Amores Perdidos
3 Capitulo II
Notas iniciais
“Aqueles que nos amam nunca nos deixam de verdade”.( Sirius Black – “Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban”).
A noite estaca fria lá fora. O vento era cortante, e atravessou o corpo de Robin quando o loiro saiu pela porta do bar, mas ele não se importou. Nada mais importava. Nada fazia sentido. Sua cabeça girava, e ele tinha vontade de gritar o nome dela.
Queria dar meia volta e estar com ela de novo. Queria contar tudo a ela, gritar para que ela o ouvisse, para que se lembrasse, mas não fez nada disso. Não refez seus passos para dentro do bar. Não a viu de novo. Não falou com ela. Simplesmente ficou ali, parado no meio da calçada, sentindo que seu coração explodia e milhões de pedacinhos, feito um vaso de porcelana que alguém joga ao chão e assiste enquanto ele se quebra.
O que estava acontecendo? Porque ela não o reconhecera? Porque não se lembrava dele? Ou deles? As perguntas se multiplicavam na mente de Robin, e ele não era capaz de encontrar nenhuma resposta. Sentia-se completamente perdido, como se o chão tivesse sido tirado de seus pés.
As lágrimas, de dor, raiva e desespero, chegaram logo, e o loiro não fez nada para impedi-las de rolar por suas faces. Deixou que elas caíssem, quentes e salgadas. Chorou por Regina. Chorou por si mesmo e pelas memórias perdidas. Enquanto seus olhos ardiam, vermelhos e irritados, seu corpo desabou contra a parede de uma loja qualquer, e ele se permitiu ficar ali, ainda sem conseguir pensar no que fazer em seguida.
Regina
Alguns segundos se passam. Alguns minutos talvez. E eu continuo exatamente onde estava quando recebi o abraço daquele homem estranho, parada no meio do caminho entre a porta e o balcão do bar.
Estou tentando entender o que aconteceu, mas simplesmente não consigo. Sim, provavelmente ele me confundiu com alguém, afinal, não me lembro de conhecê-lo, e eu não costumo me esquecer das pessoas. Ainda assim...seu abraço não sai da minha cabeça. Parecera tão sincero, como se ele realmente estivesse feliz em me ver. Como se estivesse esperando por aquele reencontro a muito mais tempo do que eu possa imaginar.
— Ei moça, vai beber alguma coisa? – sou arrancada de meus devaneios pela voz do barman, que parece ter notado que já estou a algum tempo parada no meio do estabelecimento. Fazendo o máximo para me recompor, completo a distancia que me separa do bar, e peço uma água com limão. Não era exatamente o que eu fora buscar quando decidira entrar naquele bar, mas teria que servir, já não tenho animo ou disposição para beber nada alcoólico.
Meu celular vibra, e quando o pego, vejo o nome de Daniel no visor. Aquela é a quinta ligação dele desde que bati a porta de casa e ele não veio atrás de mim. É a quinta ligação desde nossa discussão, e a verdade é que não estou com nenhum pingo de vontade de falar com ele agora, porque sei que se fizer isso, vamos discutir de novo. E simplesmente já estou farta de discussões, ao menos por hoje. Por isso, aperto o botão vermelho, para ignorar a chamada, e coloco o celular de volta onde estava.
Não consigo entender porque aquilo mexeu tanto comigo. Mas aqui estou eu, remexendo o canudo de minha agua com limão sem ter tomado um único gole, minha mente de volta aqueles olhos azuis que pareceram ficar confusos e doloridos com minha reação. Quem era aquele homem afinal? Quem seria a pessoa que deveria ter recebido aquele abraço ao invés de mim?
As perguntas borbulhavam em minha mente, e eu não consigo encontrar nenhuma resposta, o que só serve para me deixar ainda mais irritada. Será que não tinha como esse dia ficar pior? Porque eu simplesmente não conseguia esquecer, deixar aquele incidente para lá e se concentrar nos meus problemas reais?
Eu tinha brigado com a minha mãe, mas isso não era exatamente algo novo para mim. Tinha discutido com meu namorado por conta de sua maneira possessiva e controladora, o que infelizmente, também estava se tornando uma rotina. E apesar disso, apesar de meu dia ter sido uma droga completa, lá estava eu, com a mente perdida naqueles olhos azuis e no significado daquele abraço, que apesar de eu ter refutado logo nos primeiros instantes, tive o impulso quase incontrolável de corresponder.
