Amores e Consequências
27 Capítulo 26 – Um Mikaelson?
Notas iniciais
Damon
– Isso é tudo, senhor Salvatore – eu me apoiei na bancada da lanchonete enquanto falava no celular com o policial – Qualquer outra novidade eu te ligo.
– Está bem, muito obrigado pela informação – completei.
Desliguei a ligação e guardei o telefone de volta no bolso da calça e fiquei olhando para o local. O hospital estava cheio hoje devido a uma onda de gripe inundou a cidade de Nova York nesse inicio de inverno, aparentemente, por isso vários acompanhantes de pacientes, médicos e enfermeiros estavam fazendo seus lanches; olhar aquela cena me deu uma grande saudade de casa, costumo reclamar um pouco do tempo que passo no trabalho, mas sinto falta quando não estou lá.
– Com licença, senhor, vai querer mais alguma coisa? — nem reparei quando a garçonete se aproximou de mim, ela estava olhando para a minha xícara, que ainda tinha um pouco de café no fundo.
– Quero mais uma café, por favor – pedi – Mas dessa vez, quero para viagem.
Ela concordou antes de se afastar, indo até a maquina de café, voltando poucos minutos depois trazendo o copo usado para viagem. Paguei tudo antes de sair do local.
Como a ala pediátrica ficava no terceiro andar do hospital, peguei o elevador no final daquele longo corredor. Assim que cheguei ao consultório aonde tinha deixado minha namorada e minha filha, as duas ainda estavam no mesmo local.
– E aqui estão as duas mulheres da minha vida – beijei rapidamente o rosto delas – Alguma novidade?
– Nada ainda – Elena negou com a cabeça enquanto pegava o copo de café da minha mão tomava um gole da bebida – A médica disse que ia pedir prioridade no laboratório para que o exame ficar pronto o mais rápido possível, mas que era o máximo que podia fazer e não tinha como controlar o tempo que demoraria; bom, você entende mais disso do que eu.
Logo depois de levarem Emery para a delegacia e passado o susto inicial, decidimos que era melhor Miranda ser examinada por um médico, apenas para termos certeza de que está mesmo tudo bem com ela e que não sofreu nada mais grave. Lena ligou para a pediatra que cuida dela e de Eve desde que nasceram, mas ela está fora da cidade em um congresso, então a trouxemos direto para o hospital.
– Isso é verdade – concordei – Lá em Atlanta eu já fiz milhares de pedidos para o laboratório apressar o exame dos meus pacientes internados, mas nem sempre eles atendem.
Dei uma rápida olhada em Mind, ela estava sentada na maca balançando as perninhas para frente e para trás e segurava o pirulito que a médica deu para ela depois de examiná-la. Não parecia nem um pouco nervosa ou traumatizada com o que aconteceu e essa é a grande vantagem de se ter apenas três anos e não ter muita noção do que está acontecendo.
– Lena, eu preciso falar uma coisa – passei a mão pelo cabelo e fiquei encarando os meus pais – Quando eu estava na lanchonete, recebi uma ligação da delegacia.
– Aconteceu alguma coisa? — pude começar a notar um tom de preocupação na sua voz.
– Os pais da Emery já foram avisados da prisão e estão a caminho de Nova York nesse momento, mas, é claro, já mandaram um advogado na frente – expliquei, rapidamente – Eles estão querendo transferi-la para uma clínica psiquiátrica em Dalas.
Foi nesse momento que eu olhei Elena pela primeira vez. Ela deu uma olhada para a nossa filha, que continuava distraída e não prestava a menor atenção na nossa conversa.
– Fala alguma coisa, Lena – pedi, colocando a mão no seu ombro, depois de alguns instantes de silêncio.
– Acho que eu não tenho nada que falar sobre isso – deu de ombros – Só que deve ser bom seus pais serem donos de metade do Texas e conseguirem te tirar da cadeia, não importa a quantidade de besteiras que você faz.
– Talvez seja melhor assim – tentei explicar – Se ela ficar presa, o advogado deve conseguir deixá-la livre até o julgamento; depois ela deve pegar cinco, no máximo, dez anos, e pode sair na metade do tempo se tiver um bom comportamento. Já no caso de ir para uma clínica psiquiátrica, as chances de deixá-la sair um dia são muito pequenas.
– E quais são as chances do advogado conseguir essa transferência? — quis saber.
