Amores Perdidos
4 Capitulo III
Notas iniciais
“Às vezes, no silêncio da noite
Eu fico imaginando nós dois
Eu fico ali sonhando acordado
Juntando o antes, o agora e o depois.”
Regina
Ergo o olhar na direção daquela voz. Forte e melodiosa, exatamente como eu me lembrava de nosso breve encontro no bar. Exatamente como eu escutara em minha mente durante toda aquela semana, embora tivesse me esforçado para ignorar, para fingir que não fora nada demais, apenas o acaso me pregando uma peça.
Contra todas as probabilidades, no entanto, ele está realmente ali, parado diante de mim com dois pedaços de torta na mão e um sorriso galante brincando nos lábios. Agora, sobre uma luz diferente da fraca iluminação que havia no bar aquela noite, ele parece ainda mais bonito.
Meu coração acelera, parecendo entender muito mais do que minha pobre mente. Ele falou comigo, e continua de pé, a espera de minha resposta, mas não consigo fazer as palavras saírem. Abro a boca, com a clara intenção de dizer alguma coisa, mas nenhum som sai, e eu permaneço ali, perdida no azul profundo que são os olhos dele, tentando desvendar os segredos que estão escondidos, os tesouros que são guardados naqueles oceanos turbulentos.
Alguns segundos se passam, e uma sirene parece berrar em meu cérebro, tentando desesperadamente fazer com que eu desperte de meu súbito transe. Finalmente consigo falar, desejando imensamente que o tempo tenha se paralisado e que ele não perceba minha situação atônita, mas tudo que sai de minha boca é uma palavra desconexa, como se meu cérebro estivesse se adaptando, se reorganizando diante daquela nova situação e precisasse de alguns momentos de concentração. – Eu....
Antes que eu consiga me forçar a completar a frase, ele volta a falar: — Aceite, por favor. Te devo um pedido de desculpas depois do susto que te fiz passar no outro dia. – disse, abrindo um largo sorriso na minha direção. Um sorriso de covinhas, que sem que eu possa entender exatamente porque, fazem meu coração se aquecer.
— Fique a vontade. – digo simplesmente, surpresa por não me incomodar que ele perceba meu estado lamentável. Minha noite de sono não fora das melhores, e as lágrimas também não colaboravam com minha aparência, mas não me importei com isso, e permiti que ele me entregasse uma das fatias de torta enquanto se sentava na cadeira que estava de frente para a minha, do outro lado da pequena mesa.
— Então...me desculpe pelo outro dia. Eu...confundi você com uma outra pessoa. Uma pessoa que a muito não vejo, e que me faz uma imensa falta. A propósito, nem cheguei a me apresentar não é? Meu nome é Robin. – o homem dos olhos de oceano retoma a fala, e por algum motivo sinto o peso de suas palavras, como se pronunciar cada uma delas estivesse sendo uma tarefa penosa para ele.
— Regina.- digo, embora tenha certeza de que ele já sabe meu nome. -Não se preocupe, confundir às vezes acontece. – respondo, repentinamente sentindo vontade de fazer com que ele se sinta melhor, vontade de apagar aquela expressão entristecida que tomou conta de seu semblante.
Volto meus olhos para a fatia de torta que está a minha frente, sentindo que minhas bochechas se esquentavam, vermelhas por conta do olhar intenso que aquele homem, que agora sei chamar-se Robin, lança em minha direção. Maçã. Minha favorita. O sorriso volta aos meus lábios, ao perceber a coincidência da situação.
— Você acertou, torta de maçã é minha favorita. –falo, sem parar para pensar o porquê de estar dizendo isso. Simplesmente achei que ele fosse gostar de saber. Ergo meu olhar e encontro os olhos dele novamente. Seu sorriso parece se alargar com meu comentário. É quase como se ele estivesse esperando que eu dissesse algo assim, como se soubesse que isso iria acontecer.
Robin
O sorriso está de volta aos lábios dela. Como eu senti falta daquele sorriso luminoso e genuíno. Como passei incontáveis noites acordado, apenas com a lembrança dele, e agora, lá está ele novamente, e mal consigo conter minha alegria em vislumbra-lo novamente.
