real quanto essa bagunça que você está fazendo.”

Ela sorriu, assim que eu terminei e antes de continuarmos nosso caminho, um movimento no outro lado da rua chamou nossa atenção. No antiquário do Gold, pessoas entravam e saíam, olhei por alguns instantes até que uma última pessoa saiu, Rumple apareceu mudando a placa que dizia aberto e anunciando que o antiquário estava fechado.

Eu peguei Amy pela mão e atravessei a rua, notei que o antiquário estava vazio, sem pessoas ou objetos. Pensei em dar meia volta, ignorar minha curiosidade e seguir em frente, mas foi como se meu corpo recebesse um comando próprio. Eu me vi entrando no lugar, com Amy me acompanhando.

Lá dentro, tudo era silencioso e vazio. Gold estava atrás de um balcão, esperando que nos aproximássemos. Soltei a mão de Amy, observei ela se afastar e caminhar pelos armários e prateleiras vazios e caminhei até Gold. Ele me olhou por um instante, depois para Amy e fechou o livro que havia em sua frente.

“Pois não?” Ele perguntou.

“O que aconteceu com o antiquário?” Eu perguntei, ele deu de ombros e olhou ao redor.

“Ele está fechado. Cataloguei todos os objetos e seus antigos donos e notifiquei que estaria devolvendo todos eles. As últimas pessoas apareceram hoje, vendi o restante das coisas e semana que vem esse imóvel pertencerá a outra pessoa.”

“Você vendeu tudo?” Eu perguntei, franzindo o cenho.

“Sim, pela primeira vez eu reavaliei minha vida e isso tudo perdeu o sentido.” Ele respondeu e eu me forcei a olhar ao redor, para o vazio que havia ficado ali.

“Você sempre teve tudo.” Eu disse. “Desde o começo, você era o único que tinha poder e agora não parece fazer sentido algum o que você tinha ou deixou de ter.”

“Eu nunca tive nada, Regina. Tudo era um jogo de espelho e fumaças, nada era real. O que eu de fato queria eu nunca tive. Eu posso ter tido sim algum conforto como morador dessa cidade, mas nada disso foi capaz de me dar o real conforto que eu precisava.”

“Seu filho.” Eu disse, em um sussurro, sentindo-me verdadeiramente mal pela dor do homem.

“Exatamente.” Ele respondeu. “Todavia, isso não mais importa. Eu preciso seguir em frente.”

“E como pretende fazer isso?” Eu perguntei.

“Eu não sei, mas não quero mais manter uma ilusão de que esse trabalho me traz algum tipo de felicidade. Eu sou um homem solitário, eu escolhi ser assim. Eu afasto as pessoas e talvez seja melhor assim.” Ele respondeu. “Vou continuar na minha casa, com a minha vida, com a minha solidão.”

“Não está sendo exageradamente dramático?”

“Talvez.” Ele respondeu. “Mas é um fato que eu jamais terei meu filho em minha vida, já é hora de tentar recuperá-lo e viver meu luto.”

“Eu sinto muito.” Eu respondi. “Eu espero que um dia você encontre alguma paz ou algum recomeço.”

“Eu também.” Disse o homem, disperso e parecendo tão vazio quanto o espaço de sua loja. “O que veio fazer aqui, Regina?”

“Nada, na verdade.” Respondi, parecendo confusa por ter me tocado que eu não tinha intenção alguma ao entrar ali. "Eu estava passando e entrei na loja.” Continuei. “Porém, já que eu estou aqui, talvez se você tivesse um tempo, nós poderíamos conversar sobre algo que eu andei pensando nos últimos dias.”

“Sobre a magia da fronteira, eu suponho.” Disse ele. “Blue me ligou e me informou sobre suas intenções.”

“E o que você acha disso?”

“Regina, eu não tenho nada a perder. Nunca tive.” Respondeu o homem. “A questão não é o que eu acho ou não. A questão é se é possível ou não, mas imagino que você tenha alguma espécie de plano.”

“Não.” Eu respondi. “Não um plano, mas ideias. Eu estive pensando que talvez Amy pudesse ajudar.”

“É claro que andou pensando.” Disse o homem. “Eu posso ajudar no que for preciso, mas já adianto que eu vou querer algo em troca.”

