Amores Perdidos
2 Capitulo I
Notas iniciais
“Você, bela página de um velho livro
Não vou mais te esquecer
Assim morre outra vez meu coração
Nessa estrada onde eu caminho só”.
Perder alguém nunca é fácil. Dizer adeus é mais complicado do que pode parecer. Mas às vezes, perder alguém que sabe que continua por ai, apenas esperando para ser encontrado, é ainda pior.
Imagine que há algo que você ame muito. Algo essencial para você. Você pode vê-lo, ou ao menos sentir sua presença, mas quando tenta se aproximar, a coisa ou a pessoa que almejava alcançar simplesmente desaparece, muda de lugar, se esconde bem diante de seus olhos. Deve ser horrível não é? Estar tão perto, e ao mesmo tempo tão longe de alguém que se ama.
Sentado no balcão daquele bar, apenas mais um entre muitos, era exatamente assim que Robin se sentia. Perdido em seus devaneios, isolado em sua própria saudade. A cada vez que a porta se abria, ele imaginava se era ela, sua morena, quem estava entrando, um sorriso de contentamento brincando em seus lábios.
Quando ele gira a cabeça na direção da porta, no entanto, não são os olhos castanhos que tanto o encantam que ele encontra, mas sim um estranho, uma pessoa qualquer que entrou em um bar qualquer de uma cidade desconhecida, e a decepção não demora a toma-lo novamente.
A falta que sente dela é tamanha que chega a quase uma dor física. Já se passaram tantos anos...bem mais do que haviam se passado em todas as outras vezes, mas ele simplesmente não conseguira encontra-la. Falhara em sua promessa. Falhara com ela e consigo mesmo, e a culpa por isso o consumia.
Sentia-se cansado, sem forças. Quase como se, com a distância dela, ele definhasse aos poucos, tornando-se um espectro do que fora um dia, morrendo por dentro enquanto sua aparência física permanecia a mesma de sempre, sem se alterar em nem mesmo um fio de cabelo.
O que acontecera de diferente daquela vez? Porque não conseguia encontra-la? Teria aquela sido sua última vida? A última chance deles? As perguntas giravam na mente dele tão rápidas e confusas quanto um furacão, mas por mais que quisesse, não encontrava nenhuma resposta.
Recusava-se a acreditar que aquela tivesse sido a última vez. Não podia levar adiante aquele pensamento, porque se fizesse isso, teria que aceitar que a perdera para sempre, e ele simplesmente não consegui lidar com aquela ideia.
Era doloroso demais pensar que ele poderia ter perdido Regina para sempre, então tudo que lhe restava era se agarrar a um fiozinho de esperança, torcer para que ela ainda estivesse por ai, apenas esperando para que ele a encontrasse.
Robin
— Onde você está morena? – ouço minha própria voz, baixa e perdida, enquanto meus olhos giram por todos os cantos daquele bar, como se, com minha simples pergunta, eu pudesse fazê-la surgir ali. Como se, apenas com o mais profundo e ardoroso desejo de meu coração, eu pudesse trazê-la de volta.
Por mais que meu coração grite por ela, sei que meu desejo é impossível. Sei que não é apenas pedindo ou perguntando em voz alta que vou conseguir tê-la de volta na minha vida, mas não é por isso que deixo de tentar. Afinal, o que é uma simples pergunta para quem já rodou o mundo atrás de alguém?
As palavras dela, o som de sua voz, voltam a minha mente, e eu sinto meu coração se apertar de novo. “— Eu sei que você vai me encontrar de novo. Eu amo você.” Eu jurara que iria encontra-la, assim como ela me encontrara da ultima vez, mas eu estava falhando em minha promessa, e saber disso era simplesmente devastador.
Já faziam muitos anos desde que meus olhos haviam encontrado as tempestades castanhas que eram os dela, mas a dor da saudade, e a culpa que eu sentia pelo que havia acontecido, não haviam diminuído nem um milímetro que fosse. Estavam ali, presentes e constantes, como se tudo tivesse acontecido apenas algumas horas antes, e não há décadas atrás.
O copo de bebida, ainda intocado, girava em minha mão, mas eu não estava realmente com sede ou vontade de beber. Perdia-me nas memorias, nas recordações do que havíamos vivido, perdido em recordações. Enquanto tudo ao meu redor se transformava, mudava de acordo com a passagem do tempo, eu permanecia o mesmo, como um viajante perdido em um deserto escaldante, sozinho e sem nenhuma perspectiva que me animasse a continuar a dura caminhada.
Já havíamos passado por isso tantas vezes...já haviam sido tantos “adeus”, tantas despedidas...mas a verdade é que nunca ficava mais fácil. Desde que aquele ciclo começara, parecia que as coisas só ficavam mais complicadas. Para que viver um amor tão forte e intenso como era aquele que me ligava a ela, quando nós dois sabíamos como a história iria terminar? Com lágrimas e dor. Com mais uma despedida.