– São bem grandes – respondi – A Emery não tem estado no seu juízo perfeito desde a perda do bebê e é mais do que óbvio que ela sequestrou a Mind por causa disso. Tudo que eles precisam fazer é reunir essas provas e alegar insanidade, o que não é tão difícil de conseguir.
– Sinceramente, Damon, eu só quero que ela pague pelo que fez conosco e com a nossa filha, não importa a maneira que seja – completou – Não quero nem imaginar o que faria se algo acontecesse com a Miranda.
– Mas não aconteceu nada, Lena, e isso é o que importa – a puxei para perto de mim e dei um beijo no topo da sua cabeça – E ela vai sim pagar pelo que fez, eu prometo.
– Continuamos nessa posição por alguns instantes até que o celular dela começou a tocar. Afastou-se para ir até a bolsa e pegar o aparelho lá dentro.
– É a Bon – disse, em seguida – Provavelmente deve estar querendo saber sobre a Mind, esquecemos de ligar para ela.
No caminho da zona portuária da cidade até o hospital fizemos várias ligações para avisar a todos que tínhamos conseguido resgatar Miranda e que, aparentemente, estava tudo bem: para a minha mãe, o pai de Elena, Jeremy, Stefan e Caroline e até mesmo para Klaus. Mas esquecemos de falar para a Bonnie, ela foi para casa ontem a noite com uma certa relutância e queria que avisássemos sobre qualquer novidade que tivéssemos.
– É melhor eu ir atender – avisou – Vocês dois vão ficar bem aqui sozinhos?
– Mas é claro que vamos ficar bem aqui – garanti antes de virar para a minha filha – Não é mesmo, Mind?
– Sim! — balançou a cabeça afirmativamente.
Lena me deu um selinho antes de sair do consultório. Assim que ficamos sozinhos, eu me aproximei de Mind e passei a mão pelo seu cabelinho castanho.
– Como é que você está se sentindo, gatinha? — perguntei logo em seguida.
– Estou bem – garantiu – Mas estou cansada, papai, quero ir logo para casa. Estou com saudades de minha cama.
– Eu imagino – disse, calmamente – Não se preocupe, espera só a médica votar com os resultados do seu exame e nós já vamos para casa.
– Só não entendi porque a tia Emery foi tão má comigo – continuou – Pensei que ela gostasse de mim e ela ia ser mãe do meu irmãozinho, não é mesmo?
– Acredite, Mind, as pessoas fazem coisas ruins com as outras sem nenhum sentido o tempo todo – tentei explicar – No momento eu só sei de uma coisa, com certeza a Emery vai parar para pensar e vai se arrepender de ter feito tudo isso com você.
– Eu espero... — deu um fraco sorriso.
– Agora vamos falar de coisas boas – mudei de assunto – A sua avó veio para Nova York junto comigo e ela disse que, quando você chegar em casa, ela pretende te mimar muito por todo o final de semana.
– Oba! — ficou bem animada – Estou com saudades da vovó.
– E tenho certeza de que ela também está com saudades de você – garanti – Acredite, tudo que ela tem falado essas últimas semanas é sobre vocês irem passar o natal lá em Atlanta conosco.
– Vai ser bem divertido mesmo – concordou – Mas eu também estou feliz por você e a vovó terem vindo aqui para Nova York agora.
– Não teria outro lugar que eu queria estar que não fosse ao lado de você e da sua mãe – dei um beijo no topo da sua cabeça – Pode acreditar nisso.
Foi nesse momento que a porta do local e abriu, era a médica, que trazia um envelope na mão, provavelmente contendo o resultado dos exames, Elena veio logo atrás dela, as duas devem ter se encontrado no corredor.
– Acabei de pegar o resultado dos exames da Miranda – avisou enquanto pegava o papel – Está tudo normal com ela – completou depois de dar uma rápida lida – Fico feliz em dizer quem fora alguns arranhões, a filha de vocês está 100%.
– Isso é mesmo muito bom... — apesar de ter quase certeza de que Mind não tinha nada, foi impossível não respirar aliviado nesse momento.
– É mesmo uma excelente notícia – Lena concordou – Então quer dizer que nós já podemos ir embora para casa?
– Sim, vocês podem ir – concordou com a cabeça – Imagino que, depois disso tudo, a Miranda deve estar doida para ir para casa.
Ajudei Mind a descer da maca e ela segurou a mão da mãe antes de sairmos do local.