Regina me diz que a torta de maçã é a favorita dela, e minha vontade é dizer que sei disso, que conheço cada gosto e também cada desgosto dela. Tenho vontade de contar que mesmo com as muitas vidas que já compartilhamos, há características dela que nunca mudam. Mas no mesmo instante em que esses pensamentos surgem na minha mente, lembro que não posso dizer nada disso.
Aquela que está a minha frente continua a ser a minha Regina, a mulher por quem eu me apaixonei a tanto tempo atrás, a mulher por quem eu decidira abdicar de tudo, até mesmo de uma existência normal e sem memórias. Mas ao mesmo tempo, não é ela. Sem suas memórias, de certa forma é como se fosse outra pessoa, uma pessoa completamente diferente, e tenho que me lembrar de tomar cuidado com minhas palavras.
— Fico feliz de ter acertado, pelo menos assim...- minha fala é interrompida pelo toque do celular dela, que está em cima da mesa. “CORA” o visor grita, e vejo o dedo de Regina parar em cima do botão vermelho, para ignorar a ligação. Ela está prestes a fazer isso, mas muda de ideia e aperta o verde, enquanto pede educadamente para que eu espere um minuto enquanto ela fala com a mãe.
— Se eu não atender, ela vai ficar me infernizando de cinco em cinco minutos. – explica com uma voz de quem não está nem um pouco a fim de ter aquela conversa. Assinto, mostrando que não há problema, e ela se levanta da mesa, seguindo em direção aos fundos do café, o telefone já na orelha.
Mãe. Então nessa vida ela tinha uma mãe controladora. Isso já acontecera outras vezes, não só com ela, mas comigo também. Desta vez, no entanto, algo parece diferente. Não sei se sinto medo de perdê-la por conta da falta de memórias, mas o fato é que a noticia de uma mãe controladora não me anima.
Enquanto Regina não volta, minha mente vaga sem controle, imaginando como deve ser a vida dela agora. Como será sua família? Será que ela tem irmãos ou é filha única? Ainda mora com os pais? Sozinha? Ou...com um namorado?
Meus devaneios são interrompidos quando a vejo se aproximar novamente de nossa mesa. Estava com uma expressão de cansaço e irritação, e novas lágrimas brilham em seus olhos, por mais que ela lute com todas as forças para conte-las.
— Está tudo bem? – pergunto, levantando-me da cadeira e me aproximando de onde ela está, parada diante de seu acento como se tentasse decidir o que fazer em seguida. Seus olhos encontram os meus, e vejo uma profunda tristeza emergir na tempestade castanha. Meu coração se aperta, e me pergunto o que a mãe teria dito para deixa-la daquela forma, tão transtornada.
Meu primeiro impulso é abraça-la, permitir que ela libere as lágrimas em meu ombro, mas me contenho. Ela mal me conhece, e um gesto inesperado destes pode acabar trazendo mais estragos do que benfeitorias.
Antes que eu consiga me decidir sobre como agir, ela volta a falar, sua voz saindo embargada por conta do choro que ela tenta inutilmente conter. – Desculpe, eu...tenho que ir.
Sem dizer mais nada, ela começa a andar na direção da porta. Escuto a sineta, que me diz que ela está indo embora, que está indo para longe de mim de novo, e simplesmente não posso deixar que isso aconteça.
Deixando para trás pedaços de torta de maçã quase intocados e um café que a muito esfriou, corro na direção da porta, chamando por seu nome e torcendo para que ela possa me ouvir, desejando de todo o coração que consiga alcança-la.
Regina
Estou do lado de fora do café, e finalmente deixo que as lágrimas desçam por meu rosto. As palavras de minha mãe, cruéis como sempre, rodam em minha mente, e eu me irrito comigo mesma, por permitir que elas me afetem daquela maneira.