Essa pergunta já passara por minha mente mais vezes do que eu podia contar, e eu já havia dado a ela muitas respostas diferentes, mas sabia qual delas era a certa. A verdade é que, eu passaria por qualquer dor, aguentaria qualquer tristeza, se você para ter Regina comigo por mais um instante. Egoísta? Talvez. Mas nem por isso menos verdade.
A sineta da porta tocou novamente, anunciando a chegada de um novo cliente. Mais por hábito do que por qualquer outro motivo, virei minha cabeça na direção do som, esperando ver apenas mais um desconhecido que chegava a procura de um pouco de bebida ou esquecimento, mas não foi isso que meus olhos encontraram.
Cabelos curtos, olhos cor de mel. Silhueta perfeita em roupas escuras e botas de salto alto. O sorriso, antes constante, não estava presente, mas nem a falta dele a deixava menos deslumbrante do que sempre fora. Meu coração acelerou de imediato, e eu senti como se todo ar tivesse sido arrancado de meus pulmões. Ela sempre tivera aquele efeito sobre mim. Era como se preenchesse tudo a minha volta, como se tomasse tudo para si, e não importa quanto tempo passe ou quantos reencontros nós tivéssemos, esta será sempre minha reação.
O azul encontrou o castanho, e por uma fração de segundos, a imagem de nosso primeiro reencontro, há muitos séculos atrás, voltou a minha mente, um flashback de um momento que havia se repetido em nossas vidas por todo aquele tempo, mas que no fim das contas, era sempre diferente.
Flashback on
A noite estava estralada, mas nem o brilho de todas as estrelas do planeta eram capazes de melhorar o humor do loiro que estava sentado na campina, às costas encostadas em uma árvore enquanto seus pensamentos voavam para longe, de encontro a uma morena estonteante, que ele se perguntava quando veria de novo.
Aquele dia completavam 25 anos. Vinte e cinco longos e solitários anos desde que ele a vira pela última vez, e não haviam um só dia em que a falta dela não marcasse presença em sua vida.
Conforme as horas passavam e a lua avançava e sua dança pelo céu, o cansaço acabou por vencer a vigília de Robin, e sua cabeça tombou. Ele dormiu um sono intranquilo, apenas mais uma noite mal dormida para a sua coleção. Seu coração estava apertado pela saudade e pelo medo, e a última coisa que ele viu antes de se deixar vencer pelo sono foi o rosto dela. Olhos castanhos e sorriso brilhante.
Os primeiros raios da manhã o despertaram, o corpo reclamando da posição incomoda em que havia dormido. Ele se levantou, tentando clarear a mente e descobrir o que faria, para onde iria seguir. A verdade é que não sabia onde mais podia procura-la, sentia como se já tivesse olhado em todos os cantos do mundo, mas sem conseguir uma única pista.
Desanimado, o loiro seguiu para a aldeia que sabia ficar próxima dali, esperando ao menos conseguir uma refeição decente antes de seguir em sua busca. Andava de cabeça baixa, os olhos voltados para o chão enquanto a mente ainda lutava para vencer os últimos resquícios de sono.
A colisão aconteceu antes que qualquer um deles pudesse se dar conta da presença do outro. Ele estava perdido, sem saber exatamente onde estava indo. Ela estava desesperada para encontrar alguém, andava sem prestar atenção aonde ia, focada apenas em cumprir sua jornada.
Seus corpos colidiram e os dois foram parar no chão, cada um pra um lado. Um momento se passou, durante o qual tanto o loiro quanto a morena tentavam entender o que havia acontecido.
Ela se levantou primeiro, uma de suas mãos massageando a lateral do corpo que ficara dolorida com o impacto. – Me desculpa senhor, eu...- ela começou a se desculpar por ter trombado com ele, mas suas palavras se perderam quando viu quem estava a sua frente.
O castanho de seus olhos se perderam no azul dos olhos dele, e ela sentiu o mundo girar ao seu redor. O ar repentinamente se tornou escasso, e seu coração disparou, martelando tão rápido contra seu peito que parecia que ele queria saltar para fora, correr de encontro aqueles azuis intensos que conhecia tão bem.
— Robin? – ela escutou a própria voz, baixa e temerosa, como se ela tivesse medo até mesmo de perguntar, como se temesse que suas palavras pudessem leva-lo para longe de novo.
Ele se levantou do chão enquanto ouvia a voz com a qual havia sonhado todos os dias daqueles longos anos de solidão. Seus olhos encontraram os castanhos tempestuosos que conhecia tato, e seu próprio coração acelerou, e um sorriso bobo e alegre brotou em seus lábios.
Todo aquele tempo ele estivera procurando por ela. Perguntando-se onde ela estaria, como faria para encontra-la. Sofrera com a falta dela, mas todo aquele sofrimento parecia ter desaparecido no momento em que a vira diante dele novamente.
Sem responder, ele cobriu a distancia que existia entre eles, esticando a mão e tocando o rosto dela com extrema delicadeza. Precisava saber se ela era mesmo real, ou se era apenas fruto de sua mente desesperada. Seus dedos trêmulos tocaram a pele macia dela, e uma imensa alegria o invadiu. Era ela mesmo. Era Regina. Sua amada morena estava de volta.