***
Já estávamos no térreo do hospital e prontos para irmos embora quando avistamos uma pessoa conhecida caminhando na nossa direção. Era Rebekah, irmã mais nova de Klaus, e agora, minha irmã também.
– Tia Bekah! — Mind soltou a mão de Elena e foi correndo em direção a outra mulher – O que você está fazendo aqui?
– Soube que vocês estavam aqui e vim ver como você estava, princesinha – explicou, a pegando no colo – Espero que não se importem, Klaus me contou que a Mind já estava com vocês, então decidi vir aqui vê-la – agora ela estava falando diretamente conosco.
– Claro que não tem problema... — dissemos ao mesmo tempo.
O segundos seguintes foram de completo silêncio entre nós. Rebekah deu uma rápida olhada na minha direção, parecia estar dizendo sem palavras que queria conversar comigo.
– Bom, nós estávamos indo embora, mas pensei que poderíamos ir fazer um pequeno lanche na lanchonete do hospital – Lena comentou, provavelmente percebeu a mesma coisa que eu – O que você acha da minha ideia, Mind?
– Acho uma ótima ideia – concordou – Você vem também, tia Bekah?
– Eu não posso, lindinha, preciso voltar para o trabalho – explicou a colocando no chão e se ajoelhando para poder olhá-la melhor – Só vim aqui rapidinho mesmo, mas eu prometo que passo na sua casa durante a semana. Quem sabe eu, você e a Eve não passamos uma tarde juntas.
– Tudo bem, tchau, tia Bekah – deu um rápido beijo no rosto da tia.
– Damon, você encontra a gente lá na lanchonete depois? — ela me perguntou assim que segurou a mão da nossa filha novamente.
– É claro que si – afirmei com a cabeça.
– Mas por que é que o papai não vai para a lanchonete com a gente agora? — Miranda estava totalmente confusa nesse momento.
– Ele só precisa conversar uma coisinha com a tia Bekah – Elena começou a explicar enquanto as duas se afastavam – Não se preocupe, seu pai não vai demorar muito.
Logo elas desapareceram na curva do caminho que levava até a lanchonete e só então me virei na direção de Rebekah. Ela estava enrolando as pontas do cabelo nervosamente.
– Foi muito legal o que você fez pela Mind, vindo até aqui para saber como ela estava – falei, de repente – Dá para ver o quanto você gosta dela.
– E eu gosto mesmo – afirmou – Eve foi minha primeira sobrinha e eu tenho um carinho todo especial por ela, mas quando ela nasceu eu estava morando na Inglaterra e não a aproveitei muito quando era bebê, o que não aconteceu a mesma coisa com a Mind, então...
– Isso é mesmo muito importante, não só para mim, mas também para a Elena – garanti – E bom..., se você me pediu para conversarmos, acho que isso significa que você deve estar sabendo de tudo – decidi ser direto logo de uma vez.
– Você está falando sobre eu ter recebido uma ligação do Klaus falando sobre as indiscrições extra conjugais antes mesmo dois termos nascido e mais tarde encontrar a minha minha mãe na porta do meu apartamento pedindo para ficar lá uns dias enquanto coloca a cabeça no lugar? — ela falava até mais calma do que eu eu pensaria que poderia estar – Se for isso, sim, eu estou sabendo de tudo.
– Deve estar sendo bem difícil para você, não é? — continuei – Quero dizer, eu sempre sobe que tinha um pai biológico em algum lugar do mundo que podia ter outros irmãos, mas você não tinha ideia e deve ser estranho saber que você tem um irmão mais velho de que nunca tinha ouvido falar.
– Não vou mentir, é estranho mesmo – deu de ombros enquanto respondia – Mas, por outro lado, também é uma coisa boa.
– O que quer dizer com isso? — quis saber, mas uma vez.
– Apesar de eu e Kol sermos gêmeos, eu sou a irmã mais nova e a única garota da família – explicou – E quando eu tinha uns 6 ou 7 anos sofria muito com os meus irmãos, que sempre me excluíam de tudo e eu sempre desejava que pudesse ter irmãos diferentes que me entendessem e aqui está você agora – sorri e eu imitei o gesto dela – Elena me contou algumas coias ao seu respeito e uma delas foi que você e seu outro irmão sempre fizeram questão de incluir a irmãzinha de vocês em tudo e parecem gostar muito dela.