Duas horas depois....
A porta do bar se abre, e ele a vê sair. Mesmo no escuro, consegue reconhece-la, saber cada traço dela, e vê-la de novo é doloroso e alegre ao mesmo tempo. Não, ele não se enganara. Não se confundira. Ele a conhecia bem demais para cometer um erro tolo como esse.
Por um momento maluco, Robin pensa em se levantar de onde está e ir até ela. Quer conversar com Regina, senti-la perto de si de novo, mas pela segunda vez naquela noite, ele não faz o que seu coração grita, implorando. Não. Ele permanece exatamente onde está, e a vê se afastar a passos largos para longe do bar. Para longe dele.
Para onde será que ela vai? Onde mora agora? Quem será que a estará esperando quando ela finalmente chegar em casa? As perguntas, suas mais novas companheiras de solidão, voltam a borbulhar em sua mente, e a curiosidade sobre a pessoa que Regina se tornou nesta vida sem memorias aumenta.
Ele quer conhece-la, saber quem ela é agora, descobrir o que mudou e o que permanece igual. Sim, ele se dá conta disso no momento em que essas perguntas surgem em sua mente, não importa quanto ela tenha mudado. Não importa que ela seja uma pessoa completamente diferente de todas as anteriores. Ele sabe que a sua Regina, a mulher por quem ele se apaixonara incontáveis vezes durante todos aqueles séculos, ainda estava ali, e ele iria lutar por ela, mesmo que para isso tivesse que reconquista-la, como se fosse à primeira vez.
Com esse pensamento, o loiro se levantou da calçada onde passara as ultimas duas horas sentado e começou a andar apressado, na direção contraria aquela que sua amada morena havia tomado.
— Vou cumprir a promessa morena. Não se preocupe, vou te encontrar de novo. – falou baixinho, quando virou a cabeça para olha-la uma ultima vez antes de seguir seu caminho. Se queria respostas, sabia exatamente onde deveria procurar por elas.
Robin
Ele não deveria estar me esperando. Nem deveria saber de minha vinda, mas quando chego à porta de tela da casa dele, o encontro sentado em uma cadeira de balanço na varanda da frente, fumando um longo cachimbo. Seus olhos, dois pontos tão negros quanto besouros, estão fixos em mim.
— Eu estava me perguntado quanto tempo mais você iria demorar para aparecer. – a voz dele era baixa e contida. O mesmo sotaque de sempre, arrastado e enrolado, o que dificultava entender o que ele dizia.
Suas palavras, no entanto, fazem com que meus passos se percam antes que eu chegue até ele. Paro na entrada, meu coração acelerando de imediato, repentinamente temeroso do que estava por vir.
Quanto tempo eu iria demorar para aparecer? O que aquele velho insolente queria dizer com isso? Será que ele sabia do que estava acontecendo com as memórias de Regina? Será que ele sabia do que estava acontecendo conosco? Ao pensar naquelas perguntas, me dei conta de quanto à resposta era obvia. É claro que ele sabia de tudo que acontecia. Ele sempre sabia de tudo, e fora justamente por isso que eu decidira procura-lo.
— Porque ela não se lembra? Porque tudo parece estar diferente desta vez? Porque demorou tanto tempo? – as perguntas explodiram por minha boca antes que eu pudesse detê-las, meu tom de voz ficando cada vez mais aflito. Precisava saber de tudo. Precisava de respostas. Mais do que tudo, precisava saber como fazer para ajudar Regina a recuperar as memórias.
— Você continua sendo a mesma pessoa ansiosa de sempre não é? – foi à resposta dele, que em contrapartida ao meu nervosismo, pareceu ficar cada vez mais calmo e tranquilo. – De qualquer forma, eu não tenho respostas para todas as perguntas que me trouxe, nem para o restante delas, que está girando em sua mente sem que você as tenha dito em voz alta. – continuou, parecendo não se importar com minha reação as suas palavras.
— O que pode me dizer então? – perguntei, exasperado. Se aquele velho não tinha as respostas de que eu precisava, quem teria?