“Não esperaria o contrário vindo de você.”

“Ótimo, pois então adianto logo o que eu quero.” Respondeu. “Eu quero que você me conte exatamente como você conseguiu quebrar a magia que impedia que Amy e Emma se tocassem.”

Eu o encarei, esperando por mais alguma exigência, mas ele nada mais disse. Eu me virei para Amy, olhando para um único objeto solitário na estante, ela não parecia interessada na nossa conversa ou em qualquer coisa ao seu redor. Virei-me novamente para o homem, estendi minha mão sobre o balcão e fiz surgir o pequeno caderno de couro que minha mãe uma vez usou para criar o feitiço da Fênix.

Gold encarou o caderno e hesitou alguns segundos antes de tocá-lo cautelosamente. Ele abriu a primeira página, que continha a caligrafia de minha mãe, em uma língua que apenas ela e Alice podiam entender. Rumple se inclinou sobre as páginas, passou os dedos sobre as linhas, folheou o caderno e encarou o pássaro ali desenhado. Então olhou para mim, um sorriso torto nos lábios, denunciando algo que só ele sabia.

“Impressionante.” Disse ele.

“Você consegue entender?” Eu perguntei.

“Sim, eu consigo. Eu lembro quando sua mãe inventou esse idioma.”

“Você lembra também quando ela criou esse feitiço? Você sabia disso?”

“Não, Regina. Sua mãe não criou nada. Esse feitiço é mais antigo que o próprio tempo.” Ele respondeu. “Eu deveria saber melhor, mas acontece que há anos que ninguém usa esse tipo de feitiço. Ele foi abolido e extinto da história da magia, desde o tempo do Rei Arthur. Acredito que você deve estar familiarizada com a lenda dele.”

“Não muito.”

“Assim como Amy, ele nasceu de magia. Sua mãe não podia ter filhos e a lenda diz que seu pai exigiu que Merlin conjurasse um feitiço que permitisse que seu herdeiro nascesse. Acontece que esse feitiço obedecia uma das regras básicas do equilíbrio da magia e da natureza: uma vida por outra vida. Sendo assim, Arthur nasceu, mas em troca a vida de sua mãe foi tirada.”

“Uma vida por outra?” Eu repeti para mim mesma, virando-me novamente para Amy. “Mas Emma foi trazida de volta, quer dizer, Alice e Amy a trouxeram de volta.” Eu continuei e lembrei-me que Rumple não parecia ter memória alguma disso. “Isso não deveria mudar as regras da magia?”

“Muito pelo contrário.” Respondeu ele, ignorando minha última informação. “Faz todo o sentido agora. Quer dizer, se a magia que criou Amy dizia que uma vida tinha que ser dada para que ela pudesse existir, trazer Emma de volta não mudaria nada. Era como se a existência de uma excluísse a existência de outra. Uma simples lei da metafisica: dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo.”

Eu me afundei em meus pensamentos, enquanto o homem folheava o pequeno caderno, parecendo nada surpreso, mas ao mesmo tempo fascinado. Eu revivi os últimos dias de minha vida, revivi a dor, revivi toda a verdade que eu descobri e que parecia agora grande demais complexa demais. Desejei que tudo fosse mais simples ou que eu pudesse ignorar essas verdades.

“Mas vocês encontraram um jeito.” Disse ele, fechando o caderno e não parecendo mais interessado. “Vocês sempre encontram.” Ele continuou. “Eu te ajudarei, Regina. Pois talvez do outro lado daquela linha exista uma segunda chance para alguém como eu.” Completou, devolvendo a mim o caderno.

O caderno em minhas mãos trazia agora mais significado do que horas atrás, encarei por alguns instantes o tom verde daquele objeto e olhei para o homem, despedindo-me e agradecendo. Então, busquei por Amy, que já não estava mais por perto, chamei pelo seu nome, enquanto andava pelo antiquário, mas ela não estava mais por lá. Gold se juntou a mim e nós andamos até os fundos da loja, onde encontramos Amy parada diante de um armário de portas de vidros.

“Meu amor, vamos embora?” Eu perguntei, tocando em seu ombro e seguindo seu olhar, fixo em uma pequena garrafinha de vidro.