– Meus dois irmãos são as pessoas mais importantes da minha vida junto com a Elena e a Mind – deixei isso bem claro, pois era a mai pura verdade.
– Sei que você já tem a sua família e seus outros irmãos e que as coisas nunca serão iguais comigo, com o Klaus e o Kol – completou – Mas eu queria muito poder ser uma irmã para você.
Aquele comentário me pegou totalmente de surpresa. Já tinha dito milhares de vezes que não quero conviver com meu pai biológico, afinal, eu nunca precisei dele e nunca vou precisar; mas conviver com meus irmãos é algo completamente diferente.
– Mas se você não quiser, eu vou entender – falou, depois que eu não respondi nada – Nada disso deve ser fácil para você, então...
– Eu não disse isso, Rebekah – a segurei pelo pulso – Acredite, nada me deixaria mais feliz do que poder ser um irmãos mais velho para você.
– Isso é mesmo ótimo! — pareceu verdadeiramente animada nesse momento.
– Também estou feliz com isso – afirmei – Bom, eu não conheço o Kol e não posso dizer como será o meu relacionamento com ele, mas em relação ao Klaus acho que as coisas serão meio difíceis, por razões obvias.
– Claro que eu entendo isso – concordou – Será que eu posso te dar uma abraço, irmão?
– Mas é claro que sim – estiquei os braços na direção dela, que se aproximou de mim.
Ficamos assim por alguns instantes, até que Rebekah se afastou.
– Agora eu preciso mesmo ir – avisou – Não estava mentindo sobre precisar voltar para o trabalho.
– Claro, não tem problema – disse – Vou embora para Atlanta na segunda-feira, mas espero que a gente se veja antes disso.
Ela concordou, então eu dei um beijo no seu rosto antes que fossemos em direções opostas.
***
Quando cheguei a lanchonete do hospital, Elena e Mind estavam sentadas perto da porta. Nossa filha terminava de comer um hambúrguer ao lado tinha um copo de refrigerante cheio pela metade.
– Finalmente você chegou – Lena se virou na minha direção assim que eu me aproximei – Pela sua cara de felicidade parece que a sua conversa com a Rebekah foi boa.
– E foi boa mesmo – afirmei – Estou feliz por ter tido essa conversa com ela.
Então eu me sentei entre as duas mulheres da minha vida. Não demorou muito para, finalmente, irmos embora para casa.
***
Mind estava tão exausta que adormeceu na metade do caminho, então, quando chegamos a garagem do prédio, Elena abriu a porta do passageiro para pegar a nossa filha sem acordá-la.
Subimos para o apartamento e eu tive a minha terceira grande surpresa daquele dia. Lá estava Mikael sentado no sofá.
– Finalmente vocês chegaram – ele disse enquanto se levantava – Estava começando a pensar que horas vocês iriam chegar.
– O que você está fazendo aqui? — sei que minha pergunta soou um tanto grosso, mas essa foi mesmo a minha intenção – E aonde é que está a minha mãe? — não ouvia barulho vindo da cozinha, o que significa que ela não estava lá.
– A Edna abriu a porta para mim achando que podia ser vocês dois e não ficou muito feliz com isso – deu de ombros como se não falasse nada demais – Como não podia me expulsar daqui, preferiu ir lá para cima.
– Nós agradecemos a sua visita, Mikael – Lena começou a falar, provavelmente com medo de que eu fizesse qualquer besteira da qual pudesse me arrepender – Mas acho que esse não é o melhor momento para isso, depois de tudo que foi revelado.
– Acredite, Elena, minha querida, eu vim aqui em missão de paz – garantiu, levantando as suas mãos em sinal de rendição – Pensei que eu e você poderíamos ter uma conversa civilizada, Damon.
Olhei para ele por alguns instantes antes de ser virar para a minha namorada, que, apenas com o olhar, me incentivou a aceitar aquele “convite”.
– Tudo bem – acabei concordando, por fim — Mas apenas cinco minutos.
– Acho melhor eu levar a Mind lá para cima – Elena avisou, enquanto caminhava na direção das escadas – Não vou deixá-la dormir muito ou vai acabar ficando acordada a noite.
– Tem razão – concordei.
– É mesmo uma pena não ter encontrado a minha neta acordada, seria bom poder falar com ela – Mikael lamentou – Mas quem sabe em uma outra oportunidade.
– Sim, quem sabe em uma outra oportunidade – ela reforçou antes de subir.
