Amora

1 Capítulo 1 - A foto


Notas iniciais
Sim, faz anos que eu não abro um rascunho de história. Cansei de fanfictions, não me contentava com resultado de nada e passei por um grande hiato criativo. A escrita está bem enferrujada, mas é uma ideia reaproveitada de um trabalho meu, espero que gostem.

Passei os dedos trêmulos sobre a foto que encontrara na caixa: a criatura mais bela que já vira. Durante setenta longos anos, eu havia conhecido inúmeras mulheres, admirado a beleza de muitas, tido algumas, mas amado somente àquela. As bordas da fotografia sofreram a crueldade tempo, e algumas manchas a encobriam, contudo eu ainda conseguia ver o delicado rosto retratado no auge dos seus vinte e um anos. A imagem era em preto branco, porém recordava-me nitidamente de cada pequeno detalhe da moça. Pele alva salpicada de pequenas sardas, cachos em um tom ruivo escuro e os olhos mais lindos que já vira, em um tom azul acinzentado tão profundo que eu poderia me afogar neles.

O que mais gostava nela era o olhar, penetrante como se pudesse ver dentro de você. E ela podia. Era uma sensação apavorante e, ao mesmo tempo, estimulante. Conhecia-me como a palma da mão delicada que eu já havia segurado tantas vezes. Ela podia completar minhas frases. Na verdade, já sabia minhas falas antes mesmo de eu pensar em tirá-las dos lábios. Ah, e os lábios dela... Eu poderia passar horas observando-os se mexer enquanto contava sobre seu dia, enquanto falava sobre o mundo, enquanto sonhava em voz alta. Eu esperava de todo coração que ela tivesse realizado todos os seus sonhos, e que o mundo não a tivesse machucado — o coração dela era puro demais pra conhecer a dor. Já o meu...

Enlacei a passagem só de ida rumo à Itália e guardei a foto no bolso da jaqueta. Juntara anos de economia em segredo, guardando moedinhas do troco de pão para aquilo que deveria ter feito desde o momento em que ela se fora. Sem relutância alguma, passei a chave na porta da casa simples onde outrora ela havia estado, mesmo que décadas atrás. Nunca me mudei, nunca me casei, nunca amei novamente.

“Que vida triste o senhor Adolfo tem, nunca encontrou a mulher da vida dele”, diziam.

Pensei no que a vizinhança diria, então, quando e se soubessem que o “pobre senhor Adolfo” havia partido em busca dessa mesma mulher, sem saber como a veria, com quem a veria, onde a veria, se a veria.

Não levava nada comigo, pois nada tinha além da ânsia e da louca esperança de vê-la novamente. Pergunta-me se levava algum tostão no bolso? Não, eu não o possuía. Nada mais importava além dela, a única certeza que tive na vida. A minha existência vazia teve cinquenta anos desperdiçados em ociosidade e tristeza profunda, em amargura eterna de perder a única pessoa que eu já fui capaz de amar. Amora era a razão do meu viver e, se não a encontrasse daquela vez, eu não me importaria de morrer. Eu não havia vivido: apenas sobrevivi durante todo este tempo.

Mas eu havia de encontrá-la. Iria, sim, sentir novamente o perfume tão doce quanto seu nome, e a amaria pelo resto dos meus dias. Eu poderia, enfim, morrer feliz.