“Olha só para isso, mamãe.” Disse Amy, tocando na pequena garrafa.

Eu me ajoelhei ao seu lado, observei a pequena garrafa de pouco mais de cinco centímetros. Observei seu conteúdo e olhei para Gold, parado junto a porta. Parecia uma pequena libélula, completamente ressecada e morta. Amy segurou a pequena garrafa em seus dedos, seu olhar era triste e preocupado.

“É só uma libélula, meu amor.” Eu disse, Amy se virou rapidamente para mim, senti em seu olhar que ela sabia muito mais do que eu.

“Não é não, mamãe.” Ela respondeu e olhou para Rumple, que caminhou até nós.

“Ela está certa, Regina. Isso não é uma libélula, mas sim uma fada. Ou era, pelo menos.”

“O que aconteceu com a fada?” Perguntou Amy, segurando agora a garrafinha como se fosse feita do material mais sensível do mundo.

“É uma história muito trágica, talvez você não queira saber os detalhes.” Disse Rumple.

“Não, por favor.” Disse Amy. “Eu quero saber tudinho.”

“Talvez não seja uma boa ideia.” Eu disse, mas Gold e Amy ignoraram minha resposta e os dois caminharam até um sofá que havia ali.

Eu observei os dois, sentados um ao lado do outro. Amy segurando a pequena garrafa e Gold apoiando suas mãos em sua bengala. Então, ele contou a história da pequena fada e Amy prestou atenção em cada palavra. Segundo Gold, antes da maldição, ele havia procurado todas as formas de trazer de volta seu filho. Ele havia buscado todos os magos e seres mágicos que havia na floresta encantada, mas havia um ser que ele nunca havia encontrado e que talvez fosse sua última chance.

“A Fada Negra?” Eu perguntei, roubando a atenção dos dois. “Até onde eu sei ela é uma lenda. Ninguém sabe se de fato ela existiu ou não.”

“Somos todos lendas, Regina.” Respondeu Rumple. “De qualquer forma, a história dizia que ela tinha seu próprio exército de fadas. Essa mesma história dizia que essas eram fadas exiladas, fadas sem casa e que seguiam cegamente a Fada Negra. Eu então pensei que se eu não pudesse a achá-la, talvez eu pudesse achar uma de suas seguidoras.”

“Como a Fada Negra poderia te ajudar?” Perguntou Amy.

“Diziam que ela era a mais poderosa das criaturas, que era o tipo de ser que conseguia quebrar toda e qualquer lei da magia. Alguns diziam que ela era a própria magia em si. O começo e o fim.” Respondeu Rumple, olhando para mim.

“Ninguém pode quebrar todas as leis da magia.” Eu disse.

“Amy quebrou algumas.” Gold disse, olhando para a menina ao seu lado.

“Sim, mas não sozinha.” Eu respondi.

“Não importa, Regina. Naquele tempo eu estava buscando por ilusões e por isso fui atrás da Fada Negra. Até hoje eu não sei se ela era de fato real ou não, mas eu achei essa fada, que eu sabia que tinha pertencido a Blue, mas que havia sido expulsa. Eu a capturei, tirei suas asas e exigi que ela interferisse e conseguisse um encontro entre mim e a Fada Negra.”

“Você foi muito cruel com a fadinha!” Disse Amy, olhando para o vidrinho.

“Sim, eu não era um homem muito bom.” Respondeu ele. “De qualquer forma, no dia seguinte, a fada apareceu e disse que era impossível o encontro, pois eu jamais teria meu filho de volta. Eu não acreditei na fada e gritei em voz alta que ela era uma mentirosa. No mesmo instante, a fada definhou a minha frente, como se minha voz tivesse algum poder.”

“Você matou a fada porque não acreditou nela!” Disse Amy, agora completamente irritada com o homem. Ela se levantou do sofá, seu semblante era de total irritação e ódio.

“Eu sinto muito, Amy.” Disse o homem, parecendo de fato arrependido.

“Tudo bem, senhor Gold.” Respondeu Amy, tocando na mão do homem. “Eu vou enterrá-la em um jardim muito bonito, então ela vai ficar bem para sempre.”