Minha mente se volta para Robin, e fico ainda mais irritada pela forma como abandonei nossa conversa. Mas não podia deixar que ele me visse daquele jeito, ferida por conta das palavras que ouvira de minha querida mamãe. Se tinha uma coisa que eu aprendera com a dona Cora, era que não devia mostrar fraqueza na frente de ninguém, e fora por isso que eu saíra tão rapidamente do café.
Estou prestes a atravessar a rua e seguir em frente, mas algo me paralisa, me faz ficar exatamente onde estou. Ou melhor, duas coisas fazem isso. A primeira, a voz de Robin chamando meu nome. Ele parece preocupado, e mesmo sem olhar para trás, sei que ele está vindo até mim. A segunda, nem de perto tão agradável quanto à primeira, é um aperto forte no peito. Sinto o ar sumir de meus pulmões, e sei que estou prestes a ter uma crise, o que não é surpresa, já que a asma sempre resolve aparecer nos momentos mais inoportunos.
Minha cabeça doi, e eu sinto tudo girar. Vasculho em minha bolsa, mas não consigo encontrar a bombinha. Sei que entrar em pânico é uma péssima ideia, e que não vai me ajudar em nada, mas simplesmente não consigo evitar.
Robin está do meu lado agora. Me perguntando o que está acontecendo, se eu estou bem, e por mais que eu queira, não consigo me forçar a responder. Minha garganta se fecha e a dor no peito aumenta.
Felizmente, minha falta de palavras parece dizer muito ao homem ao meu lado. Delicadamente, ele pega minha mão, passando o outro braço ao redor de minha cintura, para me dar apoio. Sua mão é quente e calorosa, e seu braço ao redor do meu corpo faz com que eu me sinta segura, mesmo estando no meio de uma crise de asma.
Devagar, ele anda comigo até um banco que há próximo ao café onde estávamos há poucos minutos atrás. Ele me ajuda a sentar ali, e se ajoelha a minha frente, seus dedos ainda entrelaçados aos meus.
— Regina, olha pra mim. – a voz dele chega aos meus ouvidos como se ele estivesse longe, ou como se estivesse falando comigo por detrás de um vidro. Mas faço o que ele pede, e meus olhos encontram os dele, que transbordam preocupação.
— Você tem asma? – perguntou, apenas querendo que eu confirmasse sua suspeita. Assenti, sem saber se teria forças para responder alguma coisa.
— Certo, então preciso que você me escute com atenção, está bem? Sei que é difícil, mas tente se concentrar apenas na minha voz. – eu assenti, para mostrar que estava acompanhando o que ele me dizia, mas a verdade é que estava me sentindo cada vez pior.
Meu peito estava dolorido, como se um grande peso tivesse sido colocado em cima dele, e por mais que e tentasse puxar o ar, a sensação que eu tinha era que estava em um lugar onde todo o ar havia sido sugado, um vácuo, um espaço vazio que me rodeava e me oprimia.
Robin pegou minha outra mão, e começou a falar comigo com uma voz calma e tranquila, o extremo oposto do turbilhão de nervosismo que se apossara de mim. – Respire fundo Regina. Vai doer um pouquinho, as eu prometo a você que vai passar. Respire fundo e tente limpar a sua mente. Esqueça de tudo e se concentre apenas em respirar. Estou bem aqui, prometo que não vou deixar nada de ruim te acontecer. Agora se concentra. Respire devagar e profundamente.
Eu fiz o que ele me pediu, me esforçando para relaxar, para tentar me acalmar. Minhas mãos se fecharam sobre as dele, e intimamente, eu agradeci por tê-lo ali comigo. – Isso, você está indo muito bem. Respire...logo você vai estar bem, prometo. – a voz dele chegou a mim um pouco mais clara desta vez, como se eu estivesse emergindo de águas profundas.
Alguns minutos de silencio se passaram durante os quais eu me concentrei em levar ar até os meus pulmões. Os olhos de Robin ficaram presos em mim durante todo este tempo, e sua preocupação deixou um sentimento desconhecido de alegria e contentamento dentro de mim, algo que eu não conseguia explicar e que não podia dar atenção naquele momento.