Eu a acompanhei com o olhar até desaparecer no andar de cima e quando não pude mais ouvir os seus passos. Agora não tinha mais jeito, essa conversa teria que acontecer.
– Você parece ser um bom pai para ela – o homem começou a falar, fazendo com que e virasse na sua direção – Isso é mesmo ótimo.
– Miranda é minha única filha e eu a amo mais que tudo nessa vida – garanti – Não teria como isso ser de outra maneira.
– É claro – concordou – Família é poder, ensinei isso para os seus irmãos desde que eram pequenos – caminhou pela sala até chegar a um canto em que ficavam os porta-retratos e pegou um em que estava uma foto de Eve e Mind – Klaus já percebeu isso com o nascimento da filha e agora mais ainda com a chegada de mais uma, pelo menos eu espero que ela tenha percebido; Rebekah ainda não começou a sua família, mas tenho certeza de que isso não deve demorar para acontecer; e Kol, esse é um pouco complicado, embora ainda tenha esperanças de que posso dar um jeito nele quando decidir parar de gastar o meu dinheiro e voltar para casa.
– Não estou entendendo aonde você quer chegar com essa conversa – cruzei os braços e o encarei – Como disse antes, não tenho muito tempo para perder aqui.
– Família é poder – repetiu a frase que já tinha dito antes – Admito que não me importei com a gravidez da sua mãe na época e a abandonei antes mesmo de você nascer, mas fiz isso mais por medo do que por qualquer outra coisa; te assumir naquele momento destruiria o meu casamento e eu não poderia deixar que isso acontecesse.
– E por que não? — quis saber – O fato de você estar com a minha mãe significava que você não amava o suficiente a sua esposa, mas você preferiu ficar preso a uma casamento sem amor em vez de nós dois. Por que tudo isso?
– Eu era jovem, recém-formado e tinha acabado de assumir a empresa no lugar do meu pai. Sabia que para ocupar esse alto cargo precisava ser um homem de família; Esther era filha de uma antiga amiga de colégio da minha mãe e nos conhecíamos desde crianças, mas foi só então que começamos a namorar e não demorou muito para casarmos – sentou-se no sofá novamente enquanto explicava – Conversava muito com a sua mãe durante o tempo em que estivemos juntos, ela tinha várias expectativas, planos para a vida e me seguir por ai em jantares e viagens não era um deles. Por mais que, em algum momento, eu tenha desejado largar tudo, ficar com você e sua mãe para que nós três fossemos uma família, sabia que esse não seria o melhor para ela e seria egoísmo da minha parte fazer com que ela fosse infeliz.
– Então é isso? — assim que ele terminou, voltei a falar – Você nos abandonou para que a minha mãe não fosse infeliz? Inacreditável... — balancei a cabeça negativamente.
– Soube que ela é feliz com o marido – continuou como se eu não tivesse dito nada – E sei também que ele é um ótimo pai para você.
– O pai que você não quis ser para mim – completei – Por sorte, minha mãe não se deixou abalar por um relacionamento fracassado e conseguiu reconstruir a vida; conheceu um cara legou, se casou com ele e teve filhos. Pode até ser loucura, mas agradeço pelo que vocês fez, pois se não fosse assim eu não teria a família maravilhosa que eu tenho.
– Só queria te contar exatamente o que foi que aconteceu e como foi que eu e sua mãe acabamos nos separando – seu tom de voz era bem calmo – Para que não ficasse mais nenhum mal entendido.
– Meio tarde demais para querer que não fique nenhum mal entendido – ri nervosamente – O que você vai sugerir agora? Que a gente recomece e você vire um pai dedicado que não quis ser por mais de 30 anos?
– Não podemos fingir que nada disso aconteceu, mas podemos recomeçar – foi então que ele sugeriu – Nada disso vai ser fácil, mas podemos conseguir se tentarmos. Tenho certeza de que se eu conversar com os seus irmãos, eles vão pensar da mesma maneira.
– A Rebekah esteve no hospital antes de irmos embora e eu conversei com ela – decidi ser totalmente sincero – Concordei em convivermos e para que eu tente ser um irmão mais velho para ela; talvez também consiga ter alguma convivência com o Klaus e o Kol, mas espero que essa seja a minha única convivência com a família Mikaelson.
Esperei que ele falasse alguma coisa, mas Mikael permaneceu em silêncio. Agora era a minha vez de falar tudo que eu pensava, também merecia isso.