O homem assentiu e pela primeira vez eu vi alguma humanidade no olhar daquele homem. Amy caminhou até mim, me segurou pela mão e disse que estava pronta para ir. Antes de ir embora, eu olhei uma última vez para o homem, senti sua solidão, sua dor e desejei que do outro lado da fronteira, em um mundo que jamais o pertenceu, ele pudesse encontrar a paz que ainda buscava.

No fim da tarde, Amy e eu encontramos com Emma na delegacia. David estava lá quando chegamos, Amy correu até ele, que a segurou nos braços, enquanto eu me aproximava de Emma, completamente jogada em sua cadeira giratória. Observei Amy e seu avô e depois olhei para Emma, que também observava a cena.

“Vovô, você poderia me levar até biblioteca?” Perguntou a menina, colocando as duas mãozinhas no rosto do homem. “Por favor?”

“Claro que posso. Já tem algum livro em mente?”

“Tenho sim, mas é segredinho.” Respondeu e se virou para mim. “Eu posso ir, mamãe?”

“Pode sim, meu anjo.” Eu respondi e David se aproximou de nós, com Amy nos braços, que se inclinou até a sua mãe e encheu seu rosto de beijos.

“Eu te vejo depois, meu anjo.” Disse Emma, enquanto David se afastava.

Esperamos até que os dois fossem embora e assim que ouvimos o silêncio, Emma empurrou sua cadeira, dando espaço para que eu me sentasse em seu colo. Encarei seu rosto, seus lábios e me entreguei ao desejo que me consumia. Senti suas mãos em meu rosto, seus lábios nos meus e meu corpo se encaixando ao dela.

“Eles podem voltar a qualquer momento.” Ela disse, quebrando o beijo e parecendo frustrada.

“Você não parecia muito preocupada com privacidade quando estávamos no meu escritório.” Eu disse, colocando meus braços ao redor do seu pescoço. Emma riu, se inclinou para me beijar e então se afastou.

“Eu estava pensando em algo.” Disse Emma, olhando para o computador, eu segui seu olhar, observei quando ela desbloqueava a tela e olhei para as imagens ali salvas.

“Vestidos de noiva?” Eu perguntei, ajeitando-me em seu colo e me virando para ela.

“É, quer dizer, eu ainda quero isso. Ainda quero um casamento e uma troca de votos. Talvez eu esteja sendo muito romântica, mas é que se vamos atravessar a fronteira, se vamos descobrir o mundo lá fora, eu quero fazer isso com você sendo tudo na minha vida. Não estou dizendo que você não é, mas podemos fazer isso da melhor maneira. Estou sendo um pouco confusa?”

“Um pouco.” Eu respondi, rindo. “Amy também estava confusa hoje. Ela não sabia dizer se estava sonhando ou acordada.” Eu continuei. “Mas eu entendo o que você quer dizer, eu também quero isso. Eu já te disse antes e repito, eu quero tudo, Emma. E esse tudo inclui você e tudo o que isso significa.”

“Então vamos fazer isso?” Ela perguntou. “Vamos nos casar, de branco, de véu, com tudo o que temos direito?” Continuou e eu assenti, recebendo novamente seus beijos. “Eu também estava com essa ideia na cabeça... Eu pensei que talvez você pudesse escolher o meu vestido e eu escolhesse o seu, mas nenhuma de nós veríamos a outra com o vestido, até o dia do casamento. O que acha?”

“Acho que você anda lendo ou vendo muitos romances ultimamente.” Eu disse e ela revirou os olhos, me fazendo rir. “Eu adorei a ideia, Emma. Embora, tenha dificuldade de te ver de vestido.”

“Será um desafio para mim também te ver de branco.” Ela respondeu e novamente outro beijo.

Eu encostei minha testa a dela e fechei meus olhos, enquanto ouvia na minha mente a voz de Amy questionando se a realidade era ou não um sonho. Naquele momento, enquanto construíamos juntas nossos sonhos, tudo de fato parecia ser um jogo de imagens, tudo parecia surreal, como se por um segundo a felicidade não nos pertencesse. O toque de Emma me trouxe para a realidade, que parecia um sonho, mas que ainda assim era um sonho que pertencia a nós duas.