Conforme os minutos passavam, eu senti a pressão de meu peito se soltar, como se alguém tivesse desfeito um apertado laço de espartilho. Aos poucos, senti meus pulmões se preencherem de ar, a tonteira foi passando e o mundo parou de girar ao meu redor.
— Obrigada. – disse, quando finalmente senti confiança suficiente para falar.
— Está se sentindo melhor? – Robin perguntou, a preocupação ainda presente em sua voz, enquanto soltava uma de suas mãos e colocava uma mecha de meu cabelo atrás da orelha, um gesto delicado e carinhoso, com o qual, surpreendentemente, não me incomodei.
— Estou sim, graças a sua ajuda. Obrigada, mesmo. – falei, meu olhar se perdendo na imensidão que eram seus olhos. Diante de minha resposta, ele abriu um largo sorriso de contentamento, se levantou e sentou ao meu lado no banco. Uma de minhas mãos permanecia unida a dele, mas não a soltei. Era bom sentir o toque dele, saber que estava realmente ali. Pela primeira vez em muitos anos, senti como se não estivesse mais tão sozinha.
Robin
Asma. Regina sofria de um problema respiratório nessa vida, o que era realmente estranho. Nunca, em nenhuma das outras vidas que tivemos juntos, um de nós apresentou qualquer tipo de problema de saúde desta gravidade, e me pergunto o porque disso vir justamente desta vez, quando tudo está tão diferente.
O que teria causado este problema? Será que tinha alguma coisa a ver com a forma como ela havia morrido da ultima vez? A cena da queda de minha morena naquele penhasco volta a minha mente, e tenho que me esforçar para manda-la embora. Não adianta nada ficar conjeturando sobre a origem do problema, pelo menos não agora. Regina está no meio de uma crise, e tenho que ajuda-la a se sentir melhor.
Com este pensamento em minha mente, forço minha voz a permanecer calma, embora meu coração se contraia dentro do peito, encolhido de tristeza ao vê-la sofrendo daquela forma, e converso com ela, tentando de todas as formas fazer com que ela se acalme para conseguir voltar a respirar normalmente.
Os minutos passaram, tão agonizantes para mim quanto sei que está sendo para ela, e depois de uma pequena eternidade, Regina finalmente volta a falar, aparentando conseguir respirar normalmente.
Agora estou sentado ao lado dela no banco. Minha mão ainda está junto à dela, e decido que se ela não a afastar, eu não irei fazer. Como era bom poder sentir a mão dela sobre a minha novamente. Como sentira falta do toque dela, macio e delicado....
— Não tem nada que agradecer. Que bom que você está melhor. – digo, sabendo perfeitamente bem que aquelas palavras não chegam nem perto de tudo que eu queria que ela soubesse. – O que aconteceu para disparar essa crise? Foi por causa do telefone que você recebeu? – pergunto, incapaz de conter minha preocupação, e também a pontinha de curiosidade sobre o que a teria transtornado daquela forma.
— Eu...é, acho que foi por conta das coisas que minha mãe me disse. Em parte pelo menos. Ela sempre teve esse dom sabe? Consegue me desestabilizar com apenas dois ou três minutos de conversa. – a resposta dela veio acompanhada por um longo suspiro, que mostrava um cansaço que beirava a exaustão.
Senti que haviam muitas coisas que a estavam incomodando, muitos problemas que, conhecendo-a a tanto tempo, sabia que ela não dividia com ninguém. Regina era assim, sempre fora. Guardava tudo que a incomodava para si mesma, até que um dia não conseguia mais guardar, e ai explodia. Mas não comigo. Na maioria das vezes eu conseguia fazer com que ela se abrisse comigo, e estava prestes a tentar de novo, mesmo que essa morena não me conhece muito bem.
— Quer conversar sobre isso? Dá para sentir que tem muita coisa guardada ai dentro, muita coisa que você precisa botar pra fora. – vendo o olhar dela para mim, que misturava descrença e uma possibilidade de algo diferente, emendei minha fala. – Olha, sei que nós mau nos conhecemos, mas acho que isso pode te fazer bem. Talvez conversar com uma pessoa de fora possa fazer com que você enxergue as coisas por outros ângulos...além disso, todos dizem que sou um ótimo ouvinte.