Ao sentir a mão de Robin em seu rosto, ao senti-lo tão perto, Regina não conseguiu segurar as lágrimas de alivio e felicidade que enchiam seus olhos, e deixou que elas rolassem livremente, aproximando-se ainda mais do loiro e colando seu corpo ao dele. Agora estava tão perto que podia sentir o coração dele, martelando tão forte e tão rápido quanto o seu.
As mãos de Regina foram parar no rosto de Robin, e ela sentiu as lágrimas dele, tão rebeldes e incandescentes quanto às dela. – Eu senti sua falta morena...- as palavras dele saíram desesperadas e baixas, nada mais do que uma confissão sussurrada.
— Eu também meu amor, eu também. – foi à resposta de Regina, que envolveu o pescoço do loiro com os braços e o puxou para ainda mais perto, abraçando-o com força, desejando que aquele abraço pudesse dizer a tudo que ela queria que ele soubesse, mas que naquele momento não conseguia encontrar as palavras certas ou suficientes para dizer.
Por um momento, permaneceram assim, abraçados um ao outro, tentando suprir a falta de tantos anos de ausência. Quando se separaram, as mãos de Robin continuaram na cintura de Regina, e os olhares continuam presos um no outro, irradiando uma felicidade intensa.
— Te amo. – ela sussurrou, repentinamente se dando conta de como queria que ele soubesse que o amor que os unia permanecia o mesmo, tão forte e avassalador quanto antes, não importava e nunca importaria quanto tempo passasse. Aproximou seu rosto do dele, e roçando seu nariz contra a pele dele, ainda úmida por conta das lágrimas. Como ela sentira falta disso. Desse contato, da sensação que tomava seu corpo quando ele estava perto, como se ela fosse se incendiar por completo.
— Eu amo você. Sempre amei, sempre vou amar. – respondeu Robin, bem baixinho, perto do ouvido dela.
As palavras ainda ecoavam nas mentes de ambos os amantes, quando seus lábios encontraram o caminho um para o outro, unindo-se em um beijo que tinha gosto de saudade. Ele se perdeu nela, enquanto ela nem mesmo se lembrava de quem era. Tudo que importava era aquele momento, aquele beijo, que rapidamente ganhava intensidade, à medida que a falta e a necessidade que sentiam um do outro crescia mais e mais.
Flashback off
Sem pensar no que estava fazendo, levantei-me da banqueta onde estivera sentado até aquele momento, e cobri a distância que me separava de Regina, desesperado para estar mais perto dela, para abraça-la, senti-la perto de mim.
Quando cheguei até onde ela estava, não fui capaz de dizer nada. Simplesmente não sabia o que dizer primeiro. Minha mente estava embaralhada, e tudo em que eu conseguia pensar era que precisava abraça-la, saber que ela estava realmente ali, que depois de anos de ausência estávamos realmente juntos novamente.
Como imã, como se não houvesse nada que fosse mais certo no mundo, eu a puxei para mim, abraçando-a com força e carinho, enquanto meus olhos se enchiam de lágrimas, o alivio preenchendo cada célula do meu corpo.
O abraço não deve ter durado mais do que alguns instantes, insuficientes para suprir toda a saudade que eu sentia dela, mas de repente senti que era empurrado para longe, e ouvi as primeiras palavras dela depois de todos aqueles anos. – Mas o que...? O que pensa que está fazendo? Eu nem mesmo te conheço!
Regina
Meu dia estava uma confusão completa. Uma junção de coisas ruins, que pareciam desabar em minha cabeça enquanto eu sentia que nada poderia fazer para concerta-las. A briga com minha mãe, controladora e mandona, a discussão com Daniel, que aos poucos se transformava diante de meus olhos e agora....aquele estranho que me abraçara como se daquele abraço dependesse sua vida, o que era realmente estranho.
Agora, que eu o empurrara para longe, nossos olhos estavam fixos um no outro, e tudo que eu encontrava naqueles olhos azuis era confusão. Ele parecia estar realmente aturdido, como se não entendesse como era possível que eu não o conhecesse.
— Regina eu...- ele tentou falar, mas pareceu perder a coragem diante de minha expressão de indignação. A ultima coisa que eu precisava naquele dia confuso e turbulento era de um abraço de uma pessoa completamente estranha, que eu nunca vira em toda a minha vida.
Como ele sabia meu nome? Por que olhava para mim com aquela expressão de aturdimento e confusão, como se a louca da história fosse eu, por não o reconhecer? Quem era aquele homem afinal de contas, porque sinto como se alguma informação crucial tivesse escapando por entre meus dedos?
— Como sabe meu nome? – pergunto, ríspida, descontando naquele estranho toda a raiva e a infelicidade que havia se acumulado dentro de mim durante todo aquele dia horrível.
— Eu...me desculpe, eu devo ter te confundido com outra pessoa. – ele respondeu, parecendo sofrer com cada palavra dita. Antes que eu pudesse dizer qualquer outra coisa, ele passou por mim, rápido como uma flecha, e saiu pela porta do bar, me deixando ali, com mais perguntas do que respostas.
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