“Você me fez pensar e reavaliar minha vida, sabia disso?” Emma perguntou, seus lábios próximos aos meus, mas sem me tocar. Eu balancei a cabeça e esperei que ela continuasse. “Enquanto você tem agora todos esses sonhos e desejo de ser mais do que você foi nos últimos anos, eu me vi pensando se eu também queria te acompanhar. Se eu estava feliz ou não nesse emprego e se talvez eu pudesse recomeçar no zero em outro lugar ou em outra coisa.”

“Chegou a alguma conclusão?” Eu perguntei e ela assentiu.

“Sim, eu cheguei sim. Eu amo isso aqui. Eu amo esse emprego. Eu amo o que eu faço. Eu realmente não me vejo fazendo outra coisa no momento.” Ela respondeu. “Então, talvez, quando você se cansar do mundo lá fora e mesmo que você encontre o melhor lugar para morar... Eu ainda iria querer que você escolhesse Storybrooke, porque eu não me vejo passando uma eternidade em nenhum outro lugar.”

“Eu vou aonde você estiver, Emma. Jamais cogitaria o contrário. Eu quero seguir sim os meus planos, mas Storybrooke sempre será nossa casa. Eu te amo, Emma.” Ela sorriu para mim, respondeu que me amava de volta e me abraçou apertado.

“Vamos atravessar a fronteiras juntas, pela primeira vez, a caminho da nossa lua de mel.” Emma disse.

“Meu deus, Emma. Você realmente está muito romântica.” Eu disse, ela revirou os olhos novamente.

“Não estou sendo romântica.” Respondeu ela. “Estou apenas exaltando a felicidade. Acho que merecemos isso depois de tudo que passamos.”

“Eu concordo com você.”

“Fico feliz que concorda, pois hoje eu tenho uma pequena surpresa para você e antes que eu seja acusada de ultra romântica, eu te aviso logo que é só um jantar em um lugar especial.”

“Mal posso esperar.” Eu disse, beijando-a e sentindo seus braços envolvendo meu corpo.

Emma manteve um ar de mistério o resto daquele dia. Esperamos por Amy e voltamos para casa. Enquanto as duas brincavam ou assistiam a algum filme, eu me sentei no escritório e escrevi uma carta ao povo de Storybrooke, avisando-os de minha renuncia ao cargo e convidando a todos para uma assembleia geral sobre minhas pretensões em relação a fronteira da cidade.

Reli o documento algumas vezes e encarei a folha completamente preenchida por minhas palavras. Não era só um cargo como prefeita, era uma vida inteira e por um segundo eu cogitei rasgar o papel e continuar minha vida, mas havia algo naquelas palavras, nas minhas palavras, que me dizia que eu estava certa em seguir meus sonhos.

“Mamãe?” Eu olhei para a porta do escritório, para Amy encarando-me e esperando que eu permitisse sua entrada.

“Hey, meu anjo. Vem aqui.” Eu disse e ela correu até mim, sentando-se em meu colo e olhando para todas as folhas espalhadas sobre a mesa.

“O que você está escrevendo?” Ela perguntou, enquanto eu acariciava seus cabelos e ela encostava seu corpo ao meu.

“Um documento importante.” Eu respondi e ela se inclinou sobre a mesa, segurando a folha com as suas pequenas mãos.

Seu olhar percorria as palavras ali escritas. Palavras negras sobre uma folha branca, um documento tão sério e entediante que eu me perguntei o porquê ela simplesmente não o largava ali mesmo. Ainda assim, era como se ela o estivesse lendo-o, como se as decisões ali escritas tivessem um grande impacto em sua vida. Ela nada disse por alguns segundos, até que abaixou a folha e se virou para mim.

“Eu achei um livro sobre a Fada Negra.” Disse Amy. “Você sabia que antes de ela ser uma fada, ela era uma pessoa normal? Como eu e você?”

“Sim, eu sabia. Mas é só uma lenda.” Respondi. “Diziam que ela era apenas um bebê quando ganhou suas asas de fada.”

“Então ela não nasceu de um pequeno ovinho que fica lá no topo das árvores?”

“Eu não sei, meu anjo. É assim que as fadas nascem? De pequenos ovinhos?”

Amy pareceu refletir, seus dedos batucaram a mesa e ela encarou o computador ligado a sua frente. Em seguida, apoiou o cotovelo na mesa e se virou para mim.