Diante de meu ultimo comentário, um pequeno sorriso surgiu nos lábios dela, e Regina balançou a cabeça de leve, em um sinal de descrença. – De onde foi que você saiu hein? – ela perguntou, em um tom mais leve e brincalhão.
— Acredite milady, estou me fazendo à mesma pergunta sobre você. – respondi, devolvendo a brincadeira, feliz por ter um momento com ela, regado a lágrimas e sorrisos.
Regina
Eu não costumo conversar sobre o que estou sentindo. Não falo sobre meus problemas ou minhas frustrações com as pessoas, pelo menos não com a maioria das pessoas. Tenho uma dificuldade extrema em me abrir com alguém , ou para confiar nas pessoas.
Sei que este é um pensamento irracional, mas a verdade é que sempre acho que, se deixar que alguém se aproxime demais, que me conheça de verdade, vou acabar me decepcionando, então simplesmente me fecho. Tranco tudo dentro de mim, e poucos são aqueles que conseguem se aproximar, ou mesmo que chegam a tentar fazer isso.
Contra todas as probabilidades, no entanto, lá estou eu, sentada em um banco de praça com um homem que só vi duas vezes em toda a minha vida, contando os motivos de minhas lágrimas. Ele me ouve atentamente, como se estivesse havido para saber mais, e surpreendendo até mesmo a mim, estou disposta a contar.
É fácil conversar com ele. Seus olhos azuis de certa forma me tranquilizam, e eu não tenho medo de ser julgada por minhas palavras. Instintivamente, sei que não haverão reprimendas ou acusações da parte dele. Sei que posso confiar, por mais estranho que isso possa parecer.
Começo contando sobre minha mãe. Dona Cora, a origem para o meu rompante emocional de meia hora atrás. Nós nunca tivemos uma relação exatamente fácil, e sinto que tudo que eu faço é motivo de reprovação para ela. É como se ela estivesse apenas esperando para ver qual seria o meu próximo erro, para então poder jogar na minha cara que eu era uma decepção ambulante.
— Isso é realmente cruel. Sua mãe não deveria trata-la assim. Mães deveriam apoiar os filhos, não joga-los ao chão dessa maneira. – foi o comentário de Robin quando contei que minha mãe fazia questão de me lembrar que eu era um decepção, que sempre fazia tudo errado.
— Eu meio que já me acostumei sabe? Foi assim minha vida inteira...mas as vezes ela se supera, como aconteceu hoje de manhã. – respondi, baixando os olhos para o chão quando as palavras de minha mãe voltaram a minha mente. “Você não consegue fazer nada direito mesmo não é? Nem para escolher flores você serviu.”
— Não, não. Você não deve se deixar abalar por isso. Ela deve ter mágoas, decepções na vida, e acaba descontando nas pessoas que estão mais próximas...- ele voltou a falar, tocando meu queixo de leve e erguendo meu rosto para que eu voltasse a olhar em seus olhos. Tudo que encontrei ali foi carinho e compreensão, e isso fez com que meu coração se aquecesse.
Como era possível que um completo estranho, uma pessoa com quem eu nunca trocara meia dúzia de palavras e que eu conhecera por acaso em um bar pudesse me entender tão bem? Como aquele home, de sorriso galante e olhos de oceano podia ser tão compreensivo, quando minha própria família era minha maior fonte de reclamações e acusações?
— Eu...bom, como eu disse, acabei me acostumando. Mas e você, como é a relação com a sua família? – perguntei, desesperada para tirar o foco da conversa de cima de mim. Conversar sobre a minha mãe já era o suficiente de desabafo, ao menos por enquanto.
Um momento de silencio se passou, durante o qual Robin pareceu pensar, escolhendo com cuidado as palavras que iria dizer. – Eu sou sozinho. Meus pais morreram a um tempo, e desde então tenho me virado sem família. É meio solitário, mas como aconteceu com você, eu acabei me acostumando. – respondeu por fim, e eu não pude deixar de notar uma nota de tristeza em sua voz.