– Você totalmente sincero com você agora: eu tenho uma mãe maravilhosa, um pai incrível que me criou mesmo eu sendo filho de outro e dois irmãos que são muito importantes para mim; o relacionamento dos meus pais foi a minha base para construir a vida que pretendo ter com a Elena e o tipo de pai que eu espero ser para a Miranda e outro filho que e venha a ter – comecei a falar aquilo tudo bem rápido, queria acabar com aquilo o mais rápido possível – Essa é a minha família. Não quero nem preciso de um pai que abandonou a minha mãe grávida e que agora decidiu aparecer querendo ser importante na minha vida.
– Então essa é a sua palavra final? — perguntou, por fim – Você não aceita conviver comigo, é isso?
– Exatamente – disse – E agradeceria se você fosse embora agora. É mais que óbvio que a minha mãe está incomodada com a sua presença e a própria Elena já disse que não é uma boa ideia você ficar aqui.
Fui até a porta e abri para ele, que veio logo atrás de mim.
– Se você mudar de ideia, sabe aonde me procurar — avisou – E você ficar muito feliz se você fizer isso.
– Não vou mudar de ideia – garanti – Eu não sou um Mikaelson e nunca vou ser; sou um Salvatore e tenho muito orgulho disso.
Ele saiu e fechei a porta com toda a força e passei a mão pelo cabelo. Parecia que eu tinha acabado de tirar um peso enorme das minhas costas e isso não poderia ser melhor.
***
Eu e Lena passamos o restante do dia paparicando nossa princesinha. No dia seguinte ela foi para a nossa cama logo cedo, então passamos a manhã e grande parte da tarde assistindo desenhos na televisão, um programa perfeito para o domingo preguiçoso.
– Oi, meu filho... — cheguei na sala e encontrei minha mãe sentada no sofá lendo um livro – Aonde estão a Elena e a Mind?
– Dormiram no meio do filme que estávamos vendo – expliquei, fazendo com que ela sorrisse – Foram dias tão cansativos para todos nós que eu achei melhor deixá-las descansando.
– Faz mesmo muito nem, meu filho – concordou – Ainda sobrou aquele bolo de chocolate que eu fiz ontem, quer que eu pegue um pedaço para você.
– Não precisa, mãe, não estou com fome – garanti enquanto me sentava ao lado dela – Só vim ficar um pouco com você, não conversamos muito depois de toda essa história.
– A Elena me contou sobre a sua conversa com a Rebekah ontem – disse – Fico feliz com isso, da mesma maneira que você não tem culpa de nada, ela e os irmãos também não tem.
– Sei disso – afirmei com a cabeça – Foi por isso que eu aceitei conversar com ela. Afinal, Rebekah é minha irmã.
– E como vai ficar a sua situação com o Klaus? — quis saber – Quero dizer, talvez o clima entre vocês fique meio estranho, pelo menos no começo.
– Sinceramente, não sei como é que vão ser as coisas entre nós dois, acho que preciso de um tempo para pensar melhor em toda essa situação – revirei os olhos – Dois irmãos que disputaram o amor da mesma mulher, parece até enredo de série de televisão.
– Vocês dois são adultos e tenho certeza de que vão conseguir chegar em um acordo – garantiu – Sem contar que tem duas crianças no meio dessa história que também não tem culpa de nada.
Ela tinha razão, Eve e Mind não tem culpa dessa família louca a que pertencem. As duas sãos irmãs (e primas também, mas isso não vem ao caso agora), se amam mais que tudo na vida e merecem que os pais se deem bem também.
– Não perguntei antes porque não sabia se você estava pronto para falar – continuou – Mas e quanto a conversa que você teve com o Mikael?
– Foi uma conversa boa também – afirmei – Ele disse o que eu precisava dizer e eu fiz a mesma coisa.
– Olha, Damon, não quero que você se arrependa depois por não conviver com o seu pai biológico – avisou – Não se influencie por mim, são situações completamente diferentes.
– Mãe, eu já disse isso milhares de veze, meu pai se chama Giusepe Salvatore – lembrei – Isso não mudou só por que eu soube quem é o meu pai biológico.
– Você quem sabe – levantou-se depois de dar um suspiro – Vou fazer um chá para mim, se quiser eu faço um para você também.
Eu ia dizer que não no momento em que a campainha tocou.