— Não sei o porquê ela perdeu as memórias. Mas sei de uma coisa: o amor não é construído somente por recordações, e o sentimento, o amor dela por você, continua intacto. Tudo que você tem que fazer é mostrar isso a ela. Quem sabe se o que os dois precisam não são de novas memórias? – com aquelas palavras, ele voltou a fumar seu longo cachimbo e desviou os olhos para longe de mim, fixando-os na paisagem a frente, como se estivesse à espera da próxima pessoa que viria atrás dele a procura de respostas.
Alguns segundos se passaram, e eu fiquei ali, ainda o encarando, como se esperasse que ele me dissesse mais do que apenas um punhado de palavras sobre recordações. Mas como era de se esperar, ele não disse mais nada, simplesmente agiu como se eu não estivesse mais ali. O que de fato aconteceu depois que eu finalmente percebi que não iria conseguir arrancar mais nada dele, mesmo que tivesse toda certeza de que ele sabia bem mais do que estava me contando.
Por fim, resignado, virei às costas e segui na direção contraria a que ficava a casa dele. O dia estava finalmente clareando, e enquanto andava, eu observava os raios de sol que pareciam ganhar vida como em um passe de mágica, tingindo o céu azul de tonalidades arroxeadas. Era um espetáculo bonito, digno de uma fotografia, e não pela primeira vez naqueles longos anos de solidão que minha vida se tornara, eu desejei que Regina pudesse estar assistindo aquela cena também.
Barcelona, 1830.
— Como será que é para eles? – a voz de Regina chegou aos meus ouvidos, e eu abri os olhos de novo, virando a cabeça para olhar para ela.
Estávamos sentados em um banco de praça, perto do cais. Era fim de tarde, e tudo estava na mais perfeita calmaria. Quando fitei seus olhos castanhos, o que encontrei ali não foi nada além de uma tempestade curiosa. Ela sempre fora assim, curiosa. Isso nunca mudara em todas as nossas muitas vidas, e era um traço de sua personalidade que eu adorava.
— O que você quer dizer? Eles têm vidas tão normais quanto as nossas com exceção de que não estão condenados a um ciclo ininterrupto de vida e morte e....- eu não completei a frase. O que poderia dizer? Que eles não tinham memorias de tudo que haviam vivido, assim como eu e ela tínhamos? Que eles tinham oportunidade de recomeçar do zero, quando tudo que restara para nós era tentar mais uma vez, lutar contra um final já selado, um destino que já havia sido traçado...
— Só que não tem as memórias. – ela completou a frase por mim, sabendo perfeitamente bem o que meu silencio significava.
— Não sei. Por um lado deve ser bom não é? Poder recomeçar do zero, sem lembrar dos erros do passado? – falei, mais para mim mesmo do que para ela.
Regina não respondeu de imediato. Permaneceu em silencio por alguns instantes, como se estivesse analisando o significado de minhas palavras. Por fim, depois de um longo suspiro que mostrava cansaço e uma pitada de nervosismo, ela voltou a falar, sua voz não saindo mais alta que um sussurro. – Você iria gostar? Se nós fossemos com o resto do mundo? Pessoas sem memória?
Eu não sabia o que responder. É claro que eu gostaria que as coisas fossem diferentes para nós. Mas ficar sem memorias? Sim, eu sei que sentimentos, que amor, não depende de memorias, mas ainda assim...que garantias eu teria de que, sem as recordações de tudo que viveram, eu e Regina não corríamos o risco de nos perdermos um do outro?
Só de imaginar aquela possibilidade, meu coração se apertou. E se, em uma realidade sem lembranças, nossos corações procurariam um pelo outro? Ou seriamos apenas dois estranhos, que se cruzam na rua sem nem mesmo notar ou se importar que o outro esteja do lado?
Não. Eu não podia imaginar algo assim. Mesmo que vivêssemos em um ciclo interminável, mesmo que sofrêssemos por incontáveis vezes com partidas e reencontros, eu preferia aquilo a ver estranheza e desconhecimento nos olhos castanhos de minha morena, e foi exatamente isso que disse a ela.