— Sinto muito. – murmurei, tentando imaginar como era viver em tamanha solidão. De certa forma, eu entendia o que ela me contava. Embora tivesse uma família, as vezes me sentia tão sozinha quanto se realmente o fosse.
— Não se preocupe. E pare de tentar me distrair, o foco aqui não sou eu, e sim você. – brincou, sua voz soando um pouco mais animada. – O que aconteceu para que a relação com a sua mãe se deteriorasse dessa forma? Você me disse que foi sempre assim, mas a verdade é que alguma coisa deve ter acontecido. Não posso crer que tenha sido sempre assim...- ele continuou a falar, em um tom de voz que me dizia que não havia problema em contar nada a ele, que nada podia ser tão terrível assim.
Estava prestes a me render a suas palavras, a contar tudo, mas mudei de ideia. ele mal me conhecia, mas parecia enxergar tudo que estava escondido dentro de mim. Me tratava com delicadeza e carinho, mas será que continuaria a ser assim, caso ele soubesse de toda a verdade? De todo o meu passado?
Enquanto essas perguntas rodavam em minha mente, descobri que não estava pronta para descobrir. Não estava pronta para ver decepção e estarrecimento nos olhos dele como via nos olhos de todos ao meu redor, por isso tratei logo de mudar de assunto: — Um dia eu te conto, mas acho que já está bom de revelações por hoje. – falei, um mínimo sorriso brincando em meus lábios.
Robin
“Um dia eu te conto.” As palavras de Regina giraram em minha mente, e apesar da conversa reveladora e triste, do desabafo dela, eu não pude deixar de me sentir feliz com isso, porque significava que haveria uma próxima vez para nós.
Ao que parecia, a vida dela não estava fácil desta vez, e me senti mal por isso. Por mais que não fosse minha culpa, me senti mal por não estar com ela nos momentos difíceis. Me culpei por não estar do seu lado, segurando sua mão como estava fazendo agora, enquanto ela tinha tido uma vida tão complicada.
Sim, eu sabia que havia muito mais coisas do que ela havia me contado, mas resolvi deixar que aquele assunto morresse, ao menos por hora. Tudo que eu mais queria era que ela se sentisse melhor, e ficar remoendo suas mágoas não era a melhor solução. Quando ela quisesse, tinha certeza que iria me contar o que mais a angustiava.
— Tudo bem então...vamos mudar de assunto. Você trabalha? – perguntei, curioso para saber mais detalhes da vida dela, detalhes que não envolvessem entraves emocionais.
— Trabalho. Sou vendedora de uma livraria. Estava estudando, mas tive que parar. E você? – a curiosidade ficou evidente na resposta dela, e não pude deixar de me alegrar ao me lembrar de como gostava deste traço na personalidade dela.
— Sou fotógrafo, mas nunca fiz curso. Eu só...gosto de ver coisas bonitas e registra-las. – respondi, me lembrando de como me interessara por fotografia alguns anos atrás em minhas andanças pelo mundo atrás dela. Era um trabalho flexível, onde eu podia ditar minhas próprias regras, e secretamente, sempre me imaginei mostrando minhas fotos a Regina. Costumava fantasiar sobre qual seria a reação dela, se iria gostar...
— Tem que me deixar ver essas fotos! Tenho certeza que são incríveis! – a animação da voz dela e alegrou. Parecia uma criança, encantada com um novo brinquedo.
— Eu não criaria muitas expectativas se fosse você, pode acabar se decepcionando. – brinquei, feliz por conseguir fazer com que ela se distraísse um pouco.
— Eu duvido muito que isso aconteça. – foi à resposta dela, que sorriu pra mim. Um sorriso aberto e caloroso, semelhante aquele com o qual ela havia me presenteado quando me viu no café. Pela segunda vez naquele dia, me peguei pensando como sentira falta daquele sorriso, e em como estava feliz por tê-lo de volta.
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