– Vou deixar você atender a porta então – avisou – Se precisar de mim e só me chamar.
Concordei e fui até a porta. E lá estavam Klaus e Eve.
– Pensei que você só fosse trazê-la a noite – comentei – Foi o que a Elena comentou comigo mais cedo.
– Eu ia trazê-la só mais tarde, mas a Eve quis vir logo para poder ver a irmã – explicou – Não parou de falar disso desde ontem quando soube que a Miranda estava bem.
– Aonde está ela, doutor Damon? — ela perguntou, parecia mesmo muito feliz.
Me virei no momento em que ouvi passos vindo da escada, era Elena, que apesar de ainda estar com cara de sono parece bem acordada.
– Ouvi o barulho da campainha e vim ver quem era – avisou quando chegou ao último degrau.
– Mãe! — Eve correu até ela, que a abraçou – Aonde é que está a Mind? Quero tanto falar com ela!
– A Mind está lá no meu quarto dormindo – respondeu – Deixa ela descansar, depois vocês duas podem aproveitar uma a outra. Tudo bem?
– Tudo bem – concordou, apesar de ter ficado um pouco triste.
– Eve, princesinha, o que foi que nos combinamos no caminho até aqui? — Klaus comentou, sendo bem sincero, já tinha até esquecido da presença dele aqui.
– Que assim que chegássemos em casa era para o meu quarto enquanto você conversa com a mamãe e o com o doutor Damon – disse monotonamente, como se já tivesse repetido milhares de vezes antes – Pode deixar, eu já estou indo.
Então ela subiu as escadas e Elena se aproximou, parando ao meu lado e olhando para o ex-marido.
– Você pode entrar, Klaus – avisou – Afinal, se você tem algo para nos falar, tenho certeza de que não quer falar aqui na porta.
– Na verdade, eu não vou demorar muito – explicou – Avisei para a Halley que não iria demorar muito aqui.
– Então... — o incentivei a continuar.
– Desculpem-me, vocês dois – o olhei totalmente confuso e tenho certeza de que Lena está fazendo a mesma coisa – Quero me desculpar por tudo que eu fiz: obrigar a Elena a voltar comigo quando soube da gravidez, fazer com que todos acreditassem que eu era o pai do bebê, acabar com o relacionamento de vocês por quase quatro anos e, principalmente, pela maneira como eu sempre tratei a Mind.
– Uau! — foi tudo que eu consegui dizer – O que te fez mudar de ideia a respeito disso depois de todo esse tempo?
– Em primeiro lugar, descobrir todos os podres do meu pai, não quero ser igual a ele e para isso, preciso mudar várias das minhas atitudes – deu de ombros – Sem contar que eu conversei com a Eve e ela me disse o quanto você sempre tratou ela bem e da mesma maneira que trata a Miranda. Percebi que fui completamente injusto por ter tratado a filha de vocês daquela maneira, foi minha escolha criá-la, sem contar que ela não tem culpa do meu casamento com a Elena não ter dado mais certo.
– Obrigado pelo seu pedido de desculpas, Klaus – Elena apertou a minha mão enquanto falava – Tenho certeza de que também vai ser muito importante para a Eve ouvir isso.
– Eu falo com ela uma outra oportunidade, quando não estiver dormindo – avisou – Mas isso quer dizer vocês aceitam o meu pedido de desculpas.
Minha namorada estava olhando diretamente para mim nesse momento. O que ela disse já respondia aquela pergunta, agora faltava eu também dar a minha opinião.
– Mas é claro que eu te perdoou – garanti – Sem nenhum ressentimento, certo?
– Muito obrigado, irmão, é bom te ouvir falando assim – aproximou-se e deu um tapinha nas minhas costas – Bom, acho que agora é melhor eu ir embora.
– Espera, Damon – Lena o chamou antes de que virasse – Só queria te dizer que, apesar da maneira como tudo acabou, tivemos vários bons momento juntos, sem contar que temos uma filha maravilhosa. E eu vou sempre guardar isso tudo com carinho nas minhas lembranças.
– Também vou guardar isso com muito carinho – garantiu.
Então Klaus foi embora e nós dois ficamos observando os número do elevador até que ele chegasse ao térreo.
Depois de tudo o que aconteceu as coisas estão começando a entrar nos eixos e indo para os seus lugares, isso muito importante. Sinto como se todos o sofrimento está começando a valer a pena.
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