“Não sei...” Respondeu. “No livro do Peter Pan diz que a risada de um bebê explode em milhões de pedacinhos e então uma fadinha nasce. Mas eu também li que as fadinhas têm pequenos ninhos nas arvores e de lá elas cuidam de todas as flores e de todos os frutos. Então, talvez a Fada Negra seja um ovinho de outra coisa e não de gente normal. Ela pode ser um passarinho.”

“Um passarinho?” Eu perguntei e ela deu de ombros. “Não acha que está pensando demais nisso?”

“Não sei.” Respondeu em um tom confuso e distante. “Você sabia também que no dia que ela ganhou suas asas, disseram que mil passarinhos voaram pelo céu? Mil passarinhos coloridos voando pelo céu todinho e que foi o dia mais feliz de todo o universo.”

“Vejo que você pesquisou mesmo.” Eu disse e ela se virou para mim, colocando suas mãos no meu rosto e me olhando de forma séria.

“É que eu pensei que se eu pesquisasse bem muito, talvez eu encontrasse a Fada Negra e talvez ela pudesse ajudar a fadinha da garrafinha.” Disse Amy e seu tom de voz era triste e cansado.

“Eu sinto muito, meu anjo.” Eu respondi. “Mas talvez você devesse fazer o que disse que faria e enterrar a pequena fadinha em um belo jardim, o que acha? Podemos fazer isso amanhã quando formos para Blue, não acha um lugar legal para deixar a fadinha?” Amy assentiu, embora seu olhar dissesse o contrário.

“Vovó e vovô vão passar a noite aqui.” Disse ela. “Porque mamãe disse que vocês duas vão fazer um programa de adulto essa noite.” Ela continuou e não conseguiu esconder uma risada. “Vocês vão tomar bem muito café, não é mesmo? Vocês adultos só fazem isso!”

“Meu anjo, sua mãe faz o pior café do mundo. Então, eu realmente espero que ela tenha outra coisa em mente.” Eu respondi, beijando seu rosto e a pegando em meus braços, ela soltou uma risada e me abraçou apertado, enquanto saiamos do escritório.

As ruas de Storybrooke estavam repletas de casais passeando de mãos dadas e o clima não poderia estar mais perfeito para uma caminhada a noite. Emma e eu estávamos de mãos dadas, andando pelas calçadas, seguindo por um caminho que eu reconhecia, mas que não sabia aonde poderia me levar.

“Odeio esse seu silêncio.” Eu disse, sentindo seus dedos envolvendo os meus.

Ela se virou para mim, sorrindo, não pude evitar de lhe dizer o quanto ela estava linda aquela noite. Novamente um sorriso, dessa vez seguida por uma pausa no meio da rua, no meio de todos, quebrando o fluxo de todas as aquelas pessoas a fim de me tomar em seus braços e me beijar.

Senti seu corpo colado ao meu e toda aquela noite envolvendo nossos corpos, me senti como em uma foto, como se aquele segundo fosse eterno e imortal. Enquanto ela me abraçava e a noite seguia e as estrelas nos vigiavam eu me senti novamente em um sonho. Um daqueles sonhos que você torce para jamais acordar, mas a melhor era parte era saber que eu já estava acordada.

Novamente minhas mãos se juntaram as dela, caminhamos então até o cais, onde uma pequena embarcação a vela nos aguardava. Ela foi a primeira a caminhar pela madeira que dava acesso ao barco. Eu permaneci onde estava, olhando de forma incrédula para Emma que agora se virava para mim e me oferecia sua mão.

“Essa é a sua surpresa?” Eu perguntei, sem consegui segurar a decepção na minha voz.

“Não gostou?” Ela perguntou, ainda com a mão estendida para mim. Eu hesitei por um segundo, mas não consegui resistir a minha curiosidade.

Subi na embarcação, ainda segurando a mão dela, enquanto Emma me levava para o centro do barco, onde uma toalha de piquenique estava estendida, com um jantar especial esperando por nós. Eu olhei para Emma, que sorriu para mim e me soltou, deixando que eu apreciasse todo o cuidado que ela havia tido para preparar aquela surpresa.