— Não. Eu não gostaria de viver assim, se isso significasse que seriamos estranhos um para o outro. – falei, afagando suas costas enquanto ela se aproximou mais de mim, pousando sua cabeça e meu ombro e rindo baixinho.
— Você sabe que isso não é possível, não sabe? – Regina voltou a perguntar, erguendo-se novamente e fitando-me com seus olhos castanhos tempestuosos.
— O que não é possível? – questionei, embora suspeitasse já saber a resposta.
— Que nós nos tornemos estranhos um para o outro. Mesmo sem lembranças, isso não aconteceria. – foi à resposta dela, aproximando seu rosto do meu enquanto falava bem baixinho, como se estivesse contando um segredo.
— É mesmo? Como você tem tanta certeza hein? – minhas palavras saíram atropeladas pelo riso, e eu envolvia a cintura dela, puxando-a para mais perto de mim.
Nossos olhares estavam conectados, presos e perdidos um no outro, como se o mundo todo tivesse sido apagado, e só restássemos nós dois, as ultimas cores de uma tela em branco. Azul e castanho. Castanho e azul.
— Porque se isso acontecer, não poderemos estar vivos. Como vamos viver sem corações para baterem dentro de nós? Se nos separarmos assim, meu coração e o seu estarão perdidos, e ninguém vive sem um coração. – Regina respondeu em um fio de voz, um sorriso brincalhão dançando em seus lábios.
Dias atuais...
Regina
O sol bate contra as janelas, ferindo meus olhos cansados. Estou na sala, sentada em uma poltrona, e meus ossos reclamam da posição incomoda em que passei as ultimas horas. Aquilo se tornou uma triste rotina para mim. Passar as noites em claro e acabar adormecendo na poltrona da sala, vencida pela exaustão.
A porta do quarto que também é meu, mas no qual não tenho a menor vontade de entrar no momento, esta fechada, e não me surpreendo com isso. Daniel nunca foi o tipo de pessoa que acorda cedo, e isso não vai mudar agora. Mesmo que tudo a sua volta esteja desmoronando, ele vai continuar a dormir, como se o mundo fosse esperar pacientemente que ele acordasse para começar a despejar seus problemas e responsabilidades.
Levanto devagar, estalando minhas costas doloridas, e vou até a janela, abrindo as cortinas e deixando que a luz do sol preencha todo o aposento. O céu está claro hoje, tão azul quanto os azulejos de uma piscina, ou as aguas do mar....ou ainda, tão azul quanto os olhos dele. Sim, o homem do bar. O homem do abraço.
Hoje faz uma semana desde que entrei naquele bar e recebi um abraço inesperado. Faz uma semana desde que o vi pela primeira e pela ultima vez, e por mais que isso possa soar ridículo e estranho, afinal não faço a menor ideia de quem ele seja, a verdade é que não consigo expulsa-lo de minha mente.
Loucura? Talvez. Reflexo de meu relacionamento desastroso? É uma boa possibilidade também. Seja qual for a resposta, o fato é que não consigo tirar aqueles olhos azuis, tão profundos quanto qualquer um dos oceanos, da minha cabeça. Toda vez que deixo minha mente vagar, ela acaba encontrando caminho para eles novamente, e isso é realmente estranho, até mesmo um pouco assustador.
Afinal, tudo que eu tivera com ele foi um abraço, um abraço que nem mesmo era destinado a mim. Porque então aquele homem mexera tanto comigo, a ponto de virar minha cabeça daquela forma? Eu provavelmente nunca iria vê-lo de novo, e no fundo de minha mente, me pergunto se ele já encontrou, ou se um dia iria encontrar, a mulher para quem aquele abraço que eu roubei se destinava.
Ouço a porta do quarto se abrir, mas não me viro para ver Daniel se aproximar. Nós brigamos de novo, e não estou com vontade de ouvir suas desculpas vazias. Não estou com disposição para ouvir nada do que ele tenha a dizer, para ser bem sincera.
Parecendo ignorar completamente nossa discussão da noite anterior, ele se aproxima de onde estou, e me abraça pela cintura, beijando meu pescoço. Antes de toda aquela rotina de discussões, eu teria gostado de seu gesto carinhoso, mas hoje, esse comportamento só faz me irritar.
