Amora

2 Capítulo 2 - O vôo


Eu nunca havia voado antes, mas já não havia espaço para medo dentro de mim, eu sentia apenas uma profunda tranquilidade por estar a cada segundo mais perto dela. O único medo que eu me permitia sentir era o de encontrá-la sofrendo.

Tranquilizei minha mente imaginando-a feliz e cercada dos netinhos que sempre sonhara ter, fazendo sua lasanha — ou "lasagna", como ela diria, com os olhos brilhando sempre que pronunciava alguma palavra de sua língua — para a família e sendo amada como merecia.

Escolhi uma poltrona ao lado da janela para que pudesse aproveitar a vista, e estava tão absorto observando as nuvens que mal reparei em meu vizinho.

— É seu primeiro vôo? — Uma voz gentil arrancou-me de minhas divagações.

— Ah, sim, sim... Primeiro e último.

— Então não conhece Florença. É minha cidade italiana favorita, impossível não se apaixonar por ela. Desculpe a intromissão, mas passo muito tempo viajando e chega certo ponto em que olhar as nuvens de perto já não é mais tão divertido como das primeiras vezes. — O homem tinha os olhos bondosos, portanto não me importei em dividir com ele meus pensamentos.

— Procuro minha noiva lá, e não pretendo voltar até encontrá-la novamente. Florença é realmente um lugar encantador, Amora sempre cultivou uma paixão ferrenha por sua cidade natal.

— É um nome interessante para uma italiana— riu o homem—, mas não deixa de ter seu charme.

Ele não parecia ser italiano — além de ter um português livre de sotaques, tinha fisionomia bem brasileira, pele escura, próxima à cor do café. Seus cabelos bem pretos tinham alguns fios brancos aqui e lá, mas suas rugas aparentavam ser marcas de expressão de tanto sorrir.

— Amora nasceu um pouco antes de sua família viajar para o Brasil. Com viagem marcada, a mãe decidiu nomeá-la com o nome brasileiro de sua fruta favorita. E o nome lhe cai, de fato, muito bem.

A mãe de Amora era uma pessoa muito doce, sempre me recebeu muito bem em sua casa, obviamente quando o marido não se encontrava. Giordana Tomielo desejava muito que sua filha casasse-se com alguém que a amasse intensamente, uma vez que sofria com a solidão de seu casamento arranjado.

— Como vocês se conheceram?— Ele sorriu bondosamente. — Novamente peço perdão pela intromissão, mas meu passatempo favorito é conhecer a história das pessoas. Agradeceria que compartilhasse um pouco da sua com um homem cansado de deixar as próprias para trás.

Foi então que reparei que o homem usava uma camiseta da companhia aérea. Não fazia ideia do que o levara a se sentar ao meu lado, mas agradeci a agradável companhia contando a história da minha triste vida.

— Nos conhecemos com sete anos. Na época, as escolas pública eram as melhores, portanto crianças de famílias endinheiradas frequentavam a mesma sala que eu. Sabe, senhor...? Perdão, como se chama? — Procurei um crachá, sem sucesso.

— Ah, desculpe-me pela falta de educação. Chamo-me Erick, sou co-piloto desta aeronave. — Ele estendeu a mão e me deu um aperto de mão firme.

— Muito prazer, meu nome é Adolfo. Voltemos à história. Amora sentia certa dificuldade em sua alfabetização por seus pais não falarem português. Como eu sou de origem extremamente simples, esforçava-me ao máximo nas aulas. Queria ganhar muito dinheiro e realizar o sonho de minha mãe de comprar uma casinha em algum bairro bem bonito e arborizado.

"A professora reconhecia meu esforço e, portanto, pediu que seu melhor aluno — modéstia à parte — ajudasse a pequena Amora em suas lições. Era um pouco difícil conversar com ela de início, mas a pequena dava o máximo de si. Aos poucos, fui acostumando-me com seu sotaque carregado e ajudando-a a pronunciar melhor as sílabas."

"As notas e a dicção dela iam melhorando cada vez mais. Como Amora não era de falar muito devido à vergonha de seu sotaque, ela só tinha a mim como amigo. Eu era o único que tinha paciência para ouvi-la, decifrá-la."

"Por que um moleque de sete anos deixava de jogar bola com os outros para conversar e brincar de pique-esconde com uma menina italiana extremamente retraída? Não faço ideia, às vezes o amor de criança é isso. Amora me encantou desde a primeira vez que pus meus olhos nela. Era como se sua timidez e força de vontade nos tornassem quase iguais."

"Aos poucos, a escola se tornava insuficiente. Descobri que ela morava a duas quadras de minha humilde casa, então passamos a nos encontrar para brincar na rua. Éramos piratas, éramos polícia e ladrão, éramos atores, éramos personagens de livros. Éramos, juntos, tudo o que nossa imaginação nos permitia."

"Inseparáveis, assim fomos até nossos quinze anos, quando a adolescência mudou nossa amizade perfeita."