“Desculpa, mas é que eu realmente quero fazer isso da melhor e mais bonita forma.” Ela disse, apontando para o tapete ali estendido, esperando que eu me sentasse nele.

Eu obedeci seu comando silencioso, sentei-me sobre o tapete, observei as taças de vidro, o champanhe sobre o gelo, a cesta de piquenique e os pratos vazios esperando por nós. Ela se sentou a minha frente, nossas pernas entrelaçadas uma na outra, nossos olhares repletos de felicidades fixos um no outro. Eu poderia transbordar de felicidade ali mesmo, mas eu sabia que ainda tinha mais por vir.

“Eu estava pensando em algo bem Alladdin.” Ela disse, olhando para o grande tapete onde estávamos sentadas.

“E mudou de ideia?” Eu perguntei, enquanto ela se aproximava mais de mim.

“Não, só descompliquei certas coisas.” Respondeu. “Você está pronta?” Ela perguntou, eu franzi o cenho, mas isso pareceu responder a sua pergunta.

“Pronta para o quê?”

“Para ancorar navios no espaço.” Ela respondeu.

No instante seguinte, Emma elevou o olhar para as velas brancas do barco, estendidas por um vento que não existia, mas que parecia estar sob seu comando. Deslizamos pelas águas daquele mar que cercava nossa pequena cidade, mas só por alguns breves segundos. Pois, como se pertencesse de fato as estrelas e não ao mar, o navio ganhou voo, me desestabilizando por um segundo, antes que eu pudesse apreciar toda a magia do momento.

Encarei Emma a minha frente, seu sorriso mais lindo do mundo e seu rosto que conseguia ser a definição do que de fato significava a perfeição. Enquanto o navio sobrevoava, cada vez mais para perto das nuvens e das estrelas, eu senti meu coração aumentar dentro de mim.

Eu nada consegui dizer enquanto meu corpo acompanhava o navio em direção ao céu. Eu nada consegui dizer quando Emma segurou minha mão, acariciou meus dedos e nossa aliança de noivado, ainda ali em meu dedo simbolizando um romance que começou anos atrás e que passou por todas as aprovações possíveis, mas que ainda assim era forte, maior do que qualquer coisa que eu já senti nessa vida.

“Regina...” Ela começou a dizer e a essa altura não ouvíamos mais o barulho do mar ou da cidade, apenas do vento batendo nas velas, movendo o navio cada vez mais para o alto. “Eu perco muito tempo tentando imaginar o que eu posso fazer para demonstrar o que eu sinto por você, o quanto eu sinto por você, mas é só isso que eu faço, perder tempo. Porque nem que eu vivesse para eternidade, eu conseguiria fazer isso. Você torna isso muito difícil, porque quando eu penso que eu não posso mais te amar, eu vou lá e te amo cada vez mais. Eu nem sei se isso é possível, mas parece que eu já vivi tanto tempo ao seu lado, mesmo que não fisicamente, mas parece que nós estamos conectadas a tanto tempo que eu não consigo sequer lembrar quem eu era antes de você. Se é que eu existia antes de você.”

Encarei seus olhos verdes molhados, seus lábios rosados entreabertos e suas mãos ainda segurando as minhas e senti tudo o que ela queria me dizer. Era surreal demais estar ali a frente dela, era surreal demais amar alguém dessa forma e poder viver esse amor que era capaz de fazer navios ancorarem no espaço. Eu também não conseguia imaginar o que eu era antes de ela existir em minha vida, mas eu sabia que tudo antes era fumaças e espelhos.

“Eu quero me casar com você todos os dias, Regina. Eu quero me sentir no espaço todos os dias. Esse espaço infinito e repleto de possibilidades que você me proporciona. Eu jamais encontrarei isso em outra pessoa, eu jamais encontrarei isso em mim mesma. Eu preciso de você para ser mais do que eu sou. Eu te amo, Regina.”

Essa frase ficou solta no ar, Emma sentou sobre seus joelhos, com suas mãos segurando a minha. Antes que eu tivesse a chance de responder, ela elevou seu dedo ao ar, pedindo silêncio e se inclinou sobre a cestinha sobre o tapete. De lá de dentro tirou um envelope e o entregou a mim.