— Bom dia amor. – ele diz, com uma voz um pouco grogue por conta do sono. – Você acordou cedo hoje né? Aconteceu alguma coisa?
Antes de responder, eu me livro de seu abraço, sentindo a irritação crescer dentro de mim novamente, como a chama de uma vela que se expande cada vez mais. Se aconteceu alguma coisa? É claro que aconteceu, e ele sabe perfeitamente bem disso. Só está se fazendo de desentendido, o que só colabora para que meu humor piore. Qual a dificuldade que ele tem em enfrentar os problemas e tentar resolvê-los, ao invés de fingir que nada de ruim está acontecendo?
— Eu não acordei cedo Daniel. Nem mesmo dormi na mesma cama que você hoje, e como de costume, você nem percebeu. – respondi, afastando-me dele, e indo na direção do quarto. Preciso de um banho. Preciso trocar aquela roupa amassada. Preciso sair. Preciso de ar urgentemente, e ali dentro, me sinto sufocada.
— Ei, espera. Porque você está tão irritada? O que eu fiz desta vez? Não vai me dizer que ainda é por conta de nossa pequena discussão de ontem? – Daniel voltou a falar, pegando em meu braço antes que eu pudesse me afastar mais e fazendo com que eu virasse para encara-lo.
Pequena discussão? Então era isso que a noite passada tinha sido para ele. Apenas mais uma discussão de casal, sem importância alguma. Que ótimo. Realmente muito bom saber que todos os gritos e acusações que havíamos trocado no dia anterior, ou melhor, que tínhamos tocado nos últimos tempos, não significavam nada para ele. Nosso relacionamento estava definhando, e Daniel parecia não se dar a menor conta disso. Ou talvez desse, e simplesmente não se importasse.
— Não Daniel. Não é só por causa da nossa discussão de ontem que estou irritada. Estou cansada. Cansada de discutir e discutir e nós continuarmos onde estamos. Cansei de lutar e ver o barco afundar. Não posso levar nossa relação nas costas sozinha, e você não parece estar muito a fim de colabora. – soltei, exasperada. Tudo que eu mais queria naquele momento era por fim aquela conversa. Queria ficar sozinha. Respirar um pouco, colocar minha cabeça no lugar.
— Eu não sei do que você tanto reclama, sabia? Vive dizendo que carrega a nossa relação, mas a verdade é que sou eu quem tem que te aguentar. Ou você acha mesmo que é uma pessoa fácil de conviver Regina? A dona da razão, a irritante sabe tudo. Você se acha superior a todo mundo não é? – a voz de Daniel já não continha nenhum tom de doçura ou carinho. Era dura e irritada. Finalmente ele estava mostrando o que verdadeiramente sentia sobre toda aquela situação desgastante que estávamos vivendo.
— Chega Daniel. Não vou discutir com você de novo, não agora. Nós dois estamos nervosos, completamente exaustos de tantas acusações. De nada vai adiantar ficarmos gritando um com o outro. Eu vou sair, respirar um pouco de ar puro e pensar em tudo que disse e ouvi. Mais tarde conversamos. – falei, tentando ao máximo manter um tom de voz firme, embora sentisse as lágrimas enxerem meus olhos, reflexo da ferida que as palavras de Daniel haviam reaberto.
Ele não respondeu, apenas continuou me encarando, sem soltar meu braço. Enquanto os segundos se passavam, acelerados e indiferentes, tudo que eu enxergava nos olhos dele era raiva e irritação. Não havia ali nenhum traço de arrependimento ou tristeza, nem amor eu conseguia encontrar, e não pela primeira vez, eu me perguntei o porque de continuar com aquilo, quando estava claro que nenhum de nós estava feliz.
— Me larga Daniel! Nós conversaremos mais tarde, de cabeça fria. Mas agora eu preciso sair. – tentei mais uma vez, desesperada para me ver fora do alcance daquele olhar sem emoção que ele me lançava.
O silencio voltou a perdurar entre nós, pesado e repleto de mágoas, mas o aperto de Daniel em meu braço afrouxou, e eu consegui me livrar de sua mão. Sem olhar para trás, querendo apenas sair daquele apartamento o mais rápido que pudesse, peguei meus sapatos que estavam perto da porta de entrada e sai, batendo a porta atrás de mim.