“Eu não consigo parar de pensar nesse mundo lá fora que é antigo para mim, mas que para você é ainda tão novo. Então, eu imaginei que a primeira vez que nós cruzássemos deveria ser como se fossemos uma só e deveria ser para um lugar onde pudéssemos comemorar essa união. Eu não sei fazer isso, Regina. Não sei te propor em casamento como você fez anos atrás. Eu não tenho esse dom.” Ela disse, me fazendo rir, enquanto eu abri o envelope e tirava de dentro algumas folhas.

“O que é isso?”

“Nossa lua de mel.” Ela respondeu e eu li o destino que havia naquelas folhas.

“Você vai me levar a Grécia?” Eu perguntei, segurando as passagens em minhas mãos.

“Eu sei que deveria ser algo para que nos duas escolhermos juntas, mas...”

“Nós não poderíamos ter escolhido um lugar melhor que esse. Eu não vejo a hora dessa lua de mel.”

“Espera.” Ela disse, olhando ao seu redor. “Eu deveria ter comprado uma aliança, não é mesmo? Novas alianças...” continuou e ela parecia tão confusa e perdida, que eu não consegui segurar minha risada.

“Emma, está tudo bem. Nós não precisamos de uma nova aliança.” Eu respondi, ficando sobre meus joelhos a fim de me aproximar dela e pegar suas mãos.

“É claro que precisamos!” Ela disse, frustrada. “Dessa vez sou eu quem estou te pedindo em casamento, então nada mais justo que uma segunda aliança.”

“Não, Emma. Nós não precisamos.” Eu disse, diante dela, minhas mãos sobre a sua cintura, trazendo-a para perto de mim. “Nós temos tudo o que precisamos agora, podemos esquecer os outros detalhes.” Encarei seus olhos e seus lábios tão perto dos meus e, pelo seu olhar, eu entendi que não era o suficiente, ela precisava do anel.

Então, ela se soltou de mim, se inclinou sobre a cesta de piquenique, arrancou um pedaço do material, se aproximou novamente, pegando minhas mãos e enrolou meu dedo com a palha. Eu sorri ao ver seu sorriso tão doce e alegre, por finalmente ter conseguido o que queria.

“Eu sei que não é o mais nobre dos materiais. Você é uma rainha e deveria ter todo o ouro do mundo, mas é o que eu tenho para te oferecer agora, pois tudo o que tinha ou sou já é seu.” Disse Emma, tomando minha boca para sua e quebrando o beijo no instante seguinte. “Acho que eu deveria dizer a frase ‘você quer se casar comigo?”, não é?”

“Acho que ficou muito bem entendida suas intenções.” Eu disse, não conseguindo conter novamente minha risada.

“Esse é pior pedido de casamento que você já deve ter escutado.” Ela disse, revirando os olhos.

“Bem, não recebi muitos, mas esse é definitivamente o único que eu quero aceitar.” Respondi. “Eu te amo, Emma. Você não precisa dizer ou fazer mais nada para que eu entenda que você também me ama.”

Ela sorriu para mim, suas bochechas corando e seus olhos brilhando ao se aproximar de meu rosto. Fechei meus olhos e senti todas as sensações que seu toque, seus beijos e seu perfume traziam a mim. Era toda uma mistura de sentidos, era como estar sobre as nuvens, era como estar na realidade de voar sob um navio por entre as estrelas e era também como um sonho do qual eu não conseguia descrever ou mesmo acordar.

Meu corpo sobre aquele tapete, com Emma sobre mim, o navio nos fazendo flutuar e nos levando para mais perto das estrelas, para mais longe da realidade. Eu abri meus olhos, observei a escuridão do céu e o brilho das estrelas, a boca quente de Emma em meu pescoço, mordendo-me e me chupando sem piedade alguma. Era essa mistura de dor e prazer que me fazia apagar por micros segundos e então abrir novamente os olhos, esperando novamente pela sua boca e admirando novamente a escuridão se perdendo nas estrelas.

Emma me fez perder os sentidos aquela noite, me fez perder o controle do meu próprio corpo e de minha mente. Aquelas horas pareceram um sonho, mas seu toque quente, suas mãos percorrendo meu corpo, meus seios, meu sexo, me faziam entender que tudo era real e que sempre seria enquanto ela estivesse em minha vida.