Assim que me vi sozinha, permiti que as lágrimas rolassem livremente. Não tinha mais ninguém para me ver chorar. Não tinha ninguém que realmente se importasse com isso, então não precisava me fingir de forte. Não precisava bancar a durona, a superior, como Daniel dissera.
Robin
Estou caminhando de novo, o que não me surpreende. Caminhar é tudo que tenho feito nos últimos dias no fim das contas. Ando sem rumo, sem verdadeiramente me importar onde meus pés me levam, na esperança de que em minhas andanças a sorte me sorria e eu posso esbarrar com ela novamente.
Agora já faz uma semana, e eu me pergunto onde ela está. Se está bem, se ainda se lembra de mim, o que acho pouco provável. Não. Provavelmente ela se esqueceu do estranho que a abraçou em um bar qualquer. Aposto que pensou que eu estava bêbado, ou maluco, ou que simplesmente a tivesse confundido com alguém.
Passo na frente de um café e sinto meu estomago reclamar. É claro que sinto. Faz horas que não como nada, e tenho passado grande parte do meu dia (aquela que não tenho absolutamente nada para fazer) andando pelas ruas a procura de Regina. Acabo cedendo aos apelos de meu estomago vazio e refaço meus passos, parando de frente para a convidativa fachada do café.
Estou prestes a esticar a mão e abrir a porta para entrar no café quando a vejo. Está sentada na ultima mesa ao lado da janela. Tem uma xicara de alguma bebida na mão, conhecendo como a conheço, posso apostar que se trata de um café bem forte, ou então chocolate quente. Ela sempre foi louca por chocolate.
Sua expressão está fechada, triste. Não há sinal de seu luminoso sorriso em lugar algum, e seu rosto está riscado pelas lágrimas. Sua aparência é de cansaço, e eu me pergunto o que ou quem estaria causando toda aquela tristeza. Ao vê-la assim, parecendo tão perdida, meu coração se aperta, e meu maior desejo é correr para dentro daquele café e abraça-la. Prometer a ela que vai ficar tudo bem, que vou cuidar dela. Por mais que queira fazer isso, no entanto, sei que não posso.
Ela não me conhece nesta vida. Não se lembra de mim, e mais um abraço surpresa de um estranho não é o que ela precisa no momento. Enquanto a observo, Regina coloca uma mecha de seu cabelo atrás da orelha e continua a segurar a xicara, sem tomar um único gole de seu conteúdo. Seu olhar esta perdido, como se ela estivesse em outro lugar, muito longe daquela mesa de café no qual estava sentada.
Sem ter um plano formado para me aproximar, sem saber se aquela é realmente a atitude certa a tomar, eu giro a maçaneta e abro a porta. O ar quente e cheiroso da cafeteria invade meus pulmões, um sininho indicando a minha entrada. Alguns clientes erguem a cabeça para olhar o recém chegado, mas Regina parece não ter se dado conta de minha presença, permanecendo perdida em seus devaneios.
Olhando mais uma vez para sua mesa, percebo que ela não pediu nada para comer. Vou até o balcão e peço duas fatias de torta de maçã. Esse sempre foi o sabor favorito dela, e espero que o doce possa me dar uma chance de me aproximar dela, de conversar com ela e tentar ajuda-la. Meu coração doí ao vê-la tão triste daquela forma, e penso que talvez um pedaço de torta possa trazer ao menos um mínimo sorriso aos seus lábios.
Quando o pedido fica pronto, pego as duas fatias de torta e me aproximo da mesa na qual ela está sentada. A morena está tão absorta em seu próprio mundo que não se dá conta de minha aproximação até que eu esteja a sua frente, quando enfim me olha, parecendo espantada em me ver ali.
Um sorriso genuíno se abre em seus lábios quando seus olhos encontram com os meus, e por um instante maravilhoso, parece que tudo voltou a ser como antes. Por alguns segundos, penso que ela se lembrou de tudo, que aquela ultima semana foi apenas um pesadelo, um sonho ruim, e eu me perco na imensidão castanha que são seus olhos.
Antes que a magia se quebre, eu começo a falar: — Aceita um pedaço de torta como um pedido de desculpas pelos meus maus modos de alguns dias atrás, milady?
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